20 dezembro 2003

depois da morte, à vida!

não sei porque, hoje acordei feliz. tarde, um solzinho frouxo e aconchegante me acorda depois dos dias de chuva e frio. sinto-me até humano.

tomo quase um litro de café, mas felizmente, a tranqüilidade não me abandona. aparece salsão, bota uns discos na vitrola (que nem temos em casa, mas como eu adoro a palavra!...), lemos jornal, conversamos. gabi está na vera, me conta ele.

tento entrar em contato com os amigos, mas os números estão todos no celulari, esquecido ontem na casa de mamã. fico triste por não poder falar com ninguém, mas feliz porque é menos uma tralha para carregar para a praia.

ainda espero um imeio dela, que nem sei se me escreverá, nem sei se me quer. bom, até espero, mas depois que as roupas saírem da máquina, nada mais me prende em casa. apenas, talvez, uma outra trouxa de roupas - há muito que não lavo nada.

mas não é nada disso que eu queria dizer; e sim que, depois de um ano de muito medo de tudo, o casulo se rompe e volto à vida, ao trabalho, ao samba, ao mestrado e às mulheres (não necessariamente nessa ordem).

2003 já vai tarde.

17 dezembro 2003

more farid (mó farid)

duas pessoas que eu sequer conhecia deixaram seu comentários sobre o nosso bróda farid ( no terceiro bostejo abaixo). e quando eu já achava que o assunto não mexeria mais comigo, os depoimentos trouxeram toda a emoção de volta à tona.
continua parecendo que tudo não passa de uma piada de mau-gosto, e que daqui a pouco, ele vai estar no telefone convidando para mais um show...

quando uns poucos amigos combinamos o encontro em homenagem ao negão, na quinta, a coisa toda talvez tivesse só o gostinho de uma combinação carioca, como os famosos "vou te ligar...", que adoramos pregar uns nos outros, sem, no entanto, a menor intenção de sacanearninguém. (talvez seja um traço cultural, uma herança geográfica, sei lá - mas acreditamos mesmo que vamos ligar depois, só que são tantas coisa a fazer, que ...)

de qualquer forma, amanhã (hoje) estarei pessoalmente empenhado em coordenar a galera toda do gaivotas & cercanias para o encontro.

summer fire (samir faia)

hoje foi um dia radiante para mim - e aqui não faço nenhuma ironia ao calor senegalesco que castigou a cidade, chegando a insuportáveis 41,5º. assim não se pode viver de maneira decente. recomendo à governadorazinha lançar a campanha do ar-condicionado a R$ 1,00.

enfim, radiante porque trabalhei muito bem, e acho que dei o pontapé inicial numa nova perspectiva de vida e de carreira, que promete render frutos a partir do ano que vem. preparem-se, pois ninguém me segura mais.

de noite, eu e tereza fomos comemorar à vera a última noite de trabalho do ano. espírito do chope, cobal do humaitá. lá chegamos de noitinha, vimos a chuva, e só saímos com os garçons já à paisana, loucos para irmos embora. farra como não vivíamos desde os tempos de faculdade.

à certa altura, liguei para a priscilla em busca do telefone da duli. ela não tinha, mas deu as coordenadas para consegui-lo. tenho que ligar para um cara que está na casa do claudio, para que ele encontre numa agenda o telefone da mãe dela, em curitiba. aí, quem sabe, eu consiga jogar uma lábia para conseguir o número de sampaulo. operação de guerra; mas, como disse o poeta, "tudo vale a pena...".

na carona de volta para casa, ouvimos uma velha canção do bob & erasmo de roterdã carlos, "não se esqueça de mim". se tivesse sido encomendada, não teria vindo em tão boa hora:

(algumas canções de amor de bob carlos são tão despudoradamentes emotivas que conseguem me deixar ao mesmo tempo tocado e envergonhado, por serem tão diretas. alguém já sentiu isso, ou só eu mesmo?)


Onde você estiver não se esqueça de mim
Com quem você estiver não se esqueça de mim
Eu quero apenas estar no seu pensamento
Por um momento pensar que você pensa em mim.

Onde você estiver não se esqueça de mim
Mesmo que exista outro amor que te faça feliz
Se resta em sua lembrança
Um pouco do muito que eu te quis
Onde você estiver não se esqueça de mim.

Onde você estiver não se esqueça de mim
Quando você se lembrar não se esqueça que eu
Que eu não consigo apagar
Você da minha minha vida
Onde você estiver não se esqueça de mim.


...

estou definitivamente babão.

16 dezembro 2003

happiness is a warm gun (rapinez esaú amigão)

tenho algumas restrições ao arnaldo jabor, mas não deixo de lê-lo sempre que posso. (assim como o olavo de carvalho, que todo sábado estimula minha produção de bile logo pela manhã, mas isso é outra história.) hoje, no entanto, ele conseguiu expressar um fenômeno que venho reparando muito ultimamente, em pessoas muito próximas a mim, inclusive.

felicidade não é sinônimo de consumo, nem tampouco de alienação. cada vez mais se confirmam minhas suspeitas de que estamos vivendo num tempo muito parecido com o descrito no admirável mundo novo, de huxley (o aldous).

A felicidade é a empada do Bigode

Arnaldo Jabor

No fim de ano todo mundo começa a falar: “Feliz Natal, feliz ano novo!”. Mas, ser feliz, como? O sujeito passou o ano todo quebrando a cara, reclamando da mulher, batendo nos filhos, lutando contra o desemprego, sendo humilhado pelos patrões, e aí chega o fim do ano e todo mundo diz: “Seja feliz!”. E aí o sujeito tem de estampar um sorriso alvar no rosto, uma baba simpática, um olhar vazado de luz bondosa, faz uma arvorezinha de Natal com bolotas coloridas, mata um peru magro e pensa: “Sou feliz! O ano que vem, vai melhorar!”.

Felicidade muda com a época. Antigamente, a felicidade era uma missão, a conquista de algo maior que nos coroasse de louros, a felicidade demandava o “sacrifício”, a luta por cima de obstáculos. Felicidade se construía — por sabedoria ou esforço criávamos condições de paz e alegria em nossas vidas.

Hoje, felicidade é ser desejado. Felicidade é ser consumido, é entrar num circuito comercial de sorrisos e festas e virar um objeto de consumo. Hoje, confundimos nosso destino com o destino das coisas... Uma salsicha é feliz? Os peitos de silicone são felizes?

A felicidade não é mais interna, contemplativa, não é a calma vivência do instante, ou a visão da beleza. A felicidade é ter um “bom funcionamento”. Marshall McLuhan falou que os meios de comunicação são extensões de nossos braços, olhos e ouvidos. Hoje, inverteram-se. Nós é que somos extensões das coisas. Fulano é a extensão de um banco, sicrano comporta-se como um celular, beltrana rebola feito um liquidificador. Assim como a mulher deseja ser um objeto de consumo, como um eletrodoméstico, um “avião”, uma máquina peituda, bunduda. Claro que mulheres lindas nos despertam fantasias sacanas mas, em seguida, pensamos: “E depois? Vou ter de conversar... e aí?”. Como conversar com um “avião” maravilhoso, mas idiota? (Aliás, dizem que uma das vantagens do Viagra é que, esperando o efeito, os homens conversam com as mulheres sobre tudo, até topam “discutir a relação”).

Mas o homem também quer ser “coisa”, só que mais ativa, como uma metralhadora, uma Ferrari, um torpedo inteligente e, mais que tudo, um grande pênis voador, pássaro superpotente, mas irresponsável, frívolo, que pousa e voa de novo, sem flacidez e sem angústias. Seu prazer é cumulativo, feito de apropriações indébitas, dando-lhe o glamour de uma eterna juventude que afasta a idéia de morte ou velhice.

E eu não falo isso como crítica. Não. Eu tenho inveja, a verde, viscosa e sinistra inveja dessa ausência de angústia, dessa ignorância gargalhante que adivinho sob os seios de mulheres gostosérrimas ou nos peitos raspados de garotões lindos. Quero ser feliz, mas carrego comigo lentidões, traumas, conflitos. Sinto-me aquém dos felizes de hoje. Posso ter uma crise de depressão em meio a uma orgia, não tenho o dom da gargalhada frouxa, posso broxar no auge de uma bacanal. Fui educado por jesuítas e pai severo, para quem o riso era quase um pecado. O narcisismo de butique de hoje reprime dúvidas e tristezas óbvias. Eles têm medo do medo e praticam uma espécie de fobia eufórica, uma síndrome de pânico ao avesso: gargalhadas de pavor. E ainda atribuem uma estranha “profundidade” a esta superficialidade, porque, hoje, esse diletantismo tem o charme raso de ser uma sabedoria elegante e “pós-tudo”.

Mas falo, falo e não digo o essencial. Hoje, a felicidade é entrar num pavilhão de privilegiados. Eu queria não pensar, queria ser um imbecil completo sem angústias — meus inimigos dirão: “Você tem tudo pra isso. Sou uma esponja que se deixa tocar por tudo, desde a crise da dívida pública até o muro da Cisjordânia. Lembro a personagem de Eça de Queiroz que dizia: “Como posso ser feliz se a Polônia sofre?”

Hoje, a felicidade está na relação direta com a capacidade de não ver, de negar, de “forcluir”, como dizem os lacanianos. Felicidade é uma lista de negativas. Não ter câncer, não ler jornal, não olhar os meninos miseráveis no sinal, não ver cadáveres na TV, não ter coração. O mundo esta tão sujo e terrível que a felicidade é se transformar num clone de si mesmo, num andróide sem sentimentos, sem esperança, sem futuro, só vivendo um presente longo, como uma rave sem fim. Pedem-me previsões para o ano que vem. Tudo pode acontecer. Quem imaginaria o 11 de Setembro?

Osama nos legou o fatalismo dos árabes. Daqui para frente, teremos de aprender com eles a dizer: “Maktub!” — tudo estava escrito, nada nos surpreenderá mais. Só nos restam a orientalização, a religião evangélica louca ou a “objetificação” do consumo. Ou, então, viver a felicidade das pequenas coisas. Outro dia, eu estava comendo uma empada de palmito na porta da Globo (na Kombi do Bigode, que faz as melhores empadas do mundo) quando, sem quê nem para quê, fui invadido por uma infinita ventura, uma felicidade que nunca tive. Durou uns minutos. Não sei a razão; acho que foi um protesto do corpo, um cansaço da depressão. Mas, logo depois, passou e voltei ao duro show da vida.

Hoje felicidade é o brilho de um solitário que suga o prazer, sem conflitos, sem afetos profundos, mas sempre com um sorriso simpático e congelado, porque é mais “comercial” ser alegre do que o velho herói dos anos 60, que carregava a dor do mundo. O herói feliz acha que não precisa de ninguém, que todos devem se aprisionar em seu charme, mas ele, a ninguém. Para o herói criado pela mídia, o mundo é um grande pudim a ser comido. Feliz Natal e feliz ano novo.

14 dezembro 2003

rest in peace, bro' (resta um piço, broa)

se sábado recebi dois imeios que salpicaram o dia com brilhos dourados, no domingo não tive tanta sorte. estava no parque lage, curtindo um piquenique com marçuda, uns amigos e seus filhotes. mas eis que toca o celulari da minha irmã. ela atende volta e dispara: mar, o farid morreu".

até agora, depois de escrever essa frase, ainda não consigo realizar o fato. um cara muito bom, da minha idade, torcedor do américa, músico de mão cheia, e, sem dúvida, o camarada mais alto-astral que eu já conheci, se foi num acidente de carro besta em cabo-frio.

nem éramos tão próximos, mas tínhamos afinidades musicais muito parecidas, o que redundava num carinho e numa admiração mútua muito grande. sempre fazíamos um carnaval quando nos encontrávamos. de tanto que eu andava ausente, as perguntas que ele fazia à marçuda sobre mim já tinham se tornado uma piada interna.

nos falamos pela última vez na quinta-feira passada, no samba que rola no planetário. conversamos bastante, e ele estava radiante pelos shows em que tinha tocado, e pelos que ainda ia tocar. contou como estava conseguindo encontrar o suíngue que tanto procurara com sua banda anterior, a Garapa, e os caras nem curtiam tanto. eu contei orgulhoso das minhas recentes incursões pelo mundo do samba, e combinamos de ir aos ensaios dos blocos de carnaval. também mexemos com minha prima, uma amiga e outras meninas que vinham conversar conosco.

agora ficamos todos seus órfãos. órfãos da sua simpatia e do seu carinho. alguns amigos mais próximos e que souberam mais cedo, se despencaram para cabo-frio para resolver as questões burocráticas de hospital, reconhecimento...

alguns ficaram dando uma força ao irmão e ao pai, e todos nós pensávamos em como contariam para a mãe dele, que não sabia ainda nem do acidente. ela, que além de tudo que se possa dizer do amor de mãe, ia a todos os seus shows, recebia de braços abertos uma cambada nos fins de semana na casa de saquarema.

...não me venham dizer que existe propósito em tanta dor inútil; não me venham falar de desígnios!

eu e minha irmã fomos encontrar alguns amigos no planetário, onde acabamos formando uma espécie de agência de notícias informal, recebendo e repassando as notícias que chegavam. e bebemos. lembramos histórias dele e com ele, e tentamos rir, pois era assim que o conhecíamos, e assim que ele talvez gostasse de nos ver, reagindo num momento de tristeza.

nesta próxima quinta, estamos pensando em homenageá-lo. um pretende fazer um mural com as fotos que tirou num dos shows do farid, outro levar os cds que ele gravou, e vamos todos beber juntos, à sua memória, mandando boas vibrações para que o nosso negão faça sua passagem numa boa, e que lá em cima ele se enturme logo com a galera pra arrebentar numa jam session divina, cheia de suíngue classe A.

é isso aí, irmão. alexandre, farid, negão, até algum dia...saiba que vais fazer falta...

12 dezembro 2003

i feel sick (a fio seque)

depois de muitas noites em que simplesmente esqueci de dormir, de alimentação irregular, de doses regulares de álcool (em ocasiões não-regulares), essa noite, en la casa de mami, comecei a sentir a garganta fechar, seguida de uma impertinente coriza. os sintomas não poderiam ser mais claros se estampados num autidór: "resfriado a caminho".

merda.

e para não fugir do tema, quando vinha pra casa me acometeu (epa!) uma dor de barriga de dar calafrios. achei que estava com febre, mas o corpo estava gelado. para evitar uma tragédia, inspirava e fazia uns movimentos com o abdômen para tentar inverter o peristaltismo. e ordenava o organismo para segurar por mais alguns minutos/kilômetros. barra pesada, hermanitos!

já na rua, encontro um camarada que conheci ontem no boteco cardosão. falei rapidinho e saí batido. suava. graças ao bom deus, deu tudo certo; mas acho que volto pra mami e fico piano nesse finde. amanhã tinha um showzinho de roquenrrou dos anos 80 na barra, mas diante da atual conjuntura, creio que declinarei. vídeos, cama e vitamina c, aí vou eu!

message in a bottle (massagem abalo)

apenas um náufrago, preso na ilha do meu próprio corpo, cercado de gente por todos os lados. "mais solidão", diz o sting, "que qualquer homem pode agüentar. Resgate-me antes que eu caia em desespero".

no entorno da ilha, graças a são sebá, também há montanhas, umas poucas matas nas encostas ainda não tomadas por favela, e também o samba - ritmo melancólico bom de cantar e de botar para mexer o esqueleto. e as praias, claro, as quais não posso mais ignorar, sob pena de começar a ser chamado para trabalhar como rebatedor de luz.

e à parte o desespero das perguntas aindas sem respostas, e da voz que ecoa no vazio, vivo bem. um resfriado anda brincando comigo, mas já já dou um jeito nele. são os excessos, meu pai, são os excessos, minha mãe...

voltemos à ilha: tento mantê-la da melhor maneira, mas às vezes a solidão me leva a arroubos que não compreendo ou controlo.

a mulher que um dia tomar posse dessa gleba, fértil e rica de novidades, corre o risco de, com jeito, desencavar um tesouro. embora já avise que não é fácil, pois está ele muito bem entocado. outras já tombaram tentando, e as poucas que porventura conseguiram tocá-lo, por algum atrapalhamento, deixaram a terra engoli-lo mais.

até hoje está la. mas o tempo, o inexorável passar das eras - ou quem sabe, os ventos de verão - está afastando a terra, a hera e o limo que o cobrem.

posso acreditar que ele deve estar pronto para ser escavado. e talvez até queira ser encontrado...quem sabe...

11 dezembro 2003

sobre a beleza da noite fatal

gosto muito da idéia da morte. calma, não sou um depressivo mórbido (pelo menos não mais que a maioria), mas me agrada muito a certeza desse evento único, o avesso e, ao mesmo tempo, o irmão gêmeo do nascimento, que nos iguala a todos, está sempre à distância do comprimento do braço esquerdo (não esqueci de ti, castañeda!), e do qual ninguém sabe absolutamente nada.

o caso é que o assunto me fascina, assim como as canções que tratam do tema, inclusas aí as parcerias de nelson cavaquinho e guilherme de brito, entre muitas outras. das quais destaco duas: indigo, do peter gabriel (cuja letra já foi bostejada aqui), e picasso's last words, do álbum band on the run, do bom e velho macca. percebam com que nobreza e elegância o sujeito, mesmo derrotado, prepara-se para o encontro definitivo.

a propósito da música, ouvi outro dia uma história, atribuída ao dustin hoffman, de que ele e um grupo de pessoas estavam passado um fim de semana com o mccartney, e que alguém perguntou ao músico sobre seu processo criativo. ao que ele respondeu que bastava sentar e propor-se a compor, que saía uma música. e pediu um tema qualquer para provar. picasso tinha morrido naquele dia, e alguém apontou-lhe a notícia no jornal. e macca foi, viu e venceu. saiu a canção abaixo.

quem me contou essa história disse que o dustin hoffman jurava que fora a única vez em que testemunhara a gênese de uma obra de arte.

Picasso's last words

The Grand Old Painter Died Last Night
His Paintings On The Wall
Before He Went He Bade Us Well
And Said Goodnight To Us All.
Drink To Me, Drink To My Health
You Know I Can't Drink Any More
Drink To Me, Drink To My Health
You Know I Can't Drink Any More

3 O'clock In The Morning
I'm Getting Ready For Bed
It Came Without A Warning
But I'll Be Waiting For You Baby
I'll Be Waiting For You There

So Drink To Me Drink To My Health
You Know I Can't Drink Any More
Drink To Me Drink To My Health
You Know I Can't Drink Any More...






odores familiares e nostálgicos

da rua, enquanto trabalho, vem um cheiro como o das gavetas de roupa do tempo em que morei no jardim botânico.

um cheiro fresco, quase como o de ozona (O3) ao se desprender do chão quando chove num dia de muito calor; mas ao mesmo tempo, ligeiramente perfumado, como um sabonete muito suave sobre a pele feminina recém saída do banho.

ah, nostalgia desgraçada!
hoje estou quase um casemiro de abreu:

Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!

o último poema de amor

em 11 de janeiro de 1999 (portanto, há um mês de completar cinco anos...cinco anos! meu deus! parece que foi hontem!), ganhei uma antologia de poemas do neruda, que até hoje preservo como lembrança carinhosa de um tempo feliz.

é bem verdade que há muito não abria o livro, mas na madrugada de hoje saquei dele essa pérola, o último dos vinte poemas do volume "veinte poemas y una canción desesperada". segue em espanhol mesmo, tá mole de entender.

Puedo escribir los versos más tristes esta noche.

Escribir, por ejemplo: "La noche está estrellada
y tiritan, azules, los astros, a lo lejos".

El viento de la noche gira en el cielo y canta.

Puedo escribir los versos más tristes esta noche.
Yo la quise, y a veces ella también me quiso.

En las noches como ésta la tuve entre mis brazos.
La besé tantas veces bajo el cielo infinito.

Ella me quiso, a veces yo también la quería.
Cómo no haber amado a sus grandes ojos fijos.

Puedo escribir los versos más tristes esta noche.
Pensar que no la tengo. Sentir que la he perdido.

Oir la noche inmensa, más inmensa sin ella.
Y el verso cae al alma como al pasto el rocío.

Qué importa, que mi amor no pudiera guardarla.
La noche está estrellada y ella no está conmigo.

Eso es todo. A lo lejos alguien canta. A lo lejos.
Mi alma no se contenta con haberla perdido.

Como para acercarla mi mirada la busca.
Mi corazón la busca, y ella no está conmigo.

La misma noche que hace blanquear los mismos árboles.
Nosotros, los de entonces, ya no somos los mismos.

Ya no la quiero, es cierto, pero cuánto la quise.
Mi voz buscaba el viento para tocar su oído.

De otro. Será de otro. Como antes de mis besos.
Su voz, su cuerpo claro. Sus ojos infinitos.

Ya no la quiero, es cierto, pero tal vez la quiero.
Es tan corto el amor, y es tan largo el olvido.

Porque en noches como ésta la tuve entre mis brazos,
mi alma no se contenta con haberla perdido.

Aunque éste sea el último dolor que ella me causa,
y ésos sean los últimos versos que yo le escribo.


...

às musas que já cruzaram meu caminho.

10 dezembro 2003

fome de knut hamsun

semana passada terminei de ler "fome", do autor supracitado. há mais de 20 anos saiu a última edição em português, se não me engano, traduzida pelo drummond de andrade. há tempos percorro em vão os sebos atrás de um exemplar, até que tive que me contentar com uma edição em inglês que, pelo menos, tem uma bela introdução do issac bashevis singer.

bashevis singer explica que hamsun é o pai da narrativa moderna. frases curtas, mecanismos psicológicos do personagem etc. foram recursos - na época revolucionários - de que ele lançou mão. hoje as qualidades inovadoras do livro passam praticamente despercebidas, tanto seu estilo já foi copiado.

singer também desfaz as acusações de que hamsun teria sido partidário do nazismo. ele descreve inclusive uma foto em que o escritor, com então 80 anos, aparece apertando a mão de hilter. enquanto o primeiro apresenta um semblante visivelmente embaraçado, o açogueiro alemão o observa com desprezo, segundo singer. (tentei procurá-la pela internet, mas até agora, nada. se alguém (?) consegui-la, avisem-me.)

mas nada disso importa; e sim que o livro é uma pequena obra-prima. na cidade christiania, noruega, um sujeito de seus vinte anos, agoniza de fome enquanto tenta escrever artigos de jornal que lhe paguem a próxima refeição e o quarto de pensão. seu cérebro delira pela falta de alimento, enquanto os dias vão passando, e sempre que parece que seu destino é definitivo, ele consegue alguma coroas (a moeda local) que garantam seu sustento por mais alguns dias.

fiz uma tradução livre de uma das passagens que julguei mais fortes, quando nosso anti-herói pede um osso num açougue para tentar saciar sua fome. ele mastiga os pequenos pedaços de carne que vêm colados, mas o odor de sangue seco o faz vomitar. ele tenta de novo, mas o estômago é incapaz de reter a carne crua. entre lágrimas e vômitos sucessivos, ele se enfurece com sua sorte, na escuridão da noite:

Silêncio. Nenhuma pessoa à minha volta, nem luzes, nenhum som. Eu estava num estado selvagem, minha respiração pesada e audível, e soluçava, rangendo os dentes, toda vez que tinha que abandonar esses pedaços de carne que teriam satisfeito minha fome. Quando nada mais ajudava, a despeito do quanto eu tentasse, atirei o osso contra o portão, enlouquecido pelo mais impotente ódio. Levado pela ira, gritei e urrei ameaças aos céus, rouco e selvagem vociferei o nome de Deus, e dobrei meus dedos como garras...Eu te digo, seu Baal sagrado no céu, tu não existes, mas se existires, eu te amaldiçôo tanto que teu paraíso vai estremecer com o fogo do inferno! Sabes que me ofereci como teu servo, e me rejeitaste, me afastaste de ti, e agora dou-te as costas por toda a eternidade, porque não soubeste a hora de tua visitação! Eu te digo, sei que vou morrer, e zombo de ti do mesmo jeito, mesmo estando cara a cara com a morte, seu Apis dos céus! Usaste de força contra mim, mas não percebeste que ela não funciona comigo. Será que não viste? Será que estavas a dormir quando fizeste meu coração e minha alma? Eu te digo, toda minha energia e cada gota do meu sangue se regozija para que eu zombe de ti e cuspa nas tuas graças. De agora em diante, eu renuncio todos os teus trabalhos e todas as tuas formas, exilarei meus pensamentos mesmo que eles pensem em ti de novo, e rasgarei meus lábios se eles pronunciarem teu nome uma vez mais. Agora, se tu existes, direi-te minha palavra final na vida ou na morte, eu te digo adeus. E como estou mudo, viro-te as costas, e sigo meu caminho...
Silêncio.

tem alguém mexendo comigo?

foi lançado um livro chamado "Quem mexeu no meu sabonete?". tem também "Quem mexeu no meu queijo?", "Quem mexeu no meu queijo? - para jovens" e "Quem mexeu no meu hambúrguer?".

ou muito me engano, ou um surto de paranóia e mania de perseguição está acometendo os administradores do mundo todo.

as belas da noite

depois de trabalhar, fui com a tereza tomar um chope de fim de ano na cobal. o clima estava agradável e a lua estupidamente cheia desperdiçava beleza para um monte de bêbados incapazes de levantar os narizes acima das tulipas.

o cansaço acumulado das noites passadas estava me deixando muito disperso. mas também colaboravam as meninas, muitas. de todos os formatos, tamanhos e etnias, para todos os gostos. mal conseguia prestar atenção aos planos para o trabalho no ano que vem, às últimas pendências, e às questões filosóficas que nunca saem da nossa pauta.

mais tarde, voltando do banheiro, lembrei de uma frase de uma amiga, queixando-se de estar só no dia dos namorados. "o mundo é feito para casais".
achei-a exagerada na ocasião, mas o tempo e a solidão confirmaram a afirmativa. tudo é feito para dois e a dois. de publicidade às diárias de hotéis.

e ao meu redor, todas aquelas mulheres desfilando desacompanhadas. talvez o ximenes esteja certo com a coisa das homonóicas. o senso comum diz que não dá para viver só, mas ao mesmo tempo, há um esforço, uma propaganda, uma campanha subliminar, sei lá!, para vender homens e mulheres inatingíveis. as mulheres compraram isso, e salvo exceções, se tornam escravas de dietas, academias e cosméticos (a concorrência é grande, qualquer uma pode levar seu homem!), enquanto vivem a insatisfação oscilando entre o brucutu ("não respeita meus sentimentos") e o sensível ("será que é bicha?").

não que eu esteja reclamando, mas graças a esse padrão, caras como eu têm que utilizar de todas as artimanhas para conseguir alguma coisa.

ponto para as que sabem que o tempo urge, e que o importante é saber agarrar as oportunidades.

a bela da tarde

na segunda página do blogger, quando se entra para postar, há no canto direito superior uma lista de blogs recentemente mexidos. quase nunca dou importância a ela. hoje, entretanto, um dos nomes me chamou a atenção: belle de jour. como o filme homônimo do buñuel é conhecido em todo o mundo, o blog poderia ser de qualquer lugar. mas qual não foi a surpresa de descobrir que é um diário de uma suposta puta de londres.

li algumas coisas, e além de interessante é bem escrito.

me fez pensar que as pessoas talvez busquem nos blogs algum tipo de evasão através das experiências alheias. sei lá, divago. mas não acho que tenho feito esse espaço muito atrativo nos últimos tempos. talvez em tempo algum.

parafraseando "o iluminado", do stephen king (de quem eu devorava livros dos quinze aos dezessete):

pouco trabalho e pouca diversão fazem de marcelo um garoto tedioso.

09 dezembro 2003

quase cantei

aliás, no sábado, quase cantei the man in me. a vontade foi forte, mas segurei a onda.

...acho que se cantasse, dançava.

dois casamentos e um churrasco (e um show)

este foi o saldo dos últimos três dias: sábado e segunda-feira fui a dois casamentos de amigos. no domingo, teve um típico e folclórico churrascão de subúrbio e, mais tarde, um puta show cover dos beatles.

os dois casamentos foram vizinhos: o de sábado, no topo do forte do leme, a uns 800 metros de altura, com uma vista acachapante estendendo-se desde a baía até o fim de copacabana. o de segunda, foi morro abaixo, no salão do círculo militar, de frente para a praia vermelha.

(aliás, só entende o nome da praia quem vem do mar. à distância, a areia adquire uma coloração avermelhada. já fiz a experiência uma vez, num veleiro.)

no sábado, valsei com minha irmã, forrozei com uma curitibana espetacular, e bailei esse tal de roquenrrou. tomei "chicote" selo preto, e, pasmem! peguei o buquê da noiva. terminamos, umas treze pessoas, na suíte dos noivos, bebendo prosecco (me segurei para não fazer um trocadilho de baixíssimo calão) no gargalo. resumindo, uma pândega.

depois fui à praia, brinquei muito, suei tudo o que podia e o que não podia, e acabei chegando em casa às sete e tal da matina, nas nuvens, com o espírito leve leve de alegria.

às onze acordei, piano, e fui devidamente rebocado para a casa de uma ex-empregada que foi praticamente criada com a minha mãe. zarpamos para o caju, depois do cemitério e do arsenal de guerra da cidade. ela se emocionou quando nos viu chegar, e nós também. e a parentaia estava toda lá. uma festa como nos tempos da casa da minha vó. e tome cerveja, e tome papo, e tome churrasco (ela cozinha às pampas). nos fez questão de mostrar a casa, apresentar a família etc. digam o que disserem, a velha cortesia e a gentileza sobrevivem no subúrbio. gente de peito aberto, recebendo com carinho e com fartura, sem desconfiança.

o filho dela, meu chapinha de brincadeiras e implicâncias dna infância, é professor de percussão e sax, e toca no centro de artes e cultura banto - ou algo assim, não estou muito certo do nome - lá na lapa. do lado do casarão do grupo de teatro tá na rua. quando falei que tava arranhando uma caixa no Laranjada, me chamou para participar das aulas de bateria do bloco dele. aceitei na hora, e se deus quiser, sexta à noite tô eu lá, mais banto do que nunca. negão de nascença.

cheguei em casa, dei uma dormida, e às nove tava tinindo para assistir a mais um show da pepperband. os caras fazem cover dos beatles, e são tão bons que já ganharam prêmio de melhor banda no concurso promovido pelo cavern club, de liverpool. concorrendo com gente do mundo inteiro. neguinho é foda.

todo o primeiro e terceiro domingos do mês eles tocam no far up, na cobal do humaitá. a sensação é a de estar ouvindo o quarteto ao vivo. de arrepiar. entre outras coisas, tocaram a day in the life, e tive que me segurar para as lágrimas não descerem. essa é, por sinal, a interpretação mais pungente do john lennon, na minha opinião. a única que me faz lembrar "putz! john lennon morreu!..." .

os caras não fazem feio. todos cantam, e os efeitos sonoros de estúdio e orquestrações estão todas lá. um dos integrantes é meu bróder de colégio militar, gustavo camardela, na guitarra solo e nos vocais de deixar o paul mccartney de queixo caído.

o casório de ontem também foi jóia. outra faixa etária, universitários. muita dança, biritinha e bifê de primeira. depois conheci um camarada gente fina, e fomos com um grupo para o espírito do chope. lá encontrei mais alguns amigos, e acabei chegando em casa um pouco mais tarde do que devia.

minha maré está definitivamente mudando para melhor. sinto no ar. basta uma sintonia fina minha com o mundo, e de 2004 em diante, ninguém me segura.

caô cabecile, meu pai Xangô!

06 dezembro 2003

meu mundo é hoje

salsão chegou em casa com o disco do filme sobre o paulinho da viola.

devo confessar que, tempos atrás, não era muito chegado no cara. achava meio choroso, voz pequena etc. ... tava acostumado com monarco, candeia...vozeirão, sacumé? mas, ao contrário do zé keti, mudei de opinião. e a prova do mau julgamento é essa pérola cantada, de autoria de wilson e josé batista (irmãos?):

eu sou assim, quem quiser gostar de mim eu sou assim
meu mundo é hoje não existe amanhã pra mim


e tenho dito.

03 dezembro 2003

suassuna e collor

é quase um pecado conspurcar o nome de mestre Ariano Suassuna situando-o ao lado do (pé-de-pato, mangalô três vezes!) ex-presidente cheirando collor de mello.

é que ontem estava na casa da minha mãe e assisti os dois na tevê (não juntos, claro). primeiro o collor na gimenez, com um orte de cabelo inacreditável de ridículo, tentando passar uma imagem de bom-moço-injustiçado. acredito que ele estava dopado, tamanha sua calma. no auditório, a ex-primeira fuinha rosane collor. magra pacas, era só olhos, gengivas e limpa-trilhos. tão esticada que não deve conseguir mais piscar (os olhos!). deve ser um castigo ser condenado a dar de cara com aquele tribufu toda manhã. mas ele merece muito mais...

depois, a redenção com Ariano Suassuna, na tevê senac. na pauta, o de sempre: o sucesso de sua obra, a origem de seus personagens, o brasil oficial e o brasil real, conceitos apropriados de Machado de Assis, e a globalização. sobre essa última, deu show.

separou globalização desse novo colonialismo cultural que nos tem sido impingido. "por ser internacionalista é que sou contra essa falsa internacionalização", sapecou. e concluiu dizendo que a cultura deve ser sim, mundial, mas que "na vasta sinfonia da cultura universal, cada país deve contribuir, igualmente, com sua nota. e não apenas receber o lixo que vem de fora".

óbvio, mas é o tipo de declaração que nunca é suficientemente repetida.

assino embaixo e dou fé.

02 dezembro 2003

o samba é meu dom

...com uma certa dose de presunção de minha parte, faço minhas as palavras do bamba Wilson das Neves:


O samba é meu dom
Aprendi bater samba
Ao compasso do meu coração
De quadra, de enredo
De roda na palma da mão
De breque, de partido alto
E o samba-canção

O samba é meu dom
Aprendi dançar samba
Vendo o samba de pé no chão
No Império Serrano
A escola da minha paixão
No terreiro, na rua, no bar
Gafieira e salão

O samba é meu dom
Aprendi cantar samba
Com quem dele fez profissão
Mario Reis, Vasourinha,
Ataulfo, Ismael, Jamelão
Com Roberto Silva, Sinhô,
Donga, Cyro e João

O samba é meu dom
Aprendi muito samba
Com quem sempre fez samba bom
Silas, Zinco, Aniceto, Anescar
Cachinê, Jaguarão,
Zé-com-Fome, Herivelto,
Marçal, Mirabeau, Henricão

O samba é meu dom
É no samba que eu vivo
É do samba que eu ganho
O meu pão
E é num samba que eu quero morrer
De baquetas na mão
Pois quem é do samba
Meu nome não esquece mais não.


...

Salve, padrinho!

o samba volta à vida (à minha)

as memórias musicais mais marcantes da minha infância são bete carvalho cantando "coisinha do pai" e maria alcina interpretando "kid cavaquinho", ouvidas na rádio mundial, lá na tijuca, com a minha irmã bete. tinha também o elvis (de quem assisti o último show, transmitido pela tevê), a "melô da asa delta", o peter frampton, a nikka costa (minha primeira paixão infantil, depois da minha prima renata, aos quatro anos), mas o grosso era samba, mesmo.

aí fui morar nos estados zunidos, e como era de se esperar, voltei intoxicado, nem tanto pelo roquenrrou, mas por um popizinho muito do sem vergonha. com o tempo, os representantes da língua inglesa tornaram-se mais encorpados, e vieram beatles, ella, billie holliday, louis armstrong, dave brubeck, e porque não, black sabbath, sex pistols, dead kennedys e outros que tais.

com a adolescência afloraram a revolta, o comunismo, a maconha, o álcool, o sexo e descoberta da psicodelia dos mutantes, mais a poesia de chico, gil & caetano, joba, giba, dorival e nana. até o dia em que esbarrei nos discos do meu primo paulinho, em especial na coleção completa de música brasileira lançada pela editora abril nas bancas, nos anos 70. foi uma epifania embalada por pixinguinha, donga, joão da bahiana, blecaute, mario reis, chico viola, quatro ases e um coringa, aracy de almeida, sinhô, herivelto martins, geraldo pereira, dolores duran, e ela, a maior de todas, a divina elizete cardoso.

eu e meu bróder joão trocávamos figurinhas musicais, ele na viola e eu assassinando os vocais. depois veio o ricardo, nos apresentado pela ana sylvia. daí para a criação do cordão do boitatá foi um pulo, questão de reunir mais uma galera.

mas como diria chico, por conta de umas questões paralelas, me retirei do grupo. logo em seguida, o núcleo passou por uma fissão, e alguns dos treze integrantes partiram para projetos próprios, mais identificados com os gostos individuais. mas o carinho permaneceu.

tô enrolando à vera pra contar que o motivo de tudo foi eu ter ido na sexta passada ao "flor do chorume". pra quem não conhece, é o samba da rua do mercado, onde ficava a bolsa de valres, no centro, já tinha ouvido falar, mas nunca tinha dado às caras lá. e qual não foi minha surpresa ao topar com a gangue toda do boitatá, que além de comandar o espetáculo, comemorava a última promissória paga de um casarão que compraram, lá mesmo, em parceria com o abayomi (das bonequinhas negras) e o teatro do anônimo. a felicidade e o samba me contagiaram. e fiquei feliz quando o ricardo me apresentou numa roda como um dos criadores do boitatá.

no sábado, salsão, gabi e marçuda e eu fomos ao candongueiro, no lançamento da biografia do adoniran pelo andré diniz e patroa, a juliana. putaquiupariu! o lugar é demais, e o melhor é que fica a um espirro da casa do zé luis, namorado de mi mamã. tamos combinandos, mái sister e eu, de voltarmos lá no sábado pra ver a teresa cristina.

e por último, mas não menos importante, está o Laranjada Samba Clube, o bloco aqui da general glicério, do qual farei parte da bateria, se deus quiser. para isso, venho atacando uma caixa toda segunda. já tô conseguindo enganar legal, e no sábado de carná pretendo estar tinindo.

o samba, meus amigos, é a suprema felicidade. é inspirador de uma alegria que eu não sentia desde os tempos do boitatá, e da qual eu andei afastado tanto tempo. a alegria de participar, de misturar-se à massa e ser - cantando, tocando, dançando ou simplesmente curtindo - parte importante de uma totalidade de prazer. o sonho de fusão que os regimes totalitários tentaram através da coerção pela violência e pelo medo, e por isso fracassaram.

o samba é a grande utopia.

27 novembro 2003

sincronicidade é isso aí!

e não é que fui acordado hoje com uma reportagem da cbn sobre planejamento familiar?
a matéria citava duas ongs, a BEMFAM (Sociedade Civil Bem-Estar Familiar no Brasil), que existe desde 1967, e o CEVAM (Centro Vergueiro de Atenção à Mulher).

Louvável, mas as ongs não podem assumir as responsabilidades de uma política de estado. é pouco, ainda.

em todo caso, meu faro para pautas está afiadíssimo.

26 novembro 2003

incêndio na ceasa e o excesso de crianças

antes que a notícia envelheça demais, gostaria de tecer algumas considerações sobre os saques ocorridos depois do incêndio da ceasa. no noticiário de anteontem, apareceu uma senhora favelada reclamando da fome, pois só tinha sal para dar de comer aos seus sete filhos.

aí penso cá com meus botões, o problema não é de fome. é de planejamento familiar. ora bolas, se essa dona tivesse dois - em vez de sete – filhos, ela talvez não estivsse sofrendo tal penúria. esticando um pouco mais o raciocínio, lembrei que há anos não ouço nenhum governante falar no assunto. a última vez, para ser bem preciso, foi em 1996, na feira de ciências do colégio militar (instituição que freqüentei tempo suficiente para aprender a detestar qualquer tipo de organização de massa). antes disso, também, no começo da minha vida escolar, passada nos bancos de diversas escolas públicas, nos estertores da ditadura. depois do governo sarney, nunca mais. é como se o problema não existisse.

aí, apresentada às conseqüências da falta de informação, o que faz a nossa gloriosa classe média, da qual faço parte? oscila entre a vontade nunca confessa de exterminar as hordas de pivetes e mendigos que enfeiam a garcia dávila, ou apela para soluções paliativas de distribuição de sopão na madrugada, à moda zarur (essa é só pra quem tem mais de quarenta). mas sobre planejamento familiar, silêncio fúnebre.

quero deixar claro que não estou falando de esterilização sem consentimento, mas da possibilidade consciente de decisão entre ter ou não (mais) filhos. até porque, sem isso, acontecem coisas como a que eu ouvi de uma amiga, que contou que o porteiro de seu prédio desejava mandar a mulher de volta para o nordeste, “porque aqui ela só sabia era fazer filho”.

19 novembro 2003

neuromancer

comecei a ler a nova edição em portuga de neuromancer, do william gibson. para quem não sabe, o camarada é autor do ciberespaço, conceituando-o como um ambiente virtual de transmissão de dados. o personagem principal, Case, é um caubói do ciberespaço, um hacker viajando pelo ambiente binário da Matrix.

qualquer semelhança com algo que vocês já tenham visto é mera chupação mesmo. os irmãos wachowzchfpsky realmente se inspiraram até o talo no livro. este aliás, mais do que a história, prende pela construção do ambiente, que vêm influenciando a ficção científica desde antes de blade runner, e pela caracterização e situações, um tanto clichês pinot noir, mais ainda assim, deliciosas.

como diz um coleguinha, recomendo com ênfase! a próxma aquisição é the difference engine, do mesmo gibson, e do bruce sterling. mas sobre esse eu falo depois.

flash mob contra o fim das prisões especiais

diante do anúncio do possível fim da prisão especial para nível superior, gabi sugeriu protestarmos com uma flash mob. em conjunto, estabelecemos como palavra de ordem "universitários, unidos, jamais serão prendidos!"

man on the mam, ou a volta do diabo da garrafa

desde domingo, pé de cachimbo, estou para contar sobre como enchi os cornetos no finde. fui ao mam para umas festas de algum evento. eu mais uma amiga mais seu namorado batemos ponto na sexta, e no sábado repetimos a dose, sem o namorado, que estava tocando com sua banda.

bão, na sexta marcamos num japa aqui de laranjeiras, e enquanto eles jantavam, mergulhei no saquê até atingir um estado que, na vertical, poderia se aproximar de um arremedo de consciência zen.

embora a festiva em si estivesse fraca, valeu por ter encontrado alguns amigos que não via há tempos. saímos de lá relativamente cedo e partimos para o recém-reinaugurado jobi, o pai de todos os bebuns no leblon. os garçãos, coitados, envergando coletes xadrez iguais às toalhas das mesas. feio que só.

sábado, pela primeira desde que cheguei no bairro, há dois meses, dei as caras no choro aqui na rua com gabi e salsão. estava, segundo eles, mais cheio que de costume, graças à matéria do caderno de bairros do globo. comi pastel e bebi garapa. de álcool, nem uma gota sequer. encontramos com uns amigos paulistas, fizemos um tour pelas redondezas e paramos no serafim. chopes e doses de magnífica molharam as palavras dos amigos, enquanto eu fiquei no mate (ou coca, não lembro).

depois vieram todos pra cá, mas fui pra cama. de noite, segui para a casa do casal, e de lá rumamos para o mam, diversas doses de uísque com red bull depois.

o show do autoramas foi legal, bacalhau está destroçando na batera, mas a baixista tinha uns trejeitos esquisitos. de vez em quando repetia o mesmo gesto de levantar o baixo na vertical à sua frente, e fazia umas caretas que lembravam o lon chaney interpretando o fantasma da ópera. alguém precisa avisar pra essa menina...

minha partner de noitada saiu cedo pois o namorado veio buscá-la, e fiquei só, zanzando como barata tonta depois de algumas generosas doses de vodca pura com gelo. e a carne começou a esquentar. e o desejo aumentou na mesma medida em que eu me dispersava. o conhecido e temido desfecho caminhava a passos largos para sua realização: sairia dali de manhã - sozinho, obviamente.

mas antes encontrei com uma amiga e ex, que por sua vez estava acompanhada de uma amiga (dela), figura em quem já havia reparado noutra ocasião. mas como àquela altura meu meu filme ficando quieto. mas tarde, entornaria o caldo queimando-o, quem sabe, irremediavelmente.

nas indas e vindas pelos dois salões, mais birita foi absorvida, meu senso decrescdo proporcionalmente. e o velho diabo da garrafa ia tomando conta da personalidade. reencontrei as duas, que há horas conversavam com dois camaradas. o clima era de pegação, mesmo assim puxei minha "amiga ex" e sussurrei (sem muita certeza de não estar sendo ouvido por todos): "pô, esses caras não vão tomar uma atitude? esse papo já tá rolando há um tempão e até agora, nada!"
ela me mandou um "vai tomar banho", enquanto eu me afastava, contente com a molecagem.

amanhecia, a pista esvaziava, e pintou uma cadeira de plástico numa parte afazstada do salão. sentei e me pus a admirar uma menina que, apesar da pouca idade, já tinha passado da validade de ser a avril lavigne que ela gostaria. era bonita, e pela lentes embaçadas, dava a impressão de estar retribuindo os olhares. fui até ela, que estava meio de costas pra mim, conversando com uma gordinha à minha frente. quando me aproximei, a gordinha levantou o olhar, avisando-a. ela se virou, eu disse oi. ao que ela respondeu, com uma agressividade de quem se acha muito esperta:

- algum problema?
- problema nenhum. só gostaria de me apresentar. meu nome é marcelo.
- meu nome é michelle.

na verdade, não lembro se o nome era esse, nem o que exatamente eu disse em seguida, mas acho que pedi o telefone, ou coisa que o valha. talvez tenha dito que gostaria de conhecê-la melhor. a resposta foi um "não" seco. não perdi a pose e disse que que achava que quem devia estar com problemas era ela, com aquele humor péssimo. encerrei a discussão dizendo que ela não sabia o que estava perdendo; virei as costas e voltei para minha cadeira em triunfo, certo de que havia ensinado àquela fedelha uma lição de educação e malandragem. um sorriso estampou-se em meu rosto enquanto eu caminhava despreocupado, as mãos nos bolsos. devo até ter assoviado, mas de qualquer forma ela não ouviria, com todo o volume da música. sentei-me, e fiz uma varredura no entorno, começando em sua direção, mas sem fixar o olhar. sentia-me magnânimo e paternal, como um barão admirando seus escravos trabalhando a terra.

fui embora por volta das sete, sob o sol já então castigando. assisti a uma briga de casal no ponto , num espaço de tempo que me pareceu eterno. tomei o ônibus e saltei na padaria perto de casa. comi um risole que jurou algum dia ter hospedado um camarão. frito em óleo de caminhão. tomei um mate e pedi um queijo minas na chapa.

na saída, liguei para a "amiga ex", para perguntar como tinha sido a noite. estranhei a rapidez com que ela atendeu e a clareza da voz. perguntei onde estava. em copa, foi a resposta, com a amiga e os dois carinhas. não resisti:

- pô! quer dizer que os caras ainda tão aí de papo, sem tomar uma atitude até agora?! ah, não! que é isso, meu deus! e por acaso seu pai sabe que você está na rua até essa hora?

e continuei falando disparates. acho que no começo ela riu, mas depois deve ter ficad brava. tenho esse problema, perco os amigos, mas não posso perder a piada. aliás, acho que liguei duas vezes, pois se não me angano a amiga também atendeu, e até brincou por eu ter confundido as vozes.

enfim, foi isso. não falei com ela até hoje. acho que amanhã eu ligo para saber como foi. e como fui.

dessa história, só sei tirar uma conclusão: não posso facilitar com o diabo da garrafa, pois ele parece ser muito meu chapa, mas sempre acaba me sacaneando. mas o pior é que, olhando em perspectiva, me divirto bastante. afinal, o que é a vida sem essas pequenas incongruências?

de qualquer forma, vou dar um sossego no bicho. acho.

17 novembro 2003

frase da semana

"Um homem que detesta crianças e cachorros não pode ser mau de todo".
- W. C. Fields

qualquer semelhança é...bem, deixa pra lá.

11 novembro 2003

a esperança veio me ver

uma baita esperança entrou no meu quarto, botou uma fileira de ovos atrá do cartaz do festival de cinema de miami de 2001 pregado embaixo da janela, e agora está passeando sobre a minha cortina branca. pensei em enxotá-la do quarto, mas resolvi deixa-lá em paz. afinal, é raro eu ter a esperança por companhia.

as invasões bárbaras dos genes egoístas

ainda estou sob o impacto de as invasões bárbaras. é sem sombra de dúvida um dos melhores filmes que já vi. apaixonante, singelo, politicamente incorreto, sexista...posso gastar teclas e teclas de adjetivos e elogios. roteiro afiado, atores idem (destaque para a junky interpretada pela marie-josée croze, que além de tudo é portadora de uma beleza narcótica).

levante já essa bunda da cadeira e corra até o cinema!

mas não era sobre isso que eu queria falar. o personagem principal está à beira da morte, e desfia uma série de questões sobre o sentido de sua vida, e lamenta-se pelo que poderia ter feito. isso mexeu muito comigo. minha crença em vida após à morte, reencadernação etc. é variável. depende mais do dia e do interlocutor do que de uma certeza interna. se o sujeito é crente na matéria e eu estou num bom dia, sou até capaz de acreditar. mas às vezes sou cético, acho tudo isso besteria; a gente morre, vira comida de verme e pronto. afinal de contas, é muita pretensão querer conservar o ego além da matéria, né? ah, não, faça-me o favor... quando chegar minha vez de tocar harpa na terra do pé junto, quero descansar de ser marcelo. apagar a ficha, zerar a contagem, e que tudo o mais vá pro inferno!

mas também não era exatamente isso. recapitulando: o cara questiona o sentido da vida - e fiquei pensando que talvez não haja nenhum. talvez o importante seja perceber isso e aproveitar tudo até o momento de atar as duas pontas do nada. mas sem egoísmo, pois a fila atrás de você é interminável, e a toda hora chega mais gente. então, o importante é manter a casa arrumada (não apenas para os seus), porque eles têm tanto direito a curtir tanto quanto você.

a receita deve ser mesmo ouvir boas músicas, ler bons livros, cultivar amizades e atrasar contas; porque afinal, já que você vai perder um tempão por aqui, o ideal é que pelo menos você se distraia durante a estada. e o resto que se dane!

certo deve estar o Richard Dawkins, que escreveu que não passamos mesmo de um amontoado de genes egoístas, cuja única função é a auto-reprodução. o gene só quer saber de se perpetuar, e vem daí toda a aventura da vida, seja ela um vírus, um cocker spaniel, o paulo maluf ou a luana piovani (aliás, luana, se o seu gene quiser se reproduzir às minhas custas, é só mandar um imeio que a gente de cá dá um jeito, viu?). veja bem: qual a utilidade de um mosquito ou de uma barata, a não ser se multiplicarem ao ponto de se tornarem uma praga ou uma epidemia? não há qualquer explicação para eles, salvo o egoísmo genético.

como explicar a rãzinha do deserto do arizona, que passa a vida toda enterrada na areia, só saindo durante o período das chuvas, quando têm não mais que uns quinze dias para chegar à superfície, procurar uma fêmea, cruzar, procriar e se enfiar de novo no chão, onde passrá mais um ano sem fazer absolutamente nada, em estado de quase hibernação. que sentido tem essa vida bunda? que sentido tem a nossa? só porque construímos torres e as explodimos, escrevemos livros e os queimamos, criamos deuses e os esquecemos? cantamos, dançamos, andamos de bicicleta, nos equilibramos sobre o meio-fio, caímos, enfiamos moedas no nariz, chupamos gilete, somos explorados no trabalho e corneados, jogamos no bicho, nos apaixonamos, levamos fora, choramos, bebemos guaraná com formicida, rimos, algumas vezes envelhecemos, e sempre haveremos de morrer. e sabe de uma coisa? isso é tudo. kaput. surpresa! esse papo de transcendência é só para confortar as crianças, os angustiados e os que têm medo de se arriscar. "ah, nessa vida fui pio, casto e só rezei, mas quando chegar do outro lado vou botar pra quebrar, vocês me aguardem!" não senhor, querido. o tíquete só dá direito a uma viagem. bobeou, perdeu. depois daqui, babau. já era. se a tua energia se decompõe e se recompõe com outras para formar uma nova pessoa, não sei. nunca ninguém achou o caminho de volta para contar.

acho que o assunto deveu-se também ao impacto de descobrir Lugal e Nin, os imortais do Max Mallman. ou será o próprio Max um deles? respostas (e mais dúvidas) no zigurate.

aliás, Max, parabéns. li o livro de quase um fôlego. agora vou atrás da epopéia de gilgamesh. não consigo mais parar. ah, rapá, você me paga...

04 novembro 2003

enquanto isso, em gotham city...

...os comentários parecem que resistiram às mudanças. bom.

report dead links

flanando, acabei de descobrir que dois links da minha lista morreram: águas claras, do meu bróder dude, e brazileira preta, da clarinhah averbuck. ambos deixaram mensagens de despedida, que reproduzo a seguir. primeiro as damas:

Sexta-feira, Outubro 24, 2003

brazileira!preta - R.I.P.
28.9.01 - 24.10.03

Foi bom, foi lindo, frutífero e inspirado, dois anos de posts ininterruptamente cuspidos e jorrados diretamente do coração desta que vos escreve, dois anos de paixões e amigos e risadas e momentos tristes e uns outros momentos do caralho, dois anos de miséria e euforia.

Mas tudo o que é bom tudo acaba. Senão não tem graça.

Poderia dizer que não tenho mais tempo e que estou afundada entre fraldas e mamadeiras e noites mal dormidas e um frila na mtv - o que é verdade, mas não me impediria de continuar se eu realmente quisesse. Poderia dizer que agora sou uma mulher casada, fiel e apaixonada e que não sofro mais de amor perdido, o que também é verdade - e é que eu procurei a minha vida inteira. Mas isso também não me impediria de escrever no blog. A única coisa que me impede sou eu mesma. Cansei disso tudo, porque um dia cansa.

E eu não vou ficar me forçando a fazer algo que não quero. Sem paixão não rola. Sem paixão não tem condições. Está nos meus Dez Mandamentos: não faço nada que não queira, nada que seja forçado, senão fica sem alma e sem alma não presta pra nada. O brazileira!preta, de um tempo para cá, tornou-se mais uma obrigação do que prazer. Antes eu era obcecada por postar, postar, postar, escrever, escrever, escrever, o tempo todo, o dia inteiro, com chuva, com sol, neve, granizo, coração partido, álcool nas veias, lágrimas nos olhos. Passou. Claro que eu não vou parar de escrever, senão eu morro. These words I write still keep me from total madness, mas elas agora serão escritas de outro jeito, em outros lugares, lidas por outras pessoas, em jornais ou livros ou revistas ou qualquer outro veículo. Mas não mais aqui. Cansei, saturou, não quero mais saber desse negócio de blog. Só essa palavra já me embrulha o estômago, dá ânsia de vômito, "bloooogh". Cansei. Mas não vou parar. Só vou mudar de novo, e de novo, e de novo. Prometo que aviso quando o Vida de Gato sair. Vocês reclamem com o Joca Reiners Terron, que eu já entreguei o livro para ele e agora não é mais comigo. Estou escrevendo outro livro, agora para uma editora grande, bem grande, mas não vou falar sobre essas coisas porque dá azar. Agora eu vou escrever livros. Chega de blog, chega de escrever de graça, chega de gastar as minhas histórias. Queridos leitores, obrigada por tudo, todo o carinho, todos os emails, todos os presentes e tudo que vocês me deram. Eu vou continuar por aí, nas prateleiras, nas revistas, nos arquivos do blog e no coração de vocês.

E agora chega, que eu detesto despedidas.

Com amor,

.: Lady Averbuck :. 1:46 AM


...

já meu amigão foi sucinto. não sei se o que ele mantém com a patroa, o barulinho continua valendo. desconfio que não, mas mantenho o laço que nos une:

Segunda-feira, Novembro 03, 2003

C'est fini. Mas quem quiser usar os links, fique a vontade.

... rascunhado por Dudu mais ou menos às 10:38 AM


...

justificados ou não, ambos cantraram pra subir. com isso, declaro automaticamente extintas duas posições da lista.

bem que minha mãe falou pra eu não acreditar nesse povo de blog!

sem comentários

pô, toda vez que eu mexo no template, essa bagaça apaga o código dos comentários.

ah, minha santa querupita!...mas será impossível?!

comentários

graças à matéria do informática etc., ao blogs.com.br e ao falou e disse, até eu pude instalar um sistema de comentários.

pelo menos agora saberei que não falam comigo pela qualidade dos textos, e não por falta de acesso.

em breve teremos novas e eletrizantes configurações. uau!

01 novembro 2003

a los muertos

amanhã é dia de finados. quão apropriado.

em comemoração à data e ao clima tãããããão acolhedor, siga a bolinha, por peter gabriel:

Indigo

It's too late, this model's out of date.
Got every spare part, but there ain't much heart inside here.
Not like the start, I was good at the art of survival;
I've always tried to keep my feelings deep inside
Where I can hide them, now I'm open wide.

When it ends, again I'll see my friends,
They'll give me a lift, I've been running adrift, so easy...
Shifting the gear, I've got nothing to fear from a showdown,
I'll go down quiet.
And the kids downstairs making a hell of a din,
I'm all alone, getting a quote for the wages of sin.

Beyond the indigo, indigo,
Where the chilly winds, winds will blow,
My time is running low.
Going to cross the dark, dark river,
Going to see my good life-giver,
Better cover my yellow liver.

All right, I'm giving up the fight,
I didn't know when I'd be a stranger again in my own land.
The days are okay, but oh, how I hate these long nights.
You understand?
Darling, please just hold my hand.
You feel so warm, in the eye of the storm,
I'm going away, I'm going away, I'm going away.
See you again someday...
Darling, I'm going away.
Feel like I'm going away, this time I'm going away.

...

taquíuspa!, como eu gostaria de ter escrito isso...

Virgílio já sabia

Forsan et haec olim meminisse iuvabit

ou, em bom portuga "talvez, futuramente, seja prazeroso recordar estes fatos".

sonho frustrado de uma tarde de...verão?

e lá estava eu, debaixo de um calor opressivo dentro das calças jeans e da camiseta escura, pés e meias ensopados de suor, a ressaca atirando dardos no meu cerebelo, a meio caminho de encontrar meu passado. e se não foi bonito, tampouco foi feio. mais parecido com pele morta.

tudo quase como eu havia deixado, com exceção das duas fotos sobre as estantes - estandartes da minha derrota definitiva. eu não conseguia ser engraçado. não conseguia ser nada. o ar faltou, e enquanto falavam ao telefone, busquei a janela da sala. a paisagem resplandecia imóvel, lentamente cozida pelo sol. recuperei-me, e de volta ao quarto, senti-me um pouco mais presente. a ressaca agora atravessava meu crânio com um picador de gelo, e no almoço tomei uns goles de cerveja para rebater. no ônibus, tinha me esforçado para não cair num pranto de auto-piedade pela antecipação do encontro. mas agora, durante o refeição, podia quase reconhecer o velho eu de volta, viçoso, contando histórias e arrancando sorrisos.

quando saímos, entretanto, sabia que o assunto viria à tona. minhas chances eram escassas, e me fechei em copas. mas não fui esperto o suficiente, e uma pergunta me abriu a guarda, expondo meu flanco mais débil. deixei pingarem algumas gotas sobre a situação, mas veio óleo quente sobre as minhas esperanças. respondi com sobras de ironia - quase um dândi - mas meu destino estava consumado. sem perceber, servi meu nervo de bandeja. ela estava certa, eu errado. deixei a emoção tomar conta da situação - embora mais tarde, analisando tudo, no íntimo eu soubesse que ela precisava de uma vitória. sua certeza e paz só seriam completas quando eu me humilhasse. mas no calor do momento, os pensamentos eram amargos: "espero que a proximidade destrua as ilusões", ou "um dia, o amor chegará para mim, esplendoroso, e ao seu lado desfilarei em triunfo".

ao mesmo tempo, pensei quem era eu para querer ainda amor depois de tantas oportunidades atiradas à lama, depois do rastro de corações despedaçados que até hoje marca meu caminho, e às vezes me assombra na escuridão da noite. algum dia terei paz? algum dia serei capaz? algum dia merecedor? alguém?

isso me lembra um poema de Drummond. afinal, mesmo as derrotas precisam de estilo:

Coisa Miserável

Coisa miserável, suspiro de angústia
enchendo o espaço,
vontade de chorar,
coisa miserável,
miserável.

Senhor, piedade de mim,
olhos misericordiosos
pousando nos meus,
braços divinos
cingindo meu peito,
coisa miserável
no pó sem consolo,
consolai-me.

Mas de nada vale
gemer ou chorar,
de nada vale
erguer mãos e olhos
para um céu tão longe,
para um deus tão longe
ou, quem sabe? para um céu vazio.

É melhor sorrir
(sorrir gravemente)
e ficar calado
entre duas paredes,
sem a mais leve cólera
ou humilhação.

30 outubro 2003

sons do bicho

parabéns para você, amiguinho que descobriu que o título é uma brincadeira com o pet sounds, do beach boys. é que ontem, estávamos eu, Salsão e MW aproveitando a viagem de negócios da mulher da casa para falar besteiras, ouvir música alta e consumir substâncias estupefaciantes. e pintou o papo sobre álbuns lapidares do pop internacional.

desde que assisti no cabo o vanilla sky e uns documentários sobre os anos 60, fiquei meio obcecado pelo grupo do brian wilson, citei na lata o pet sounds, entre vários pink floyds, jimis e led zeppelins. depois de alguma discussão e farta distribuição de pescoções, chegamos à conclusão de que, apesar de ser um disco pau-duro (afinal foi uma das ins-pirações para o SGT. Peppers, referência pra lá de respeitável), não é muito lembrado. e sequer rendeu uma onda revival de"beachboysmania". quem sabe, sabe, mas ainda assim,acho um disco injustiçado.

experimente escutar god only knows ou wouldn't it be nice - só pra ficar nas mais óbvias - e diga se não estou certo.

27 outubro 2003

sobre cachorros em apartamentos e seus donos

muita gente vai querer arrancar minha carótida a dentadas, mas, em geral, classifico gente que tem cahorro em apartamento entre os tipos que menos respeito têm pelos seus semelhantes.

como diria jack, o estripador, vamos por partes:

1) cocô. infelizmente, ainda é exceção o sujeito levar um saquinho para catar o cocô do seu estimado totó. das duas uma: 1) ou o cara que faz isso nunca pisou em cocô na rua, ou 2) não se importa de entrar com o sapato cagado em casa. qualquer uma das opções é porcaria. essa é a mentalidade da lei de gérson. levar vantagem em tudo, certo? farinha pouca, meu pirão primeiro. e danem-se os outros.

2) latidos. é a mais pura falta de respeito obrigar os outros a escutar em casa a sinfonia de latidos. quando eu morava na casa da minha vó, tinha um camarada que sempre quando saía ou limpava a casa, deixava o "cóqui ispénel" latindo na varanda. e o bicho se esgoelava a tarde inteira, sem intervalos. até pensar ficava inviável nestas condições. e ninguém fazia nada. e ganha um doce porque as bestas fazem um escândalo toda vez que se toca uma campainha?

3) ruído no assoalho. essa só entende quem já teve vizinho de cima dono de cachorro. é um tique-tique-tique na sua cabeça a qualquer hora do dia ou da noite. pior do que barulho de salto alto. sempre lembrava isso à minha ex quando ela reclamava do vizinho de baixo botava a casa toda pra tremer no último volume do home theatre nos fins de semana.

4) cheiro. dentro de casa ou no elevador. sem mais comentários.

antes de sofrer linchamento, só gostaria de lembrar que não tenho nada contra cachorros. gosto deles e eles, normalmente, de mim. e por respeitá-los é que acho judiação e egoísmo mantê-los em apartamentos. é igual a ter passarinho em gaiola. cachorro precisa de espaço.

sem falar na grana de manutenção, que poderia ser melhor empregada na ajuda dos necessitados da sua própria espécie. até porque são eles os bárbaros que descerão dos morros para ameaçar a tranqüilidade burguesa da classe média criada a toddynho. na qual eu me incluo.

mais dda na sua vida

é, meus velhos, parece que os prognósticos se confirmam. ontem levei um papo rápido com uma amiga psiquiatra, que me conhece há anos (antes mesmo de estudar para encolher cabeças), e assim que levantei a hipótese de dda, ela fuzilou um "também acho" convicto.

pano rápido é o cacete. me encontro com ela essa semana para tirarmos essa história a limpo.

bái de uei, os compromissos ainda andam a passos de cágado. aleijado.

24 outubro 2003

acho que tenho dda

dda é a sigla de "distúrbio de déficit de atenção", mas também pode ser conhecida como tdah, vulgo "transtorno de déficit de atenção e hiperatividade".

pois bem, falando sério como poucas vezes posso ter falado na vida (pelo menos que eu lembre - outro sintoma de dda é o esquecimento), acho que tenho essa porra, cujo processo se traduz num rateamento dos lobos pré-frontais toda vez que eu preciso me concentrar em alguma coisa. ao invés de funcionar, o bicho desliga. ou então liga demais, criando estados de super-concentração.

o papo surgiu hoje na análise, quando eu me queixava do constante adiamento das tarefas mais banais a que era submetido, da dispersão absurda, do medo do enfrentamento, das mentiras constantes e da baixa capacidade da realização dos meus projetos. daí meu analista perguntou se eu havia lido um texto que ele me passara há mais de um mês e que eu obviamente perdera antes de poder lê-lo. era sobre dda, e a cada sintoma descrito na sessão de hoje, meu queixo caía um centrímetro a mais, tamanha a identicação.

cheguei em casa e vim procurar pelo assunto na rede. e cheguei a conclusão que deve ser isso mesmo. uma matéria da Istoé de 6/09/2003 transcrita no blog conviver com dda ou tdah, entre outras coisas diz o seguinte:

"Para saber se o adulto é hiperativo, é necessário que ele tenha sentido na infância pelo menos seis dos sintomas indicados abaixo. E que ainda hoje conviva com alguns destes sinais por no mínimo um semestre:

'Os pacientes distraem-se facilmente e têm dificuldades para se concentrar. Assim, cometem erros no trabalho,
'São desorganizados, esquecidos e impulsivos,
'Agitados e inquietos, não ficam parados por muito tempo,
'Têm mudanças bruscas de humor e entram facilmente em depressão,
'São volúveis nos relacionamentos afetivos,
'Falam excessivamente,
'Não completam as tarefas,
'Perdem com frequência os objetos."

sou eu mesmo. mifudi, né?
na matéria ainda tem um caso de um camarada que voltou a fazer faculdade depois de a ter largado porque "estava achando chato". porra, eu tentei três, e só terminei a última por intervenção direta de uma grande amiga, que literalmente me pegava em casa, do contrário eu não ia. passei três anos e tal admirado por todos os professores como um crânio, e nos dois últimos semestres, quase fui reprovado duas vezes por faltas. o mistério tinha sido desvelado, e lá nada mais me interessava.

e o que dizer da facilidade com que eu conquistei e desperdicei namoradas? no começo me apaixono, me envolvo etc., mas depois de conquistada a presa, entrando na rotina, me desinteresso absurdamente. sou capaz das maiores veleidades, sem querer. é raro - e falo aqui sem a menor dose de presunção - freqüentar festas de determinados grupos de amigos, sem que haja pelo menos uma ex presente. no entanto, meu recorde de permanência com elas é de um ano e meio, com muito custo.

acho que o fato de eu nunca ter passado mais de dois anos no mesmo colégio, devido as constantes mudanças a que meu pai era submetido como militar, pode ter mascarado o problema durante o período escolar - se é que eu o tenho. idependente disso, sempre tive dificuldades de cumprir prazos (um dia, depois de fevereiro, provavelmente, contarei a história do meu ingresso no mestrado). escrever o menor dos textos pode demorar horas, às vezes dias, tantas são as vezes em que interrompo a tarefa. (felizmente hoje devo estar no período de super-concentração)

uma qualidade de que sempre me orgulhei (e que sempre irritou todos ao meu redor) é a capacidade de conversar com uma pessoa e ao mesmo tempo olhar a menina passando na rua e escutar uma música que esteja tocando. pois descobri que isso é típico de ddas.

embora o texto esteja leve e eu esteja muito empolgado escrevendo-o, se for dda o que eu tenho, estarão explicadas muitas tardes de verão em que eu me trancava no quarto com as cortinas fechadas. assim como os constantes conflitos que fui protagonista e que tornaram boa parte da minha adolescência em casa uma chaga aberta. eu vivenciava uma insatisfação incompreensível para meus pais. tinha pavor (e raiva) de acabar como eles, de uma maneira que eu classificava de ignorante e medíocre. queria mais, queria uma plenitude intraduzível. algumas vezes eles até tentavam entender meus motivos, mas o turbilhão de sentimentos e a falta de termos adequados só me deixavam mais irado. e como eu chorava nessa época...

ao mesmo tempo, para consumo externo, eu era dos caras mais populares e um dos amigos mais leais que qualquer um pudesse ter... durante uns seis meses. quantas vezes eu não disse para os outros e para mim mesmo que as pessoas não passavam de sombras na minha vida; elas apareciam e desapareciam sem maiores dramas, normalmente. quantas vezes não fui chamado de egoísta por isso!...

também perdi a conta das vezes em que reencontrava amigos de longa data que me contavam coisas de arrepiar o cabelo que eu supostamente havia dito. e muitas delas eu só acreditava por reconhecer um certo padrão de raciocínio meu - mas lembrar, mesmo, qual o quê!... ultimamente achei até que os lapsos haviam sido superados, mas eis que há pouco tempo, fui protagonista de dois episódios: uma ex que encontrei me disse que, quando namorávamos, eu costumava usar uma frase extremamente desairosa como um comentário corriqueiro; e numa festa, uma amiga de uma amiga (por quem eu até alimento um certo quebranto secreto e inatingível) lembrou de um encontro que tivemos num antigo emprego meu. depois de tanta insistência dela, tive que fingir que lembrava do episódio, que só pode ter sido verdade, tamanhos os detalhes e as circunstâncias. mas não guardo a mínima lembrança de nenhum dos dois casos.

enfim, posso passar muito tempo descrevendo coisas da minha vida associadas ao dda, mas acho que já me estendi bastante. e se pareço um tanto eufórico, é mais por parecer conseguir uma explicação para tantos problemas que venho enfrentando nos últimos anos, e que agora parecem atingir um ponto próximo do insuportável. é um alívio descobrir que o que te impede não é falta de caráter ou de perseverança, e sim um desequilíbrio na produção de dopamina, o que quer que isso signifique. diante disso, basta (basta? como assim?) tentar criar mecanismos de conscientização dos processo e não deixá-los acontecer.

assim parece.

de qualquer forma, encontrei outro site muito bom, o orientações médicas, escrito pela dra. sonia maria coutinho orquiza, que dá uma explicação bem detalhada da parada, com inclusive dicas de estímulo positivo dos lobinhos pré-frontais. o site do napades, da dra. ana beatriz barbosa, que anda muito badalada no assunto, ela mesma uma dda.

23 outubro 2003

mais sobre Ricardo Reis

continuo meu romance com ricardo Reis. calma! antes que algum desavisado saia aos quatro ventos espalhando que virei adepto da inversão, aviso: RR é o heterônimo do Fernando Pessoa que eu não gostava na era da pedra lascada, mas que o redescobri há dias, e de quem ando lendo tudo.

minha humilde impressão é a de que, diante da tomada da consciência da finitude do corpo e da vida, RR empreende uma volta ao classicismo grego como forma de dar sentido à iminência do fim, organizando-a esteticamente.

bão, tudo isso me lembra muito um curso que uma professora de faculdade e amiga contou que ministrou uma vez na PUC: Fernando Pessoa à luz do budismo. (e para ninguém ter cócegas de utilizar a idéia, quebro minha política de privacidade e dou nomes aos...bem...a ela: maria da conceição do couto netto, vulgo "meu anjo".

a teoria dela era a de que se podia organizar os heterônimos, independente de sua cronologia, de forma a desenhar um paralelo com a iluminação budista. começando com a poesia histórica de Fernando Pessoa ele mesmo, e o desejo de retorno à simplicidade da infância. Diante da consciência da morte pinta o RR, com a grande experiência de um passado clássico, grandioso, que pelo menos justifique a miséria do fim. mas o esforço, além de desgastante, mostra inútil. vem daí a revolta e a descrença de Álvaro de Campos. por último, depois de romperem-se as amarras às regras sociais de boa conduta e de civilidade, chega-se à placidez sem de Alberto Caeiro, sensorial, direto, que não se importa com o mistério, e que só pensaria no mundo se estivesse doente. "Por que o ter consciência não me obriga a ter teoria sobre sa cousas:/ Só me obriga a ser consciente".

em linhas gerais é isso. pra terminar, gostaria de sapecar mais um Ricardo Reis. Se eu tivesse um túmulo, gostaria que fosse esta a inscrição:

Coroai-me de rosas,
Coroai-me em verdade
De rosas -
Rosas que se apagam
Em fronte a apagar-se
Tão cedo!
Coroai-me de rosas
E de folhas breves.
E basta.

um leitor! um leitor!

descobri um cara que lê (ou pelo menos leu uma vez) o blog sem a minha expressa recomendação. alguém que realmente encontrou-o pelo google e o leu. e até citou a história do "seu tiguê".

tudo bem, o cara é meu conhecido, mas não importa. ele jamais poderia ter adivinhado que eu perdia meu tempo aqui. aliás, sem medo de parecer baba-ovo, o cara é um dos grandes luminares das letras da nova geração. e embora eu tenha estabelecido como norma pessoal evitar ao máximo citar o nome de pessoas, nesse caso vou abrir uma exceção: é o max mallman.

na minha humilde opinião (que ninguém pediu, é verdade), seu "síndrome de quimera" está entre os livros mais bacanas que já li. tá pra sair outro na segunda que vem, na travecona de ipanema. se não me falha a grafia, o título é "zigurate". não percam!

21 outubro 2003

velhos hábitos não são solúveis em água

há dois dias não consigo sair de casa, não procuro meu orientador, sequer vou atrás do dinheiro que estão me devendo. fico sentado nesse computador maldito, jogando, vendo sacanagens, enquanto o mundo corre, o tempo passa, e os prazos encolhem.

a letargia está tomando conta de mim de novo. e eu que achei que isso estava superado...

SOCORRO!!!

"prazer, mas devagar"

Ricardo Reis é um dos heterônimos de Fernando Pessoa. É o dos versos exaltando o classicismo grego. como bom clássico, RR tem lá a sua musa inspiradora, Lídia.

quando eu cometia versos durante a adolescência, o heterônimo com quem eu menos simpatizava era o próprio, mais interessado estava eu nas experiências transgressoras dos modernistas e dos poetas contemporâneos do que em redondilhas e alexandrinos. coisa de moleque.

semana passada minha irmã atiçou meu interesse, ao me contar como tinha, pela primeira vez, lido o "ficções do interlúdio", anos depois de ter praticamente forçado o ex a dar-lhe o livro de presente. comentávamos sobre as características dos diferentes autores, e hoje, levei-o para ler no - arham - banheiro.

dele (do livro, não do banheiro) tirei duas pérolas do RR. uma delas sobre a discrição dos amantes, e outra sobre mania das mulheres de antecipar tudo, ou de só fazer as coisas pensando no futuro. ei-las:

XVII

Não queiras, Lídia, edificar no spaço
Que figuras futuro, ou prometer-te
Amanhã. Cumpre-te hoje, não sperando.
Tu mesma é tua vida.
Não te destines, que não és futura.
Quem sabe se, entre a taça que esvazias,
E ela de novo enchida, não te a sorte
Interpõe o abismo?

XIX

Prazer, mas devagar
Lídia, que a sorte àqueles não é grata
Que lhe das maõs arrancam.
Furtivos retiremos do horto mundo
Os depredandos pomos.
Não despertemos, onde dorme, a erinis
Que cada gozo trava.
Como um regato, mudos passageiros,
Gozemos escondidos.
A sorte inveja, Lídia. Emudeçamos.

...

a propósito, não achei "erinis" nem no houaiss. no entanto, lá mesmo tem "erínia", cuja etimologia francesa érigne ou érine, remetem ao latim aranea - aranha, teia ou fio. faz sentido. as palavras foram grafadas exatamente como no livro. as letras faltando não são erros de digitação. é métrica, manja?

tão pensando o quê? marcelão também é cultura!

...e a cozinha virou veneza

...mas não só ela: a área, o quartinho de empregada, o hall de entrada e o tapete que o decora, e passando por debaixo da porta, até o corredor do elevador.

tudo porque ontem, quando fui lavar minhas roupas de manhã, não notei que havia uma camisa do Salsão dentro do tanque. botei-as na máquina como de costume e fui cuidar da vida. mas a camisa acabou tapando o ralo, e toda a água expelida nos vários processo de enxágue, torção, centrifugação etc., em vez de seguir seu curso natural pelo encanamento, transbordou alagando metade do apê. depois de uma meia hora, de banho tomado, arrumado e cheiroso, vou pendurar as roupas, mas eis que ouço o chapinhar de poças da d'água. - mas peralá! na minha cozinha?!

corri para a área, achando que a mangueira tinha escapulido do tanque. mas qual!...(a bem da verdade, escapulindo ou não, o estrago teria sido o mesmo.)

resumindo: passei o dia inteiro com o rodo na mão, puxando água até o banheiro de empregada, onde fica o único ralo disponível por aquelas plagas, e trocando de tempos em tempos os jornais que eu usava para chupar á água. esse processo, como já disse, me consumiu o dia inteiro, e todos os planos que eu havia estabelecido para ontem se esboroaram.

em compensação, a cozinha ficou limpa e cheirosa.

os grafites de banksy

li na trip de outubro: na inglaterra, um grafiteiro que atende pela alcunha de banksy cria intervenções nas ruas com temática esculhambatória ao status quo, além de levantar questões para as pessoas pensarem. mas como o grafite é proibido na bretanha, ninguém sabe ao certo se o cara é homem ou mulher, preto ou branca. e como é considerado criminoso, banksy não pode dar mole de aparecer. mesmo quando uma galeria londrina organizou uma exposição com seus trabalhos, não se sabe se ele compareceu.

um exemplo das traquinagens do sujeito são os monumentos grafitados com os dizeres "área permitida para grafite", como se fosse um aviso oficial. no dia seguinte, os ditos já ostentam milhões de garatujas de várias procedências. e pra provar que é um cabra arretado mesmo, ele fez isso numa viatura policial. está registrado no sítio dele, onde também se pode encontrar outras obras cometidas no mobiliário e no cenário urbanos. também está na lista dos favoritos, no canto direito da página. divirtam-se!

coca-cola é isso aí!

não tenho nada contra a coca-cola. ou melhor, nada além da antipatia de praxe para com grande parte das major companies, porque se elas conseguiram galgar esse status, não foi pelas boas maneiras com a concorrência ou a cordialidade com funcionários (basta dar uma olhadina no ADBUSTERS, no link dos favoritos aí do lado). only the strong survive!, vociferam os neoliberais, reiventando a teoria darwinista.

enfim, voltando à coca (cola!), apesar do meu paladar não se animar muito com o gasoso (salvo em ressacas), não deixei de bebê-lo quando os states resolveram fincar pé no iraque. entretanto, a notícia que li hoje na internet me surpreendeu. não pelo fato em si, afinal, a estratégia de estrangular e encampar companhias menores não é nova, vide o que foi feito com os"guaranás paquera", só para citar um exemplo mais fresco na memória. o inusitado é alguém ter posto a boca no mundo:

Dono de refrigerante Dolly disse que se acontecer algo a ele ou à família será obra da Coca-Cola

19:06 20/10
Agencia Brasil

Desde junho deste ano, Laerte Codonho, dono da marca de refrigerantes Dolly - com sede em São Paulo -, vem realizando uma cruzada para reunir provas de que a Coca-Cola teria agido deliberadamente para tirar a empresa brasileira dele do mercado. "Vindo à tona tudo isso, só nos ajuda, me tranqüiliza porque se alguma coisa acontecer comigo ou com alguém da minha família, está claro que isso é obra da Coca-Cola", afirmou Codonho.

Ele esteve reunido hoje com o secretário de Direito Econômico, Daniel Goldberg. Depois do encontro, o empresário contou que, em 15 dias, vai apresentar todas as provas à secretaria que confirmam a sua denúncia para que seja possível abrir um processo administrativo. "Vamos entregar provas que apontam que a Coca-Cola tentou tirar as empresas menores do mercado e a Dolly é a principal. E que eles realmente não pouparam nenhum tipo de intriga, de pressão em cima de clientes e fornecedores para que a Dolly saísse do mercado", disse.

Durante reunião realizada hoje, o dono da marca Dolly apresentou ao secretário uma lista de fornecedores dispostos a testemunhar contra a Coca-Cola. Segundo Codonho, os fornecedores foram obrigados, pela Coca-Cola, a paralisar fornecimento para Dolly para que ela não pudesse atender seus clientes e que as empresas que não fornecessem para Dolly seriam recompensadas pela Coca-Cola com paralisia de pressão. "Pressão por órgãos governamentais e também a compra de insumo que era vendido por esta empresa para Dolly por um preço maior para Coca-Cola. Ou seja, a Coca-Cola pagaria a mais pelo insumo que a Dolly estava comprando, mas desde que a empresa não fornecesse nada para Dolly", explicou.

Codonho promete entregar ainda fitas de vídeo que comprovam as denúncias. Uma delas contém a gravação de conversas entre Codonho e Luís Eduardo Capistrano do Amaral, ex-diretor de compras e estratégia da Spal-Panamco (maior engarrafadora da Coca no Brasil, recém-adquirida pela mexicana Femsa). Na gravação, Capistrano disse que tinha a missão de tirar a Dolly do mercado. Um dos primeiros artifícios para isso, segundo Codonha, foi o envio de um e-mail fraudulento afirmando que a Dolly fazia mal à saúde e que esta mensagem foi colocada ainda em hospitais, pontos de venda, postos de saúde e academias de ginástica.

Nenhum representante da Coca-Cola quis se pronunciar sobre o tema. No entretanto, a empresa divulgou nota oficial em que trata do caso. "O Sr. Luiz Eduardo Capistrano do Amaral, que figura como fonte de informações e que trabalhou na Spal/Panamco até Dezembro de 2000, prestou depoimento no Terceiro Distrito Policial de Diadema/SP e não confirmou as acusações". Em outro trecho da nota nega ter disseminado informações contra o refrigerante brasileiro. "A acusação do presidente da Dolly, de que a Panamco teria propalado um e-mail na internet contra seu produto, é falsa e não faz sentido. Este e-mail, na verdade, atingiu o Guaraná Kuat, numa versão criminosa de grande repercussão na internet". A nota coloca ainda que a Femsa ainda não tem nenhuma informação ou evidência que comprovem as referidas acusações.

A nota termina com a seguinte afirmação: "Com 60 anos de presença no Brasil, a Coca-Cola e seus fabricantes adotam uma conduta comercial fundamentada em princípios éticos, que respeitam as normas legais e a concorrência leal em todos os segmentos que atua. Como resultado, ao longo destes anos, vêm conquistando a preferência de clientes e consumidores com produtos da mais elevada qualidade", finaliza.

19 outubro 2003

outras coisas que tenho ouvido

além das já citadas versões de "on the sunny side of the street", baixei "my favorite things" com o John Coltrane. aliás, sobre essa música, tem uma história curiosa. a ouvi pela primeira vez na trilha do American Splendor, pelo menos assim eu pensava, embora tenha achado familiar a melodia e a assinatura do sax óbvia desde as primeiras notas.

Pois bem, a trilha toda era magnífica, e fiquei doido para procurá-la e baixar tudo pela rede. dito e feito. embora algumas das músicas sejam cascudas de encontrar, apostei de cara no Coltrane. consegui e gostei muito. daí que, uns dois dias depois, estava eu com a gabriela num birô de xerox quando começo a murmurar a melodia. e ela completa as partes que não me lembrava. espantado, perguntei se conhecia. aí vei a minha surpresa:
- claro, essa música é da noviça rebelde.

- UQUÊ????!!!!! - respondi, incrédulo. o queixo encostava na ponta dos sapatos. - da noviça rebelde???? porra, esse é o filme que eu mais odeio na vida!...

e não é que era mesmo. ela até contou quando entrava, e tive que concordar, apesar da pouca lembrança. e para completar, ela sapecou que têm umas três músicas que foram regravadas por jazzmen. por essa realmente eu não esperava. uma das músicas mais lindas do universo saída justamente do pior filme.

bom, só tenho uma coisa a mais para dizer: goste ou não você de jazz, procure escutar "my favorite things". sua vida pode transformar-se para sempre.

no lado ensolarado da rua

é, amiguinnhos, depois de semanas de trabalho duro e exposição da própria figura - mesmo quando negativa, que bom o sentimento de estar vivo! -, as coisas continuam estéreis, o dinheiro curto, e a justiça - alas! - sendo feita com as próprias mãos.

mas quem se importa se a colheita da noite anterior foi inútil, se a língua travou e o ritmo perdeu o tempo, se no dia seguinte, camarada, você abre as ventanas, e vê um puta sol e a brisa da primavera beijando seu corpo cheio de cerveja?

e pra completar a felicidade, ouço sem parar as "versão" recém-baixadas de "on the sunny side of the street", por BILLIE HOLIDAY e DIZZIE GILLESPIE, esta cantada por SONNY ROLLINS, (nem maiúsculas para esses, é caixa alta mesmo).

dá até pra acreditar que deus existe...e que tá tentando se comunicar comigo.

se o diabo é o pai do rock, deus definitivamente deve ser o do jazz.

mas vamos às letras:

on the sunny side of the street

Grab your coat and get your hat
Leave your worries on the doorstep
Just direct your feet
To the sunny side of the street

Can't you hear the pitter-pat
And that happy tune is your step
Life can be so sweet
On the sunny side of the street

I used to walk in the shade with my blues on parade
But I'm not afraid...this rover's crossed over

If I never had a cent
I'd be rich as Rockefeller
Gold dust at my feet
On the sunny side of the street


...é de encher um sujeito de esperanças na vida, na humanidade, em si mesmo, no cacete a quatro...

acho que estou vivendo uma maré muito boa. embora as coisas não estejam nem um pouco cor-de-rosa, minha atitude perante a vida e o olhar sobre os fatos estão bem mais positivos.

e assim pretendo seguir, sem medo de trupicar, negão.
você está com um mundo em suas mãos. levante e corte.

09 outubro 2003

chlöe sevigny

fiquei com a pulga atrás da orelha em relação à ela. tinha certeza de que já a havia visto em algum filme, mas não lembrava qual.

aí, depois de um café, fui vasculhar a rede e descobri que só deu chlöe sevigny nesse festival. além dos dois filmes mencionados no post anterior, ela está também em dogville (esse não vi, apesar de estrelado pela mulher mais linda do mundo - Nicole Kidman).

e de quebra, chlöe fez dois dos piores filmes que já vi - american psycho e kids. sabia que já a conhecia de algum lugar...

"only the strong survive" y otras cositas más

hoje à meia-noite vai passar o filme pelo qual eu venho esperando desde o começo do festival: "only the strong survive", sobre os músicos que fizeram o nome da Stax (maiúscula!), a correspondente da Motown em memphis.

vai entrar em cartaz amanhã. mas podendo ver de graça...

outro filme que eu "se amarrei" foi o american splendor. mas vi muita coisa ruim.

o tal do brown bunny é um cu (com todo respeito aos cus). a única ação do filme que tem sentido é realmente o boquete, que aliás a chlöe sevigny executa com maestria. fico imaginando o papo brabo de "entrega do ator ao papel" que o vincent gallo deve ter jogado para convencê-la a realizar a cena. mas inegavelmente, é muita coragem. (um parêntese: engraçado que NINGUÉM na sala de cinema esboçou a menor reação diante da cena. todos estavam grudados nas poltronas, e não se ouvia sequer o som das respirações. todos os fôlegos estavam suspensos.)

mas voltando ao roteiro (roteiro?), tudo bem que o cara está atormentado com a perda da mulher etc. mas há outras maneiras de se mostrar sofrimento, menos internalizadas. é que o gallinho de quintino não comunica para a platéia o sofrimento. o cara é oco a maior parte do tempo. quem expressa o que está rolando são as músicas, que aparecem nos momentos-videoclipe, quando a câmera dentro do carro vai filmando a estrada à medida que ele viaja. aliás, tô pra ver artifício mais óbvio.

numa boa, os críticos que me perdoem, mas eu prefiro um feijão com arroz bem feito do que um experimentalismo só para chocar.

aliás, vi um outro filme com a chloe sevigny, "demonlover". esse sim, um filme estranho, mas na melhor acepção da palavra. estranho bacana, respeitando a carpintaria do cinema. lembra um pouco "videodrome", do david cronemberg.

mas até agora não cheguei à conclusão se mme. sevigny é feia ou bonita. quero dizer, no brown bunny ela está bem bonita, mas no demonlover ela tá com cara de adolescente abestada. não sei...

já o elefante tem umas coisas interessantes, mas acho que também cai na esparrela de experimentalizar. o bom é que o gus van sant não vai pelo caminho fácil de explicar o porquê dos meninos terem resolvido encher os coleguinhas de azeitona. ele não explica nada, e aliás, até quase a metade do filme, não se tem a menor idéia de quem serão os assassinos.

mas a revelação foi mesmo "chouchou em apuros". filme gay francês para a família. o chouchou é um camarada que se finge de refugiado chileno pra conseguir viver numa igreja, e vai vivendo sua vida numa boa, até descobrir o amor. engraçado, mesmo.

perdi o saco de escrever. depois continuo. ou não.

o tal texto...

salve, povo!
com o festival acabando, a sala ficou vazia e deu para dar uma olhadinha um pouco mais detalhada no blog. o tal texto que eu achava que tinha perdido, voltou. ou melhor, nunca havia ido, foi publicado direto.
on the other hand, o espaço para comentários desapareceu de novo, o danado.

acho que isso é um trabalho para o super-dude!

não gosto muito de importuná-lo com essas coisa, mas vou ver qual é.

08 outubro 2003

otras cositas más, perdidas

depois que, por algum estranho desígnio, meu template ficou apagado durante uns quatro dias, e conseqüentemente, a página, vazia, descobri que a minha lista de links foi apagada. vou ver se em algum lugar dessa parte administrativa os links estão armazenados, em vez de perdidos.
dude, my main man, where are you, bro?!

04 outubro 2003

"não consigo ler nada..."

alguém lembra dessa frase de um desenho do pica-pau? ele vai fazer um exame de vista para renovar a carteira de motorista, e o examinador dá a ele uma sopa de letrinhas que formam a frase do meu título. o cara vai approximando a cabeça do picapau da tigela, até enfiá-la lá perguntando "e agora? já consegue ler?"

pano rápido.

tudo isso para dizer que há algo errado com o blog hoje. tá tudo apagado. quem entra na página não consegue etc.

mistério...

american splendor

algumas informações relevantes sobre o filme, coletadas do site do festival do rio 2003: "Grande Prêmio da Crítica Internacional da mostra Um Certo Olhar no Festival de Cannes de 2003 e o Grande Prêmio do Júri no Sundance Film Festival deste ano".

bem que o john cooper, diretor do sundance, que conheci ao servir de intérprete numa entrevista, me deu o toque: "esse american splendor é muito bom".

harvey pekar de ouro

pare tudo o que estiver fazendo e vá assistir "American Splendor" (maiúsculas! maiúsculas!). vi ontem e fiquei chapado! o diretor (nem sei quem é) fez um caldo maneiro, com toques de documentário entrando pela ficção, com animações etc.

o filme é sobre um camarada chamado harvey pekar (nome que dá piada tanto em português como em inglês), amigaço do Crumb, Robert Crumb (esse também merece maiúsculas!). bom, quando este começou a fazer sucesso com quadrinhos, o pekar ficou tentado a engrossar seu raquítico orçamento da mesma forma. mas o cara era incapaz de traçar uma linha reta no papel. na base dos bonequinho de palito, ele apresenta umas histórias pro Crumb, que imediatamente topa desenhá-las. aí nasceu o gibi que dá nome ao filme. hoje ele tem programa de rádio, blog, vende livros, camisas, bonequinhos com sua estampa etc.

os idiotas da objetividade podem alegar que o sujeito "se vendeu ao sistema", ou qualquer outra baboseira do gênero. ora, direi aos sacripantas, o que há de mal em faturar uns cobres de forma decente, utilizando como matéria-prima apenas a própria vida, e ainda por cima, sem passar absolutamente por cima de ninguém?

enfim, como diria o tim (maia, não lopes), "não perca tempo!" vá no google, digite o nome do gibi e do seu autor e veja o que há. e levante essa bunda gorda da cadeira e vá assistir ao filme qundo entrar em cartaz. no festival ele já tava até legendado.

03 outubro 2003

de volta (e sem maiúsculas!...)

hola, considerados

estou voltando depois de um longo inverno de acesso precário ou nenhum. me mudei (mas ainda não perdi a mania de iniciar as frases com pronomes oblíqüos), tentei instalar o Velox, perderam meu pedido e depois (para minha sorte) consegui um frila no festival do rio. resumindo o entrevero, só vão poder instalar a banda larga (ô nome feio!...) no dia 10.

acho que tenho passado por algumas mudanças, não tão visíveis pela perspectiva externa, mas internamente. sendo que a mais visível foi uma sensível perda de peso (no que o festival tem contribuído bastante com o ritmo puxado) e o abandono das maiúsculas. sei lá, estou querendo descomplicar as coisas,e as maiúsculas me parecem um bom começo.

ah, ontem eu escrevi um textão falando disso tudo, de transformações etc., bem escrito até, meio profundão, mas acabei apagando-o sem querer.

vou pegar uma carona para assistir um filme, e depois escrevo mais.

jundas!

é bom estar de volta...

02 outubro 2003

Depois de um longo inverno...

Hola, rapaziada!

Depois de muito tempo, estou quase retomando essa joça. É que muitas coisas aconteceram: me mudei, fiquei - e ainda estou - sem internet, peguei uns frila por aí (que, se Deus quiser vão se multiplicar e encorpar até formar um emprego fixo, com um salário decente. Ou então, vou encarar de vez as atres plásticas/ilustrações como meio de vida. Já acho agora que as coisas não se excluem, mas isso é outra história...).

Resumindo, ressucitei. Estava morto, ou morrendo, intoxicado pelo miasma putrefacto de meu próprio corpo inerte, mas agora as coisas estão mudando. O sangue pulsa novamente em minhas veias, estou mais forte, sentindo o vigor voltar aos músculos, a cor às faces. Ainda não sei bem o que quero, mas (oh! clichê...) sei muito bem o que não quero mais.

Em pouco tempo, muito mudou, mas não na medida externa dos homens; as transformações foram internas. Mais coragem e menos punheta filosófica.

Uma das paredes do meu querto é recoberta com tinta misturada com limalha de ferro, o que a torna aderente a magnetos. Celso e Gabi deixaram lá um monte daqueles imãzinhos com palavras. Um dia, meio inconsciente do que fazia, escrevi "alegria no lugar de idéia". Até hoje estou meio intrigado com o significado. Não entendi muito bem a frase e fiquei com medo dela. Para mim, abdicar da racionalidade é um passo grande demais. Embora já sejam reflexos das transformações previstas no meu mapa astral. Ascendente em peixes - migração de razão para sentimento.

Barra pesada, irmãos...

Mas a verdade é que ando meio cabreiro com sentimentos. Melhor, acho que perdi tempo demais tentando me completar através de relacionamentos, quando na verdade o que precisava era procurar maneiras de me fortalecer e seguir adiante. Sei lá, isso parece aquele papo do Delfim Netto de "primeiro fazer o bolo crescer, para depois dividi-lo". Pode ser, não sei. Lo que pasa es que tô feliz em estar tocando a vida assim, aprendendo a ser só. Dá um aperto às vezes, tem noites em que sou assombrado por fantasmas, pinta uma certa melancolia no luco-fusco, mas tudo certo. As coisas estão redondinhas.

Tô no Festival do Rio (aliás, tô escrevendo depois da hora, desde o escritório), aprendendo meus limites, varrendo o quarto, fazendo compras, lavando e, pasmem!, passando roupas!

(acabei de reler o texto e parece que estou fazendo tudo isso no festival. hahaha! não confundam! lá estou na assessoria, o resto das atividades eu faço em casa!)

Bom, é isso. Acho que só vou poder voltar a escrever oficialmente depois do dia 10 de outubro, quando reinstalarei o Velox. Até lá, só se pintar a mamata de ficar depois da hora no escritório, babe!

Um dia eu falo dos filmes que vi, das terras por onde andei...lá lá lá lá... Como é aquela música do Gonzagão "minha vida é andar por esse país..."?