não sou um sujeito que se pode chamar de caridoso. afora amigos e conhecidos, tenho dificuldade em fazer algo para meu "próximo". mas como me afeta a visão de idosos e crianças vivendo nas ruas, em meio ao lixo, ajudo doando coisas concretas, como roupas e sangue (sou doador voluntário há alguns anos). entretanto, acho difícil dispor de conceitos abstratos como "atenção", "tempo" e "dinheiro".
não sou um um sujeito que se pode chamar de ecológico. não reciclo lixo, e não dou muita importância para a amazônia, o aquedimento global e as baleias. mas como me afeta o calor crescente e a iminência de outro apagão, fiz da economia de água e luz um hábito. e só tomo banhos frios (o que me imunizou quase definitivamente a resfriados e me deixou mais resistente a baixas temperaturas). pensando também na manutenção do ecossistema, não faço a menor questão de ter filhos.
considero essa uma decisão ecológica. não passando adiante meus genes (não me entendam mal, não há nada de errado com eles. e pelo que tenho visto pela aí, até que eles estão acima da média), evito a superpopulação, problemas de espaço e o esgotamento dos recursos naturais e energéticos. e ainda estaria colaborando para minimizar o problema das crianças abandonadas.
se o papel do macho na manutenção do equilíbrio social já é questionável, na reprodução ele tornou-se praticamente secundário. de maneira que prefiro passar adiante meu "legado intelectual", por mais buracos e falhas que ele tenha. agrada-me mais minha perpetuação enquanto idéia do que biologicamente. ao contrário das fêmeas, que através da concepção sentem o milagre da continuidade da espécie, aos homens resta o consolo de tentar alcançar a imortalidade histórica.
talvez eu seja egoísta demais para dividir minha liberdade tardia, conquistada com tanto sacrifício, cuidando de outra vida. se mal comecei a aprender a administrar a minha... é que, como bom geminiano, considero que as crianças só se tornam seres dignos de interesse quando começam a desenvolver a comunicação verbal. antes disso, prefiro os gatos, que pelo menos são independentes o suficiente para saberem usar a caixa de areia sem ajuda externa.
pode ser que algum dia eu venha a ser pai biológico, e tenho a certeza de que se isso acontecer, serei o mais babão dos pais. mas enquanto estivermos no terreno das hipóteses, prefiro "adotar" o filho de alguma namorada e queimar a etapa das fraldas & choro noturno.
09 julho 2007
"filhos, melhor não tê-los", disse o poeta
08 julho 2007
05 julho 2007
"who's on first?"
hoje, no trabalho, ouvi trechos de um diálogo entre dois caras de outro setor que trabalham na mesma sala que eu. era algo mais ou menos assim:
- Eu queria saber o nome daquela revista...
- Quem.
- Eu. Você sabe o nome da revista?
- Quem.
- Você! Estou perguntando para você o nome da revista!
- Quem.
- Eu! Eu queria saber...
e por aí vai.
foi muito engraçado ver a referência ao famoso esquete da dupla abbott & costello, que a maioria conhece através das repetições autistas do personagem do dustin hoffman em rain man.
alguns anos depois do filme, recebi por imeio uma paródia, utilizando como personagens o bush e a condoleezza rice. mas o diálogo mesmo, esse eu nunca tinha ouvido. até que encontrei o esquete original, e com áudio (no pé da página).
dá gosto ouvir o domínio da dupla do timing de comédia.
30 junho 2007
machadiana
"folhas misérrimas do meu cipreste",
não se preste
não se empreste
a vida, vide,
não é um teste.
"heis de cair".
28 junho 2007
o mundo não perdoa
num desdobramento do caso sirley, o pai de um dos envolvidos, ao sair da polinter, declarou:
Minha vida acabou, e a do meu filho também. Quem vai dar emprego para ele?
caro seu ludovico [é o nome do cara], a única lição que o senhor deveria ter dado para o seu filho, a mais basal e ao mesmo tempo mais importante para o convívio em sociedade, a única que separa o ser humano das bestas, é a responsabilidade pelos próprios atos.
isso claramente não foi ensinado. agora, como dizia minha mãe, o mundo vai ensiná-lo.
e o mundo é um professor severo. cqd.
ode ao trabalho
não gosto de trabalhar. ponto.
gosto, sim, de viver. ler, ir ao cinema, passear, desenhar, beber, bater papo com os amigos, me vestir confortavelmente, comer bem e ter mobilidade - seja viajar ou ter livre acesso para freqüentar os lugares que me apeteçam. e se a regra do jogo estipula que para eu realizar minhas vontades, eu precise de dinheiro, e principalmente, que para ganhá-lo eu precise trabalhar, assim o farei.
posso então afirmar que o único motivo que me faz acordar de manhã, me arrumar, tomar um ônibus e perder oito horas do meu dia esquentando uma cadeira em frente ao computador, engordando e cultivando uma tendinite no braço direito, é grana.
alguns me perguntam, de olhos rútilos (obrigado, nelson rodrigues), se não busco satisfação ou realização no trabalho. a esses respondo, fatal como um tiro de fuzil: não. realização eu vou ter nas atividades que enumerei no primeiro parágrafo. no trabalho, não.
não alimento a menor ilusão de alcançar qualquer forma de prazer com o trabalho. trabalho é trabalho, prazer é outra coisa. está na bíblia. o oposto do paraíso é o trabalho. o máximo de pretensão profissional que almejo é ter o mínimo de aporrinhações.
agora, não gostar de trabalhar não significa que enquanto estiver gastando minha vida dentro de um escritório, não farei tudo que seu mestre mandar da melhor maneira possível. e isso é o ápice da coerência, pois mais do que ao trabalho, tenho ojeriza a aborrecimentos. se me exigirem iniciativa, terei iniciativa. se me cobrarem criatividade, assim o serei. se nada pedirem, mas sempre pedem algo. e eu dou.
se não gosto de trabalho, abomino igualmente tudo o que faça parte de seu ambiente ou se relacione a ele. por isso não gosto de fofocas de corredor, boatos e antecipações. tento não sofrer angústias. e como estou longe de ser um camarada depressivo, é bem verdade que no meio dessa sarabanda, tento me divertir, para não transformar tudo em calvário.
sou fascinado por gente, sua beleza e sua miséria. portanto, trato a todos com educação e equanimidade. eventualmente faço alguns amigos. como todos os outros que já passaram por mim, alguns ficam. mas nem quanto a isso tenho pretensão.
e para terminar esse texto, que já nem eu agüento mais, deixo um trecho do antigo testamento que aprendi hoje. não sei se o que reproduzo condiz com a mensagem bíblica, mas me vale agora. livro de eclesiastes, capítulo 2, versículos 22 a 26.
22 Pois, que alcança o homem com todo o seu trabalho e com a fadiga em que ele anda trabalhando debaixo do sol?
23 Porque todos os seus dias são dores, e o seu trabalho é vexação; nem de noite o seu coração descansa. Também isso é vaidade.
24 Não há nada melhor para o homem do que comer e beber, e fazer que a sua alma goze do bem do seu trabalho. Vi que também isso vem da mão de Deus.
25 Pois quem pode comer, ou quem pode gozar, melhor do que eu?
26 Porque ao homem que lhe agrada, Deus dá sabedoria, e conhecimento, e alegria; mas ao pecador dá trabalho, para que ele ajunte e amontoe, a fim de dá-lo àquele que agrada a Deus. Também isso é vaidade e desejo vão.
22 junho 2007
pára tudo!
sabe cotidiano, do chico buarque?
pois é, o lessa me apresentou uma música que, na minha concepção, seria a "visão" do raul seixas.
É fim de mês
É fim de mês, é fim de mês, é fim de mês, é fim de mês, é fim de mês!
Eu já paguei a conta do meu telefone,
Eu já paguei por eu falar e já paguei por eu ouvir.
Eu já paguei a luz, o gás, o apartamento
Quitinete de um quarto que eu comprei a prestação
Pela caixa federal, au, au, au,
Eu não sou cachorro não (não, não, não)!
Eu liquidei a prestação do paletó, do meu sapato, da camisa
Que eu comprei pra domingar com o meu amor
Lá no Cristo, lá no Cristo Redentor, ela gostou (oh!) e mergulhou (oh!)
E o fim de mês vem outra vez!
E o fim de mês vem outra vez!
Eu já paguei o peg-pag, meu pecado,
Mais a conta do rosário que eu comprei pra mim rezar ave maria.
Eu também sou filho de deus
Se eu não rezar eu não vou pro céu,
Céu, céu, céu.
Já fui pantera, já fui hippie, beatnik,
Tinha o símbolo da paz pendurado no pescoço
Porque nego disse a mim que era o caminho da salvação.
Já fui católico, budista, protestante,
Tenho livros na estante, todos têm a explicação.
Mas não achei!
Eu procurei!
Pra você ver que procurei,
Eu procurei fumar cigarro hollywood,
Que a televisão me diz que é o cigarro de sucesso.
Eu sou sucesso! eu sou sucesso!
No posto esso encho o tanque do meu carro
Bebo em troca meu cafezinho, cortesia da matriz.
"there's a tiger no chassis"...
Do fim do mês,
Do fim de mês,
Do fim de mês eu já sou freguês!
Eu já paguei o meu pecado na capela
Sob a luz de sete velas que eu comprei pro meu senhor
Do bonfim, olhai por mim!
Tô terminando a prestação do meu buraco, do
Meu lugar no cemitério pra não me preocupar
De não mais ter onde morrer.
Ainda bem que no mês que vem,
Posso morrer, já tenho o meu tumbão, o meu tumbão!
Eu consultei e acreditei no velho papo do tal psiquiatra
Que te ensina como é você vive alegremente,
Acomodado e conformado de pagar tudo calado,
Sem bancar o empregado sem jamais se aborrecer...
(Ele só que, só pensa em analisar, na profissão seu dever é adaptar, ele só que só pensa em adaptar, na profissão seu dever é adaptar)
Eu já paguei a prestação da geladeira,
Do açougue fedorento que me vende carne podre
Que eu tenho que comer,
Que engolir sem vomitar,
Quando às vezes desconfio
Se é gato, jegue ou mula
Aquele talho de acém que eu comprei pra minha patroa
Pra ela não me apoquentar,
E o fim de mês vem outra vez...
21 junho 2007
carne nova no pedaço!
tem blog novo e bão aí do lado: foreign mama, da judith. amiga de outros carnavais, hoje sabe a dor e a delícia de ser mãe de guri pequeno em san francisco. tá em inglês, mas tem versão em português, embora ela não a atualize. sabe como é, o moleque é exigente...
o eric, meu colega de trabalho e cada vez mais amigo de infância, fala para o mundo direto do trem. o cara é tão bom de ler quanto o lessa, que também sua com a gente para tirar o pão, e ainda tem que me aturar ao seu lado todo dia.
o último, ms não menos importante, é uma receita que leva um monte de jornalista fera e doses cavalares de inteligência e ironia embebidas em uísque. misture tudo, chacoalhe a cabeça, e o resultado será uma sopa de tamanco que é, como eles dizem, pau puro!
saboreiem sem moderação!
Âpideite:
Esqueci de citar a deborah e o tom. eles se conheceram, namoraram, casaram, engravidaram, foram morar nas estranjas, e fizeram um blog. até o presente momento, o lucas ainda não nasceu...
19 junho 2007
no meio do caminho tinha uma pedra do reino
sou fã do ariano suassuna desde os 14 anos, quando, ainda aluno do colégio militar, fui obrigado a ler o auto da compadecida. outro dia, uma amiga até apontou a ironia do fato: uma instituição que prima pela seriedade marcial incluir em seu conteúdo programático uma obra tão irreverente.
talvez eles estivessem vendo adiante, porque além deste livro e dos já manjados machados (dom casmurro, o alienista e quincas borba), tive contato com o socialismo cristão de érico veríssimo (olhai os lírios do campo), o naturalismo contundente de aluízio azevedo (o cortiço), além de um volume de contos de diversos autores, que incluía, entre outros, mario de andrade (o peru de natal) e aníbal machado (a morte da porta-estandarte).
voltando ao mestre ariano, seu livro em nada me atraiu: a capa não denunciava nada de seu conteúdo, e a palavra "auto" não fazia parte do meu repertório lingüístico. compadecida eu até sabia o que era, mas esse diabo de "auto" era fogo. e tudo era estranho: a linguagem, os personagens ("chicó"?! porque não "chico"?!) e as situações (enterro de cachorro?!). acho que só fui entender a ironia quando fui fisgado pelo episódio do gato que descome dinheiro. a partir dali, nascia para mim um clássico absoluto.
de lá para cá, minha admiração pelo autor só aumentou. devorei e assisti a várias montagens desse e de outros títulos, e até consegui trocar duas palavras com o autor ao praticamente esbarrar com ele numa bienal de são paulo ("a mim me impressionou muito a obra de klee. e pode botar aí que gostei muito da tauromaquia do picasso", disse o mestre a um assombrado marcelo, então estudante de jornalismo que cobria a exposição para um jornal comunista). o auge foi a leitura d'o romance da pedra do reino, numa edição encontrada num sebo do catete, depois de muita sola de sapato gasta. já reli o tijolo uma vez, e pretendo repetir a dose em breve.
por isso, esperei com muita ansiedade e expectativa a transposição para a telinha da história de dom pedro dinis quaderna, o decifrador. na noite de estréia, me reuni a um grupo de pessoas na casa de uma amiga arianófila. estava ciente de que luis fernando carvalho não é guel arraes. enquanto este consegue um equilíbrio perfeito entre obra comercial e artística, o primeiro tem lá seus fumos autorais. à parte isso, considero lavoura arcaica uma pequena jóia do cinema de todos os tempos.
mas na minha humilde opinião, na pedra... ele errou a mão feio. muitas informações visuais e sonoras ao mesmo tempo, com um monte de close-ups que acabavam prejudicando o trabalho de corpo dos atores, cenários e figurinos, além do excesso de cortes "videoclípicos", que deixavam a continuidade narrativa muito quebrada. a história, que já não é muito acessível, foi muito prejudicada, e deve ter assustado muita gente à espera das estripulias de um outro joão grilo.
o resultado me deixou tão decepcionado que nem tive ânimo de ver os outros dias. mas não fui só eu. na coluna do ancelmo gois (a quem tarso de castro acusou de ser "analfabeto até no nome"), leio que o gravador j. borges faz coro comigo. reproduzo a nota:
Enviado por Ancelmo Gois - 16.6.2007| 20h17m
Ariano Suassuna
J. Borges: Pedra do Reino não tem nada de Nordeste
O xilógrafo J. Borges, considerado o melhor do Nordeste, na opinião do amigo Ariano Suassuna, não viu e não gostou da versão televisiva de "A Pedro do Reino":
- Vi apenas o comercial porque o programa passa muito tarde. Mas ouvi vários comentários. Eles fizeram uma coisa que nem parece ter sido feita no Nordeste. Parecem umas figuras romanas. Muito esquisito, muito feio. Aquilo não tem nada do Nordeste. O povo aqui está dizendo que não se encaixa bem com o livro.
18 junho 2007
balada para seu geraldo
rapaz, tenho andado numa preguiça monstruosa.
desconfio que a razão tenha sido o abandono temporário da ioga, fruto de uma súbita e inesperada falta de grana, que me levou à alguma descompensação físico-química.
é bem verdade que o computador queimado também pode ter colaborado, já que, como "webdependente", sem acesso à rede eu não acho nada engraçado, macaco, praia, carro, jornal, tobogã, eu acho tudo isso um saco...
ainda teve um caso que mexeu comigo. no dia do meu aniversário, um camarada do trabalho me mostrou um site de biorritmo, apresentado como exemplo numa apostila do curso de java que ele está fazendo.
na maior boa-intenção, o caboclo digitou minha data de nascimento e voilá!, o resultado pelos quinze dias seguintes era uma curva descendente até o zero nos quesitos saúde e grana.
dei uma risada cética, mas batata! dali a dois dias perdi meu cartão de débito do banco, e estou até hoje num "gripa-não-gripa" que me levou ao ponto de ir à farmácia comprar xarope, coisa que não faço há uns quinze anos.
enfim, meu ânimo tem andado meio down the high society, por mais que meu hemisfério palhaço não demonstre a fraqueza...
o caso anda tão crítico que nem perna bem-feita de moça tem me tirado da letargia.
entretanto, nos últimos dois dias, devo ter ouvido algum indiano encantador de serpentes, porque a curva aos poucos tem dado sinais de vida.
sábado eu varri os dois dedos de poeira e "cabelhos" acumulados pela casa, que já conspiravam para me despejar. ontem limpei o banheiro, lavei roupa & louça e, pasmem!, fui dar um "chêgo" na praia.
nesse passeio senti um daqueles momentos mágicos de solitude absoluta que me levam a um estado de comunhão com tudo e com todos.
talvez deus seja um troço tão bom quanto isso.
********
enrolei até aqui, mas meu objetivo era contar uma cena que presenciei, e que despertou lembranças muito profundas de criança. em determinado momento da caminhada, passaram por mim um jovem pai e seu filho de uns onze anos.
eles vinham pela pista fechada da praia, tocando uma bola de futebol. o garoto, de chinelos, ia mais à frente, e apresentava bastante desenvoltura com a pelota, apesar do calçado inadequado.
o fato lembrou-me de quando eu batia bola com os garotos da mesma idade, no playground do meu prédio, na gávea. desde aquela época, eu já não levava muito jeito para futebol, mas ainda tentava, para não ficar de fora da brincadeira.
uma vez, voltávamos meu pai e eu de uma praia domingueira, e me juntei à molecada num jogo de "golzinho" (era esse o nome?).
meu pai, orgulhoso, queria ver o filho honrar a linhagem -- ele próprio um peladeiro bem razoável. e pediu para que eu subisse para trocar os chinelos por tênis. desde então já consciente da mediocridade do meu futebol, eu não dava a mínima, queria era me divertir. mas ele tanto insistiu que eu subi.
e a interrupção me tirou todo o prazer de continuar. mesmo assim, voltei para agradá-lo.
é curioso como hoje identifico esse episódio como a última vez que tentei me esforçar para jogar bola. nunca mais quis bater bola, talvez como uma vingança infantil inconsciente.
hoje não consigo sequer fazer um passe decente, mas graças ao meu pai tornei-me um leitor compulsivo, um desenhista desenvolto, um jornalista bom de papo e de copo (para seu desespero), e que não é exatamente um fracasso com as mulheres.
mesmo sem o futebol, ele nunca deixou de demonstrar orgulho por mim.
obrigado, pai.
12 junho 2007
promoção ou ameaça?
juro que vi escrito num anúncio de ponto de ônibus:
"Compre com os cartões Bradesco e vá conhecer todos os segredos de Salvador com a Preta Gil"
medo.
31 maio 2007
tora! tora! tora!
já devo ter dito isso antes, mas faço questão de repetir: sou daqueles que consideram a paranóia como uma forma evoluída de inteligência.
pode ser que esteja errado, mas farejo sinais de uma nova invasão nipônica, como a que assolou o mundo nos anos 80. começou com a bela e subnutrida miss universo, agora isso.
23 maio 2007
"lá vou eu de novo, como um tolo..."
a crônica abaixo já é minha conhecida de muuuitos anos. apesar de a parte do "irmão pára-quedista" ser a que melhor se gravou na memória, o universo tijucano em que nasci e me criei até os sete anos, e por onde gravitei por boa parte do meu tempo na terra, guarda muitas semelhanças com o grajaú retratado.
agora que, ironicamente, a vida parece imitar a arte, lembrei-me do texto. a situação não parece muito diferente.
na atual conjuntura, as fichas estão sobre a mesa -- embora ainda fechadas na minha mão. a roleta já começou a rodar, e se ainda não as soltei, e porque a aposta envolve dois universos distintos e antagônicos. um representa a pirueta que minha vida deu há oito meses, e o outro... bem, o outro é um salto no escuro. situação que, convenhamos, excita deveras minha natureza mutante.
vejamos que bicho vai dar. alea jacta est.
ah, não esqueçam o texto, pô!
As noivas do Grajaú - Luis Fernando Veríssimo
Acho que todos deviam ter uma noiva no Grajaú, principalmente os homens casados. Antes que me acusem de incentivar o adultério e a licenciosidade suburbana, esclareço que minha noiva do Grajaú é puramente teórica. E note que falo em noiva, não em amante. As noivas do Grajaú são castas e recatadas. Só deixam pegar na mão e assim mesmo com recomendações. Aquele montinho de carne na base do dedão, por exemplo, só depois de casados.
Você leva duas semanas para encostar, não na noiva do Grajaú, mas no portão da sua casa. Se tocar no seu cotovelo, soa um alarme dentro da casa e o irmão dela, ex-pára-quedista, vem ver o que está acontecendo. Um homem casado que tem uma noiva no Grajaú é mais fiel à sua mulher do que a sua mulher merece. É quase indispensável para a felicidade de um casamento que o marido tenha uma noiva no Grajaú e a visite diariamente das 5 às 6. Menos às quintas, quando ela tem aula de piano.
Como explicar o fascínio das noivas do Grajaú? Não haverá, na sua relação com ela, qualquer promessa sexual. Com sorte, depois de um ano e meio de noivado firme, você morderá a sua orelha. E ela pedirá que você nunca mais faça isso porque ela sente muitas cócegas e, olha aí, quase perdeu um brinco. Um dia, quando conseguir convencer o ex-pára-quedista a deixá-la ir com você até ao bar da praça tomar uma Mirinda, você conseguirá intrometer uma mão nervosa entre o seu braço nu e a blusa até quase em cima, mas aí ela apertará o braço contra o corpo com força e você temerá pela gangrena nos dedos.
E a conversa? A coisa mais íntima que ela perguntará a você será:
- Acompanhas alguma novela?
Você experimentará com assuntos mais conseqüentes.
- És ciumenta?
Ou, afoitamente:
- Qual é teu sabonete?
Mas ela repelirá todas as tentativas de uma conversa séria. Até rirá quando você tentar ser poético, pomba!
- Esta hora, este crepúsculo, sei lá...
Ela se dobrará de tanto rir. E a mãe dela aparecerá na janela para ver se você não avançou na orelha outra vez.
A vigilância é constante. O pai dela - aposentado, espiritualista - usa um coldre preso à cinta. O coldre está vazio, mas o seu tamanho é eloqüente: em algum lugar está guardada a grande arma com que ele zela pelo seu patrimônio, incluindo a virgindade da filha e uma coleção encadernada de Malba Tahan. Na única vez em que conversar com ele você ficará sabendo que ele já expeliu 17 pedras pela uretra e foi militante da UDN. Cuidado. A mãe tem bigode. Seus olhos pretos na janela são como dois faróis que guiam a virtude de Grajaú para a cama, intacta, todas as noites.
* * *
- Sua mãe não vê novela?
- Só a das oito.
- Não tem o que fazer na cozinha?
- Temos empregada.
- Ela não...
Mas a mãe interrompe:
- Olha esses cochichos, olha esses cochichos...
As noivas do Grajaú têm um irmão menor que se diverte tentando chutar você nas canelas. Um dia ele erra, acerta o muro e vai correndo dizer para a mãe que você lhe bateu.
É uma provação noivar no Grajaú. Por que você insiste?
As noivas do Grajaú têm amigas que passam em bandos pela calçada de braços dados e rindo, você não tem a menor dúvida, de você.
É demais. Você não precisa disso. O casamento está fora de questão. Você já é casado. Ou tem outra noiva em algum bairro onde a vigilância é menor e o acesso é mais fácil. Mas você persiste. O fascínio é irresistível. Às seis em ponto, a mãe dela acende a luz do alpendre. É o sinal para você ir embora. Você jura que nunca mais volta.
Mas aí ela cospe fora o chiclé e pergunta:
- Amanhã você vem?
E você vai.
********
sem comentários.
22 maio 2007
"It can only be attributable to human error"
quem não costuma ter muito o que fazer e gosta de perder alguns preciosos minutos lendo as bobagens que bostejo aqui, pode até pensar que (parafraseando o gande mauro duarte) pelo curto que eu sumi, notaria-se aparentemente que eu subi. mas a verdade a meu respeito muito me entristeceu, porque meu computador morreu. ele morreu.
foi no domingo passado, enquanto eu jantava em frente à tv, esperando umas músicas serem baixadas. do nada, o monitor desligado espoucou num flash de luz. depois de ligado, a tela permaneceu apagada, e a luzinha indicativa, verde intermitente. tentei desligar o computador, e nada. tentei "resetá-lo" (ô, troço feio!), e nada também. desliguei direto no filtro de linha. até aí, tudo bem, visto que meu computador é velho, cheio de achaques e macetes operacionais que já aprendi a dominar. dizem que, com o tempo as máquinas adquirem certas características de quem as opera. pode ser, mas isso é outra história...
no dia seguinte comprei um novo monitor e nada. então senti que a naba era mais grossa do que eu pensava. hoje tive dois diagnósticos à la chico xavier (por telefone, baseados apenas nas minhas descrições), que geraram duas conclusões: ou queimou a fonte, ou a placa-mãe. ambas ruins, e que apressarão minha decisão de comprar um computador novo. o problema é que, neste exato momento, estou mais duro que... bem, estou cheio de contas e dívidas.
inferno astral é isso aí.
********
PS: a propósito, a frase do título é uma fala do computador hal 9000, de um dos meus filmes-fetiches, 2001. há dias estou me deliciando com "os mundos perdidos de 2001", que encontrei num sebo. é uma espécie de relato do arthur clarke sobre a colaboração com o kubrick para a criação do roteiro do filme.
PS2, a missão: outro dia comprei o dvd do filme barbarella, que de tão tosco e ruim, é genial. o que é mais curioso é que o filme, uma ode à beleza da jane fonda (e que beleza! nem vou citar o strip-tease clássico da abertura do filme), é do mesmíssimo ano de 2001. noves fora barbarella ser adaptação de uma história em quadrinhos, não me furto a elocubrar sobre as diferentes visões sobre a conquista do espaço.
12 maio 2007
01 maio 2007
divagações no lusco-fusco da consciência (I)
às vezes, grandes pensamentos ocorrem durante o sono, quando o cérebro se liberta das peias da consciência.
outro dia, à beira do "dorme-não-dorme", tive um estalo: o nome "brainiac", do robô vilão dos superamigos, é uma junção de brain (cérebro, em inglês) com eniac (nome primeira geração de computadores).
ou seja, braniac é, literalmente "o" cérebro eletrônico -- que era como se chamavam os computadores antigamente. deveras curioso...
25 abril 2007
porque sou contra o estado
Comissão da Câmara rejeita feriado de Frei Galvão
quando chega a vez dos caboclos fazerem a única coisa para o qual estão sendo nababescamente pagos - defender os interesses do povo - eles me saem com uma lambança dessas.
estendo a raiva à igreja católica, que religiosamente mete o bedelho em qualquer assunto que não lhe diga respeito, mas cala-se mais uma vez se diante das infâmias.
se alguém tiver a infeliz idéia de defender o trabalho nos comentários, vão fazê-lo em qualquer um desses blogs aí do lado. aqui, não!
"eu sou neguinha?"
não adianta, por mais vezes (e podem crer, não foram poucas até hoje) que eu veja (ou escute ou leia) o discurso do ossie davis no funeral do malcolm x, nunca consigo chegar ao fim sem ficar com um nó na garganta e os olhos cheios d'água. depois do spike lee, então, lascou-se tudo.
ó a íntegra do texto aqui.
23 abril 2007
felliniana
estive em belo horizonte no feriado. a cidade deveria ser conhecida como "la città delle donne". que banquete para os olhos...!
o prefeito deveria rebatizá-la no plural, tamanha a variedade de moças bonitas por metro quadrado.
15 abril 2007
don't call me nigger, whitey
o lessa já havia me falado dessa história, mas o texto da dorrit superou qualquer expectativa.
quase chego a ter fé no ser humano.
14 abril 2007
lição de índio para branco
quando crescer, gostaria de ser que nem o alberto vázquez-figueroa. desde que li tuareg (lançado pela l&pm), me atirei à caça -- com pouco sucesso, devo dizer -- aos romances e relatos desse repórter.
a regra é: se vir algum, compro na hora. foi assim que esbarrei, no santos-dumont, com "anaconda", autobiografia escrita aos 39 anos(!), tamanhas as viagens e aventuras que já havia empreendido. é dele que reproduzo um trecho.
"Conocí a un viejo indio que había vivido largo tiempo em Manaos. Quando le pregunté qué le había quedado de sus tiempos de 'civilizado', respondió:
- Me quedó el convencimiento de que vosotros tenéis vuestro mundo y nosotros el nuestro... Es inútil intentar unirlos. La soberbia de los blancos desprecia todo lo extraño, y no admite que podamos ser iguales. Pretenden protegernos o destruirnos, y yo no estava de acuerdo... Aqui nadie manda sobre nadie ni castiga nadie...Y, sin embargo, todos vivimos en paz y obedecemos unas reglas que no están escritas ni son obligatorias, pero que comprendemos que resultan imprescimdibles para lograr convivir respetando nuestra libertad...
!Imagina esta situación entre los blancos...! !Imagina un país o una ciudad, o una simple aldea, donde no hubiera autoridad, leyes, ni castigos...! Nadie haría nada, más que robar, asesinar o violar la mujer del vecino... Aun así, los blancos consideran que su civilizacíon es mejor que la nuestra, tan sólo porque han descubierto más cosas. Pero lo más importante, saber convivir en paz, aún no lo han descubierto... Tampoco han descubierto que nada de lo que tienen vale tanto como ser libre...
Este último concepto de la libertad a toda costa es, probablemente, el mayor obstáculo con que se encuentra el 'civilizado' para lograr adaptar el indio amazónico al mundo moderno. Para el indio, la libertad lo significa todo, y por lo tanto, el trabajo envilece desde el instante mismo en que significa una coacción a su libertad. Podrá pasarse horas construyendo una choza o talando un arból, pero lo hará siempre y cuando sea por su gusto. El mismo instante en que le apetezca pescar o tumbarse bajo una palmera, dejará a medias su tarea, sin detenerse a pensar que habia adquirido una responsabilidad.
'Responsabilidad' es un concepto inexistente para la mayoría de las tribus amazónicas. Responsabilidad significa sujeción, y sujeción significa el fin de la libertad. El indio no admite ser responsable por nada, y ni como padre, ni como esposo, ni aun como miembro de una comunidad, contrae obligaciones ni se las exige a nadie.
Los niños vienen al mundo, y se les cuida por amor, no por obligación. Tampoco el matrimonio presupone cuidado e protección: únicamente apareamiento. En la comunidad, nadie tiene obligaciones para con nadie, y la mayor parte de las veces, no existen jefes. Los curacas o sumo sacerdotes están considerados, todo lo más, como consejeros. Cuando se ha de tomar una importante decisión común, los curacas dan su opinión, pero no es obligatorio aceptarla. Pese a ello, y por su misma libertad, todos respetan las reglas lógicas, pero 'únicamente porque son libres de respetarlas'."
é um texto que renderia um belo imeio em pps para "reflexão". quem sabe se com isso não deixariam o pobre do mário quintana em paz por umas duas semanas...?
falando sério, se nossos antepassados não tivessem caído na conversa dos espelhinhos e jantassem logo cabral, caminha, frei henrique de coimbra e o resto da corriola portuguesa (e francesa, holandesa, inglesa, etc.), eu hoje não ficaria me perguntando, principalmente depois um relato desses, onde diabos foi que erramos?
13 abril 2007
este blog está de luto
Kurt Vonnegut, Jr.
11/11/1922 — 11/04/2007
"I tell you, we are here on Earth to fart around, and don't let anybody tell you different".
leia.
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no trabalho, a sala ao lado da minha abrigava um sósia do vonnegut, mais novo e puxando de uma perna.
até os colegas atestaram a semelhança, depois que lhes mostrei algumas fotos na internet.
meu setor foi transferido para outro andar, e no dia em que iniciamos no novo escritório, morre o escritor.
com a mesma idade com que morreu meu avô materno.
os místicos talvez vejam algum sentido transcendente.
coisas da vida.
12 abril 2007
a mim e a mais ninguém
há dois tipos de pessoas no mundo: casados e solteiros.
já vivi nos dois mundos. em geral, os que jogam no time em que estou escalado agora se consideram mais bonitos, viçosos, interessantes, flexíveis e com fígado mais resistente; os do outro lado os vêem como doidivanas, e a si mesmos como espécimes mais centrados, objetivos, realistas e serenos -- ou seja, zumbis, na opinião dos primeiros.
apesar, ladies and gentlemen, de ninguém ter pedido, minha opinião é que ambos se enganam de igual maneira, e ao mesmo tempo todo mundo têm razão.
quando eu estava no lado de lá da força, achava ótimo. como tenho certeza de que nunca estive mais feliz essa semana, noves fora a novela interminável de encontrar um sofá que acomode três pessoas, seja confortável, barato, caiba na minha micro-sala e permita o trânsito pelo chão, pois infelizmente ainda não desenvolvi a capacidade de locomoção pelas paredes, como faz o homem-aranha. pelo tempo que a questão se desenrola, já estou me sentindo uma espécie de albertinho limonta. fora isso, tudo na paz.
mas não era nada disso que eu queria dizer. é que, por melhores que estejam as coisas, de vez em quando aparece um cabra safado e me apronta uma dessas:
aí então, meus amiguinhos, não há alegria solitária que resista à vontade de cantar, de peito aberto, um troço desses pro primeiro rabo de saia mais cheirosinho que cruzar comigo na rua. pô, macca, isso não se faz...
povo que não escuta, atenção para a letra.
07 abril 2007
the man and the muffin man
a lembrança mais remota de contato com a música do frank zappa vem da época em que a mtv passava na tevê aberta, lá pelo idos de 92. como acontece até hoje, as melhores canções não passavam nos horários ditos comerciais.
ao voltar, numa madrugada, de uma festa daquelas de deixar mareada estátua de marechal a cavalo, fui realizar um ritual então freqüente: comer um prato de comida gelada, assistindo tevê e lendo jornal, tudo ao mesmo tempo, antes de adormecer de roupa no chão, com a luz acesa.
eis que exibem um clipe, se pouco me engano (o que é difícil, pois vivo me enganando, de variadas maneiras), mostrando um carro correndo por cenários de massinha, embalado por um fluxo constante de guitarra. mas nada daqueles solos masturbatórios à la rush, em que o guitarrista fica, como dizem os gringos, "self-indulging". não amiguinhos, havia um propósito, a música ia para algum lugar.
fiquei intrigado quando o nome "frank zappa" pipocou na tela, porque não esclarecia absolutamente nada. como ainda vivíamos tempos de pré-internet, com o dólar deixando o preço dos discos importados proibitivos, a informação de pouco valeu.
corte para o ano 2000. eu trabalhava na cinelândia, e aproveitava o resto da hora de almoço para bundar pela pedro lessa, uma ruazinha de pedestres do lado da biblioteca nacional, com barraquinhas onde vendem-se antigos elepês e cds copiados.
uma capa me chamou a atenção. tinha umas fotos grotescas de arcadas dentárias, e o visual de revistas em quadrinhos de terror dos anos 50. the ark era o registro de um concerto de 68. não sou muito chegado em "ao vivos", mas não resisti à capa. comprei e fui ouvir no computador do trabalho. cruzado de direita no queixo.
tinha todos os elementos "zappianos". improvisações, experimentalismos dodecafônicos (ou coisa que o valha), bate-papo e participação da platéia, e "ixpertezas", como fazer as músicas "caberem" no disco cortando-as com um ruído de agulha no vinil. fui irremediavelmente fisgado.
voltei e comprei strictly commercial, coletânea com bom apanhado da produção roqueira. depois fui atrás da discografia cronológica, começando com freak out, o primeiro disco conceitual da história (o sgt. pepper's só viria em 67, quase um ano depois). mas à parte as baladinhas e trouble every day (um de meus hinos pessoais), o disco soou um tanto estranho, e demorei algum tempo para digeri-lo, e até gostar mesmo dele.
os próximos foram a paródia aos beatles we're only in it for the money, e lumpy gravy, que não passa de uma colagem de sobras de efeitos dos dois primeiros discos. o que me deixou -- com perdão pela má palavra -- muito puto.
levou uns dois anos até eu voltar às boas, mais precisamente quando li uma matéria sobre hot rats. nova epifania. mas minha ex-mulher não gostava nada de frank zappa, assim como a namorada antes dela.
agora, reiniciando a vida, comecei a baixar tudo do cara, começando pelo waka/jawaka, e o que veio antes e depois. eu não podia estar mais feliz. vão-se as mulheres, fica o homem.
05 abril 2007
bilhete a um primo vascaíno
"Tudo bem que nosotros, botafoguenses, somos, como você chama, xiitas; que vocês têm 89 vitórias a mais etc.; mas até o Gama tá dando baile...
Não leve a mal, mas acho que esse gol mil só vai sair contra o Eurico.
Abraço".
03 abril 2007
algo no ar além dos controladores de carreira
o imbroglio entre os controladores de vôo, a presidência da república e a cúpula da aeronáutica me lembrou uma frase, que relutei em reproduzir por receio de errar na autoria.
depois de muita procura sem sucesso na internet, mandei os escrúpulos às favas. arrisco dizer que os culpados estão entre o millôr, o barão de itararé e o sérgio porto. é mais ou menos assim:
"militares são como flores: devem ser bem tratados para evitar que se reproduzam."
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se alguém souber quem é o verdadeiro autor, cartas para este blog.
02 abril 2007
corta o cabelo dele! corta o cabelo dele!
não sei -- e não me interessa saber -- se o rabino henry sobel é cleptomaníaco ou estava temporariamente privado de sentidos.
mas já que ele será levado às barras da lei, a justiça americana poderia aproveitar e condená-lo a um corte de cabelo. sem apelações.
aquele penteado mezzo príncipe valente, mezzo roberto leal está com a validade expirada desde o tempo de dom joão charuto.
cadeira de barbeiro nele!
29 março 2007
em defesa da alma norte-americana
antiamericanismo comigo não cola. acho quase tão estúpido quanto qualquer outra forma de intolerância ou racismo. e, embora não tenha o menor desejo de voltar àquelas bandas, onde já morei e de onde tenho ótimas recordações, não posso negar a profunda admiração que sinto pelos estados unidos.
não pelo que ele representa no cenário político/econômico mundial nos últimos 50 anos, pela qualidade de grande parte do que é produzido artisticamente lá, e muito menos pelo puritanismo das tradições herdadas dos quakers. aliás, com a licença do meu mestre suassuna (o ariano, não o ney), diria que sou atraído pelo espírito do país "real", não pelo "oficial".
amo o que aquele torrão representa em termos de inovação transgressora, não simplesmente no sentido de novidade mercadológica, mas de novas possibilidades efetivas de criação. o grande mérito dos estados unidos, na minha opinião, é possuir em seu dna os cromossomos da grande depressão e da imigração de cérebros, principalmente depois da segunda guerra.
pensem no que seria de roliúde, da literatura, das artes plásticas, das ciências exatas e humanas (comunicação inclusa), sem a oxigenação que veio com os fugitivos de uma europa cada vez mais sufocada e neurótica. sem citar a contribuição anterior da salada formada por africanos, franceses, irlandeses, italianos, chineses, mexicanos e índios, à música, culinária, costumes, vestimenta, etc.
oquei, o velhíssimo continente hindo-europeu foi o berço da civilização e outros babados, mas se não fosse pela retroalimentação do novo continente, ele teria sucumbido ao próprio peso da cristalização de seu formalismo. enquanto isso, desde seu nascimento, os estados unidos foram berço e guarida de tudo o que era desviante. assim surgiram os blues, o jazz e o rock, os beats e os hippies, o new journalism, a internet, a bomba atômica (por que não?).
é óbvio que, em muitos aspectos, o país só anda fazendo cagada, que as nações européias também contribuíram pra cacete para as maravilhas do progresso humano e material, que o brasil e os demais países da américa latina representam hoje e no futuro próximo o embrião de um sopro de vida que vai mais uma vez sacudir o status quo. tudo isso eu sei e ponto.
no entanto, o que me levou a bostejar essa defesa rastaqüera é ver a atitude crescente de hidrofobia contra o local que foi e é o lar de tanta gente que eu admiro. thoreau, clint eastwood, josephine baker, richard stallman, fred astaire, kurt vonnegut, timothy leary, lou reed, mary cassat, miles davis, groucho marx, sam shepard, jennifer connely, frank zappa, malcolm x, al pacino, john fante, charlie parker, edward hopper, paul auster, henry fonda, billie holiday, winslow homer, mark twain, além dos adotados frank capra, elia kazan, salma hayek, billy wilder... e por aí vai. a lista é imensa.
28 março 2007
sonata de outono
finalmente chegou o outono. "mas que diabos é isso?", perguntará a quase totalidade dos cariocas, que só acreditam em duas estações: a do sol e a da chuva, sendo a segunda aquela em que eles aproveitam para retirar os casacos do armário, confundindo umidade com frio -- um conceito tão desconhecido quanto absurdo nessa latitude.
o outono no rio é sutil, e talvez a única característica perceptível seja a mudança de luminosidade. nessa época, o céu fica azulado e o ar adquire uma limpidez que mantém nítida mesmo a paisagem mais distante. é quando o sol começa a traçar uma trajetória oblíqua. reparem só.
na cápsula climatizada com vista para o pão de açúcar que chamo de escritório (podem me chamar de sortudo), o dia parece fotografado pelo vittorio storaro. ia escrever que dá até prazer de trabalhar, mas seria carregar demais na licença poética.
é uma pena o horário de verão não ter permanecido, porque não há nada mais belo que flanar num fim de tarde assim, de preferência bem acompanhado. infelizmente, não se pode ter tudo, e tenho que me contentar em ver -- e não viver. coisas do capitalismo.
27 março 2007
febeapá perde
lendo um artigo no blog do fausto wolff, descubro que existe em florianópolis uma estátua em homenagem à polícia militar, que a população, em sua infinita sabedoria, apelidou de "no meu, não".
foi o suficiente para me levar ao google numa busca ensandecida pela imagem do monumento, já esperando a bizarria. eis que topo com coisa pior.
na página de leis sancionadas em 1997 pela câmara municipal do município, a 5136/97 traz o seguinte título: "AUTORIZA A EREÇÃO DE ESTÁTUA DO SENHOR HILTON DA SILVA, O POPULAR LAGARTIXA NA PASSARELA DO SAMBA NEGO QUIRIDO, LOCALIZADO NO ATERRO DA BAIA SUL".
a íntegra do decreto está aqui.
25 março 2007
23 março 2007
mais uma bobagem irresistível
tarrei do dude, que por sua vez, tarrou sei lá de quem:
- um personagem de cinema:
qualquer um interpretado pelo groucho marx, ou o personagem do robert downey jr. em two girls and a guy.
- um personagem de desenho animado:
samurai jack ou o coiote do papa-léguas
- um homem/uma mulher:
aldir blanc, cyd charisse (por causa dela comecei a gostar de musicais).
- um cantor/cantora:
pensei em frank zappa, mas cantor mesmo é o paul mccartney. e das mulheres, fairuz.
- e se eu não fosse jornalista?
seria palhaço, beduíno ou o jorginho guinle.
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prometo que daqui a pouco escrevo de verdade.
23 fevereiro 2007
sabedoria yakissoba
"O amor por uma pessoa deve incluir as goteiras de seu telhado".
frase de biscoito da sorte de um amigo do trabalho.
22 fevereiro 2007
neruda que me perdoe, mas vinicius é fundamental
há poucos dias comprei o dvd do filme o carteiro e o poeta, ficção sobre a amizade entre pablo neruda e o carteiro da vila italiana em que o poeta viveu durante seu período de exílio.
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há séculos atrás, uma namorada argentina me presenteou com uma antologia bilingüe do poeta. na folha de rosto, uma dedicatória com sua caligrafia que até hoje tenho dificuldade de entender: para leer juntos. ou algo assim. noves fora minha empolgação com a nova língua e o romance estrangeiro, as metáforas nerudianas (existe isso?) quase sempre me desciam quadradas. correndo o risco de parecer repetitivo pela mesma desculpa, lembro que meus livros permanecem encaixotados, portanto não posso reproduzi-las. paciência.
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os extras do dvd trazem um documentário apresentado pela jennifer beals -- que depois do flashdance teve como atuação digna de nota um beijo na boca da elizabeth berkley em roger dodger (esse, sim, um filme de que gosto muito). enfim, o tal documentário é sobre o making of do "carteiro..." e a obra do neruda. tirando as referências ao massimo troisi (esse, sim, um ator de que gosto muito), tudo é meio sonolento. o que me chamou a atenção foi que, por conta do filme, vários atores foram reunidos para gravar um cd com declamações das poesias do "leão-marinho". curioso foi ouvir um produtor contar que, além de nunca ter ouvido falar em neruda, ter recorrido à julia roberts para se informar -- segundo ele "a pessoa mais culta que conhece". paciência.
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essa ignorância me incomodou, porque o fenômeno dessa súbita paixão da intelligentsia roliudiana me pareceu um buena vista social club da poesia. todos repentinamente incensando um escritor "alienígena", adepto de uma filosofia "alienígena" (neruda era comunista). se esse povo tivesse ouvido falar de um poeta puro-sangue que nem o vinicius de moraes, teria vergonha de ficar endeusando o chileno (quase escrevo "pangaré", mas achei que o termo soaria forte demais). são as desvantagens de se falar português em um continente espanhol. paciência.
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no fim das contas, meu romance durou pouco mais de um ano, e também me desceu quadrado. paciência.
20 fevereiro 2007
o conselho mais antigo do mundo
há pouco tempo li a epopéia de gilgamesh, considerada uma das histórias mais antigas de que se tem notícia, e certamente, a primeira tragédia escrita.
de toda a história, gostei muito de um trecho da tábua 10, quando gilgamesh, o rei de uruk, em sua busca pela vida eterna, encontra-se com a deusa-estalajadeira (?) siduri sabitu, de quem recebe uma sábia e atualíssima lição.
como o livro ainda está encaixotado, não pude copiar o trecho em português. vai em inglês, mesmo, até segunda ordem.
"Gilgamesh, where are you hurrying to? You will never find that life for which you are looking. When the gods created man they allotted to him death, but life they retained in their own keeping. As for you, Gilgamesh, fill your belly with good things; day and night, night and day, dance and be merry, feast and rejoice. Let your clothes be fresh, bathe yourself in water, cherish the little child that holds your hand, and make your wife happy in your embrace; for this too is the lot of man."
19 fevereiro 2007
balanço de quase cinco meses
segunda-feira de carnaval. pausa na folia. pode ser que, mais tarde, eu saia no "alegria só abunda", na rua do lavradio. só um telefonema confirmará. preguiça. lá fora faz sol, mas aqui dentro o ar-condicionado cria uma espécie de cápsula climatizada, separada do resto do mundo. tirando o batucar das teclas e o ronronar do motor, não há barulho. foi por aí que comecei a refletir.
os quase últimos cinco meses foram um turbilhão, que na verdade iniciou-se dois meses antes, mas foi só depois que a casca rompeu, dando vida à mudança.
emprego diferente, casa diferente, corpo diferente, até algumas idéias diferentes. e compromissos. muitos. a descoberta das decisões solitárias, das alegrias solitárias, das tristezas solitárias. e eu mesmo como único interlocutor do diálogo interno e externo. the sound of silence. hello darkness, my old friend, i've come to talk with you again. minha mestra de hoje e sempre. se a vida te der um limão, atire de volta na cabeça dela, já dizia confúcio. e se não disse, deveria tê-lo feito.
muitas alegrias e algumas tristezas. uns poucos enganos e decepções. fúrias etílicas esparsas no horizonte. energia concentrada? cada vez mais a constatação de que palavras são mais perigosas do que facas.
muita leitura. a redescoberta em português da arte de consertar motocicletas. a intoxicação cada vez mais profunda de vonnegut. aliás, um dos títulos é "solitário nunca mais". ai ô.
pazes feitas com o cinema. "a fonte da vida" me despertou para a constatação de que não existe realidade além do amor no tempo presente. fora isso, só a morte, segundo confirmou gilgamesh. por isso o imperativo de apascentar o boi, manter-se concentrado na respiração, mas alerta e preparado para quando for chegada a hora.
cansei de escrever. depois eu continuo. coisas da vida.
16 fevereiro 2007
meu telefone não é pinico
ouvi no rádio hoje de manhã que uma senhora em são paulo morreu de infarto por causa de um falso sequestro por telefone. ao ouvir a suposta voz de seu filho, ela entrou em pânico, o coração disparou, não agüentou o tranco, e minutos depois ela estava morta.
minha mãe recentemente foi vítima do mesmo golpe. numa noite de domingo, ela atende uma ligação e imediatamente escuta uma voz de homem gritando "mãe, socorro, me pegaram, eles querem dinheiro etc". desligou na hora, porque eu estava lá. mesmo assim, ela disse que a adrenalina foi a mil.
o engraçado foi a reação de uma tia, mãe de uma moça, quando lhe tentaram aplicar o mesmo golpe. a mulher que falava no telefone (qual será a porcentagem de acertos de sexo dos filhos?), disse:
- mãe, socorro! eles me seqüestraram e vão me matar! me trazeram aqui pra favela!
minha tia disse simplesmente "ah, te 'trazeram', é? eles que te matem, então." e desligou.
parece ser fácil falar de fora, mas é por essas e outras que tento manter o humor. sempre.
13 fevereiro 2007
não estou me guardando pra quando o carnaval chegar
acho que o ápice do meu carnaval foi domingo. sem bloco, batucada, nem uma mísera serpentina. explico: graças às obras em casa e, principalmente, à descoberta dos erros da obra, eu andava tão atarantado que não havia muito espaço vago na cabeça para folia. portanto, não fazia idéia do calendário dos blocos de rua.
sábado dormi na gávea, e quando saí para almoçar na casa de uma amiga em botafogo, vi a rua jardim botânico interditada por uma horda de foliões. algum bloco desfilava, embora muitas pessoas já estivessem na dispersão. a única maneira de chegar ao meu objetivo, portanto, seria caminhando até a real grandeza. liguei avisando que me atrasaria e tentei cortar caminho através da ruazinha no fim da major rubens vaz, que passa por dentro do jardim botânico. mas o portão estava fechado e o acesso, restrito aos moradores, segundo me informaram os seguranças.
no instante que volto à via principal, desaba um dilúvio capaz de afundar a arca de noé. instala-se uma confusão dos diabos: moleques de dois metros de altura, sem camisa, saltam e urram, meninas dão gritinhos enquanto suas roupas colam ao corpo. uma espécie de eletricidade toma conta do ar. estão todos alegres. eu estou alegre. há poucas coisas me elevam a esse nível de contentamento.
desde que me entendo por gente, tomar banho de chuva é um dos meus programas preferidos. infelizmente, à medida que envelheço, diminuem as ocasiões em que posso desfrutar esse prazer sem parecer maluco. daí que me invade uma sensação de plenitude, uma felicidade de estar irmanado com a massa que finge correr da chuva. todos viram crianças, perdem as inibições, mas mesmo a picardia tem um sabor infantil. um camarada grita: “já to de pinto lavado!”. um grupo canta “banho de lua”, e na altura da pacheco leão, um camarada atira-se na sarjeta cheia e começa a nadar crawl. penso na definição de "homem cordial", e me pergunto se um povo que fica tão alegre na/por causa da chuva é capaz de fazer uma revolução. herança indígena, talvez? nenhum juízo de valor, apenas uma constatação.
era um caos harmônico, a chuva lavando a escória, numa catarse pela semana de merda que a cidade viveu com o pobre do menino arrastado pelas ruas, o medo transformando cidadãos de bem em carrascos. um momento em que as pessoas comuns puderam ser totalmente donas de seu destino, das ruas, subvertendo a ordem de forma pacífica, até se permitindo abrir espaço para a passagem de uma joaninha e uma viatura do corpo de bombeiros.
na altura do jóia, o fedor do esgoto transbordante me agrediu as narinas, mas do outro lado da rua, as pessoas cantavam, abrigadas, “se essa porra não virar, olê, olé, olá...”. cinco camaradas carregavam um outro que, semi-desfalecido, pedia mais um gole. na eurico cruz, fui obrigado a correr pelo meio da rua para fugir do rio de barro que descia a rua e inundava as calçadas.
cheguei em botafogo completamente ensopado. tive que vestir uma calça de lycra que me deixou parecendo um bailarino em fim de carreira. o livro que carregava no bolso, comprado num sebo já meio esfrangalhado, estava soltando pedaços da capa e das bordas das páginas. no outro bolso, as embalagens de papelão dos cd-r e dvd-r que eu levava estavam se desfazendo. comi um pato no tucupi delicioso, capaz de levantar um defunto. bebi cerveja e entabulei ótimos papos. depois fui para casa e dormi, pensando se um satori não terá alguma vaga semelhança com o meu dia.
só no dia seguinte descobri que o bloco que não vi era o suvaco do cristo. deve haver um simbolismo místico mais profundo que me escapa. se não fizer mais nada nos quatro dias de festa, já terei mais que brincado meu carnaval.
08 fevereiro 2007
blog's not dead (eu é que continuo sem internet)
conhecia a música, mas nunca tinha prestado atenção à letra.
não fosse essa fase buarqueana, não teria percebido a profundidade, a beleza, a propriedade.
entender é parede.
Sabiá - Tom Jobim e Chico Buarque
Vou voltar
Sei que ainda vou voltar
Para o meu lugar
Foi lá e é ainda lá
Que eu hei de ouvir cantar
Uma sabiá
Vou voltar
Sei que ainda vou voltar
Vou deitar à sombra
De um palmeira
Que já não há
Colher a flor
Que já não dá
E algum amor
Talvez possa espantar
As noites que eu não queira
E anunciar o dia
Vou voltar
Sei que ainda vou voltar
Não vai ser em vão
Que fiz tantos planos
De me enganar
Como fiz enganos
De me encontrar
Como fiz estradas
De me perder
Fiz de tudo e nada
De te esquecer
Vou voltar
Sei que ainda vou voltar
Para o meu lugar
Foi lá e é ainda lá
Que eu hei de ouvir cantar
Uma sabiá
06 janeiro 2007
identidade secreta
mais um teste tarrado do dudu. achei o resultado muito apropriado, e veio coroar uma semana em que fui confrontado com a minha maneira de "brincar durante a realização de tarefas". não lembrava o quanto uma atitude pouco convencional pode confundir as pessoas ou mexer com o ego delas. definitivamente, "people are strange"...
ainda sobre o teste: mística e charada, ok: adaptabilidade e confusão. ri mesmo foi do sr. gelo, que me lembrou quando fui chamado de "homem-de-lata". o do mágico de oz. na ocasião, não entendi, só mais tarde me caiu a ficha.
update: será que alguma alma poderia ajudar um supervilão desconsolado a arrumar esse html fedaputa?
Your results:
You are The Joker
| The Clown Prince of Crime. You are a brilliant mastermind but are criminally insane. You love to joke around while accomplishing the task at hand. |
Click here to take the Super Villain Personality Test
23 dezembro 2006
massagem de natal
não gosto de natal. talvez ficasse melhor dizer que não gosto do que o natal se transformou, mas acho que não gosto da festa mesmo, da obrigação de tentar ser bom por um dia, só porque o senso comum diz que pega bem, ou apenas para ficar igual a todo mundo.
em anos anteriores, bostejei o último poema do guardador de rebanhos, do alberto caeiro/fernando pessoa (quem tiver saco, pode procurar nos arquivos aí do lado), como tentativa de elevar o sentimento acima de hipocrisia. para esse ano, lembrei-me de uma linda canção do hermano león gieco. dá para baixar pelo emule. (aliás, se por caso alguém souber de algum programa que possa disponibilizar gratuitamente o áudio aqui na página, avisem, plís!)
La Navidad de Luis - León Gieco
Toma Luis, mañana es Navidad
un pan dulce y un poco de vino
ya que no puedes comprar
Toma Luis, llévalo a tu casa
y podrás junto con tu padre
la Navidad festejar
Mañana no vengas a trabajar
que el pueblo estará de fiesta
y no habrá tristezas
Señora, gracias por lo que me da
pero yo no puedo esto llevar
porque mi vida no es de Navidad
Señora, cree que mi pobreza
llegará al final comiendo pan
el día de Navidad
Mi padre me dará algo mejor
me dirá que Jesús es como yo
y entonces así podré seguir viviendo...
********
é isso. feliz natalzis!
22 dezembro 2006
cadê meu cocar?
sei não, mas "black i piss" me soa mais como confissão de sintoma de doeça renal braba, não grupo de sucesso.
eu é que não enfrento muvuca por um despropósito desses. prefiro pagar pelo sérgio mendes. só.
10 dezembro 2006
mais um "testículo"
vamos admitir, já que a roda-viva me engoliu de tal maneira que fica impossível escrever o que quer que seja, estou descaradamente plagiando um dos testes do dudu, que por sua vez etc.
é o seguinte, tem que responder as perguntas utilizando apenas títulos de música de algum cantor ou banda.
Minha banda escolhida é: peter gabriel
1. Você é homem ou mulher? moribund the burgermeister
2. Descreva-se: i have the touch
3. O que as pessoas acham de você? shock the monkey
4. Descreva seu último relacionamento amoroso: excuse me
5. Descreva sua atual relação amorosa: exposure
6. Onde queria estar agora? home sweet home
7. O que pensa a respeito do amor? games without frontiers
8. Como é sua vida? big time
9. O que pediria se pudesse ter apenas um desejo? more than this
10. Escreva uma frase sábia: here comes the flood
Agora se despeça: a wonderful day in a one-way world
19 novembro 2006
as obras (d)e vô negut
novo capítulo na saga da minha diáspora solitária. iniciada a quebradeira, passamos à rodada de conversações com o profissional responsável em ordenar o espaço. e à descoberta de um universo subjacente às paredes. um submundo de nomes e conexões que eu sequer supunha exisitir. para não mencionar as escolhas a respeito de itens aos quais nunca havia dado importância. torneiras, privadas, registros etc. em todo lugar que morei essas coisas simplesmete já estavam lá... só era necessário dedicar algum pensamento quando algo não funcionava de acordo.
na loja, chegou um momento em que não havia mais sentido em ver nada, tudo me parecia igual. minha cabeça girava e não havia sequer um café disponível para recompor meu cérebro. acabei a jornada zonzo e aborrecido, descrente de que terei onde morar antes do próximo ano bissexto.
********
como estava com dificuldade em arrumar tempo e paz de espírito para me atracar com o schopenhauer (não, não espero a cura, quero mais é ser intoxicado pela vontade e representação do mundo), não havia nada para que me distrair durante as viagens de ônibus, que têm sido meus únicos intervalos de leitura. até encontrar o kurt vonnegut. topei numa livraria com seu matadouro 5.
escute: a primeira vez que ouvi esse nome foi há 22 anos atrás, quando assisti footloose na volta da minha temporada americana. se pouco me falha a memória, o personagem do kevin bacon se muda para uma cidadezinha poeirenta e conservadora do meio-oeste. num evento social, ele conta que havia lido o tal livro em sua escola anterior, o que deixa o pastor ressabiado, pois obviamente não o considerava leitura adequada à juventude. gravei o título por duas razões: os bizarros significados que o título evocava, e o desgosto do clérigo. afinal, qualquer coisa que desagrade um religioso não pode ser de todo má.
há pouco, esbarrei com a edição da L&PM de café-da-manhã do campeões. o nome do autor me pareceu familiar, mas não lembrava a razão. até que dias depois, achei o matadouro 5 e tudo fez sentido. comprei e o li de uma sentada (epa!). tornei-me dependente químico de vonnegut.
até reencontrar o café... na banca em frente à minha ex-casa, tinha passado os últimos três dias em agonia. e já comecei a fuçar a internet atrás de outros títulos. coisas da vida.
05 novembro 2006
04 novembro 2006
have you ever been?
fuxicando os discos da minha irmã antes de tomar banho para almoçar com a tereza, esbarrei no bão e véi james marshall hendricks. anacronias à parte, electric ladyland é paudurescente a vida toda. não fosse já o danado todo redondinho, ainda tem a homônima canção, curtinha, a qual faço questão de bostejar. ao lado de little wing, é uma das raríssimas coisas que me fazem nostálgico da adolescência.
Have You Ever Been (To Electric Ladyland)
Have you ever been (have you ever been) to Electric Ladyland?
The magic carpet waits for you so don't you be late
Oh, (I wanna show you) the different emotions
(I wanna run to) the sounds and motions
Electric woman waits for you and me
So it's time we take a ride, we can cast all of your hang-ups over
the seaside
While we fly right over the love filled sea
Look up ahead, I see the loveland, soon you'll understand.
Make love, make love, make love, make love.
The angels will spread their wings, spread their wings
Good and evil lay side by side while electric love penetrates the sky
Lord, Lord I wanna show you
Hmm, hmmm, hmmm
Show you
o roto (!) falando pro esfarrapado (!)
augusto dos anjos disse que "o homem, que (...) mora entre feras, sente inevitável necessidade de também ser fera". e talvez seja mesmo assim. e talento deve pegar, porque só isso explicaria uma época tão fecunda de "feras" quanto o rio da segunda metade do século passado. do qual destaco uma pérola recém-descoberta.
Mensagem a Rubem Braga
Vinicius de Moraes
Os doces montes cônicos de feno
(Decassílabo solto num postal de Rubem Braga, da Itália.)
A meu amigo Rubem Braga
Digam que vou, que vamos bem: só não tenho é coragem de escrever
Mas digam-lhe. Digam-lhe que é Natal, que os sinos
Estão batendo, e estamos no Cavalão: o Menino vai nascer
Entre as lágrimas do tempo. Digam-lhe que os tempos estão duros
Falta água, falta carne, falta às vezes o ar: há uma angústia
Mas fora isso vai-se vivendo. Digam-lhe que é verão no Rio
E apesar de hoje estar chovendo, amanhã certamente o céu se abrirá de azul
Sobre as meninas de maiô. Digam-lhe que Cachoeiro continua no mapa
E há meninas de maiô, altas e baixas, louras e morochas
E mesmo negras, muito engraçadinhas. Digam-lhe, entretanto
Que a falta de dignidade é considerável, e as perspectivas pobres
Mas sempre há algumas, poucas. Tirante isso, vai tudo bem
No Vermelhinho. Digam-lhe que a menina da Caixa
Continua impassível, mas Caloca acha que ela está melhorando
Digam-lhe que o Ceschiatti continua tomando chope, e eu também Malgrado uma avitaminose B e o fígado ligeiramente inchado.
Digam-lhe que o tédio às vezes é mortal; respira-se com a mais extrema
Dificuldade; bate-se, e ninguém responde. Sem embargo
Digam-lhe que as mulheres continuam passando no alto de seus saltos, e a moda das saias curtas
E das mangas japonesas dão-lhes um novo interesse: ficam muito provocantes.
O diabo é de manhã, quando se sai para o trabalho, dá uma tristeza, a rotina: para a tarde melhora.
Oh, digam a ele, digam a ele, a meu amigo Rubem Braga
Correspondente de guerra, 250 FEB, atualmente em algum lugar da Itália
Que ainda há auroras apesar de tudo, e o esporro das cigarras
Na claridade matinal. Digam-lhe que o mar no Leblon
Porquanto se encontre eventualmente cocô boiando, devido aos despejos
Continua a lavar todos os males. Digam-lhe, aliás
Que há cocô boiando por aí tudo, mas que em não havendo marola
A gente se agüenta. Digam-lhe que escrevi uma carta terna
Contra os escritores mineiros: ele ia gostar. Digam-lhe
Que outro dia vi Elza-Simpatia-é-quase-Amor. Foi para os Estados Unidos
E riu muito de eu lhe dizer que ela ia fazer falta à paisagem carioca
Seu riso me deu vontade de beber: a tarde
Ficou tensa e luminosa. Digam-lhe que outro dia, na Rua Larga
Vi um menino em coma de fome (coma de fome soa esquisito, parece
Que havendo coma não devia haver fome: mas havia).
Mas em compensação estive depois com o Aníbal
Que embora não dê para alimentar ninguém, é um amigo. Digam-lhe que o Carlos
Drummond tem escrito ótimos poemas, mas eu larguei o Suplemento Digam-lhe que está com cara de que vai haver muita miséria-de-fim-de-ano
Há, de um modo geral, uma acentuada tendência para se beber e uma ânsia
Nas pessoas de se estrafegarem. Digam-lhe que o Compadre está na insulina
Mas que a Comadre está linda. Digam-lhe que de quando em vez o Miranda passa
E ri com ar de astúcia. Digam-lhe, oh, não se esqueçam de dizer
A meu amigo Rubem Braga, que comi camarões no Antero
Ovas na Cabaça e vatapá na Furna, e que tomei plenty coquinho
Digam-lhe também que o Werneck prossegue enamorado, está no tempo
De caju e abacaxi, e nas ruas
Já se perfumam os jamineiros. Digam-lhe que tem havido
Poucos crimes passionais em proporção ao grande número de paixões
À solta. Digam-lhe especialmente
Do azul da tarde carioca, recortado
Entre o Ministério da Educação e a ABI. Não creio que haja igual
Mesmo em Capri. Digam-lhe porém que muito o invejamos
Tati e eu, e as saudades são grandes, e eu seria muito feliz
De poder estar um pouco a seu lado, fardado de segundo sargento. Oh
Digam a meu amigo Rubem Braga
Que às vezes me sinto calhorda mas reajo, tenho tido meus maus momentos
Mas reajo. Digam-lhe que continuo aquele modesto lutador
Porém batata. Que estou perfeitamente esclarecido
E é bem capaz de nos revermos na Europa. Digam-lhe, discretamente,
Que isso seria uma alegria boa demais: que se ele
Não mandar buscar Zorinha e Roberto antes, que certamente
Os levaremos conosco, que quero muito
Vê-lo em Paris, em Roma, em Bucareste. Digam, oh digam
A meu amigo Rubem Braga que é pena estar chovendo aqui
Neste dia tão cheio de memórias. Mas
Que beberemos à sua saúde, e ele há de estar entre nós
O bravo Capitão Braga, seguramente o maior cronista do Brasil
Grave em seu gorro de campanha, suas sombrancelhas e seu bigode circunflexos
Terno em seus olhos de pescador de fundo
Feroz em seu focinho de lobo solitário
Delicado em suas mãos e no seu modo de falar ao telefone
E brindaremos à sua figura, à sua poesia única, à sua revolta, e ao seu cavalheirismo
Para que lá, entre as velhas paredes renascentes e os doces montes cônicos de feno
Lá onde a cobra está fumando o seu moderado cigarro brasileiro
Ele seja feliz também, e forte, e se lembre com saudades
Do Rio, de nós todos e ai! de mim.
03 novembro 2006
somos como cães e gatos
tarrei da solange (inclusive o estilo de apresentação), que, por sua vez, tarrou daqui.
What is a dog?
Dogs spend all day sprawled on the most comfortable piece of furniture in the house.
They can hear a package of food opening half a block away, but don't hear you when you're in the same room.
They can look dumb and lovable all at the same time.
They growl when they are not happy.
When you want to play, they want to play.
When you want to be alone, they want to play.
They leave their toys everywhere.
They do disgusting things with their mouths and then try to give you a kiss.
They go right for your crotch as soon as they meet you.
What is a cat?
Cats do what they want.
They rarely listen to you.
They're totally unpredictable.
When you want to play, they want to be alone.
When you want to be alone, they want to play.
They expect you to cater to their every whim.
They're moody.
They leave hair everywhere.
Conclusion:
Dogs are tiny men in little fur coats.
Cats are tiny women in little fur coats.
diário de bordo
aos três dias do décimo-primeiro mês do ano da graça de dois mil e seis, a.d. (mais de um mês à deriva nesse mundão prenhe de possibilidades.)
minha biografia confirma: desde antes do nascimento, dona sorte sorri para mim. ultimamente tem dado até para ver o vermelhão das gengivas. muitas coisas boas têm esbarrado em mim. o trabalho exige, mas não assusta; as entranhas afinal remendaram-se; e até as nuvens negras que alguns amigos identificaram se afastaram com um pé-de-vento. enquanto isso, bruceleeanamente, sigo buscando ser água, moldando-me a cada recipiente em que sou derramado.
"o que a língua trava, a pena solta". acho que acabei de inventar essa frase, e é tanto o que eu quereria pra mim, que a adotarei como lema. meu analista a teria adorado.
está provado, ônibus são ótimos para a reflexão rasteira. proponho enquadrar ao lado da filosofia de botequim a categoria da "metafísica de ônibus". a ocasião é quase tão propícia ao devaneio quanto ao se lavar louça. com a vantagem de se poder olhar para dentro dos apartamentos e para as pernas das motoristas e caronas nos carros lá embaixo. o único inconveniente é a letra tremida, que dificulta um pouco a compreensão depois.
as palavras são suseranas caprichosas, e por mais que tente, raramente extraio significados precisos. até formulei uma teoria meio maluca de que todos têm uma guerra a combater. pode ser conviver com uma doença ou má-formação, vencer um vício etc., mas sempre será uma superação, interior ou exterior. já sei, o paulo coelho já deve ter dito alguma coisa nesse sentido, mas, a grosso mole, os muçulmanos já tinham um conceito bem parecido -- a tão aviltada jihad. talvez a luta com as palavras seja o combate da minha vida. eu gostaria que fosse. nada mais geminiano...
15 outubro 2006
se eu quiser falar com deus
citei o karel capek no bostejo passado, então vou contar como o decobri, que a história é bacana. no fim do ano passado, enquanto desperdiçava importantes horas de vida diante do computador, topei com o saite igod. deus é um programa de inteligência artificial criado para desenvolver-se à medida que conversa. é legalzinho, embora ainda precise de melhoramentos.
bom, no primeiro papo, sujeito atormentado que sou (não confundir com gay ou sueco, plís), parti logo para a ignorância, cobrando: anyway, who put you in charge?. ao que deus, em sua infinita sabedoria, me responde In any case, Carel Capek. :-). fiquei deveras intrigado, o nome era totalmente desconhecido. fui "googar" o cara e deu nisso. pra resumir, ele é considerado um dos pais da ficção científica moderna, e o autor incontestável da palavra "robô" (embora ele transferisse o crédito para seu irmão joseph).
semana passada fui tocado pela sorte suprema ao encontrar num sebo uma edição portuguesa de A guerra das salamandras. e na rede encontrei sua obra-prima, a peça R.U.R - Rossum's Universal Robots, que foi o que deu origem a esse bostejo enciclopeidico dominical.
vale a pena correr atrás do cara como der, até porque, os editores tupiniquins, em sua santa ignorância, só lançaram dele o infantil Dachenka: a vida de uma cachorrinha. não é nada, não é nada, não é porra nenhuma. o ouro ainda está para ser descoberto.
14 outubro 2006
sem título
essa bagaça tá acumulando poeira. juro que gostaria de escrever alguma coisa legal ou esprituosa, mas tô vazio. preciso tomar um banho. acho que vou dar uma flanada pelas ruas e partir para meu passatempo favorito: café-e-água-com-gás. juntando fragmentos do passado, uma peça com cachaça do domingos de oliveira daqui, uma oficina de roteiro com o lourenço mutarelli dali (grande cabra, nunca é demais citar), me deu muita vontade de ler schopenhauer. o mundo como vontade e representação. odeio a união européia, porque disseram que a tradução portuguesa era melhor que a brasileira, mas não há mais escudos no mercado, e o euro está pela hora da morte. justo quando arrumei um canal quente com portugal. porcaria de televisão que não para de matraquear, não importa quantos canais eu troque. deve ser algum tipo de conspiração. feriado é uma droga, perdi a conta dos dias e a minha aula de hoje. era quase uma da tarde quando acordei (porque hoje é sábado, como na poesia) e lembrei do compromisso. fogo é que a mensalidade já foi paga. e os mojitos de ontem voltaram em forma de broca e estão perfurando a base do meu crânio. quase posso sentir o cheiro da poeira de ossos. segunda começo a trabalhar, sem apartamento, financiamento, conhecimento, lenço, mas felizmente documento ainda possuo. esqueci meu cd na casa daquele povo. tudo bem, depois eu pego. tinha uma gatinha cotó, a ponta do que sobrou do rabo era torta para o lado, e os pêlos pareciam um espanador velho, arregaçado. a sensação de tocar naquele rabo torto era meio estranha. dava vontade de desentortá-lo. o gato preto brincava de morder meus dedos, de levinho. fiquei com saudades dos bichanos de casa, da antiga vida. luisinho veio de longe, são vinte e seis anos de bons papos e muitas histórias. pensamos em reunir o resto da turma. pensando bem, só restaram quatro de nós. os quatro cavaleiros do apocalipse. a felicidade dele me fez pesar melhor as coisas. mas é andando que se caminha. o negócio é acreditar que o horizonte a frente é colorido. acho que finalmente entendi o slogan: just do it. que, por outro lado, quer dizer: don't think. ignorance is bliss, ensinou o orwell. baixei o karel capek, com acento circunflexo de cabeça pra baixo no c, por favor, que o cara é tcheco. a guerra das salamandras é muito bom. eu sou muito empolgado com alguns livros, mas esse tornou-se um dos meus clássicos pessoais. e é de 35. será que algum dia escreverei alguma coisa? será que aquele livro que combinei com o fabinho algum dia será parido? se for para ficar só na promessa, é melhor não fazer planos, essa é a lição que tento me ensinar há anos, sem sucesso. não prometa o que não será capaz de cumprir, não envolva os outros nas suas fantasias, a menos que esteja certo do que está dizendo, porque você é bom de papo e as pessoas acabam acreditando que é sério. e é, quando digo, pelo menos, é. nesses momentos, sou incapaz de mentir. mas acho que não basta. o que nos leva de volta ao princípio. segure a língua e seja feliz. segurança da informação, não é assim? acho que meu timo precisa de uma massagem. a dor de cabeça agora é uma agulha perfurando meu olho esquerdo por trás. vou tomar banho e sair para um café. seja o que deus quiser. amém. epluracas orega.
29 setembro 2006
combinado para domingo
por mais que tentem criar um fato político com o objetivo de forçar um segundo turno, marquemos posição fazendo como nossos hermanos argentinos nos anos 50:
"Ladrón o no ladrón, queremos a Perón!"
pra encerrar de vez o assunto
I pray you, in your letters,
When you shall these unlucky deeds relate,
Speak of me as I am; nothing extenuate,
Nor set down aught in malice: then must you speak
Of one that loved not wisely but too well;
(...)
Of one whose hand,
Like the base Indian, threw a pearl away
Richer than all his tribe (...).
Othello - Ato 5, cena 2
24 setembro 2006
"Separação"
por affonso romano de sant'anna:
Desmontar a casa
e o amor. Despregar
os sentimentos das paredes e lençóis.
Recolher as cortinas
após a tempestade
das conversas.
O amor não resistiu
às balas, pragas, flores
e corpos de intermeio.
Empilhar livros, quadros,
discos e remorsos.
Esperar o infernal
juizo final do desamor.
Vizinhos se assustam de manhã
ante os destroços junto à porta:
-pareciam se amar tanto!
Houve um tempo:
uma casa de campo,
fotos em Veneza,
um tempo em que sorridente
o amor aglutinava festas e jantares.
Amou-se um certo modo de despir-se
de pentear-se.
Amou-se um sorriso e um certo
modo de botar a mesa. Amou-se
um certo modo de amar.
No entanto, o amor bate em retirada
com suas roupas amassadas, tropas de insultos
malas desesperadas, soluços embargados.
Faltou amor no amor?
Gastou-se o amor no amor?
Fartou-se o amor?
No quarto dos filhos
outra derrota à vista:
bonecos e brinquedos pendem
numa colagem de afetos natimortos.
O amor ruiu e tem pressa de ir embora
envergonhado.
Erguerá outra casa, o amor?
Escolherá objetos, morará na praia?
Viajará na neve e na neblina?
Tonto, perplexo, sem rumo
um corpo sai porta afora
com pedaços de passado na cabeça
e um impreciso futuro.
No peito o coração pesa
mais que uma mala de chumbo.
17 setembro 2006
a vergonha da segurança estadual
desde que mudei-me para botafogo, há dois anos, sempre me surpreendi com o número de viaturas abandonadas no pátio do 2o BPM, na esquina da são clemente com a real grandeza. cheguei a contar 15 carcaças, entre rádio-patrulhas, kombis e camburões, completamente deteriorados pelas intempéries, de pneus vazios, sem motores, lanternas e pára-brisas. qualquer morador da região mais atento pode corroborar a informação.
a notória incompetência do governo estadual no combate ao crime é estrutural: os pms não têm formação psicológica e tática antes de irem para as ruas, não sabem atirar, e não têm viaturas em condições operacionais. ou seja, não são capazes nem de exercer mal suas atividades.
eis que, em junho/julho, é dada a largada oficial para a campanha para o estado. nossa digníssima governadora, rosinha garotinho, manda recolher os carros abandonados, empilhá-los num canto coberto do pátio, escondendo-os do escrutínio público com uma lona azul.
como era freqüente a força do vento expor as vergonhas da política de segurança, o pano acabou sendo amarrado às ferragens de um dos ferros-velhos escondidos. tivesse eu uma máquina digital disponível na época, essa crônica do grotesco estaria registrada em imagens irrefutáveis.
15 setembro 2006
ao benjamin du mmal
Jumento não é
Jumento não é
O grande malandro da praça
Trabalha, trabalha de graça
Não agrada a ninguém
Nem nome não tem
É manso e não faz pirraça
Mas quando a carcaça ameaça rachar
Que coices, que coices
Que coices que dá
"O Jumento - Os Saltimbancos"
Composição: Chico Buarque, Enriquez, Bardotti
dedico o trecho da canção a um pilantra que expropriou não apenas a minha força de trabalho, mas minha confiança.
por empenho próprio, as coisas mudaram. como já diria rosa, o guimarães, "cada um tem a sua hora e a sua vez".
11 setembro 2006
a vingança é um prato que se come frio, muito frio...
não sou um camarada rancoroso, mas tenho dificuldade em perdoar mau-caratismo e baixeza (como deve saber agora o ex-chefe que me deu um calote no valor de um carro popular, por sete meses de trabalho, e que na audiência teve a desfaçatez de dizer na minha cara que tinha a consciência tranqüila de que não me devia nada, porque eu jamais havia trabalhado para ele. eu venci a causa, e se não fugir do brasil ele deve recorrer. mas isso é um papo futuro).
refiro-me especificamente há uma história entalada na minha garganta há 14 anos. na faculdade de teatro, um calouro um pouco mais velho que eu, então suboficial da marinha, oferece uma carona para mim e minha namorada. eu e ele sentados na frente, ela no banco de trás. depois de chegarmos ao nosso destino, ela me conta das tentativas dele de passar a mão em sua perna diversas vezes durante o percurso, e de como ela furara suas mãos como os fechos de sua presilha de cabelo, pontudos a ponto de poderem ser classificados como arma branca.
ela guardara o fato até o infeliz arrancar com o carro, ciente do baixinho esquentado que ela tinha por namorado. espumei de ódio, minhas relações com ele esfriaram de vez, e logo em seguida a vida me soprava para outros rumos, em outras faculdades.
essa história vinha esquecida até hoje, quando um casal de amigos me passa a notícia fatídica. tem mais aqui.
há um equilíbrio no universo, regido, entre outras coisas, por leis como a que estabelece que e não se abusa da confiança dos outros. demorou, mas valeu a espera.
10 setembro 2006
gnarls barkley
não sei se é um cara ou se o nome de um grupo (botei o saite no título mas ainda não o vi). conheci-o(s) no churrasco de um amigo, há algumas semanas. talvez tenha sido a cerveja, mas demorou uns cinco minutos para eu entender o nome, devidamente esquecido no segundo seguinte, claro. mas hoje vi o clipe abaixo na tv e voltou tudo.
saca só essa outra música:
também gostei muito; lembra um pouco o que o ed motta poderia ter sido. botei o álbum pra baixar. pode ser apenas mais um "two-hit-wonder", mas só o fato de, depois de tantos anos, ouvir algo com alma de novo já me deixou feliz.
07 setembro 2006
o exterminador do futuro (2010)
uma amiga indicou-me o vídeo-documentário liberdade, essa palavra, de marcelo baêta, feito como projeto final de curso de jornalismo na ufmg em junho desse ano. esse caboclo promete...
o tema gira em torno das relações espúrias entre os donos dos veículos de comunicação e o poder, este personificado por nosso futuro presidente, aécio "déficit zero" neves, o mauricinho das gerais.
assista o vídeo aqui.
tamos bem servidos...
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atualização:
parece que o vídeo causou tanto mal-estar que a assessoria do candidato entrou em campo, acusando o trabalho de baêta de manipulação petista, e produziu um "documentário" em resposta. liberdade de imprensa em minas está disponível em três partes no you tube. a terceira não responde nada, é apenas uma ataque ao pt através do caso da demissão do boris casoy da record.
alea jacta est.
quanto a mim, quero mais é ver o circo pegar fogo.
funcionário do mês
responda rápido aonde um camarada com esse perfil seria mais adequado: na presidência da república ou na gerência de uma farmácia, supermercado ou loja de tecidos na tijuca?
03 setembro 2006
the manchurian candidate
essa noite tive um sonho muito estranho (talvez, quem sabe, pelo fato de ter ido na sexta à belzonte): eu era contratado para manipular mamulengos com a cara dos vencedores das eleições para o governo estadual de minas e são paulo.
a "apresentação" seria nas sacadas dos respectivos palácios, no fim da contagem dos votos. o discurso de posse estava gravado, e eu apenas faria a mímica, acenando, cumprimentando etc. mas não seria uma paródia, as pessoas deviam ser convencidas de que estavam vendo os políticos reais.
acordei com a angústia de perceber que, nos dois casos, a população nas ruas não percebia o engodo, por mais toscos que fossem os mamulengos.
será que isso quer dizer alguma coisa?...
cartas para esse endereço.