estou atoladaço com o mestrado. tenho que entregar a dissertação no fim de fevereiro (adeus carnaval...).
mas jacaré já começou a escrever? nem eu!
pois bem, contrariando as ordens auto-impostas, não posso deixar de bostejar, e o assunto de hoje, amiguinhos é a trilha sonora que me acompanha nesses momentos de cu apertadíssimo.
há dois anos, estudando para as provas de admissão no mestrado, na casa da minha avó, me entupia de remédios para emagrecer cheios de anfetaminas e outras bolas na fórmula (bons tempos, saudades...me dou muito bem com estimulantes químicos ingeríveis), e escutava uma trilha sonora rigorosa, à base de:
- lou reed (transformer)
- air (uma compliação dos três primeiros discos)
- gorillaz
- maurício negão (os três, incluindo o recente criolina)
- herbie hancock (cantaloupe island)
- frank zappa (strictly commercial)
- strokes (is this it)
- oscar peterson (ultimate oscar peterson)
hoje, a relação segue assim, por enquanto mais por músicas baixadas do que por discos:
- billie holliday (embraceable you, autumn in new york, i got it bad and that ain't good, on the sunny side of the street)
- nina simone (don't let me be misunderstood, ne me quitte pas, four women, i got it bad and that ain't good)
- mutantes (ave, gêngis khan, minha menina, ave, lúcifer, top top)
- sly and the family stone (the very best of)
- tim maia (além do horizonte - com erasmo tremendão, paz interior, réu confesso, meus inimigos, o caminho do bem, o que me importa)
- cornershop (brimful of asha)
- lou reed (transformer).
aliás, do meu amigo lou reed, estou apaixonado por andy's chest e perfect day, da qual destaco as últimas estrofes, das coisas mais simples - quase óbvia - mas por isso mesmo, da mais lindas que já vi escritas:
Just a perfect day,
Problems all left alone,
Weekenders on our own.
It's such fun.
Just a perfect day,
You made me forget myself.
I thought I was someone else,
Someone good.
Oh it's such a perfect day,
I'm glad I spent it with you.
Oh such a perfect day,
You just keep me hanging on,
You just keep me hanging on.
You're going to reap just what you sow...
um dia hei de viver isso plenamente, na carne.
25 janeiro 2004
os sons que me contaminam
depois não me falem de preconceito...
nossos irimãos do além-mar são realmente incríveis.
leiam o texto abaixo, coletado aqui.
Domingo, Janeiro 25, 2004
Conversas interessantes entre raparigas...
- Aquele rapaz ali deve ter 18 anos...
- Ah! Não parece...
- Mas olha que tem 18 anos, olha lá a cara...
- Olha pois parece!
- Ele tem 18 anos...
- Pois... deve ter 18 anos...
- Pois deve...
- Pois é...
- É é...
- É pois...
- Pois... Então ambas concordamos que tem 18 anos...
- Pois concordamos
(10 minutos nisto...)
As pessoas envolvidas não fumam coisas que fazem rir nem bebem alcool em excesso, mas são portuguesas!
post por Doido ás 02:00 com 0 comentário(s)
23 janeiro 2004
ligações perigosas
pode ser que sejam apenas meus nervos, mas será que não há um padrão nessas duas músicas, ouvidas recentemente?
the vibes, the vibes...
I'll follow the sun
(The Beatles)
One day you'll look to see I've gone.
For tomorrow may rain, so I'll follow the sun.
Some day you'll know I was the one.
But tomorrow may rain, so I'll follow the sun.
And now the time has come
And so my love I must go.
And though I lose a friend,
In the end you'll know, oooh.
One day you'll find that I have gone.
For tomorrow may rain, so I'll follow the sun.
Yes, tomorrow may rain, so I'll follow the sun.
And now the time has come
And so my love I must go.
And though I lose a friend,
In the end you'll know, oooh.
One day you'll find that I have gone.
For tomorrow may rain, so I'll follow the sun.
...
Fé cega, faca amolada
(Milton Nascimento- Ronaldo Bastos)
Agora não pergunto mais aonde vai a estrada
Agora não espero mais aquela madrugada
Vai ser, vai ser, vai ter de ser, vai ser
Faca amolada
O brilho cego de paixão e fé,
Faca amolada
Deixar a sua luz brilhar e ser muito tranqüilo
Deixar o seu amor crescer e ser muito tranqüilo
Brilhar, brilhar, acontecer, brilhar
Faca amolada
Irmão, irmã, irmã, irmão de fé
Faca amolada
Plantar o trigo e refazer o pão de cada dia
Beber o vinho e renascer a luz de todo dia
A fé, a fé, paixão e fé, a fé,
Faca amolada
Deixar a sua luz brilhar no pão de todo dia
Deixar o seu amor crescer na luz de todo dia
Vai ser, vai ser, vai ter de ser, vai ser
Muito tranqüilo
O brilho cego de paixão e fé
Faca amolada.
22 janeiro 2004
um picasso em são paulo é melhor do que nenhum
já sei qual vai ser a primeira coisa que vou fazer quando sair da tumba daqui a um mês, quando entrego a dissertação: me meto no primeiro ôndebus pra sumpaulo pra encarar o picasso.
sem duplo sentido, por favor.
o que é a cara-de-pau...
vejam aqui quem será o novo próximo ídolo pop inglês.
sem comentários.
é um arquivo de vídeo (quicktime). clique com o botão direito do mouse, e em seguida, em "abrir link em uma nova janela". aguarde baixar.
parece tirado de uma daquelas bombas televisivas do estilo "fama", da globo.
20 janeiro 2004
prtguês de prtgal, essa estranha flor do lácio
sempre que venho aqui para bostejar, o servidor mostra uma coluna à direita com os blogs recém-mexidos. volta e meia dou umas bandas nos títulos em português, à cata de novidades. mas a esmagadora maioria deles vêm de nossa matriz, portugal. brasileiro, necas.
de qualquer forma, é sempre uma diversão ver os nossos irimãos escrevendo. vejam se o texto abaixo não é capaz alegrar o dia de qualquer um. duvido que você chegue ao fim sem pelo menos um sorriso.
ah, se interessar, tirei daqui. dia 18 de janeiro, para se mais exato.
putos sem vida...
há dias assisti a uma cena mesmo absurda.
mais um dia de escola. pus-me a caminho da estação para apanhar o comboio das 13:18. enquanto este não vinha, estive na conversa com as minhas amigas. reparei num grupo de três rapazes que estavam ao nosso lado. tinham cerca de 14 anos. reconheci um deles, era um puto da minha antiga escola. um miúdo muito traquinas e nem sempre o mais agradável para as pessoas. esqueci o grupinho e entrei no comboio. sempre num diálogo alegre com as minhas colegas. a meio da viagem (que é muito curta, é só uma paragem), dei conta de uma cena muito absurda ali a menos de 7 metros. o tal grupinho estava a assaltar um miúdo do 10º ano da minha escola. o mais estúpido foi o facto de a carruagem estar cheia e ninguém ter feito nada com aqueles três putos. a sorte do miúdo foi ter um telemóvel que não lhes interessava.
eu e o meu grupo de amigas assistimos a tudo. uma raiva enorme consumiu-nos a todas. mas por algo que eu não sei explicar, também não fizemos nada. mesmo querendo mandar um estalo a cada um. ficámos paradas, sem saber o que fazer.
são destas coisas que me revoltam. putos que nem sequer sabem o que querem da vida andam aí a chatear o pessoal. não têm mais nada para fazer então decidem importunar os outros. esses putos...
# plantado por Moranguinha @ 16:34 || Morangos: 0
18 janeiro 2004
li e gostei
não sei com o que se come o autor, mas gostei do texto:
::::Promise yourself::::
Promise yourself to be so strong that nothing can disturb your peace of mind. To talk health, happiness and prosperity to every person you meet. To make all your friends feel that there is something in them. To look at the sunny side of everything and make your optimism come true. To think only of the best, to work only for the best and expect only the best. To be just as enthusiastic about the success of others as you are about your own. To forget the mistakes of the past and press on to the greater achievements of the future. To wear a cheerful countenance at all times and give every living creature you meet a smile. To give so much time to the improvement of yourself that you have no time to criticize others. To be too large for worry, too noble for anger, too strong for fear and too happy to permit the presence of trouble.
Christian D. Larson
17 janeiro 2004
deus à siciliana (ou à moda do brooklyn)
de robert de niro, em entrevista ao actor's studio:
entrevistador - o que gostaria que deus te dissesse quando você chegasse ao céu?
de niro - bom, se deus existir mesmo, ele vai ter muito o que se explicar...
sobre porcos e homens
ontem, zapeando pela tv a cabo de babãe, assisti a uma adaptação da “revolução dos bichos”, de george orwell. 1984, do mesmo autor, é um dos meus clássicos de todos os tempos, e a “revolução...” me impressionou bastante aos 14 anos; os porcos, em especial (muito do asco era graças ao medo que adquiri de jodie, o porco-demônio de “horror em amityville”, que acabara de ler na casa de meus primos).
o filme não estava mal. a computação gráfica foi fundamental para fazer os animais falarem, os porcos caminharem em duas patas e pegarem objetos com os cascos. a transposição do romance também estava bem fiel, até o final botar tudo a perder. no livro, o desfecho é perturbador: porcos e homens sentam-se em torno da mesa da fazenda tomada, negociando e bebendo uísque (em clara desobendiência aos mandamentos da revolução), enquanto o narrador diz que “quem os observasse, não saberia mais distingüir porcos de homens”. ponto final.
mas na película, a maldição do happy end atacou. não satisfeito, o diretor john stephenson quis melhorar o perfeito. e fez com que alguns animais fujissem para as cercanias da fazenda, e lá esperassem o fim da tirania dos porcos. há uma alusão à queda do muro de berlim, e no fim, mostra os animais satisfeitos por receber uma nova família que compra a fazenda (!!!). e o take final mostra papai, mamãe e um casal de filhinhos, todos louros e lindos, com sorrisos de cera à la kennedy, passando com um conversível por cima da placa caída da “animal farm”.
porque os animais que sobraram não assumiram a gestão da fazenda eles mesmos, dentro de um esquema de produção coletiva e igualitária, sem líderes, como era o ideal da revolução?
é o maldito reforço da mensagem de que os homens não podem se auto-gerir, de que necessitamos de especialistas que "pensem por nós". de que dependemos de uma estrutura de produção e de vida onde alguém domina o conhecimento e os meios de produção, enquanto o restante permanece alienado do processo, possuindo apenas a força de trabalho. cada um podendo fazer apenas aquilo que sabe, sem que as aptidões de cada um possam ser compartilhadas coletivamente. o conhecimento permanece na mão de especialistas, que o mistificam e o tornam em fetiche. não precisamos de quem nos diga o que fazer. não precisamos de senhores ou líderes. power to the people!
cruzes, como estamos marxistas hoje!...
mas é isso: marx vive! o problema é que as pessoas confundem o regime comunista - fechado em diretrizes de uma elite política, com doutrinas que se cristalizaram e, por isso, ruíram -, com o arcabouço filosófico proposto por marx - plural, dinâmico e, por que não, repleto de contradições, como todo bom arrazoado filosófico.
16 janeiro 2004
os pais do burro
sou tarado por dicionários. como eles são caros, para um geminiano safado como eu, a internet foi uma mão na roda. a disponibilidade deles na rede é um assombro. já cheguei a baixar livros inteiros, só para aproveitar a agilidade que os dicionários virtuais oferecem durante a leitura.
só não entendo como a minha paixão pelo uso correto do vernáculo (uau!) não se reflete em melhoria na minha linguagem. vai entender...
além do babylon (depois de expiração o prazo de gratuidade, sou obrigado a atrasar a data do computador para usá-lo), tenho dois xodós: o american heritage, um fodão de inglês que tem até arquivo sonoro de pronúncia, e o diccionarios.com, que faz traduções de espanhol para outras línguas e vice-versa, ótimo para quem busca termos num terceiro idioma.
os links estão nos favoritos, ao lado. se vira nos trinta.
e como disse drummond de andrade: "Penetra surdamente no reino das palavras./ Lá estão os poemas que esperam ser escritos./ Estão paralisados, mas não há desespero, há calma e frescura na superfície intata./ Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário".
transgressões previstas pelo sistema
pode ser que eu esteja errado, mas acho que a forma predominante de transgressão da juventude hoje é sexual. nos idos dos meus 15 anos, foram as drogas. buscava-se um tipo de transcendência similar ao da geração dos anos 70, anterior à minha. e assim tomávamos todo o tipo de porcaria em nome da expansão da consciência e de um vislumbre de divindade.
(porcaria mesmo. comi pão mofado, fumei fiapo de banana e tomei coca-cola com aspirina, só porque dizia-se que dava onda. sem falar nas receitas caseiras de loló e lança. só não tomei nos canos porque tenho medo de injeção, e crack e ecstasy porque quando apoareceram eu já tinha deixado a farmacopéia de lado).
mas a petizada hoje parece que abandonou a transcedência em nome da imanência. o que importa é o corpo e seus limites, e o que você pode fazer com ele, como pode modificá-lo. a mente é perda de tempo. pensar pra quê? ninguém mais sabe quem foi castañeda, acham que bukowsky é nome de boate, e sequer ouviram falar das experiências de jack kerouac, rimbaud, verlaine, aldous huxley e william burroughs de misturar drogas e literatura (na música, as experiências podem ter permanecido pelo seu caráter mais "sensorial" do que "intelectual").
agora a onda é piercing, tatuagem, body-modification, fisioculturismo, plástica e lipoaspiração - sem falar nessa febre de lesbian-chic de novela, que parece ter contaminado a todo(a)s. de três em três meses sai uma matéria na veja sobre o número cada vez maior de adolescentes apelando para cirurgiões plásticos para corrigir as "imperfeições", que os tornam únicos. hoje ninguém mais quer ser diferente.
mais do que uma atitude contestatória, a transgressão parece ser uma afirmação do sistema, um traço de consumo. o estilo alternativo e rebelde deixa os jovens exatamente iguais uns aos outros. vestindo as mesmas roupas, ouvindo as mesmas músicas, trepando, falando, bebendo, fumando e comendo as mesmas coisas. mas - invariavelmente - consumindo.
desde que você compre, pode ser e fazer qualquer coisa. e se acontece com a moda, porque não aconteceria com as drogas, que movimentam mais grana por ano do que o mercado de petróleo, só perdendo para o de diamantes? por mais que que se reprima, a demanda é grande e os interesses, enormes. esvaziadas de ritual, as drogas deixaram de ser um meio de expandir a mente para tornarem-se meros aceleradores ou amortecedores de sensações. ou o cara quer ficar mais rápido que o mundo, ou quer desacelerá-lo, calçando-lhe pantufas. aliás, parei de usar drogas quando deixei de enxergar a mística de coisa proibida que me seduzira. tava ficando tão fácil encontrar, com tanto nêgo cabecinha usando, que achei melhor parar. não era mais a minha. sou a favor da liberação geral, mas custo a acreditar, como muitos, de que depois o consumo vai diminuir. só acho que vai morrer menos gente desnecessariamente.
na essência, ser transgresor hoje é não consumir.
digo isso tudo porque ontem fui com meu amigo pedro cabeção no empório, em ipanema, onde não punha os pés desde o aniversário da minha irmã, há uns três anos. e o que vi, além daqueles tipos bizarros que parecem brotar nas rachaduras das calçadas à noite (porque nunca se consegue vê-los de dia), foi uma pivetada brincando de crossover sexual. tinha, por exemplo, um molecote todo cheio de piercings, com braceletes de couro e metal (como os que eu gostava, quando me tornei punk, aos 15 anos), cinto sobre a bermuda, e boné. o sujeito se contorcia, dançava e olhava para os lados como se fosse uma bichinha-lacraia. mas logo depois lascou um chupão numa morena com o cabelo tingido de ruivo. que por sua vez, beijou uma menina linda de minissaia e meia colorida até o joelho (tenho tara por minissaia e meias compridas, deve ser algo relacionado com o fato de ter morado duas vezes perto dos colégios pedro II). essa por sua vez, beijou uma narigudinha meio olívia palito, que acabou sendo beijada pelo lacraia.
não conseguiram me chocar, mas fiquei surpreso com a desenvoltura e o descompromisso da garotada. devo estar ficando velho, porque na minha época, liberdades assim - também ultra-transgessoras - eram muito restritas às esferas privadas ou "marginais". andando pelo mainstream, a primeira vez que vi um beijo homossexual foi na faculdade, numa festa de dois amigos casados. eles se beijaram espontaneamente, e só fizeram isso porque estavam na própria casa, em companhia de pessoas absolutamente confiáveis. e mesmo assim, não foi uma atitude afirmativa e demonstrativa - mas apenas uma expressão de carinho. não essa coisa gratuita, ostensiva, feia inclusive quando com heterossexuais.
ah, sei lá, também...mó sociologia de botequim...estou soando muito tijucano? fazer o quê? eu vim de lá, eu vim de lá, pequenininho...
13 janeiro 2004
outra obsessão
há três posts falava eu de algumas obsessões musicais. outra delas é o tim maia. mas não esses discos póstumos & ao vivo, quando os excessos já tinham minado de vez o alcance vocal do negão. gosto do tim na época em que ele era chamado de "deus trovão", o pai do suíngue brasileiro. destaco, além dos sucessos consagrados, os discos "racionais", da época em que ele se engajou no universo em desencanto. dentre elas, a divina:
paz interior
já não dependo das loucuras
já encontrei o que fazer
agora sei outra verdade
estou vivendo com prazer de viver
eu agora já não dependo de você (2x)
voltou o brilho dos meus olhos
voltou a paz interior
no universo em desencanto
me reencontrei com muito amor
racional, e agora
chegando o bem se afasta o mal (2x)
sem vergonha
não é por nada, não, mas sair de casa me fez bem. tava começando a amarrar um bote pretaço. levei um esporro, pra não perder o prumo, mas tô de volta aos eixos. vida, afinal!
ainda tenho uns troços pra resolver comigo mesmo, mas é só não deixar as coisas acumularem, que tudo se ajeita. enfim...
voltando pra casa, ouvi de um apartamento "sem você", do antônio jobim e do vinícius de moraes, cantada por maria bethânia. coisa finíssima, linda de doer no cu, como diz uma grande amiga. sem sentimentalismo ou nostalgia, reproduzo aqui a letra.
mas vale ouvir a música - ô, se vale.
Sem você
Sem você
Sem amor
É tudo sofrimento
Pois você
É o amor
Que eu sempre procurei em vão
Você é o que resiste
Ao desespero e à solidão
Nada existe
E o mundo é triste
Sem você
Meu amor, meu amor
Nunca te ausentes de mim
Para que eu viva em paz
Para que eu não sofra mais
Tanta mágoa assim
No mundo
Sem você
algum kaváfis
a primeira vez que ouvi falar de konstantinos kaváfis foi no filme "morango e chocolate". o personagem do gay, em meio ao processo de sedução do jovem militante cubano, apresenta-lhe uma poltrona do apartamento, especial "só para ler kaváfis". depois foi meu amigo carlos arimathéia que, numa tarde de preguiça na calógeras, em companhia da laura, nos leu Ítaca.
desde então procurei o livro que, acredito, seja o único do poeta alexandrino (de nacionalidade, não de métrica), editado no brasil pela nova fronteira. quando trabalhava no bondfaro, descobri que o safado não tem isbn. pode checar. alguma mutreta deve ter aí...
mas, enfim, separei alguns poemas do cabra, pra dar vazão de vez à esse mormaço que vai em minh'alma.
(virge! alguém me segura que hoje eu tou co'a breca!)
Desejos
belos corpos de mortos que nunca envelheceram,
com lágrimas sepultos em mausoléus brilhantes,
jasmin nos pés, cabeça circundada de rosas -
assim são os desejos que um dia feneceram
sem chegar a cumprir-se, sem conhecerem antes
o prazer de uma noite ou manhã luminosa.
Fui
Não me deixei prender. Libertei-me de todo e fui
em busca de volúpias que em parte eram reais,
em parte haviam sido forjadas por meu cérebro;
fui em busca da noite iluminada.
E bebi vinhos fortes, como
bebem os destemidos no prazer.
Jura
A cada pouco jura começar vida nova.
Mas quando a noite vem com seus conselhos,
seus compromissos, com suas promessas;
mas quando a noite vem com sua força
(o corpo quer e pede), ele de novo sai,
perdido, atrás da mesma alegria fatal.
Ao fim da tarde
Não duraria muito, em todo caso. A prática
dos anos me ensinou. Então, subitamente,
veio lhe dar um fim a Sorte.
Os aromas, porém, como eram fortes.
Em que leitos esplêndidos deitamos.
A que prazeres demos nossos corpos.
Um eco daqueles dias de prazer,
um eco daqueles dias me voltou,
um pouco da chama de nossos juvenis transportes.
Peguei nas mão uma das cartas, absorto, e
a li, uma e outra vez, até a luz faltar-me.
E saí para o balcão, melancolicamente
- saí para distrair os pensamentos, ver ao menos
um pouco da cidade bem-amada,
um pouco do movimento de suas ruas e lojas.
sly para fechar a noite (ou começar o dia)
tava baixando uns troços e peguei uma seleção de sly and the family stone. tem uns sons que eu aprendi a gostar quando era mais novo, e que se tornaram verdadeiras obsessões: uma delas é jorge ben, e a outra é sly. é batata. podem ser as mais bobas, mas as músicas de ambos têm uma vibração que me dá uma levantada no astral necessária para contrabalancear a sorumba. uma delas, em especial, transborda boas ondas.
(queria poder tocá-las aqui...)
Everyday people
Sometimes I'm right and I can be wrong
My own beliefs are in my song
The butcher, the banker, the drummer and then
Makes no difference what group I'm in
I am everyday people, yeah yeah
There is a blue one who can't accept the green one
For living with a fat one trying to be a skinny one
And different strokes for different folks
And so on and so on and scooby dooby doo-bee
Oh sha sha - we got to live together
I am no better and neither are you
We are the same whatever we do
You love me you hate me you know me and then
You can't figure out the bag l'm in
I am everyday people, yeah yeah
There is a long hair that doesn't like the short hair
For bein' such a rich one that will not help the poor one
And different strokes for different folks
And so on and so on and scooby dooby doo-bee
Oh sha sha-we got to live together
There is a yellow one that won't accept the black one
That won't accept the red one that won't accept the white one
And different strokes for different folks
I am now everyday people
é melhor ser alegre que ser triste?
outro dia cheguei à conclusão que tenho uma inclinação atávica para o banzo. avaliando a frio, pelo lado estético, meus gostos musicais, cinematográficos, artísticos, etc., observo um padrão meio deprimido. no entanto, não sou de ficar me queixando da vida que nem a hiena do desenho - "ó dia, ó vida, ó azar...". simplesmente tenho meus calundús. e gosto deles. e os preservo em segredo, num vidro de compota guardado numa prateleira entre o cérebro e o coração.
é como o traço de ciclotimia dos palhaços, muito bem retratada pelo nelson cavaquinho: "volta, que a platéia te reclama/ sei que choras palhaço/ por alguém que não te ama/ (...) faça a platéia gargalhar/ um palhaço não deve chorar". acho que por isso que gosto tanto de palhaços, e porque, no íntimo, gostaria de sê-lo por profissão.
mas nesse sábado pude satisfazer minha verve clóvis (melhor que clown). é que fui, com a bibi, ao aniversário de um ano do tarik, filho da judith, que está com o marido passando o holiday on ice no brasil. foi divertidíssimo, e para completar, todos os ADULTOS ganharam saquinho surpresa, com nariz de palhaço, dentes postiços e língua-de-sogra (ótimo nome, já repararam?). tiramos fotos paramentados e de chapeuzinho, e seguimos para outro aniversário, da rê queveda, no rio scenarium. eu e bibi no carro de palhaço - óbvio. até o flanelinha esqueceu de nos cobrar, na ida. aliás, quando viu a dentadura postiça na boca da bibi, escancarou um sorriso limpa-trilho de fazer inveja. perguntei, com o vidro fechado (pro sujeito não ouvir):
- e aí, onde foi que você comprou os seus?
na fila, todos nos olhavam, e eu retribuá a curiosidade, cumprimentando-os tirando o chapéu - afinal, sou um camarada educado. na hora de pegar a cartela de consumação, o atendente perguntou o nome. num surto esquizofrênico, respondi na lata:
- coçadinha! - mas o dani, sem senso de humor, consertou - marcelo.
lá dentro, a chegada foi uma festa. fiz jus ao apelido de "loco", que essa galera me deu há...treze anos (cacete!), e do qual sequer me lembrava.
vieram falar comigo, e eu cumprimentava batendo na bunda, "como vai, vai bem, veio a pé ou veio de trem?". quando era um pessoal interessante que eu não conhecia, virava de costas, tirava o aparato e me apresentava:
- como vai? marcelo, seu criado. qual a sua graça?
me diverti, dancei pra dedéu, cheirei uns cangotes no forró, reencontrei o povo do boitatá, e sai quase cinquenta reais mais leve. vagabundo tá metendo a mão no finde, 18 paus! e sem direito a consumir uma azeitona sequer. mas valeu.
agora estou aqui - como dizem os gringos - mais azul do que o azul pode ser. ouvindo umas sonatas de piano do beethoven que aprendi no "homem que não estava lá", dos irmão coen, que aliás, no momento aproveito para baixar. filme triste e bonito. preto-e-branco, como convém.
doze dias para ficar assim...boa média para 2004.
11 janeiro 2004
humano, demasiado humano...
hoje peguei emprestado dois livros do hesíodo - a "teogonia", que já conhecia e do qual li algumas partes, e "os trabalhos e os dias", como o anterior, um poemão. mas neste, me chamou a atenção um dos trechos em que ele fala das "cinco raças" de mortais criadas por zeus. De ouro, de prata, de bronze, de heróis e de ferro, à medida em que vão decrescendo em termos de perfeição, os graus de selvageria e barbárie aumentam. algo na descrição me remeteu de leve a traços do zigurate, do meu amigo max mallman.
para hesíodo, somos da raça do ferro, dos quais transcrevo o fragmento. atentem para a atualidade do caboclo, que provavelmente entre o fim do século VIII e o início de VII a. C. (!), já havia matado a xarada da civilização ocidental que o sucederia em até quase três milênios.
Raça de Ferro
Antes não estivesse eu entre os homens da quinta raça,
mais cedo tivesse morrido ou nascido depois.
Pois agora é a raça de ferro, e nunca durante o dia
cessarão de labutar e penar e nem à noite de se
destruir; e árduas angústias os deuses lhe darão.
Entretanto a esses males bens estarão misturados.
Também esta raça de homens mortais Zeus destruirá,
no momento em que nascerem com têmporas encanecidas.
Nem pais a filhos se assemelhará, nem filhos a pai; nem hóspedes a
hospedeiro ou companheiro a companheiro,
e nem irmão a irmão caro será, como já havia sido;
vão desonrar os pais tão logo estes envelheçam
e vão censurá-los, com duras palavras insultando-os;
cruéis; sem conhecer o olhar dos deuses e sem poder
retribuir aos velhos pais os alimentos;
[com a lei nas mãos, um do outro saqueará a cidade]
graça alguma haverá a quem jura bem, nem ao justo
nem ao bom; honrar-se-á muito mais ao malfeitor e ao
homem desmedido; com justiça na mão, respeito não
haverá; o covarde ao mais viril lesará com
tortas palavras falando e sobre elas jurará.
A todos os homens miseráveis a inveja acompanhará,
ela, malsonante, malevolente, maliciosa ao olhar.
Então, ao Olimpo, da terra de amplos caminhos,
com os belos corpos envoltos em alvos véus,
à tribo dos imortais irão, abandonando os homens,
Respeito e Retribuição; e tristes pesares vão deixar
aos homens mortais. Contra o mal força não haverá!
10 janeiro 2004
sergio kalili desce o pau
achei uma entrevista espetacular do sergio kalili no comunique-se.
o sujeito ficou mais de dois meses cobrindo a guerra do iraque, e foi o único brasileiro a presenciar o terremoto de bam. na entrevista, ele detona o mito da imparcialidade jornalística e fala dos abusos cometidos pelos americanos, que estão prendendo jornalistas iraquianos a rodo. a seguir, dois trechinhos pinçados a dedo.
"(...) é uma mentira isso, a mentira da imparcialidade. Você vai ouvir o outro lado só para disfarçar a sua opinião. Você sempre vai reforçar mais um dos lados. Até a ordem em que você coloca as declarações dos dois lados. O tempo todo você vai jogar, editar, colocar uma versão da história".
"Os jornalistas iraquianos que estão lá trabalhando são presos direto e somem. As tropas americanas prendem os caras e somem com eles. As famílias não sabem onde eles vão parar, as empresas... Eles denunciam algumas coisas, os caras pegam e somem com eles. Eles são iraquianos.
Link SP- Prendem por quê?
SK- Porque o cara vai lá e escreve uma matéria dizendo que as tropas americanas mataram tantos jovens que estavam protestando num bairro de Bagdá chamado Aadhamyia, onde eles são antiamericanos, são anticoalizão. Fecharam jornais iraquianos. Depois que os americanos dominaram o país, abriram mais de 150 jornais. Muitos que fazem oposição foram fechados pelos americanos. Eles censuraram, fecharam jornal. Ninguém fala isso.
Ser iraquiano no Iraque hoje em dia é não ser cidadão. É melhor ser estrangeiro, americano. Ou você [iraquiano] é colaborador deles, e aí eles te dão uma força. Por que a imprensa internacional não fala nada?"
vá logo, antes que tirem do ar!
09 janeiro 2004
da série "frases inspiradoras"
"Apesar de não ter nada, ele tinha a si mesmo. E a partir do momento que se tem a si mesmo, se tem tudo".
- josé mojica marins, o zé do caixão, sobre o também cineasta rogério sganzarela, que partiu pra terra do pé-junto hoje (sexta-feira), com 57 cajus.
balancete de 2004
há nove dias em 2004, segue um breve relatório do que já aconteceu esse ano:
- desde a primeira madrugada do ano, estou trocando de pele, depois de cinco horas ininterruptas debaixo de sol (sendo que antes disso, o último encontro entre mim e o astro-rei havia sido há mais de seis meses);
- graças à minha síndrome de jerry lewis, ostento arranhões e machucaduras diversos;
- pintou um trabalho de pintura pra teatro;
- a assessoria arrebanhou novo cliente;
- conheci uma menina espetacular;
- comprei dois cds (john coltrane e ella fitzgerald) na banca por R$ 4,00;
- engordei alguma coisa durante as festas;
-ontem dormi decentemente pela rimeira vez no ano;
- não consegui ler nada ainda;
- mestrado, por enquanto, nem pensar (vergonha!).
e por aí vai. ainda aguardo o que me prometeram na musiquinha, "muito dinheiro no bolso/saúde pra dar e vender"...
08 janeiro 2004
o sueco e o italiano
hoje li duas entrevistas impactantes: lars grael na veja e diogo mainardi na trip.
grael - "A vida é uma questão de parâmetros".
mainardi - "Sou bidimensional, não tenho profundidade psicológica, ninguém consegue me atingir. Tenho um aparato psicológico pobre, não dá para me colocar num estado de exaltação ou de depressão".
vai lá, pô!
millôr de verdade
na época da bolha da internet, quando eu trabalhava num sáite, volta e meia recebia uns textos supostamente assinados por celebridades nacionais, de pena & traço. mas uma leitura um tiquinho mais atenta denunciava rapidinho que os autores não eram os próprios signatários. alguém com um conhecimento mínimo - nem digo da obra, mas da pessoa - de mário quintana acharia realmente que ele usaria uma expressão que se assemelhasse a "corpos sarados"?
ou que o ziraldo abriria mão de sua sutileza mineira para divulgar pela internet um panfleto recheado de palavrões, explicando a razão pela qual não economizaria energia durante o apagão? ah, tem também o caso clássico do suposto poema sentimentalóide do borges, que chegou até a ser utilizado num reclame (alguém se lembra dessa palavra?) de tv. o caso depois virou até notícia de jornal.
é interessante analisar essa inversão estabelecida pelo advento da internet, no que diz respeito à originalidade de uma idéia. antes, a autoria de qualquer boa idéia ou declaração inteligente era disputada a tapa. depois da internet, o volume de informação que se recebe no dia-a-dia é tão grande que, para merecer a atenção do destinatário, ela tem que conter algo de extraordinário imediatamente identificável. para isso, as pessoas camuflam suas próprias idéias sob a chancela de um nome famoso. daí os títulos dos imeios serem sempre "poema de fernando pessoa", "texto do ziraldo - leia", ou coisa que o valha.
esse narigão de cera tem dois motivos: primeiro, porque até hoje esses textos às vezes vêm bater à minha caixa postal, ou alguém vem citá-los, cheio de erudição. e dá um trabalhão desmenti-los. o outro (e real) motivo é porque li uma das famosas "fábulas fabulosas" do millôr, em seu sáite, que me deu vontade de reproduzir. e para que não reste dúvidas quanto à sua autenticidade, eis o link.
O milagre econômico. (à maneira dos... persas)
Um mendigo surdo-mudo entrou num botequim e, com gestos fortes e significativos, pediu esmolas. Os fregueses, irritados em sua generosidade, recusaram. O mendigo ficou insistindo de mesa em mesa, até que o dono do botequim enxotou-o dali. O mendigo continuou pela rua afora, pedindo a todos os passantes do mesmo jeito. Uma hora depois, voltou, sentou com espalhafato numa mesa do botequim e gritou, para que todos ouvissem:
- Uma Brahma estupidamente!
O garçom trouxe a Brahma correndo, abriu e disse:
- Ué, como é? Você não era surdo-mudo? Ficou bom de repente?
E o mendigo respondeu:
- Que adianta a gente falar, quando não tem o puto de um níquel pra pedir uma Brahma?
MORAL: O DINHEIRO FALA MAIS ALTO.
07 janeiro 2004
às vezes elas voltam...
cenas recentes. sempre com um quê de constrangimento.
cena 1: festa. na sala, duas mulheres. uma, há muito tempo. uma combinação de tranqüilidade e delicadeza talvez desconcertantes demais para a minha ansiedade. paralisia total. medo. não durou. a outra, algum tempo atrás. como um trapo emocional, sou colhido, as feridas tratadas, o ego afagado. amado. idolatrado. salvem-me, salvem-me. sufocado, escapo pela tangente. soube por aí que ambas andaram falando mal de mim. aguardo na cozinha até que a multidão de convidados me tornem invisível.
cena 2: festa. terraço. primeira: uma aposta recente, de várias fichas, que resolveu voltar atrás para o antigo proprietário. sem maiores dores e feridas. limpo. segunda: um encontro inconseqüente, mas muito prazeroso. sem maiores alongamentos, embora alguma expectativa rondasse a outra parte. terceira: uma possível futura conquista, ávida. com o timing, entretanto, defasado em alguns dias. pena. nenhuma das três agraciadas, mas até a situação chegar a termo, o livre circular esteve algo prejudicado. prefiro acreditar que, até agora, ninguém fala mal de mim.
fim de episódios? difícil, pela certeza de que amigos comuns me presentearão com a visão de um passado recente aparentemente bem superado. e por melhor que a coisa esteja, é sempre chato ver que seu tempo passou e sua presença não é mais necessária. fatos da vida...
por essas e outras é que ando cansado de topar com esqueletos saídos do armário. esqueletos, é bom que se diga, descarnados pela minha completa ausência de tato e etiqueta sentimental. canso-me, fico ansioso; o passado volta e, com ele, uma certa culpa injustificada e desnecessária. culpa o cacete! tô fora.
tenho buscado contornar a situação com um esforço combinado de atenção, paciência e observação. mas não sei cafajestar. não sei não ligar depois. tampouco sei estabelecer os limites entre envolvimento e curtição. é este o ponto em que troco os pés pelas mãos; onde o caldo entorna e eu me queimo.
procuro familiaridade e disparo no coração. corpo sem cabeça é conjunto vazio; o ideal é a interseção dos elementos. menos do que isso, dispenso. faço o possível para me manter atual. a meu favor, cada vez menos estereótipos.
a seguir, cenas dos próximos capítulos. veremos.
03 janeiro 2004
açúcar marrão é bão!
meninas e meninos, acabei de baixar brown sugar também. diz-se por aí que essa era a gíria pra heroína, na época. bem, a letra é cheia de safadeza, e quem, como eu, achava que misturar-se com as negrinhas era coisa de portuga, percebe que o esporte também era muito apreciado lá pelas bandas de nova orleãs.
de qualquer maneira, ficam escritos na minha carne os versos desse começo de 2004:
brown sugar, how come you taste so good?
brown sugar, just like a young girl should
e salvem gilberto feyre e jorge amado, que já sabiam muito antes...e em português!
isso são horas?
porra, depois de três dias, o caboclo escrevedor tem que baixar logo agora, uma e tal da matina, eu cheio de sono, querendo dormir? tá direito um troço desses?
não, não e não! amanhã conto da festa. amanhã, sim, porque só é amanhã depois que eu acordo.
igual ao problema de "bom-dia-boa-tarde". quem é que nunca chegou num lugar - um elevador, por exemplo - deu bom-dia e teve que ouvir a correção "boa-tarde"? (em frases desse tipo invejo os espanhóis, que colocam logo um ponto de interrogação de cabeça pra baixo no início, para avisar logo de sua natureza interrogativa.)
até o dia em que fui mal-criado:
- boa tarde, não. bom dia, porque eu ainda não almocei. o senhor já? então é bom-dia mesmo. boa-tarde só depois do almoço - reagi.
minha vida mudou desde então. eis meu testemunho de fé.
ponto final em 2003
sabe essas músicas que você passa a vida inteira escutando sem nunca prestar atenção à letra? pois bem, baixei hoje angie, dos stones, e qual não foi a surpresa quando mais não digo. quem sabe, sabe, quem não sabe, bobeou. leiam e julguem por si mesmos, condenem, executem, esquartejem, salguem o terreno e cuspam em cima, ou calem-se para sempre.
pensando melhor, apenas calem-se para sempre...
Angie
Angie, Angie, when will those clouds all disappear?
Angie, Angie, where will it lead us from here?
With no loving in our souls and no money in our coats
You can't say we're satisfied
But Angie, Angie, you can't say we never tried
Angie, you're beautiful, but ain't it time we said good-bye?
Angie, I still love you, remember all those nights we cried?
All the dreams we held so close seemed to all go up in smoke
Let me whisper in your ear:
Angie, Angie, where will it lead us from here?
Oh, Angie, don't you weep, all your kisses still taste sweet
I hate that sadness in your eyes
But Angie, Angie, ain't it time we said good-bye?
With no loving in our souls and no money in our coats
You can't say we're satisfied
But Angie, I still love you, baby
Ev'rywhere I look I see your eyes
There ain't a woman that comes close to you
Come on Baby, dry your eyes
But Angie, Angie, ain't it good to be alive?
Angie, Angie, they can't say we never tried
...e a vida segue plena de alegria.
happy new year's eve...brussel!
esse foi o título do post que tentei publicar no dia 31, e que por uma goiaba inexplicável, foi perdido sem chance de apelação. o título, pra quem é mais lento ou está desatento, é uma brincadeira com a canção do jorge ben + caetano veloso.
era mais ou menos sobre a arbitrariedade da comemoração, que por mais que haja gente envolvida, não passa, a frio, de uma troca de folhinha. a prova é que chineses, árabes e judeus (os irmãos brigões) contam do tempo de outra maneira, e todos ficam contentes.
e que se a gente fosse seguir a lógica da renovação, teríamos que comemorar o início de cada novo mês, e aprofundando mais a matéria, de cada dia. e afinal, assim é que deveria ser, porque cada novo despertar sobre essa terra tão cheia de miséria e beleza só pode ser um milagre.
mas parece que muito pouca gente se toca disso. às vezes é preciso uma professora primária perder as pernas para lembrar-nos do óbvio ululante.
e aí eu seguia desejando uma boa virada de ânus para todos etc. e para compensar a grosseria, recuperava dois trechinhos do "agora é que são elas", do cachorro doido polaco paulo leminski, um livro relido ao acaso no dia. e que não tinha nada a ver com o assunto, mas também não importava, era só pra ver se ao menos transcrevendo, a fluência dele passava um tiquinho que fosse pra mim.
(há muito deixei de querer sê-lo, bem como ao nelson rodrigues, mas isso é um outro capítulo apócrifo da minha vida...)
ei-lo:
Com aquela cara de homem fingindo estar interessado no papo de uma mulher apenas porque está com vontade de comê-la, com aquela cara de mulher costurando e bordando pensamentos apenas porque está afim de ser comida por ele, cheguei, caprichei, relaxei, lembrei de tudo o que tinha aprendido em Kant e Hegel, repassei toda a teoria dos quanta, a morfologia dos contos de magia de Propp, o vôo do 14-bis, cheguei e não perdoei:
- Tem fogo?
(...)
Isso lá é jeito de se chegar numa dona, conversar com uma senhora, hein, seu isso e aquilo, que pensou ter atingido a sabedoria? Mulher tem que ser abordada com vinte e cinco canhões de bolha de sabão, princesa e flor do oriente, rosa de incenso, filé minhon da parte esquerda do meu cérebro, abre os braços, isto é, os pássaros, isto é, faça-se luz, paradise me now...
29 dezembro 2003
dias interessantes
reza a lenda que uma das piores pragas que os ingleses rogam é desejar que um sujeito tenha "dias interessantes".
pois bem, os últimos dias até que tiveram sua cota de interesse - para minha sorte, para bem. e se o movimento no botequim continua fraco, paciência. pelo menos não tive muito tempo para pensar nisso.
terça-feira, véspera de natal, fui devolver uns filmes na cavídeo antes de zarpar para a casa de mamã. mas eis que um amigo me vê passar e me chama pelo celular. na mesa ele está com ex-namorada (ou namorada, não entendi bem a situação) e uma outra menina, amiga de amigas de outra galera. já de cara saquei que tinha angu naquele caroço, mas estava por demais elétrico no dia para me concentrar. além do mais, estava gostando da velocidade.
depois do natal, dia 26, fui com o povo de casa e mais dois amigos de salsão ver o último "senhor dos anéis". antes do filme, queimei a língua com um café comprado para evitar o sono. na noite anterior, inexplicavelmente virara a noite, só tendo ido dormir de nove da matina ao meio-dia. o filme é maravilhoso, mas quando o aragorn foi coroado, achei que ele viraria-se para câmera para repetir o bordão do mel brooks: "it's good to be the king". houve duas fugas para xixi durante a projeção, sem maiores danos. e o trailer do segundo homem-aranha, que me deixou bem empolgado.
depois fomos beber, e mais tarde, seguimos para a casa de um dos amigos do salsão, de onde saímos lá pelas cinco, mais sábios, depois de assistir ao show de tributo ao george harrison e algumas cenas do primeiro "senhor..." que não entraram na edição final.
ou seja, outra noite sem dormir.
aí, ontem teve festa aqui em casa, para comemorar o aniversário dos meus "pais". festa ótima, muitos amigos, rostos conhecidos, boa bebida e boa comida até de manhã. resultado: sono picado o dia inteiro, até à nove e meia da noite, mais ou menos.
não tenho tido muito do que me queixar, afinal de contas...apesar dos pesares - que não são poucos - os últimos dias têm sido gratificantes.
26 dezembro 2003
bertrand russel era fera, mas não era cristão
fragmento impecável que encontrei entre os argumentos expostos por russel no seu porque não sou cristão.
Como já disse, não creio que a verdadeira razão pela qual as pessoas aceitam a religião tenha algo que ver com argumentação. Aceitam a religião por motivos emocionais. Dizem-nos com freqüência que é muito errado atacar-se a religião, pois que a religião torna os homens virtuosos. Isso é o que me dizem; eu jamais o percebi. Conheceis, por certo, a paródia desse argumento, tal como é apresentado no livro Erewhom Revisited, de Samuel Butler. Vós vos lembrais de que, em Erewhom, há um certo Higgs que chega a um país remoto e que, após passar lá algum tempo, foge do país num balão. Vinte anos depois, volta ao mesmo país e encontra uma nova religião, na qual é ele adorado sob o nome de “Filho do Sol”, e na qual se afirma que ele subiu ao céu. Verifica que a Festa da Ascensão está prestes a ser celebrada, e ouve os Professores Hanky e Panky dizerem entre si que jamais puseram os olhos no tal Higgs e que esperam não o fazer jamais – mas eles são altos sacerdotes da religião do Filho do Sol. Higgs sente-se muito indignado e, aproximando-se deles, diz-lhes: “Vou desmascarar todo este embuste e dizer ao povo de Erewhom que se tratava apenas de mim, Higgs, e que subi num balão”. Responderam-lhe: “Não deve fazer isso, pois toda a moral deste país gira em torno desse mito e, se souberem que você não subiu aos céus, todos os seus habitantes se tornarão maus”. Persuadido disso, Higgs afasta-se do país silenciosamente.
Eis aí a idéia – a de que todos nós seríamos maus se não nos apegássemos à religião cristã. Parece-me que as pessoas que se apegaram a ela foram, em sua maioria, extremamente más. Tendes este fato curioso: quanto mais intensa a religião em qualquer época, e quanto mais profunda a crença dogmática, tanto maior a crueldade e tanto pior o estado das coisas. Nas chamadas Idades da Fé, quando os homens realmente acreditavam na religião cristã em toda a sua inteireza, houve a Inquisição, com as suas torturas; houve milhares de infelizes queimadas como feiticeiras – e houve toda a espécie de crueldade praticada sobre toda a espécie de gente em nome da religião.
Constatareis, se lançardes um olhar pelo mundo, que cada pequenino progresso verificado nos sentimentos humanos, cada melhoria no direito penal, cada passo no sentido da diminuição da guerra, cada passo no sentido de um melhor tratamento das raças de cor, e que toda diminuição da escravidão, todo o progresso moral havido no mundo, foram coisas combatidas sistematicamente pelas Igrejas estabelecidas do mundo. Digo, com toda convicção, que a religião cristã, tal como se acha organizada em suas Igrejas, foi e ainda é a principal inimiga do progresso no mundo.
como diriam os velhos anarquistas espenhóis, no começo do século passado: "o mundo só será realmente habitável quando o último rei for enforcado nas tripas do último padre".
ou algo assim.
mary crisma!
natal não é das épocas que mais gozam da minha simpatia. depois que deixei de ganhar a montanha de presentes da infância, então, nem se fala. além disso, não sou fã de peru (em nenhuma de suas manifestações), avelãs, nozes etc. mas o desse ano foi legal.
uma semana antes, minha mãe organizou um jantar na casa dela com a parentada do lado wanderley. um povo ótimo, mas que, estranhamente sempre ficava do lado mais comportado da sala nos pagodes (vai no dicionário!) da casa da minha vó. gente muito boa, com laços fortes entre eles, com tias portadoras da história da família.
o melhor de tudo é que não teve cara de natal. as crianças receberam presentes, e foi tudo. comemos, conversamos e nos divertimos.
na data propriamente dita, estava combinado de irmos para a casa de zé luis, em niterói. confesso que fiquei um pouco dividido entre a satisfação de passar com um pessoal muito animado, mas ao mesmo tempo, que me era totalmente desconhecido. e fora do meu território. mas, ok, vamos lá.
estava combinado de rolar uma leitura de poesias, o que achei por deveras chique. para mim, achei perfeito o o oitavo poema do guardador de rebanhos, de alberto caeiro, vulgo f'rnando p'ssoa.
como era de se esperar, a reação da minha mãe foi mesma de quando a li para minha irmã: ficou chocada. não adiantou argumentar que, apesar das blasfêmias, o menino zizús saía limpo da história, e que os dogmas da igreja católica são apenas representações falhas - e muitas vezes contraditórias - do espírito dos ensinamentos de jotacristo. mas qual, de nada adiantou meu latim. fiquei puto e, de pirraça, me recusei ler o beijo de papai, do meu bisavô eustórgio wanderley (calma, revisão!), já que era o único de nós que conhecia bem a métrica e que conseguia lê-la sem chorar. (no final das contas, já com várias na cabeça, eu a declamaria de bom grado, mas não houve impressora na casa, e "o beijo..." acabou ficando para o ano que vem.)
lá na casa do zé luis almoçamos, e depois o povo seguiu para decorar a outra casa, onde seria a festa. mas fiquei foi na rede, de papo pro ar, meio lendo o jornal, meio cochilando. aí o marim me ligou. disse que tinha comprado um carro, e estava passando lá para me dar um abraço de natal. carro é o cacete! era uma puta caminhonete mitsubishi, a diesel, com direito a cascata artificial com filhote de jacaré. rodamos até achar uma padaria aberta, onde trabalhamos uma cerveja boa, e depois ele me deixou em casa.
de noite apareceram os filhos e sobrinhos. uma molecada dos 25 aos 27, todos quase o dobro do meu tamanho, mas uma rapaziada engraçada e acolhedora. tava também a paula, de quem me haviam falado tanto. o repertório de palavrões no começo me deu um susto, mas depois me acostumei. eu mesmo tenho uma boca suja pra caralho...
amigo-oculto, ceia etc. aí veio a roda de poesias, cantei nelson cavaquinho acompanhado pelo zé luis, aprendia a tocar harpa de nariz, e terminamos a noite todos bailando e forrozando. ah, descobri que não sei dançar.
boa, a noite, boa.
depois segui com o marão para tomarmos a saideira, perto do country. tinha uma festiva onde toda niterói estava. inclusive os galalaus lá da minha festa, só que os caras tinham uns ingressos vips, que davam dierito a tudo de grátis. íamos mesmo apenas tomar uma cerveja, mas um amigo do marão me deu o convite que tinha sobrando. entramos, mas achei um bobódromo. cheguei de manhã em casa. minha irmã disse, para minha surpresa, que ronquei direto.
boa, a festa, boa.
22 dezembro 2003
telemerda e o fim da cidadania
há dias que não consigo mais ligar para celulares do meu telefone fixo. no finde, tive a idéia de tomar satisfações com a telemerda, mas como só lembrava disso nos horários mais desarrazoados, resolvi deixar pra hoje.
assim, descobri que fui vítima de uma armadilha semântica: através de uma atendente que provavelmente não leva o cérebro para o trabalho (ou será esse um pré-requisito para trabalhar nesse cargo? será que eles ganham adicional de insalubridade para aturar os maus-bofes de consumidores como eu? será que estamos, pela privação de alimentação e alternativas de educação, criando uma sub-casta como os ipsilones semi-imbecis do admirável mundo novo, do huxley? eu sei, sou obcecado por esse livro. mas, enfim, divago...), a atendente me informou que em novembro eles "habilitaram" esse serviço de bloqueio de celular.
- desabilitaram, você quer dizer.
- não, senhor. o serviço foi habilitado, e gratuitamente.
- não, você não me entendeu. vocês desabilitaram. se antes eu conseguia ligar para celulares e agora fui impedido de fazê-lo, eu deixo de ter um serviço à minha disposição, correto? fui, portanto, desabilitado.
- senhor, esse é um dos serviços que a tele... oferece ao custo de dois reais mensais.
- peraí! vocês não estão me cobrando por isso, não, é?
- não, senhor, o serviço foi oferecido gratuitamente para o senhor.
- mas se foi oferecido, como é que eu não fiquei sabendo? como é que vocês presumiram que eu queria fazer uso disso, se eu não disse nada? se não concordei com nada?
- a informação foi enviada junto com a a sua conta de novembro.
bom, diante disso, não havia mais o que fazer, a não ser pedir que me reabilitassem logo. não costumo ler as propagandas e demais chorumelas que eles me mandam.
mas tive mais uma prova da engrenagem do capital neoliberal: você não importa, mesmo que pague. antes, se você pagava, anida tinha direitos, era tratado de "doutor" e tinha lá sua cota de rapapés; hoje, nem isso. as decisões são tomadas à sua revelia, e você que se dane para acompanhá-las.
o consumidor, hoje o substituto do cidadão, tem que dançar conforme a música que tocam. e ai daquele que não puder sequer ser consumidor. perde o direito à própria dignidade humana; e um resquício de ética religiosa é o que os impede de desenvolver uma "solução final" efetiva aos párias do capital. no entanto, se as previsões de que, com a automação, 20% terão trabalho e 80% terão "tempo livre" (ô, eufemismo!), é bom preparar o pescoço para o fio da espada.
21 dezembro 2003
o anjo exterminador
hoje acordei piano, tranqüilão, mesmo, fiz café, li o jornal, molhei as plantas e pensei em ir pra praia. recebi a mãe do salsão, que veio dar um trato na tutuca (a gatinha da casa).
aí caí na esparrela de jack in (ah, neuromancer!...) pra ver os imeios. tinha um da duli, que levei um tempão respondendo. e me loguei aqui pra mandar um bostejinho, mas eis que topo com a grata surpresa de um comentário da conceição, que não vejo acho que desde o fim da faculdade. escrevi sobre ela há um tempo atrás, quando falei de ricardo reis. enfim, outro imeio.
bom, o saldo da brincadeira é que não consegui me desplugar. o tempo passou, nublou, não almocei e sequer consegui botar o nariz pra fora de casa. são quase nove da noite, tem um sambão comendo solto desde de tarde em algum lugar da rua e eu, nada. achei que era num terraço aqui em frente, mas não tenho certeza de onde vem a música.
além de não conseguir sair de casa, continuo sem celulari e, portanto, impossibilitado de entrar em contato com quem quer que seja.
para não dizer que estou apenas choramingando pelo dia (voluntariamente) perdido, encontrei no gravataí merengue uma história hilária sobre a aracy de almeida, contada pelo caetano.
quando se fala em aracy de almeida, a primeira imagem que me vem a cabeça é dela como jurada do sílvio santos. na época, já uma senhora, ela parecia uma bruxa de óculos escuros, emoldurada por um pixaim bléqui, com o humor de uma sogra com tpm. só anos depois é que fui entender porque era ela que gongava os calouros, ao som do famoso bordão "vai levar dez paus". mas chega de blábláblá e vamos à história, de 26 de novembro do corrente:
CAETANO VELOSO: "LETRA SÓ" E "SOBRE AS LETRAS"
Chegaram hoje os dois livros de Caetano Veloso, recém-lançados pela Companhia das Letras. "Letra Só" é uma compilação de letras de música. Uma boa para quem não tenha os encartes de todos os CDs. Para os que têm, que se presume sejam fãs, é uma ótima (pois para fã tudo do ídolo é ótimo). Tiro certeiro da editora.
Já "Sobre as Letras" é uma coisa mais interessante, sobretudo para os fãs. Caetano fala de suas letras, desfaz alguns postulados até então tidos como verdadeiros, e explica situações bem inusitadas. Gostei muito do pouco que li.
Uma vez falei da música "A Voz do Morto". Adoro a letra, adoro a melodia. Ele fez para a Aracy de Almeida, disso eu sabia. Mas não conhecia o contexto da coisa. É algo engraçado, faz parte da história da MPB (Aracy, Caetano e o contexto).
Quem quiser ouvir a gravação na voz do autor, precisa conseguir o "compacto duplo ao vivo", gravado com Mutantes (do qual constam, além dessa, "Baby", "Saudosismo" e "Marcianita"). Era o showzinho gravado na boate Sucata, paralelamente ao Festival da Globo de 1968 (em que CV tocou "É Proibido Proibir" e deu no que deu...).
Vejam como Caetano Veloso narra o episódio da composição:
"Assim como 'Baby' me foi sugerida por Bethânia, 'A Voz do Morto' me foi ditada pela Aracy de Almeida. Ela estava em São Paulo para fazer a Bienal do Samba, que era um festival só de sambas, e estava muito irritada com a ideologia em torno daquilo. Ela vei falar comigo: 'Pô, me tratar como glória nacional pensando que vão me salvar? Puta que o pariu, salvar o caralho! Estão pensando que vaão salvar o samba na televisão? Salvar o caralho! Quero que você faça um samba porque você que é o verdadeiro Noel, porque você é violento, você é novo!'. Era assim que ela falava para mim: 'Eu já estou por aqui, de saco cheio' - e ela pegava, como se tivesse saco mesmo -; 'Eu estou de saco cheio desse negócio de Noel Rosa, ter que arrastar esse morto pelo resto da vida. Quando eu canto é a voz desse morto! E ninguém me engana com essa porra não, de festival do samba. Faça uma música da pesada para eu gravar, esculhambando essa porra toda!'. Ela me ditou o samba! Fiz essa música, ela adorou e gravou"
Agora, a tal letra:
A VOZ DO MORTO - Caetano Veloso
Estamos aqui no tablado
Feito de ouro e de prata
De filó, de náilon
Eles querem salvar as glórias nacionais
As glórias nacionais
Coitados
Ninguém me salva
Ninguém me engana
Eu sou alegre
Eu sou contente
Eu sou cigana
Eu sou terrível
Eu sou o samba
A voz do morto
Os pés do torto
A vez do louco
A paz do mundo
Na glória
Na glória
Na glória
Na glória
Eu canto com o mundo que roda
Eu e Paulinho da Viola
Viva Paulinho da Viola
há algo de podre no reino da...dinamarca?
tenho desenvolvido a postura zen de não julgar nada. apenas observo os fatos, tentando reagir como o junco, que muda de atitude conforme a direção do vento. digo isso porque abri o noticiário do meu provedor (não digo o nome, ele não merece a propaganda), e me choquei com as notícias.
me corrijam se eu estiver errado (ou se eu começar outra frase com pronome oblíquo): ou existe uma conspiração tendenciosa entre as principais agências internacionais, ou humildemente percebo algo como um desequilíbrio de forças na política do oriente médio.
vejam as notícias de hoje (21/12):
Guerra no O. Médio :: 12:54:12
Israel está radiante com Kadafi, a prisão de Saddam e a pressão sobre Assad
Guerra no O. Médio :: 11:55:14
Catar intermediou entre EUA e Hamas para fim de ataques a civis
Guerra no O. Médio :: 10:35:07
Dois menores palestinos são mortos por soldados israelenses
Guerra no O. Médio :: 09:44:09
Um menino palestino de cinco anos é morto perto de Nablus
Guerra no O. Médio :: 09:18:15
Israelenses prendem autoridade do Hamas na Cisjordânia
Guerra no O. Médio :: 07:54:07
George W. Bush quer se "livrar" de Arafat, diz jornal
Guerra no O. Médio :: 07:15:09
Bush defende que "é preciso se livrar de Arafat", diz jornal
Guerra no O. Médio :: 07:05:11
Exército israelense detém porta-voz do Hamas na Cisjordânia
Guerra no O. Médio :: 06:54:10
Israel prendeu um importante chefe do Hamas na Cisjordânia
Guerra no O. Médio :: 06:15:09
Exército israelense destrói dois edifícios na zona de Rafah
papai noel/ vê se você tem/ a felicidade/ pra você me dar.
socorro!
20 dezembro 2003
depois da morte, à vida!
não sei porque, hoje acordei feliz. tarde, um solzinho frouxo e aconchegante me acorda depois dos dias de chuva e frio. sinto-me até humano.
tomo quase um litro de café, mas felizmente, a tranqüilidade não me abandona. aparece salsão, bota uns discos na vitrola (que nem temos em casa, mas como eu adoro a palavra!...), lemos jornal, conversamos. gabi está na vera, me conta ele.
tento entrar em contato com os amigos, mas os números estão todos no celulari, esquecido ontem na casa de mamã. fico triste por não poder falar com ninguém, mas feliz porque é menos uma tralha para carregar para a praia.
ainda espero um imeio dela, que nem sei se me escreverá, nem sei se me quer. bom, até espero, mas depois que as roupas saírem da máquina, nada mais me prende em casa. apenas, talvez, uma outra trouxa de roupas - há muito que não lavo nada.
mas não é nada disso que eu queria dizer; e sim que, depois de um ano de muito medo de tudo, o casulo se rompe e volto à vida, ao trabalho, ao samba, ao mestrado e às mulheres (não necessariamente nessa ordem).
2003 já vai tarde.
17 dezembro 2003
more farid (mó farid)
duas pessoas que eu sequer conhecia deixaram seu comentários sobre o nosso bróda farid ( no terceiro bostejo abaixo). e quando eu já achava que o assunto não mexeria mais comigo, os depoimentos trouxeram toda a emoção de volta à tona.
continua parecendo que tudo não passa de uma piada de mau-gosto, e que daqui a pouco, ele vai estar no telefone convidando para mais um show...
quando uns poucos amigos combinamos o encontro em homenagem ao negão, na quinta, a coisa toda talvez tivesse só o gostinho de uma combinação carioca, como os famosos "vou te ligar...", que adoramos pregar uns nos outros, sem, no entanto, a menor intenção de sacanearninguém. (talvez seja um traço cultural, uma herança geográfica, sei lá - mas acreditamos mesmo que vamos ligar depois, só que são tantas coisa a fazer, que ...)
de qualquer forma, amanhã (hoje) estarei pessoalmente empenhado em coordenar a galera toda do gaivotas & cercanias para o encontro.
summer fire (samir faia)
hoje foi um dia radiante para mim - e aqui não faço nenhuma ironia ao calor senegalesco que castigou a cidade, chegando a insuportáveis 41,5º. assim não se pode viver de maneira decente. recomendo à governadorazinha lançar a campanha do ar-condicionado a R$ 1,00.
enfim, radiante porque trabalhei muito bem, e acho que dei o pontapé inicial numa nova perspectiva de vida e de carreira, que promete render frutos a partir do ano que vem. preparem-se, pois ninguém me segura mais.
de noite, eu e tereza fomos comemorar à vera a última noite de trabalho do ano. espírito do chope, cobal do humaitá. lá chegamos de noitinha, vimos a chuva, e só saímos com os garçons já à paisana, loucos para irmos embora. farra como não vivíamos desde os tempos de faculdade.
à certa altura, liguei para a priscilla em busca do telefone da duli. ela não tinha, mas deu as coordenadas para consegui-lo. tenho que ligar para um cara que está na casa do claudio, para que ele encontre numa agenda o telefone da mãe dela, em curitiba. aí, quem sabe, eu consiga jogar uma lábia para conseguir o número de sampaulo. operação de guerra; mas, como disse o poeta, "tudo vale a pena...".
na carona de volta para casa, ouvimos uma velha canção do bob & erasmo de roterdã carlos, "não se esqueça de mim". se tivesse sido encomendada, não teria vindo em tão boa hora:
(algumas canções de amor de bob carlos são tão despudoradamentes emotivas que conseguem me deixar ao mesmo tempo tocado e envergonhado, por serem tão diretas. alguém já sentiu isso, ou só eu mesmo?)
Onde você estiver não se esqueça de mim
Com quem você estiver não se esqueça de mim
Eu quero apenas estar no seu pensamento
Por um momento pensar que você pensa em mim.
Onde você estiver não se esqueça de mim
Mesmo que exista outro amor que te faça feliz
Se resta em sua lembrança
Um pouco do muito que eu te quis
Onde você estiver não se esqueça de mim.
Onde você estiver não se esqueça de mim
Quando você se lembrar não se esqueça que eu
Que eu não consigo apagar
Você da minha minha vida
Onde você estiver não se esqueça de mim.
...
estou definitivamente babão.
16 dezembro 2003
happiness is a warm gun (rapinez esaú amigão)
tenho algumas restrições ao arnaldo jabor, mas não deixo de lê-lo sempre que posso. (assim como o olavo de carvalho, que todo sábado estimula minha produção de bile logo pela manhã, mas isso é outra história.) hoje, no entanto, ele conseguiu expressar um fenômeno que venho reparando muito ultimamente, em pessoas muito próximas a mim, inclusive.
felicidade não é sinônimo de consumo, nem tampouco de alienação. cada vez mais se confirmam minhas suspeitas de que estamos vivendo num tempo muito parecido com o descrito no admirável mundo novo, de huxley (o aldous).
A felicidade é a empada do Bigode
Arnaldo Jabor
No fim de ano todo mundo começa a falar: “Feliz Natal, feliz ano novo!”. Mas, ser feliz, como? O sujeito passou o ano todo quebrando a cara, reclamando da mulher, batendo nos filhos, lutando contra o desemprego, sendo humilhado pelos patrões, e aí chega o fim do ano e todo mundo diz: “Seja feliz!”. E aí o sujeito tem de estampar um sorriso alvar no rosto, uma baba simpática, um olhar vazado de luz bondosa, faz uma arvorezinha de Natal com bolotas coloridas, mata um peru magro e pensa: “Sou feliz! O ano que vem, vai melhorar!”.
Felicidade muda com a época. Antigamente, a felicidade era uma missão, a conquista de algo maior que nos coroasse de louros, a felicidade demandava o “sacrifício”, a luta por cima de obstáculos. Felicidade se construía — por sabedoria ou esforço criávamos condições de paz e alegria em nossas vidas.
Hoje, felicidade é ser desejado. Felicidade é ser consumido, é entrar num circuito comercial de sorrisos e festas e virar um objeto de consumo. Hoje, confundimos nosso destino com o destino das coisas... Uma salsicha é feliz? Os peitos de silicone são felizes?
A felicidade não é mais interna, contemplativa, não é a calma vivência do instante, ou a visão da beleza. A felicidade é ter um “bom funcionamento”. Marshall McLuhan falou que os meios de comunicação são extensões de nossos braços, olhos e ouvidos. Hoje, inverteram-se. Nós é que somos extensões das coisas. Fulano é a extensão de um banco, sicrano comporta-se como um celular, beltrana rebola feito um liquidificador. Assim como a mulher deseja ser um objeto de consumo, como um eletrodoméstico, um “avião”, uma máquina peituda, bunduda. Claro que mulheres lindas nos despertam fantasias sacanas mas, em seguida, pensamos: “E depois? Vou ter de conversar... e aí?”. Como conversar com um “avião” maravilhoso, mas idiota? (Aliás, dizem que uma das vantagens do Viagra é que, esperando o efeito, os homens conversam com as mulheres sobre tudo, até topam “discutir a relação”).
Mas o homem também quer ser “coisa”, só que mais ativa, como uma metralhadora, uma Ferrari, um torpedo inteligente e, mais que tudo, um grande pênis voador, pássaro superpotente, mas irresponsável, frívolo, que pousa e voa de novo, sem flacidez e sem angústias. Seu prazer é cumulativo, feito de apropriações indébitas, dando-lhe o glamour de uma eterna juventude que afasta a idéia de morte ou velhice.
E eu não falo isso como crítica. Não. Eu tenho inveja, a verde, viscosa e sinistra inveja dessa ausência de angústia, dessa ignorância gargalhante que adivinho sob os seios de mulheres gostosérrimas ou nos peitos raspados de garotões lindos. Quero ser feliz, mas carrego comigo lentidões, traumas, conflitos. Sinto-me aquém dos felizes de hoje. Posso ter uma crise de depressão em meio a uma orgia, não tenho o dom da gargalhada frouxa, posso broxar no auge de uma bacanal. Fui educado por jesuítas e pai severo, para quem o riso era quase um pecado. O narcisismo de butique de hoje reprime dúvidas e tristezas óbvias. Eles têm medo do medo e praticam uma espécie de fobia eufórica, uma síndrome de pânico ao avesso: gargalhadas de pavor. E ainda atribuem uma estranha “profundidade” a esta superficialidade, porque, hoje, esse diletantismo tem o charme raso de ser uma sabedoria elegante e “pós-tudo”.
Mas falo, falo e não digo o essencial. Hoje, a felicidade é entrar num pavilhão de privilegiados. Eu queria não pensar, queria ser um imbecil completo sem angústias — meus inimigos dirão: “Você tem tudo pra isso. Sou uma esponja que se deixa tocar por tudo, desde a crise da dívida pública até o muro da Cisjordânia. Lembro a personagem de Eça de Queiroz que dizia: “Como posso ser feliz se a Polônia sofre?”
Hoje, a felicidade está na relação direta com a capacidade de não ver, de negar, de “forcluir”, como dizem os lacanianos. Felicidade é uma lista de negativas. Não ter câncer, não ler jornal, não olhar os meninos miseráveis no sinal, não ver cadáveres na TV, não ter coração. O mundo esta tão sujo e terrível que a felicidade é se transformar num clone de si mesmo, num andróide sem sentimentos, sem esperança, sem futuro, só vivendo um presente longo, como uma rave sem fim. Pedem-me previsões para o ano que vem. Tudo pode acontecer. Quem imaginaria o 11 de Setembro?
Osama nos legou o fatalismo dos árabes. Daqui para frente, teremos de aprender com eles a dizer: “Maktub!” — tudo estava escrito, nada nos surpreenderá mais. Só nos restam a orientalização, a religião evangélica louca ou a “objetificação” do consumo. Ou, então, viver a felicidade das pequenas coisas. Outro dia, eu estava comendo uma empada de palmito na porta da Globo (na Kombi do Bigode, que faz as melhores empadas do mundo) quando, sem quê nem para quê, fui invadido por uma infinita ventura, uma felicidade que nunca tive. Durou uns minutos. Não sei a razão; acho que foi um protesto do corpo, um cansaço da depressão. Mas, logo depois, passou e voltei ao duro show da vida.
Hoje felicidade é o brilho de um solitário que suga o prazer, sem conflitos, sem afetos profundos, mas sempre com um sorriso simpático e congelado, porque é mais “comercial” ser alegre do que o velho herói dos anos 60, que carregava a dor do mundo. O herói feliz acha que não precisa de ninguém, que todos devem se aprisionar em seu charme, mas ele, a ninguém. Para o herói criado pela mídia, o mundo é um grande pudim a ser comido. Feliz Natal e feliz ano novo.
14 dezembro 2003
rest in peace, bro' (resta um piço, broa)
se sábado recebi dois imeios que salpicaram o dia com brilhos dourados, no domingo não tive tanta sorte. estava no parque lage, curtindo um piquenique com marçuda, uns amigos e seus filhotes. mas eis que toca o celulari da minha irmã. ela atende volta e dispara: mar, o farid morreu".
até agora, depois de escrever essa frase, ainda não consigo realizar o fato. um cara muito bom, da minha idade, torcedor do américa, músico de mão cheia, e, sem dúvida, o camarada mais alto-astral que eu já conheci, se foi num acidente de carro besta em cabo-frio.
nem éramos tão próximos, mas tínhamos afinidades musicais muito parecidas, o que redundava num carinho e numa admiração mútua muito grande. sempre fazíamos um carnaval quando nos encontrávamos. de tanto que eu andava ausente, as perguntas que ele fazia à marçuda sobre mim já tinham se tornado uma piada interna.
nos falamos pela última vez na quinta-feira passada, no samba que rola no planetário. conversamos bastante, e ele estava radiante pelos shows em que tinha tocado, e pelos que ainda ia tocar. contou como estava conseguindo encontrar o suíngue que tanto procurara com sua banda anterior, a Garapa, e os caras nem curtiam tanto. eu contei orgulhoso das minhas recentes incursões pelo mundo do samba, e combinamos de ir aos ensaios dos blocos de carnaval. também mexemos com minha prima, uma amiga e outras meninas que vinham conversar conosco.
agora ficamos todos seus órfãos. órfãos da sua simpatia e do seu carinho. alguns amigos mais próximos e que souberam mais cedo, se despencaram para cabo-frio para resolver as questões burocráticas de hospital, reconhecimento...
alguns ficaram dando uma força ao irmão e ao pai, e todos nós pensávamos em como contariam para a mãe dele, que não sabia ainda nem do acidente. ela, que além de tudo que se possa dizer do amor de mãe, ia a todos os seus shows, recebia de braços abertos uma cambada nos fins de semana na casa de saquarema.
...não me venham dizer que existe propósito em tanta dor inútil; não me venham falar de desígnios!
eu e minha irmã fomos encontrar alguns amigos no planetário, onde acabamos formando uma espécie de agência de notícias informal, recebendo e repassando as notícias que chegavam. e bebemos. lembramos histórias dele e com ele, e tentamos rir, pois era assim que o conhecíamos, e assim que ele talvez gostasse de nos ver, reagindo num momento de tristeza.
nesta próxima quinta, estamos pensando em homenageá-lo. um pretende fazer um mural com as fotos que tirou num dos shows do farid, outro levar os cds que ele gravou, e vamos todos beber juntos, à sua memória, mandando boas vibrações para que o nosso negão faça sua passagem numa boa, e que lá em cima ele se enturme logo com a galera pra arrebentar numa jam session divina, cheia de suíngue classe A.
é isso aí, irmão. alexandre, farid, negão, até algum dia...saiba que vais fazer falta...
12 dezembro 2003
i feel sick (a fio seque)
depois de muitas noites em que simplesmente esqueci de dormir, de alimentação irregular, de doses regulares de álcool (em ocasiões não-regulares), essa noite, en la casa de mami, comecei a sentir a garganta fechar, seguida de uma impertinente coriza. os sintomas não poderiam ser mais claros se estampados num autidór: "resfriado a caminho".
merda.
e para não fugir do tema, quando vinha pra casa me acometeu (epa!) uma dor de barriga de dar calafrios. achei que estava com febre, mas o corpo estava gelado. para evitar uma tragédia, inspirava e fazia uns movimentos com o abdômen para tentar inverter o peristaltismo. e ordenava o organismo para segurar por mais alguns minutos/kilômetros. barra pesada, hermanitos!
já na rua, encontro um camarada que conheci ontem no boteco cardosão. falei rapidinho e saí batido. suava. graças ao bom deus, deu tudo certo; mas acho que volto pra mami e fico piano nesse finde. amanhã tinha um showzinho de roquenrrou dos anos 80 na barra, mas diante da atual conjuntura, creio que declinarei. vídeos, cama e vitamina c, aí vou eu!
message in a bottle (massagem abalo)
apenas um náufrago, preso na ilha do meu próprio corpo, cercado de gente por todos os lados. "mais solidão", diz o sting, "que qualquer homem pode agüentar. Resgate-me antes que eu caia em desespero".
no entorno da ilha, graças a são sebá, também há montanhas, umas poucas matas nas encostas ainda não tomadas por favela, e também o samba - ritmo melancólico bom de cantar e de botar para mexer o esqueleto. e as praias, claro, as quais não posso mais ignorar, sob pena de começar a ser chamado para trabalhar como rebatedor de luz.
e à parte o desespero das perguntas aindas sem respostas, e da voz que ecoa no vazio, vivo bem. um resfriado anda brincando comigo, mas já já dou um jeito nele. são os excessos, meu pai, são os excessos, minha mãe...
voltemos à ilha: tento mantê-la da melhor maneira, mas às vezes a solidão me leva a arroubos que não compreendo ou controlo.
a mulher que um dia tomar posse dessa gleba, fértil e rica de novidades, corre o risco de, com jeito, desencavar um tesouro. embora já avise que não é fácil, pois está ele muito bem entocado. outras já tombaram tentando, e as poucas que porventura conseguiram tocá-lo, por algum atrapalhamento, deixaram a terra engoli-lo mais.
até hoje está la. mas o tempo, o inexorável passar das eras - ou quem sabe, os ventos de verão - está afastando a terra, a hera e o limo que o cobrem.
posso acreditar que ele deve estar pronto para ser escavado. e talvez até queira ser encontrado...quem sabe...
11 dezembro 2003
sobre a beleza da noite fatal
gosto muito da idéia da morte. calma, não sou um depressivo mórbido (pelo menos não mais que a maioria), mas me agrada muito a certeza desse evento único, o avesso e, ao mesmo tempo, o irmão gêmeo do nascimento, que nos iguala a todos, está sempre à distância do comprimento do braço esquerdo (não esqueci de ti, castañeda!), e do qual ninguém sabe absolutamente nada.
o caso é que o assunto me fascina, assim como as canções que tratam do tema, inclusas aí as parcerias de nelson cavaquinho e guilherme de brito, entre muitas outras. das quais destaco duas: indigo, do peter gabriel (cuja letra já foi bostejada aqui), e picasso's last words, do álbum band on the run, do bom e velho macca. percebam com que nobreza e elegância o sujeito, mesmo derrotado, prepara-se para o encontro definitivo.
a propósito da música, ouvi outro dia uma história, atribuída ao dustin hoffman, de que ele e um grupo de pessoas estavam passado um fim de semana com o mccartney, e que alguém perguntou ao músico sobre seu processo criativo. ao que ele respondeu que bastava sentar e propor-se a compor, que saía uma música. e pediu um tema qualquer para provar. picasso tinha morrido naquele dia, e alguém apontou-lhe a notícia no jornal. e macca foi, viu e venceu. saiu a canção abaixo.
quem me contou essa história disse que o dustin hoffman jurava que fora a única vez em que testemunhara a gênese de uma obra de arte.
Picasso's last words
The Grand Old Painter Died Last Night
His Paintings On The Wall
Before He Went He Bade Us Well
And Said Goodnight To Us All.
Drink To Me, Drink To My Health
You Know I Can't Drink Any More
Drink To Me, Drink To My Health
You Know I Can't Drink Any More
3 O'clock In The Morning
I'm Getting Ready For Bed
It Came Without A Warning
But I'll Be Waiting For You Baby
I'll Be Waiting For You There
So Drink To Me Drink To My Health
You Know I Can't Drink Any More
Drink To Me Drink To My Health
You Know I Can't Drink Any More...
odores familiares e nostálgicos
da rua, enquanto trabalho, vem um cheiro como o das gavetas de roupa do tempo em que morei no jardim botânico.
um cheiro fresco, quase como o de ozona (O3) ao se desprender do chão quando chove num dia de muito calor; mas ao mesmo tempo, ligeiramente perfumado, como um sabonete muito suave sobre a pele feminina recém saída do banho.
ah, nostalgia desgraçada!
hoje estou quase um casemiro de abreu:
Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
o último poema de amor
em 11 de janeiro de 1999 (portanto, há um mês de completar cinco anos...cinco anos! meu deus! parece que foi hontem!), ganhei uma antologia de poemas do neruda, que até hoje preservo como lembrança carinhosa de um tempo feliz.
é bem verdade que há muito não abria o livro, mas na madrugada de hoje saquei dele essa pérola, o último dos vinte poemas do volume "veinte poemas y una canción desesperada". segue em espanhol mesmo, tá mole de entender.
Puedo escribir los versos más tristes esta noche.
Escribir, por ejemplo: "La noche está estrellada
y tiritan, azules, los astros, a lo lejos".
El viento de la noche gira en el cielo y canta.
Puedo escribir los versos más tristes esta noche.
Yo la quise, y a veces ella también me quiso.
En las noches como ésta la tuve entre mis brazos.
La besé tantas veces bajo el cielo infinito.
Ella me quiso, a veces yo también la quería.
Cómo no haber amado a sus grandes ojos fijos.
Puedo escribir los versos más tristes esta noche.
Pensar que no la tengo. Sentir que la he perdido.
Oir la noche inmensa, más inmensa sin ella.
Y el verso cae al alma como al pasto el rocío.
Qué importa, que mi amor no pudiera guardarla.
La noche está estrellada y ella no está conmigo.
Eso es todo. A lo lejos alguien canta. A lo lejos.
Mi alma no se contenta con haberla perdido.
Como para acercarla mi mirada la busca.
Mi corazón la busca, y ella no está conmigo.
La misma noche que hace blanquear los mismos árboles.
Nosotros, los de entonces, ya no somos los mismos.
Ya no la quiero, es cierto, pero cuánto la quise.
Mi voz buscaba el viento para tocar su oído.
De otro. Será de otro. Como antes de mis besos.
Su voz, su cuerpo claro. Sus ojos infinitos.
Ya no la quiero, es cierto, pero tal vez la quiero.
Es tan corto el amor, y es tan largo el olvido.
Porque en noches como ésta la tuve entre mis brazos,
mi alma no se contenta con haberla perdido.
Aunque éste sea el último dolor que ella me causa,
y ésos sean los últimos versos que yo le escribo.
...
às musas que já cruzaram meu caminho.
10 dezembro 2003
fome de knut hamsun
semana passada terminei de ler "fome", do autor supracitado. há mais de 20 anos saiu a última edição em português, se não me engano, traduzida pelo drummond de andrade. há tempos percorro em vão os sebos atrás de um exemplar, até que tive que me contentar com uma edição em inglês que, pelo menos, tem uma bela introdução do issac bashevis singer.
bashevis singer explica que hamsun é o pai da narrativa moderna. frases curtas, mecanismos psicológicos do personagem etc. foram recursos - na época revolucionários - de que ele lançou mão. hoje as qualidades inovadoras do livro passam praticamente despercebidas, tanto seu estilo já foi copiado.
singer também desfaz as acusações de que hamsun teria sido partidário do nazismo. ele descreve inclusive uma foto em que o escritor, com então 80 anos, aparece apertando a mão de hilter. enquanto o primeiro apresenta um semblante visivelmente embaraçado, o açogueiro alemão o observa com desprezo, segundo singer. (tentei procurá-la pela internet, mas até agora, nada. se alguém (?) consegui-la, avisem-me.)
mas nada disso importa; e sim que o livro é uma pequena obra-prima. na cidade christiania, noruega, um sujeito de seus vinte anos, agoniza de fome enquanto tenta escrever artigos de jornal que lhe paguem a próxima refeição e o quarto de pensão. seu cérebro delira pela falta de alimento, enquanto os dias vão passando, e sempre que parece que seu destino é definitivo, ele consegue alguma coroas (a moeda local) que garantam seu sustento por mais alguns dias.
fiz uma tradução livre de uma das passagens que julguei mais fortes, quando nosso anti-herói pede um osso num açougue para tentar saciar sua fome. ele mastiga os pequenos pedaços de carne que vêm colados, mas o odor de sangue seco o faz vomitar. ele tenta de novo, mas o estômago é incapaz de reter a carne crua. entre lágrimas e vômitos sucessivos, ele se enfurece com sua sorte, na escuridão da noite:
Silêncio. Nenhuma pessoa à minha volta, nem luzes, nenhum som. Eu estava num estado selvagem, minha respiração pesada e audível, e soluçava, rangendo os dentes, toda vez que tinha que abandonar esses pedaços de carne que teriam satisfeito minha fome. Quando nada mais ajudava, a despeito do quanto eu tentasse, atirei o osso contra o portão, enlouquecido pelo mais impotente ódio. Levado pela ira, gritei e urrei ameaças aos céus, rouco e selvagem vociferei o nome de Deus, e dobrei meus dedos como garras...Eu te digo, seu Baal sagrado no céu, tu não existes, mas se existires, eu te amaldiçôo tanto que teu paraíso vai estremecer com o fogo do inferno! Sabes que me ofereci como teu servo, e me rejeitaste, me afastaste de ti, e agora dou-te as costas por toda a eternidade, porque não soubeste a hora de tua visitação! Eu te digo, sei que vou morrer, e zombo de ti do mesmo jeito, mesmo estando cara a cara com a morte, seu Apis dos céus! Usaste de força contra mim, mas não percebeste que ela não funciona comigo. Será que não viste? Será que estavas a dormir quando fizeste meu coração e minha alma? Eu te digo, toda minha energia e cada gota do meu sangue se regozija para que eu zombe de ti e cuspa nas tuas graças. De agora em diante, eu renuncio todos os teus trabalhos e todas as tuas formas, exilarei meus pensamentos mesmo que eles pensem em ti de novo, e rasgarei meus lábios se eles pronunciarem teu nome uma vez mais. Agora, se tu existes, direi-te minha palavra final na vida ou na morte, eu te digo adeus. E como estou mudo, viro-te as costas, e sigo meu caminho...
Silêncio.
tem alguém mexendo comigo?
foi lançado um livro chamado "Quem mexeu no meu sabonete?". tem também "Quem mexeu no meu queijo?", "Quem mexeu no meu queijo? - para jovens" e "Quem mexeu no meu hambúrguer?".
ou muito me engano, ou um surto de paranóia e mania de perseguição está acometendo os administradores do mundo todo.
as belas da noite
depois de trabalhar, fui com a tereza tomar um chope de fim de ano na cobal. o clima estava agradável e a lua estupidamente cheia desperdiçava beleza para um monte de bêbados incapazes de levantar os narizes acima das tulipas.
o cansaço acumulado das noites passadas estava me deixando muito disperso. mas também colaboravam as meninas, muitas. de todos os formatos, tamanhos e etnias, para todos os gostos. mal conseguia prestar atenção aos planos para o trabalho no ano que vem, às últimas pendências, e às questões filosóficas que nunca saem da nossa pauta.
mais tarde, voltando do banheiro, lembrei de uma frase de uma amiga, queixando-se de estar só no dia dos namorados. "o mundo é feito para casais".
achei-a exagerada na ocasião, mas o tempo e a solidão confirmaram a afirmativa. tudo é feito para dois e a dois. de publicidade às diárias de hotéis.
e ao meu redor, todas aquelas mulheres desfilando desacompanhadas. talvez o ximenes esteja certo com a coisa das homonóicas. o senso comum diz que não dá para viver só, mas ao mesmo tempo, há um esforço, uma propaganda, uma campanha subliminar, sei lá!, para vender homens e mulheres inatingíveis. as mulheres compraram isso, e salvo exceções, se tornam escravas de dietas, academias e cosméticos (a concorrência é grande, qualquer uma pode levar seu homem!), enquanto vivem a insatisfação oscilando entre o brucutu ("não respeita meus sentimentos") e o sensível ("será que é bicha?").
não que eu esteja reclamando, mas graças a esse padrão, caras como eu têm que utilizar de todas as artimanhas para conseguir alguma coisa.
ponto para as que sabem que o tempo urge, e que o importante é saber agarrar as oportunidades.
a bela da tarde
na segunda página do blogger, quando se entra para postar, há no canto direito superior uma lista de blogs recentemente mexidos. quase nunca dou importância a ela. hoje, entretanto, um dos nomes me chamou a atenção: belle de jour. como o filme homônimo do buñuel é conhecido em todo o mundo, o blog poderia ser de qualquer lugar. mas qual não foi a surpresa de descobrir que é um diário de uma suposta puta de londres.
li algumas coisas, e além de interessante é bem escrito.
me fez pensar que as pessoas talvez busquem nos blogs algum tipo de evasão através das experiências alheias. sei lá, divago. mas não acho que tenho feito esse espaço muito atrativo nos últimos tempos. talvez em tempo algum.
parafraseando "o iluminado", do stephen king (de quem eu devorava livros dos quinze aos dezessete):
pouco trabalho e pouca diversão fazem de marcelo um garoto tedioso.
09 dezembro 2003
quase cantei
aliás, no sábado, quase cantei the man in me. a vontade foi forte, mas segurei a onda.
...acho que se cantasse, dançava.
dois casamentos e um churrasco (e um show)
este foi o saldo dos últimos três dias: sábado e segunda-feira fui a dois casamentos de amigos. no domingo, teve um típico e folclórico churrascão de subúrbio e, mais tarde, um puta show cover dos beatles.
os dois casamentos foram vizinhos: o de sábado, no topo do forte do leme, a uns 800 metros de altura, com uma vista acachapante estendendo-se desde a baía até o fim de copacabana. o de segunda, foi morro abaixo, no salão do círculo militar, de frente para a praia vermelha.
(aliás, só entende o nome da praia quem vem do mar. à distância, a areia adquire uma coloração avermelhada. já fiz a experiência uma vez, num veleiro.)
no sábado, valsei com minha irmã, forrozei com uma curitibana espetacular, e bailei esse tal de roquenrrou. tomei "chicote" selo preto, e, pasmem! peguei o buquê da noiva. terminamos, umas treze pessoas, na suíte dos noivos, bebendo prosecco (me segurei para não fazer um trocadilho de baixíssimo calão) no gargalo. resumindo, uma pândega.
depois fui à praia, brinquei muito, suei tudo o que podia e o que não podia, e acabei chegando em casa às sete e tal da matina, nas nuvens, com o espírito leve leve de alegria.
às onze acordei, piano, e fui devidamente rebocado para a casa de uma ex-empregada que foi praticamente criada com a minha mãe. zarpamos para o caju, depois do cemitério e do arsenal de guerra da cidade. ela se emocionou quando nos viu chegar, e nós também. e a parentaia estava toda lá. uma festa como nos tempos da casa da minha vó. e tome cerveja, e tome papo, e tome churrasco (ela cozinha às pampas). nos fez questão de mostrar a casa, apresentar a família etc. digam o que disserem, a velha cortesia e a gentileza sobrevivem no subúrbio. gente de peito aberto, recebendo com carinho e com fartura, sem desconfiança.
o filho dela, meu chapinha de brincadeiras e implicâncias dna infância, é professor de percussão e sax, e toca no centro de artes e cultura banto - ou algo assim, não estou muito certo do nome - lá na lapa. do lado do casarão do grupo de teatro tá na rua. quando falei que tava arranhando uma caixa no Laranjada, me chamou para participar das aulas de bateria do bloco dele. aceitei na hora, e se deus quiser, sexta à noite tô eu lá, mais banto do que nunca. negão de nascença.
cheguei em casa, dei uma dormida, e às nove tava tinindo para assistir a mais um show da pepperband. os caras fazem cover dos beatles, e são tão bons que já ganharam prêmio de melhor banda no concurso promovido pelo cavern club, de liverpool. concorrendo com gente do mundo inteiro. neguinho é foda.
todo o primeiro e terceiro domingos do mês eles tocam no far up, na cobal do humaitá. a sensação é a de estar ouvindo o quarteto ao vivo. de arrepiar. entre outras coisas, tocaram a day in the life, e tive que me segurar para as lágrimas não descerem. essa é, por sinal, a interpretação mais pungente do john lennon, na minha opinião. a única que me faz lembrar "putz! john lennon morreu!..." .
os caras não fazem feio. todos cantam, e os efeitos sonoros de estúdio e orquestrações estão todas lá. um dos integrantes é meu bróder de colégio militar, gustavo camardela, na guitarra solo e nos vocais de deixar o paul mccartney de queixo caído.
o casório de ontem também foi jóia. outra faixa etária, universitários. muita dança, biritinha e bifê de primeira. depois conheci um camarada gente fina, e fomos com um grupo para o espírito do chope. lá encontrei mais alguns amigos, e acabei chegando em casa um pouco mais tarde do que devia.
minha maré está definitivamente mudando para melhor. sinto no ar. basta uma sintonia fina minha com o mundo, e de 2004 em diante, ninguém me segura.
caô cabecile, meu pai Xangô!
06 dezembro 2003
meu mundo é hoje
salsão chegou em casa com o disco do filme sobre o paulinho da viola.
devo confessar que, tempos atrás, não era muito chegado no cara. achava meio choroso, voz pequena etc. ... tava acostumado com monarco, candeia...vozeirão, sacumé? mas, ao contrário do zé keti, mudei de opinião. e a prova do mau julgamento é essa pérola cantada, de autoria de wilson e josé batista (irmãos?):
eu sou assim, quem quiser gostar de mim eu sou assim
meu mundo é hoje não existe amanhã pra mim
e tenho dito.
03 dezembro 2003
suassuna e collor
é quase um pecado conspurcar o nome de mestre Ariano Suassuna situando-o ao lado do (pé-de-pato, mangalô três vezes!) ex-presidente cheirando collor de mello.
é que ontem estava na casa da minha mãe e assisti os dois na tevê (não juntos, claro). primeiro o collor na gimenez, com um orte de cabelo inacreditável de ridículo, tentando passar uma imagem de bom-moço-injustiçado. acredito que ele estava dopado, tamanha sua calma. no auditório, a ex-primeira fuinha rosane collor. magra pacas, era só olhos, gengivas e limpa-trilhos. tão esticada que não deve conseguir mais piscar (os olhos!). deve ser um castigo ser condenado a dar de cara com aquele tribufu toda manhã. mas ele merece muito mais...
depois, a redenção com Ariano Suassuna, na tevê senac. na pauta, o de sempre: o sucesso de sua obra, a origem de seus personagens, o brasil oficial e o brasil real, conceitos apropriados de Machado de Assis, e a globalização. sobre essa última, deu show.
separou globalização desse novo colonialismo cultural que nos tem sido impingido. "por ser internacionalista é que sou contra essa falsa internacionalização", sapecou. e concluiu dizendo que a cultura deve ser sim, mundial, mas que "na vasta sinfonia da cultura universal, cada país deve contribuir, igualmente, com sua nota. e não apenas receber o lixo que vem de fora".
óbvio, mas é o tipo de declaração que nunca é suficientemente repetida.
assino embaixo e dou fé.
02 dezembro 2003
o samba é meu dom
...com uma certa dose de presunção de minha parte, faço minhas as palavras do bamba Wilson das Neves:
O samba é meu dom
Aprendi bater samba
Ao compasso do meu coração
De quadra, de enredo
De roda na palma da mão
De breque, de partido alto
E o samba-canção
O samba é meu dom
Aprendi dançar samba
Vendo o samba de pé no chão
No Império Serrano
A escola da minha paixão
No terreiro, na rua, no bar
Gafieira e salão
O samba é meu dom
Aprendi cantar samba
Com quem dele fez profissão
Mario Reis, Vasourinha,
Ataulfo, Ismael, Jamelão
Com Roberto Silva, Sinhô,
Donga, Cyro e João
O samba é meu dom
Aprendi muito samba
Com quem sempre fez samba bom
Silas, Zinco, Aniceto, Anescar
Cachinê, Jaguarão,
Zé-com-Fome, Herivelto,
Marçal, Mirabeau, Henricão
O samba é meu dom
É no samba que eu vivo
É do samba que eu ganho
O meu pão
E é num samba que eu quero morrer
De baquetas na mão
Pois quem é do samba
Meu nome não esquece mais não.
...
Salve, padrinho!
o samba volta à vida (à minha)
as memórias musicais mais marcantes da minha infância são bete carvalho cantando "coisinha do pai" e maria alcina interpretando "kid cavaquinho", ouvidas na rádio mundial, lá na tijuca, com a minha irmã bete. tinha também o elvis (de quem assisti o último show, transmitido pela tevê), a "melô da asa delta", o peter frampton, a nikka costa (minha primeira paixão infantil, depois da minha prima renata, aos quatro anos), mas o grosso era samba, mesmo.
aí fui morar nos estados zunidos, e como era de se esperar, voltei intoxicado, nem tanto pelo roquenrrou, mas por um popizinho muito do sem vergonha. com o tempo, os representantes da língua inglesa tornaram-se mais encorpados, e vieram beatles, ella, billie holliday, louis armstrong, dave brubeck, e porque não, black sabbath, sex pistols, dead kennedys e outros que tais.
com a adolescência afloraram a revolta, o comunismo, a maconha, o álcool, o sexo e descoberta da psicodelia dos mutantes, mais a poesia de chico, gil & caetano, joba, giba, dorival e nana. até o dia em que esbarrei nos discos do meu primo paulinho, em especial na coleção completa de música brasileira lançada pela editora abril nas bancas, nos anos 70. foi uma epifania embalada por pixinguinha, donga, joão da bahiana, blecaute, mario reis, chico viola, quatro ases e um coringa, aracy de almeida, sinhô, herivelto martins, geraldo pereira, dolores duran, e ela, a maior de todas, a divina elizete cardoso.
eu e meu bróder joão trocávamos figurinhas musicais, ele na viola e eu assassinando os vocais. depois veio o ricardo, nos apresentado pela ana sylvia. daí para a criação do cordão do boitatá foi um pulo, questão de reunir mais uma galera.
mas como diria chico, por conta de umas questões paralelas, me retirei do grupo. logo em seguida, o núcleo passou por uma fissão, e alguns dos treze integrantes partiram para projetos próprios, mais identificados com os gostos individuais. mas o carinho permaneceu.
tô enrolando à vera pra contar que o motivo de tudo foi eu ter ido na sexta passada ao "flor do chorume". pra quem não conhece, é o samba da rua do mercado, onde ficava a bolsa de valres, no centro, já tinha ouvido falar, mas nunca tinha dado às caras lá. e qual não foi minha surpresa ao topar com a gangue toda do boitatá, que além de comandar o espetáculo, comemorava a última promissória paga de um casarão que compraram, lá mesmo, em parceria com o abayomi (das bonequinhas negras) e o teatro do anônimo. a felicidade e o samba me contagiaram. e fiquei feliz quando o ricardo me apresentou numa roda como um dos criadores do boitatá.
no sábado, salsão, gabi e marçuda e eu fomos ao candongueiro, no lançamento da biografia do adoniran pelo andré diniz e patroa, a juliana. putaquiupariu! o lugar é demais, e o melhor é que fica a um espirro da casa do zé luis, namorado de mi mamã. tamos combinandos, mái sister e eu, de voltarmos lá no sábado pra ver a teresa cristina.
e por último, mas não menos importante, está o Laranjada Samba Clube, o bloco aqui da general glicério, do qual farei parte da bateria, se deus quiser. para isso, venho atacando uma caixa toda segunda. já tô conseguindo enganar legal, e no sábado de carná pretendo estar tinindo.
o samba, meus amigos, é a suprema felicidade. é inspirador de uma alegria que eu não sentia desde os tempos do boitatá, e da qual eu andei afastado tanto tempo. a alegria de participar, de misturar-se à massa e ser - cantando, tocando, dançando ou simplesmente curtindo - parte importante de uma totalidade de prazer. o sonho de fusão que os regimes totalitários tentaram através da coerção pela violência e pelo medo, e por isso fracassaram.
o samba é a grande utopia.