"Um homem que detesta crianças e cachorros não pode ser mau de todo".
- W. C. Fields
qualquer semelhança é...bem, deixa pra lá.
17 novembro 2003
frase da semana
11 novembro 2003
a esperança veio me ver
uma baita esperança entrou no meu quarto, botou uma fileira de ovos atrá do cartaz do festival de cinema de miami de 2001 pregado embaixo da janela, e agora está passeando sobre a minha cortina branca. pensei em enxotá-la do quarto, mas resolvi deixa-lá em paz. afinal, é raro eu ter a esperança por companhia.
as invasões bárbaras dos genes egoístas
ainda estou sob o impacto de as invasões bárbaras. é sem sombra de dúvida um dos melhores filmes que já vi. apaixonante, singelo, politicamente incorreto, sexista...posso gastar teclas e teclas de adjetivos e elogios. roteiro afiado, atores idem (destaque para a junky interpretada pela marie-josée croze, que além de tudo é portadora de uma beleza narcótica).
levante já essa bunda da cadeira e corra até o cinema!
mas não era sobre isso que eu queria falar. o personagem principal está à beira da morte, e desfia uma série de questões sobre o sentido de sua vida, e lamenta-se pelo que poderia ter feito. isso mexeu muito comigo. minha crença em vida após à morte, reencadernação etc. é variável. depende mais do dia e do interlocutor do que de uma certeza interna. se o sujeito é crente na matéria e eu estou num bom dia, sou até capaz de acreditar. mas às vezes sou cético, acho tudo isso besteria; a gente morre, vira comida de verme e pronto. afinal de contas, é muita pretensão querer conservar o ego além da matéria, né? ah, não, faça-me o favor... quando chegar minha vez de tocar harpa na terra do pé junto, quero descansar de ser marcelo. apagar a ficha, zerar a contagem, e que tudo o mais vá pro inferno!
mas também não era exatamente isso. recapitulando: o cara questiona o sentido da vida - e fiquei pensando que talvez não haja nenhum. talvez o importante seja perceber isso e aproveitar tudo até o momento de atar as duas pontas do nada. mas sem egoísmo, pois a fila atrás de você é interminável, e a toda hora chega mais gente. então, o importante é manter a casa arrumada (não apenas para os seus), porque eles têm tanto direito a curtir tanto quanto você.
a receita deve ser mesmo ouvir boas músicas, ler bons livros, cultivar amizades e atrasar contas; porque afinal, já que você vai perder um tempão por aqui, o ideal é que pelo menos você se distraia durante a estada. e o resto que se dane!
certo deve estar o Richard Dawkins, que escreveu que não passamos mesmo de um amontoado de genes egoístas, cuja única função é a auto-reprodução. o gene só quer saber de se perpetuar, e vem daí toda a aventura da vida, seja ela um vírus, um cocker spaniel, o paulo maluf ou a luana piovani (aliás, luana, se o seu gene quiser se reproduzir às minhas custas, é só mandar um imeio que a gente de cá dá um jeito, viu?). veja bem: qual a utilidade de um mosquito ou de uma barata, a não ser se multiplicarem ao ponto de se tornarem uma praga ou uma epidemia? não há qualquer explicação para eles, salvo o egoísmo genético.
como explicar a rãzinha do deserto do arizona, que passa a vida toda enterrada na areia, só saindo durante o período das chuvas, quando têm não mais que uns quinze dias para chegar à superfície, procurar uma fêmea, cruzar, procriar e se enfiar de novo no chão, onde passrá mais um ano sem fazer absolutamente nada, em estado de quase hibernação. que sentido tem essa vida bunda? que sentido tem a nossa? só porque construímos torres e as explodimos, escrevemos livros e os queimamos, criamos deuses e os esquecemos? cantamos, dançamos, andamos de bicicleta, nos equilibramos sobre o meio-fio, caímos, enfiamos moedas no nariz, chupamos gilete, somos explorados no trabalho e corneados, jogamos no bicho, nos apaixonamos, levamos fora, choramos, bebemos guaraná com formicida, rimos, algumas vezes envelhecemos, e sempre haveremos de morrer. e sabe de uma coisa? isso é tudo. kaput. surpresa! esse papo de transcendência é só para confortar as crianças, os angustiados e os que têm medo de se arriscar. "ah, nessa vida fui pio, casto e só rezei, mas quando chegar do outro lado vou botar pra quebrar, vocês me aguardem!" não senhor, querido. o tíquete só dá direito a uma viagem. bobeou, perdeu. depois daqui, babau. já era. se a tua energia se decompõe e se recompõe com outras para formar uma nova pessoa, não sei. nunca ninguém achou o caminho de volta para contar.
acho que o assunto deveu-se também ao impacto de descobrir Lugal e Nin, os imortais do Max Mallman. ou será o próprio Max um deles? respostas (e mais dúvidas) no zigurate.
aliás, Max, parabéns. li o livro de quase um fôlego. agora vou atrás da epopéia de gilgamesh. não consigo mais parar. ah, rapá, você me paga...
04 novembro 2003
report dead links
flanando, acabei de descobrir que dois links da minha lista morreram: águas claras, do meu bróder dude, e brazileira preta, da clarinhah averbuck. ambos deixaram mensagens de despedida, que reproduzo a seguir. primeiro as damas:
Sexta-feira, Outubro 24, 2003
brazileira!preta - R.I.P.
28.9.01 - 24.10.03
Foi bom, foi lindo, frutífero e inspirado, dois anos de posts ininterruptamente cuspidos e jorrados diretamente do coração desta que vos escreve, dois anos de paixões e amigos e risadas e momentos tristes e uns outros momentos do caralho, dois anos de miséria e euforia.
Mas tudo o que é bom tudo acaba. Senão não tem graça.
Poderia dizer que não tenho mais tempo e que estou afundada entre fraldas e mamadeiras e noites mal dormidas e um frila na mtv - o que é verdade, mas não me impediria de continuar se eu realmente quisesse. Poderia dizer que agora sou uma mulher casada, fiel e apaixonada e que não sofro mais de amor perdido, o que também é verdade - e é que eu procurei a minha vida inteira. Mas isso também não me impediria de escrever no blog. A única coisa que me impede sou eu mesma. Cansei disso tudo, porque um dia cansa.
E eu não vou ficar me forçando a fazer algo que não quero. Sem paixão não rola. Sem paixão não tem condições. Está nos meus Dez Mandamentos: não faço nada que não queira, nada que seja forçado, senão fica sem alma e sem alma não presta pra nada. O brazileira!preta, de um tempo para cá, tornou-se mais uma obrigação do que prazer. Antes eu era obcecada por postar, postar, postar, escrever, escrever, escrever, o tempo todo, o dia inteiro, com chuva, com sol, neve, granizo, coração partido, álcool nas veias, lágrimas nos olhos. Passou. Claro que eu não vou parar de escrever, senão eu morro. These words I write still keep me from total madness, mas elas agora serão escritas de outro jeito, em outros lugares, lidas por outras pessoas, em jornais ou livros ou revistas ou qualquer outro veículo. Mas não mais aqui. Cansei, saturou, não quero mais saber desse negócio de blog. Só essa palavra já me embrulha o estômago, dá ânsia de vômito, "bloooogh". Cansei. Mas não vou parar. Só vou mudar de novo, e de novo, e de novo. Prometo que aviso quando o Vida de Gato sair. Vocês reclamem com o Joca Reiners Terron, que eu já entreguei o livro para ele e agora não é mais comigo. Estou escrevendo outro livro, agora para uma editora grande, bem grande, mas não vou falar sobre essas coisas porque dá azar. Agora eu vou escrever livros. Chega de blog, chega de escrever de graça, chega de gastar as minhas histórias. Queridos leitores, obrigada por tudo, todo o carinho, todos os emails, todos os presentes e tudo que vocês me deram. Eu vou continuar por aí, nas prateleiras, nas revistas, nos arquivos do blog e no coração de vocês.
E agora chega, que eu detesto despedidas.
Com amor,
.: Lady Averbuck :. 1:46 AM
...
já meu amigão foi sucinto. não sei se o que ele mantém com a patroa, o barulinho continua valendo. desconfio que não, mas mantenho o laço que nos une:
Segunda-feira, Novembro 03, 2003
C'est fini. Mas quem quiser usar os links, fique a vontade.
... rascunhado por Dudu mais ou menos às 10:38 AM
...
justificados ou não, ambos cantraram pra subir. com isso, declaro automaticamente extintas duas posições da lista.
bem que minha mãe falou pra eu não acreditar nesse povo de blog!
sem comentários
pô, toda vez que eu mexo no template, essa bagaça apaga o código dos comentários.
ah, minha santa querupita!...mas será impossível?!
comentários
graças à matéria do informática etc., ao blogs.com.br e ao falou e disse, até eu pude instalar um sistema de comentários.
pelo menos agora saberei que não falam comigo pela qualidade dos textos, e não por falta de acesso.
em breve teremos novas e eletrizantes configurações. uau!
01 novembro 2003
a los muertos
amanhã é dia de finados. quão apropriado.
em comemoração à data e ao clima tãããããão acolhedor, siga a bolinha, por peter gabriel:
Indigo
It's too late, this model's out of date.
Got every spare part, but there ain't much heart inside here.
Not like the start, I was good at the art of survival;
I've always tried to keep my feelings deep inside
Where I can hide them, now I'm open wide.
When it ends, again I'll see my friends,
They'll give me a lift, I've been running adrift, so easy...
Shifting the gear, I've got nothing to fear from a showdown,
I'll go down quiet.
And the kids downstairs making a hell of a din,
I'm all alone, getting a quote for the wages of sin.
Beyond the indigo, indigo,
Where the chilly winds, winds will blow,
My time is running low.
Going to cross the dark, dark river,
Going to see my good life-giver,
Better cover my yellow liver.
All right, I'm giving up the fight,
I didn't know when I'd be a stranger again in my own land.
The days are okay, but oh, how I hate these long nights.
You understand?
Darling, please just hold my hand.
You feel so warm, in the eye of the storm,
I'm going away, I'm going away, I'm going away.
See you again someday...
Darling, I'm going away.
Feel like I'm going away, this time I'm going away.
...
taquíuspa!, como eu gostaria de ter escrito isso...
Virgílio já sabia
Forsan et haec olim meminisse iuvabit
ou, em bom portuga "talvez, futuramente, seja prazeroso recordar estes fatos".
sonho frustrado de uma tarde de...verão?
e lá estava eu, debaixo de um calor opressivo dentro das calças jeans e da camiseta escura, pés e meias ensopados de suor, a ressaca atirando dardos no meu cerebelo, a meio caminho de encontrar meu passado. e se não foi bonito, tampouco foi feio. mais parecido com pele morta.
tudo quase como eu havia deixado, com exceção das duas fotos sobre as estantes - estandartes da minha derrota definitiva. eu não conseguia ser engraçado. não conseguia ser nada. o ar faltou, e enquanto falavam ao telefone, busquei a janela da sala. a paisagem resplandecia imóvel, lentamente cozida pelo sol. recuperei-me, e de volta ao quarto, senti-me um pouco mais presente. a ressaca agora atravessava meu crânio com um picador de gelo, e no almoço tomei uns goles de cerveja para rebater. no ônibus, tinha me esforçado para não cair num pranto de auto-piedade pela antecipação do encontro. mas agora, durante o refeição, podia quase reconhecer o velho eu de volta, viçoso, contando histórias e arrancando sorrisos.
quando saímos, entretanto, sabia que o assunto viria à tona. minhas chances eram escassas, e me fechei em copas. mas não fui esperto o suficiente, e uma pergunta me abriu a guarda, expondo meu flanco mais débil. deixei pingarem algumas gotas sobre a situação, mas veio óleo quente sobre as minhas esperanças. respondi com sobras de ironia - quase um dândi - mas meu destino estava consumado. sem perceber, servi meu nervo de bandeja. ela estava certa, eu errado. deixei a emoção tomar conta da situação - embora mais tarde, analisando tudo, no íntimo eu soubesse que ela precisava de uma vitória. sua certeza e paz só seriam completas quando eu me humilhasse. mas no calor do momento, os pensamentos eram amargos: "espero que a proximidade destrua as ilusões", ou "um dia, o amor chegará para mim, esplendoroso, e ao seu lado desfilarei em triunfo".
ao mesmo tempo, pensei quem era eu para querer ainda amor depois de tantas oportunidades atiradas à lama, depois do rastro de corações despedaçados que até hoje marca meu caminho, e às vezes me assombra na escuridão da noite. algum dia terei paz? algum dia serei capaz? algum dia merecedor? alguém?
isso me lembra um poema de Drummond. afinal, mesmo as derrotas precisam de estilo:
Coisa Miserável
Coisa miserável, suspiro de angústia
enchendo o espaço,
vontade de chorar,
coisa miserável,
miserável.
Senhor, piedade de mim,
olhos misericordiosos
pousando nos meus,
braços divinos
cingindo meu peito,
coisa miserável
no pó sem consolo,
consolai-me.
Mas de nada vale
gemer ou chorar,
de nada vale
erguer mãos e olhos
para um céu tão longe,
para um deus tão longe
ou, quem sabe? para um céu vazio.
É melhor sorrir
(sorrir gravemente)
e ficar calado
entre duas paredes,
sem a mais leve cólera
ou humilhação.
30 outubro 2003
sons do bicho
parabéns para você, amiguinho que descobriu que o título é uma brincadeira com o pet sounds, do beach boys. é que ontem, estávamos eu, Salsão e MW aproveitando a viagem de negócios da mulher da casa para falar besteiras, ouvir música alta e consumir substâncias estupefaciantes. e pintou o papo sobre álbuns lapidares do pop internacional.
desde que assisti no cabo o vanilla sky e uns documentários sobre os anos 60, fiquei meio obcecado pelo grupo do brian wilson, citei na lata o pet sounds, entre vários pink floyds, jimis e led zeppelins. depois de alguma discussão e farta distribuição de pescoções, chegamos à conclusão de que, apesar de ser um disco pau-duro (afinal foi uma das ins-pirações para o SGT. Peppers, referência pra lá de respeitável), não é muito lembrado. e sequer rendeu uma onda revival de"beachboysmania". quem sabe, sabe, mas ainda assim,acho um disco injustiçado.
experimente escutar god only knows ou wouldn't it be nice - só pra ficar nas mais óbvias - e diga se não estou certo.
27 outubro 2003
sobre cachorros em apartamentos e seus donos
muita gente vai querer arrancar minha carótida a dentadas, mas, em geral, classifico gente que tem cahorro em apartamento entre os tipos que menos respeito têm pelos seus semelhantes.
como diria jack, o estripador, vamos por partes:
1) cocô. infelizmente, ainda é exceção o sujeito levar um saquinho para catar o cocô do seu estimado totó. das duas uma: 1) ou o cara que faz isso nunca pisou em cocô na rua, ou 2) não se importa de entrar com o sapato cagado em casa. qualquer uma das opções é porcaria. essa é a mentalidade da lei de gérson. levar vantagem em tudo, certo? farinha pouca, meu pirão primeiro. e danem-se os outros.
2) latidos. é a mais pura falta de respeito obrigar os outros a escutar em casa a sinfonia de latidos. quando eu morava na casa da minha vó, tinha um camarada que sempre quando saía ou limpava a casa, deixava o "cóqui ispénel" latindo na varanda. e o bicho se esgoelava a tarde inteira, sem intervalos. até pensar ficava inviável nestas condições. e ninguém fazia nada. e ganha um doce porque as bestas fazem um escândalo toda vez que se toca uma campainha?
3) ruído no assoalho. essa só entende quem já teve vizinho de cima dono de cachorro. é um tique-tique-tique na sua cabeça a qualquer hora do dia ou da noite. pior do que barulho de salto alto. sempre lembrava isso à minha ex quando ela reclamava do vizinho de baixo botava a casa toda pra tremer no último volume do home theatre nos fins de semana.
4) cheiro. dentro de casa ou no elevador. sem mais comentários.
antes de sofrer linchamento, só gostaria de lembrar que não tenho nada contra cachorros. gosto deles e eles, normalmente, de mim. e por respeitá-los é que acho judiação e egoísmo mantê-los em apartamentos. é igual a ter passarinho em gaiola. cachorro precisa de espaço.
sem falar na grana de manutenção, que poderia ser melhor empregada na ajuda dos necessitados da sua própria espécie. até porque são eles os bárbaros que descerão dos morros para ameaçar a tranqüilidade burguesa da classe média criada a toddynho. na qual eu me incluo.
mais dda na sua vida
é, meus velhos, parece que os prognósticos se confirmam. ontem levei um papo rápido com uma amiga psiquiatra, que me conhece há anos (antes mesmo de estudar para encolher cabeças), e assim que levantei a hipótese de dda, ela fuzilou um "também acho" convicto.
pano rápido é o cacete. me encontro com ela essa semana para tirarmos essa história a limpo.
bái de uei, os compromissos ainda andam a passos de cágado. aleijado.
24 outubro 2003
acho que tenho dda
dda é a sigla de "distúrbio de déficit de atenção", mas também pode ser conhecida como tdah, vulgo "transtorno de déficit de atenção e hiperatividade".
pois bem, falando sério como poucas vezes posso ter falado na vida (pelo menos que eu lembre - outro sintoma de dda é o esquecimento), acho que tenho essa porra, cujo processo se traduz num rateamento dos lobos pré-frontais toda vez que eu preciso me concentrar em alguma coisa. ao invés de funcionar, o bicho desliga. ou então liga demais, criando estados de super-concentração.
o papo surgiu hoje na análise, quando eu me queixava do constante adiamento das tarefas mais banais a que era submetido, da dispersão absurda, do medo do enfrentamento, das mentiras constantes e da baixa capacidade da realização dos meus projetos. daí meu analista perguntou se eu havia lido um texto que ele me passara há mais de um mês e que eu obviamente perdera antes de poder lê-lo. era sobre dda, e a cada sintoma descrito na sessão de hoje, meu queixo caía um centrímetro a mais, tamanha a identicação.
cheguei em casa e vim procurar pelo assunto na rede. e cheguei a conclusão que deve ser isso mesmo. uma matéria da Istoé de 6/09/2003 transcrita no blog conviver com dda ou tdah, entre outras coisas diz o seguinte:
"Para saber se o adulto é hiperativo, é necessário que ele tenha sentido na infância pelo menos seis dos sintomas indicados abaixo. E que ainda hoje conviva com alguns destes sinais por no mínimo um semestre:
'Os pacientes distraem-se facilmente e têm dificuldades para se concentrar. Assim, cometem erros no trabalho,
'São desorganizados, esquecidos e impulsivos,
'Agitados e inquietos, não ficam parados por muito tempo,
'Têm mudanças bruscas de humor e entram facilmente em depressão,
'São volúveis nos relacionamentos afetivos,
'Falam excessivamente,
'Não completam as tarefas,
'Perdem com frequência os objetos."
sou eu mesmo. mifudi, né?
na matéria ainda tem um caso de um camarada que voltou a fazer faculdade depois de a ter largado porque "estava achando chato". porra, eu tentei três, e só terminei a última por intervenção direta de uma grande amiga, que literalmente me pegava em casa, do contrário eu não ia. passei três anos e tal admirado por todos os professores como um crânio, e nos dois últimos semestres, quase fui reprovado duas vezes por faltas. o mistério tinha sido desvelado, e lá nada mais me interessava.
e o que dizer da facilidade com que eu conquistei e desperdicei namoradas? no começo me apaixono, me envolvo etc., mas depois de conquistada a presa, entrando na rotina, me desinteresso absurdamente. sou capaz das maiores veleidades, sem querer. é raro - e falo aqui sem a menor dose de presunção - freqüentar festas de determinados grupos de amigos, sem que haja pelo menos uma ex presente. no entanto, meu recorde de permanência com elas é de um ano e meio, com muito custo.
acho que o fato de eu nunca ter passado mais de dois anos no mesmo colégio, devido as constantes mudanças a que meu pai era submetido como militar, pode ter mascarado o problema durante o período escolar - se é que eu o tenho. idependente disso, sempre tive dificuldades de cumprir prazos (um dia, depois de fevereiro, provavelmente, contarei a história do meu ingresso no mestrado). escrever o menor dos textos pode demorar horas, às vezes dias, tantas são as vezes em que interrompo a tarefa. (felizmente hoje devo estar no período de super-concentração)
uma qualidade de que sempre me orgulhei (e que sempre irritou todos ao meu redor) é a capacidade de conversar com uma pessoa e ao mesmo tempo olhar a menina passando na rua e escutar uma música que esteja tocando. pois descobri que isso é típico de ddas.
embora o texto esteja leve e eu esteja muito empolgado escrevendo-o, se for dda o que eu tenho, estarão explicadas muitas tardes de verão em que eu me trancava no quarto com as cortinas fechadas. assim como os constantes conflitos que fui protagonista e que tornaram boa parte da minha adolescência em casa uma chaga aberta. eu vivenciava uma insatisfação incompreensível para meus pais. tinha pavor (e raiva) de acabar como eles, de uma maneira que eu classificava de ignorante e medíocre. queria mais, queria uma plenitude intraduzível. algumas vezes eles até tentavam entender meus motivos, mas o turbilhão de sentimentos e a falta de termos adequados só me deixavam mais irado. e como eu chorava nessa época...
ao mesmo tempo, para consumo externo, eu era dos caras mais populares e um dos amigos mais leais que qualquer um pudesse ter... durante uns seis meses. quantas vezes eu não disse para os outros e para mim mesmo que as pessoas não passavam de sombras na minha vida; elas apareciam e desapareciam sem maiores dramas, normalmente. quantas vezes não fui chamado de egoísta por isso!...
também perdi a conta das vezes em que reencontrava amigos de longa data que me contavam coisas de arrepiar o cabelo que eu supostamente havia dito. e muitas delas eu só acreditava por reconhecer um certo padrão de raciocínio meu - mas lembrar, mesmo, qual o quê!... ultimamente achei até que os lapsos haviam sido superados, mas eis que há pouco tempo, fui protagonista de dois episódios: uma ex que encontrei me disse que, quando namorávamos, eu costumava usar uma frase extremamente desairosa como um comentário corriqueiro; e numa festa, uma amiga de uma amiga (por quem eu até alimento um certo quebranto secreto e inatingível) lembrou de um encontro que tivemos num antigo emprego meu. depois de tanta insistência dela, tive que fingir que lembrava do episódio, que só pode ter sido verdade, tamanhos os detalhes e as circunstâncias. mas não guardo a mínima lembrança de nenhum dos dois casos.
enfim, posso passar muito tempo descrevendo coisas da minha vida associadas ao dda, mas acho que já me estendi bastante. e se pareço um tanto eufórico, é mais por parecer conseguir uma explicação para tantos problemas que venho enfrentando nos últimos anos, e que agora parecem atingir um ponto próximo do insuportável. é um alívio descobrir que o que te impede não é falta de caráter ou de perseverança, e sim um desequilíbrio na produção de dopamina, o que quer que isso signifique. diante disso, basta (basta? como assim?) tentar criar mecanismos de conscientização dos processo e não deixá-los acontecer.
assim parece.
de qualquer forma, encontrei outro site muito bom, o orientações médicas, escrito pela dra. sonia maria coutinho orquiza, que dá uma explicação bem detalhada da parada, com inclusive dicas de estímulo positivo dos lobinhos pré-frontais. o site do napades, da dra. ana beatriz barbosa, que anda muito badalada no assunto, ela mesma uma dda.
23 outubro 2003
mais sobre Ricardo Reis
continuo meu romance com ricardo Reis. calma! antes que algum desavisado saia aos quatro ventos espalhando que virei adepto da inversão, aviso: RR é o heterônimo do Fernando Pessoa que eu não gostava na era da pedra lascada, mas que o redescobri há dias, e de quem ando lendo tudo.
minha humilde impressão é a de que, diante da tomada da consciência da finitude do corpo e da vida, RR empreende uma volta ao classicismo grego como forma de dar sentido à iminência do fim, organizando-a esteticamente.
bão, tudo isso me lembra muito um curso que uma professora de faculdade e amiga contou que ministrou uma vez na PUC: Fernando Pessoa à luz do budismo. (e para ninguém ter cócegas de utilizar a idéia, quebro minha política de privacidade e dou nomes aos...bem...a ela: maria da conceição do couto netto, vulgo "meu anjo".
a teoria dela era a de que se podia organizar os heterônimos, independente de sua cronologia, de forma a desenhar um paralelo com a iluminação budista. começando com a poesia histórica de Fernando Pessoa ele mesmo, e o desejo de retorno à simplicidade da infância. Diante da consciência da morte pinta o RR, com a grande experiência de um passado clássico, grandioso, que pelo menos justifique a miséria do fim. mas o esforço, além de desgastante, mostra inútil. vem daí a revolta e a descrença de Álvaro de Campos. por último, depois de romperem-se as amarras às regras sociais de boa conduta e de civilidade, chega-se à placidez sem de Alberto Caeiro, sensorial, direto, que não se importa com o mistério, e que só pensaria no mundo se estivesse doente. "Por que o ter consciência não me obriga a ter teoria sobre sa cousas:/ Só me obriga a ser consciente".
em linhas gerais é isso. pra terminar, gostaria de sapecar mais um Ricardo Reis. Se eu tivesse um túmulo, gostaria que fosse esta a inscrição:
Coroai-me de rosas,
Coroai-me em verdade
De rosas -
Rosas que se apagam
Em fronte a apagar-se
Tão cedo!
Coroai-me de rosas
E de folhas breves.
E basta.
um leitor! um leitor!
descobri um cara que lê (ou pelo menos leu uma vez) o blog sem a minha expressa recomendação. alguém que realmente encontrou-o pelo google e o leu. e até citou a história do "seu tiguê".
tudo bem, o cara é meu conhecido, mas não importa. ele jamais poderia ter adivinhado que eu perdia meu tempo aqui. aliás, sem medo de parecer baba-ovo, o cara é um dos grandes luminares das letras da nova geração. e embora eu tenha estabelecido como norma pessoal evitar ao máximo citar o nome de pessoas, nesse caso vou abrir uma exceção: é o max mallman.
na minha humilde opinião (que ninguém pediu, é verdade), seu "síndrome de quimera" está entre os livros mais bacanas que já li. tá pra sair outro na segunda que vem, na travecona de ipanema. se não me falha a grafia, o título é "zigurate". não percam!
21 outubro 2003
velhos hábitos não são solúveis em água
há dois dias não consigo sair de casa, não procuro meu orientador, sequer vou atrás do dinheiro que estão me devendo. fico sentado nesse computador maldito, jogando, vendo sacanagens, enquanto o mundo corre, o tempo passa, e os prazos encolhem.
a letargia está tomando conta de mim de novo. e eu que achei que isso estava superado...
SOCORRO!!!
"prazer, mas devagar"
Ricardo Reis é um dos heterônimos de Fernando Pessoa. É o dos versos exaltando o classicismo grego. como bom clássico, RR tem lá a sua musa inspiradora, Lídia.
quando eu cometia versos durante a adolescência, o heterônimo com quem eu menos simpatizava era o próprio, mais interessado estava eu nas experiências transgressoras dos modernistas e dos poetas contemporâneos do que em redondilhas e alexandrinos. coisa de moleque.
semana passada minha irmã atiçou meu interesse, ao me contar como tinha, pela primeira vez, lido o "ficções do interlúdio", anos depois de ter praticamente forçado o ex a dar-lhe o livro de presente. comentávamos sobre as características dos diferentes autores, e hoje, levei-o para ler no - arham - banheiro.
dele (do livro, não do banheiro) tirei duas pérolas do RR. uma delas sobre a discrição dos amantes, e outra sobre mania das mulheres de antecipar tudo, ou de só fazer as coisas pensando no futuro. ei-las:
XVII
Não queiras, Lídia, edificar no spaço
Que figuras futuro, ou prometer-te
Amanhã. Cumpre-te hoje, não sperando.
Tu mesma é tua vida.
Não te destines, que não és futura.
Quem sabe se, entre a taça que esvazias,
E ela de novo enchida, não te a sorte
Interpõe o abismo?
XIX
Prazer, mas devagar
Lídia, que a sorte àqueles não é grata
Que lhe das maõs arrancam.
Furtivos retiremos do horto mundo
Os depredandos pomos.
Não despertemos, onde dorme, a erinis
Que cada gozo trava.
Como um regato, mudos passageiros,
Gozemos escondidos.
A sorte inveja, Lídia. Emudeçamos.
...
a propósito, não achei "erinis" nem no houaiss. no entanto, lá mesmo tem "erínia", cuja etimologia francesa érigne ou érine, remetem ao latim aranea - aranha, teia ou fio. faz sentido. as palavras foram grafadas exatamente como no livro. as letras faltando não são erros de digitação. é métrica, manja?
tão pensando o quê? marcelão também é cultura!
...e a cozinha virou veneza
...mas não só ela: a área, o quartinho de empregada, o hall de entrada e o tapete que o decora, e passando por debaixo da porta, até o corredor do elevador.
tudo porque ontem, quando fui lavar minhas roupas de manhã, não notei que havia uma camisa do Salsão dentro do tanque. botei-as na máquina como de costume e fui cuidar da vida. mas a camisa acabou tapando o ralo, e toda a água expelida nos vários processo de enxágue, torção, centrifugação etc., em vez de seguir seu curso natural pelo encanamento, transbordou alagando metade do apê. depois de uma meia hora, de banho tomado, arrumado e cheiroso, vou pendurar as roupas, mas eis que ouço o chapinhar de poças da d'água. - mas peralá! na minha cozinha?!
corri para a área, achando que a mangueira tinha escapulido do tanque. mas qual!...(a bem da verdade, escapulindo ou não, o estrago teria sido o mesmo.)
resumindo: passei o dia inteiro com o rodo na mão, puxando água até o banheiro de empregada, onde fica o único ralo disponível por aquelas plagas, e trocando de tempos em tempos os jornais que eu usava para chupar á água. esse processo, como já disse, me consumiu o dia inteiro, e todos os planos que eu havia estabelecido para ontem se esboroaram.
em compensação, a cozinha ficou limpa e cheirosa.
os grafites de banksy
li na trip de outubro: na inglaterra, um grafiteiro que atende pela alcunha de banksy cria intervenções nas ruas com temática esculhambatória ao status quo, além de levantar questões para as pessoas pensarem. mas como o grafite é proibido na bretanha, ninguém sabe ao certo se o cara é homem ou mulher, preto ou branca. e como é considerado criminoso, banksy não pode dar mole de aparecer. mesmo quando uma galeria londrina organizou uma exposição com seus trabalhos, não se sabe se ele compareceu.
um exemplo das traquinagens do sujeito são os monumentos grafitados com os dizeres "área permitida para grafite", como se fosse um aviso oficial. no dia seguinte, os ditos já ostentam milhões de garatujas de várias procedências. e pra provar que é um cabra arretado mesmo, ele fez isso numa viatura policial. está registrado no sítio dele, onde também se pode encontrar outras obras cometidas no mobiliário e no cenário urbanos. também está na lista dos favoritos, no canto direito da página. divirtam-se!