este foi o saldo dos últimos três dias: sábado e segunda-feira fui a dois casamentos de amigos. no domingo, teve um típico e folclórico churrascão de subúrbio e, mais tarde, um puta show cover dos beatles.
os dois casamentos foram vizinhos: o de sábado, no topo do forte do leme, a uns 800 metros de altura, com uma vista acachapante estendendo-se desde a baía até o fim de copacabana. o de segunda, foi morro abaixo, no salão do círculo militar, de frente para a praia vermelha.
(aliás, só entende o nome da praia quem vem do mar. à distância, a areia adquire uma coloração avermelhada. já fiz a experiência uma vez, num veleiro.)
no sábado, valsei com minha irmã, forrozei com uma curitibana espetacular, e bailei esse tal de roquenrrou. tomei "chicote" selo preto, e, pasmem! peguei o buquê da noiva. terminamos, umas treze pessoas, na suíte dos noivos, bebendo prosecco (me segurei para não fazer um trocadilho de baixíssimo calão) no gargalo. resumindo, uma pândega.
depois fui à praia, brinquei muito, suei tudo o que podia e o que não podia, e acabei chegando em casa às sete e tal da matina, nas nuvens, com o espírito leve leve de alegria.
às onze acordei, piano, e fui devidamente rebocado para a casa de uma ex-empregada que foi praticamente criada com a minha mãe. zarpamos para o caju, depois do cemitério e do arsenal de guerra da cidade. ela se emocionou quando nos viu chegar, e nós também. e a parentaia estava toda lá. uma festa como nos tempos da casa da minha vó. e tome cerveja, e tome papo, e tome churrasco (ela cozinha às pampas). nos fez questão de mostrar a casa, apresentar a família etc. digam o que disserem, a velha cortesia e a gentileza sobrevivem no subúrbio. gente de peito aberto, recebendo com carinho e com fartura, sem desconfiança.
o filho dela, meu chapinha de brincadeiras e implicâncias dna infância, é professor de percussão e sax, e toca no centro de artes e cultura banto - ou algo assim, não estou muito certo do nome - lá na lapa. do lado do casarão do grupo de teatro tá na rua. quando falei que tava arranhando uma caixa no Laranjada, me chamou para participar das aulas de bateria do bloco dele. aceitei na hora, e se deus quiser, sexta à noite tô eu lá, mais banto do que nunca. negão de nascença.
cheguei em casa, dei uma dormida, e às nove tava tinindo para assistir a mais um show da pepperband. os caras fazem cover dos beatles, e são tão bons que já ganharam prêmio de melhor banda no concurso promovido pelo cavern club, de liverpool. concorrendo com gente do mundo inteiro. neguinho é foda.
todo o primeiro e terceiro domingos do mês eles tocam no far up, na cobal do humaitá. a sensação é a de estar ouvindo o quarteto ao vivo. de arrepiar. entre outras coisas, tocaram a day in the life, e tive que me segurar para as lágrimas não descerem. essa é, por sinal, a interpretação mais pungente do john lennon, na minha opinião. a única que me faz lembrar "putz! john lennon morreu!..." .
os caras não fazem feio. todos cantam, e os efeitos sonoros de estúdio e orquestrações estão todas lá. um dos integrantes é meu bróder de colégio militar, gustavo camardela, na guitarra solo e nos vocais de deixar o paul mccartney de queixo caído.
o casório de ontem também foi jóia. outra faixa etária, universitários. muita dança, biritinha e bifê de primeira. depois conheci um camarada gente fina, e fomos com um grupo para o espírito do chope. lá encontrei mais alguns amigos, e acabei chegando em casa um pouco mais tarde do que devia.
minha maré está definitivamente mudando para melhor. sinto no ar. basta uma sintonia fina minha com o mundo, e de 2004 em diante, ninguém me segura.
caô cabecile, meu pai Xangô!
09 dezembro 2003
dois casamentos e um churrasco (e um show)
06 dezembro 2003
meu mundo é hoje
salsão chegou em casa com o disco do filme sobre o paulinho da viola.
devo confessar que, tempos atrás, não era muito chegado no cara. achava meio choroso, voz pequena etc. ... tava acostumado com monarco, candeia...vozeirão, sacumé? mas, ao contrário do zé keti, mudei de opinião. e a prova do mau julgamento é essa pérola cantada, de autoria de wilson e josé batista (irmãos?):
eu sou assim, quem quiser gostar de mim eu sou assim
meu mundo é hoje não existe amanhã pra mim
e tenho dito.
03 dezembro 2003
suassuna e collor
é quase um pecado conspurcar o nome de mestre Ariano Suassuna situando-o ao lado do (pé-de-pato, mangalô três vezes!) ex-presidente cheirando collor de mello.
é que ontem estava na casa da minha mãe e assisti os dois na tevê (não juntos, claro). primeiro o collor na gimenez, com um orte de cabelo inacreditável de ridículo, tentando passar uma imagem de bom-moço-injustiçado. acredito que ele estava dopado, tamanha sua calma. no auditório, a ex-primeira fuinha rosane collor. magra pacas, era só olhos, gengivas e limpa-trilhos. tão esticada que não deve conseguir mais piscar (os olhos!). deve ser um castigo ser condenado a dar de cara com aquele tribufu toda manhã. mas ele merece muito mais...
depois, a redenção com Ariano Suassuna, na tevê senac. na pauta, o de sempre: o sucesso de sua obra, a origem de seus personagens, o brasil oficial e o brasil real, conceitos apropriados de Machado de Assis, e a globalização. sobre essa última, deu show.
separou globalização desse novo colonialismo cultural que nos tem sido impingido. "por ser internacionalista é que sou contra essa falsa internacionalização", sapecou. e concluiu dizendo que a cultura deve ser sim, mundial, mas que "na vasta sinfonia da cultura universal, cada país deve contribuir, igualmente, com sua nota. e não apenas receber o lixo que vem de fora".
óbvio, mas é o tipo de declaração que nunca é suficientemente repetida.
assino embaixo e dou fé.
02 dezembro 2003
o samba é meu dom
...com uma certa dose de presunção de minha parte, faço minhas as palavras do bamba Wilson das Neves:
O samba é meu dom
Aprendi bater samba
Ao compasso do meu coração
De quadra, de enredo
De roda na palma da mão
De breque, de partido alto
E o samba-canção
O samba é meu dom
Aprendi dançar samba
Vendo o samba de pé no chão
No Império Serrano
A escola da minha paixão
No terreiro, na rua, no bar
Gafieira e salão
O samba é meu dom
Aprendi cantar samba
Com quem dele fez profissão
Mario Reis, Vasourinha,
Ataulfo, Ismael, Jamelão
Com Roberto Silva, Sinhô,
Donga, Cyro e João
O samba é meu dom
Aprendi muito samba
Com quem sempre fez samba bom
Silas, Zinco, Aniceto, Anescar
Cachinê, Jaguarão,
Zé-com-Fome, Herivelto,
Marçal, Mirabeau, Henricão
O samba é meu dom
É no samba que eu vivo
É do samba que eu ganho
O meu pão
E é num samba que eu quero morrer
De baquetas na mão
Pois quem é do samba
Meu nome não esquece mais não.
...
Salve, padrinho!
o samba volta à vida (à minha)
as memórias musicais mais marcantes da minha infância são bete carvalho cantando "coisinha do pai" e maria alcina interpretando "kid cavaquinho", ouvidas na rádio mundial, lá na tijuca, com a minha irmã bete. tinha também o elvis (de quem assisti o último show, transmitido pela tevê), a "melô da asa delta", o peter frampton, a nikka costa (minha primeira paixão infantil, depois da minha prima renata, aos quatro anos), mas o grosso era samba, mesmo.
aí fui morar nos estados zunidos, e como era de se esperar, voltei intoxicado, nem tanto pelo roquenrrou, mas por um popizinho muito do sem vergonha. com o tempo, os representantes da língua inglesa tornaram-se mais encorpados, e vieram beatles, ella, billie holliday, louis armstrong, dave brubeck, e porque não, black sabbath, sex pistols, dead kennedys e outros que tais.
com a adolescência afloraram a revolta, o comunismo, a maconha, o álcool, o sexo e descoberta da psicodelia dos mutantes, mais a poesia de chico, gil & caetano, joba, giba, dorival e nana. até o dia em que esbarrei nos discos do meu primo paulinho, em especial na coleção completa de música brasileira lançada pela editora abril nas bancas, nos anos 70. foi uma epifania embalada por pixinguinha, donga, joão da bahiana, blecaute, mario reis, chico viola, quatro ases e um coringa, aracy de almeida, sinhô, herivelto martins, geraldo pereira, dolores duran, e ela, a maior de todas, a divina elizete cardoso.
eu e meu bróder joão trocávamos figurinhas musicais, ele na viola e eu assassinando os vocais. depois veio o ricardo, nos apresentado pela ana sylvia. daí para a criação do cordão do boitatá foi um pulo, questão de reunir mais uma galera.
mas como diria chico, por conta de umas questões paralelas, me retirei do grupo. logo em seguida, o núcleo passou por uma fissão, e alguns dos treze integrantes partiram para projetos próprios, mais identificados com os gostos individuais. mas o carinho permaneceu.
tô enrolando à vera pra contar que o motivo de tudo foi eu ter ido na sexta passada ao "flor do chorume". pra quem não conhece, é o samba da rua do mercado, onde ficava a bolsa de valres, no centro, já tinha ouvido falar, mas nunca tinha dado às caras lá. e qual não foi minha surpresa ao topar com a gangue toda do boitatá, que além de comandar o espetáculo, comemorava a última promissória paga de um casarão que compraram, lá mesmo, em parceria com o abayomi (das bonequinhas negras) e o teatro do anônimo. a felicidade e o samba me contagiaram. e fiquei feliz quando o ricardo me apresentou numa roda como um dos criadores do boitatá.
no sábado, salsão, gabi e marçuda e eu fomos ao candongueiro, no lançamento da biografia do adoniran pelo andré diniz e patroa, a juliana. putaquiupariu! o lugar é demais, e o melhor é que fica a um espirro da casa do zé luis, namorado de mi mamã. tamos combinandos, mái sister e eu, de voltarmos lá no sábado pra ver a teresa cristina.
e por último, mas não menos importante, está o Laranjada Samba Clube, o bloco aqui da general glicério, do qual farei parte da bateria, se deus quiser. para isso, venho atacando uma caixa toda segunda. já tô conseguindo enganar legal, e no sábado de carná pretendo estar tinindo.
o samba, meus amigos, é a suprema felicidade. é inspirador de uma alegria que eu não sentia desde os tempos do boitatá, e da qual eu andei afastado tanto tempo. a alegria de participar, de misturar-se à massa e ser - cantando, tocando, dançando ou simplesmente curtindo - parte importante de uma totalidade de prazer. o sonho de fusão que os regimes totalitários tentaram através da coerção pela violência e pelo medo, e por isso fracassaram.
o samba é a grande utopia.
27 novembro 2003
sincronicidade é isso aí!
e não é que fui acordado hoje com uma reportagem da cbn sobre planejamento familiar?
a matéria citava duas ongs, a BEMFAM (Sociedade Civil Bem-Estar Familiar no Brasil), que existe desde 1967, e o CEVAM (Centro Vergueiro de Atenção à Mulher).
Louvável, mas as ongs não podem assumir as responsabilidades de uma política de estado. é pouco, ainda.
em todo caso, meu faro para pautas está afiadíssimo.
26 novembro 2003
incêndio na ceasa e o excesso de crianças
antes que a notícia envelheça demais, gostaria de tecer algumas considerações sobre os saques ocorridos depois do incêndio da ceasa. no noticiário de anteontem, apareceu uma senhora favelada reclamando da fome, pois só tinha sal para dar de comer aos seus sete filhos.
aí penso cá com meus botões, o problema não é de fome. é de planejamento familiar. ora bolas, se essa dona tivesse dois - em vez de sete – filhos, ela talvez não estivsse sofrendo tal penúria. esticando um pouco mais o raciocínio, lembrei que há anos não ouço nenhum governante falar no assunto. a última vez, para ser bem preciso, foi em 1996, na feira de ciências do colégio militar (instituição que freqüentei tempo suficiente para aprender a detestar qualquer tipo de organização de massa). antes disso, também, no começo da minha vida escolar, passada nos bancos de diversas escolas públicas, nos estertores da ditadura. depois do governo sarney, nunca mais. é como se o problema não existisse.
aí, apresentada às conseqüências da falta de informação, o que faz a nossa gloriosa classe média, da qual faço parte? oscila entre a vontade nunca confessa de exterminar as hordas de pivetes e mendigos que enfeiam a garcia dávila, ou apela para soluções paliativas de distribuição de sopão na madrugada, à moda zarur (essa é só pra quem tem mais de quarenta). mas sobre planejamento familiar, silêncio fúnebre.
quero deixar claro que não estou falando de esterilização sem consentimento, mas da possibilidade consciente de decisão entre ter ou não (mais) filhos. até porque, sem isso, acontecem coisas como a que eu ouvi de uma amiga, que contou que o porteiro de seu prédio desejava mandar a mulher de volta para o nordeste, “porque aqui ela só sabia era fazer filho”.
19 novembro 2003
neuromancer
comecei a ler a nova edição em portuga de neuromancer, do william gibson. para quem não sabe, o camarada é autor do ciberespaço, conceituando-o como um ambiente virtual de transmissão de dados. o personagem principal, Case, é um caubói do ciberespaço, um hacker viajando pelo ambiente binário da Matrix.
qualquer semelhança com algo que vocês já tenham visto é mera chupação mesmo. os irmãos wachowzchfpsky realmente se inspiraram até o talo no livro. este aliás, mais do que a história, prende pela construção do ambiente, que vêm influenciando a ficção científica desde antes de blade runner, e pela caracterização e situações, um tanto clichês pinot noir, mais ainda assim, deliciosas.
como diz um coleguinha, recomendo com ênfase! a próxma aquisição é the difference engine, do mesmo gibson, e do bruce sterling. mas sobre esse eu falo depois.
flash mob contra o fim das prisões especiais
diante do anúncio do possível fim da prisão especial para nível superior, gabi sugeriu protestarmos com uma flash mob. em conjunto, estabelecemos como palavra de ordem "universitários, unidos, jamais serão prendidos!"
man on the mam, ou a volta do diabo da garrafa
desde domingo, pé de cachimbo, estou para contar sobre como enchi os cornetos no finde. fui ao mam para umas festas de algum evento. eu mais uma amiga mais seu namorado batemos ponto na sexta, e no sábado repetimos a dose, sem o namorado, que estava tocando com sua banda.
bão, na sexta marcamos num japa aqui de laranjeiras, e enquanto eles jantavam, mergulhei no saquê até atingir um estado que, na vertical, poderia se aproximar de um arremedo de consciência zen.
embora a festiva em si estivesse fraca, valeu por ter encontrado alguns amigos que não via há tempos. saímos de lá relativamente cedo e partimos para o recém-reinaugurado jobi, o pai de todos os bebuns no leblon. os garçãos, coitados, envergando coletes xadrez iguais às toalhas das mesas. feio que só.
sábado, pela primeira desde que cheguei no bairro, há dois meses, dei as caras no choro aqui na rua com gabi e salsão. estava, segundo eles, mais cheio que de costume, graças à matéria do caderno de bairros do globo. comi pastel e bebi garapa. de álcool, nem uma gota sequer. encontramos com uns amigos paulistas, fizemos um tour pelas redondezas e paramos no serafim. chopes e doses de magnífica molharam as palavras dos amigos, enquanto eu fiquei no mate (ou coca, não lembro).
depois vieram todos pra cá, mas fui pra cama. de noite, segui para a casa do casal, e de lá rumamos para o mam, diversas doses de uísque com red bull depois.
o show do autoramas foi legal, bacalhau está destroçando na batera, mas a baixista tinha uns trejeitos esquisitos. de vez em quando repetia o mesmo gesto de levantar o baixo na vertical à sua frente, e fazia umas caretas que lembravam o lon chaney interpretando o fantasma da ópera. alguém precisa avisar pra essa menina...
minha partner de noitada saiu cedo pois o namorado veio buscá-la, e fiquei só, zanzando como barata tonta depois de algumas generosas doses de vodca pura com gelo. e a carne começou a esquentar. e o desejo aumentou na mesma medida em que eu me dispersava. o conhecido e temido desfecho caminhava a passos largos para sua realização: sairia dali de manhã - sozinho, obviamente.
mas antes encontrei com uma amiga e ex, que por sua vez estava acompanhada de uma amiga (dela), figura em quem já havia reparado noutra ocasião. mas como àquela altura meu meu filme ficando quieto. mas tarde, entornaria o caldo queimando-o, quem sabe, irremediavelmente.
nas indas e vindas pelos dois salões, mais birita foi absorvida, meu senso decrescdo proporcionalmente. e o velho diabo da garrafa ia tomando conta da personalidade. reencontrei as duas, que há horas conversavam com dois camaradas. o clima era de pegação, mesmo assim puxei minha "amiga ex" e sussurrei (sem muita certeza de não estar sendo ouvido por todos): "pô, esses caras não vão tomar uma atitude? esse papo já tá rolando há um tempão e até agora, nada!"
ela me mandou um "vai tomar banho", enquanto eu me afastava, contente com a molecagem.
amanhecia, a pista esvaziava, e pintou uma cadeira de plástico numa parte afazstada do salão. sentei e me pus a admirar uma menina que, apesar da pouca idade, já tinha passado da validade de ser a avril lavigne que ela gostaria. era bonita, e pela lentes embaçadas, dava a impressão de estar retribuindo os olhares. fui até ela, que estava meio de costas pra mim, conversando com uma gordinha à minha frente. quando me aproximei, a gordinha levantou o olhar, avisando-a. ela se virou, eu disse oi. ao que ela respondeu, com uma agressividade de quem se acha muito esperta:
- algum problema?
- problema nenhum. só gostaria de me apresentar. meu nome é marcelo.
- meu nome é michelle.
na verdade, não lembro se o nome era esse, nem o que exatamente eu disse em seguida, mas acho que pedi o telefone, ou coisa que o valha. talvez tenha dito que gostaria de conhecê-la melhor. a resposta foi um "não" seco. não perdi a pose e disse que que achava que quem devia estar com problemas era ela, com aquele humor péssimo. encerrei a discussão dizendo que ela não sabia o que estava perdendo; virei as costas e voltei para minha cadeira em triunfo, certo de que havia ensinado àquela fedelha uma lição de educação e malandragem. um sorriso estampou-se em meu rosto enquanto eu caminhava despreocupado, as mãos nos bolsos. devo até ter assoviado, mas de qualquer forma ela não ouviria, com todo o volume da música. sentei-me, e fiz uma varredura no entorno, começando em sua direção, mas sem fixar o olhar. sentia-me magnânimo e paternal, como um barão admirando seus escravos trabalhando a terra.
fui embora por volta das sete, sob o sol já então castigando. assisti a uma briga de casal no ponto , num espaço de tempo que me pareceu eterno. tomei o ônibus e saltei na padaria perto de casa. comi um risole que jurou algum dia ter hospedado um camarão. frito em óleo de caminhão. tomei um mate e pedi um queijo minas na chapa.
na saída, liguei para a "amiga ex", para perguntar como tinha sido a noite. estranhei a rapidez com que ela atendeu e a clareza da voz. perguntei onde estava. em copa, foi a resposta, com a amiga e os dois carinhas. não resisti:
- pô! quer dizer que os caras ainda tão aí de papo, sem tomar uma atitude até agora?! ah, não! que é isso, meu deus! e por acaso seu pai sabe que você está na rua até essa hora?
e continuei falando disparates. acho que no começo ela riu, mas depois deve ter ficad brava. tenho esse problema, perco os amigos, mas não posso perder a piada. aliás, acho que liguei duas vezes, pois se não me angano a amiga também atendeu, e até brincou por eu ter confundido as vozes.
enfim, foi isso. não falei com ela até hoje. acho que amanhã eu ligo para saber como foi. e como fui.
dessa história, só sei tirar uma conclusão: não posso facilitar com o diabo da garrafa, pois ele parece ser muito meu chapa, mas sempre acaba me sacaneando. mas o pior é que, olhando em perspectiva, me divirto bastante. afinal, o que é a vida sem essas pequenas incongruências?
de qualquer forma, vou dar um sossego no bicho. acho.
17 novembro 2003
frase da semana
"Um homem que detesta crianças e cachorros não pode ser mau de todo".
- W. C. Fields
qualquer semelhança é...bem, deixa pra lá.
11 novembro 2003
a esperança veio me ver
uma baita esperança entrou no meu quarto, botou uma fileira de ovos atrá do cartaz do festival de cinema de miami de 2001 pregado embaixo da janela, e agora está passeando sobre a minha cortina branca. pensei em enxotá-la do quarto, mas resolvi deixa-lá em paz. afinal, é raro eu ter a esperança por companhia.
as invasões bárbaras dos genes egoístas
ainda estou sob o impacto de as invasões bárbaras. é sem sombra de dúvida um dos melhores filmes que já vi. apaixonante, singelo, politicamente incorreto, sexista...posso gastar teclas e teclas de adjetivos e elogios. roteiro afiado, atores idem (destaque para a junky interpretada pela marie-josée croze, que além de tudo é portadora de uma beleza narcótica).
levante já essa bunda da cadeira e corra até o cinema!
mas não era sobre isso que eu queria falar. o personagem principal está à beira da morte, e desfia uma série de questões sobre o sentido de sua vida, e lamenta-se pelo que poderia ter feito. isso mexeu muito comigo. minha crença em vida após à morte, reencadernação etc. é variável. depende mais do dia e do interlocutor do que de uma certeza interna. se o sujeito é crente na matéria e eu estou num bom dia, sou até capaz de acreditar. mas às vezes sou cético, acho tudo isso besteria; a gente morre, vira comida de verme e pronto. afinal de contas, é muita pretensão querer conservar o ego além da matéria, né? ah, não, faça-me o favor... quando chegar minha vez de tocar harpa na terra do pé junto, quero descansar de ser marcelo. apagar a ficha, zerar a contagem, e que tudo o mais vá pro inferno!
mas também não era exatamente isso. recapitulando: o cara questiona o sentido da vida - e fiquei pensando que talvez não haja nenhum. talvez o importante seja perceber isso e aproveitar tudo até o momento de atar as duas pontas do nada. mas sem egoísmo, pois a fila atrás de você é interminável, e a toda hora chega mais gente. então, o importante é manter a casa arrumada (não apenas para os seus), porque eles têm tanto direito a curtir tanto quanto você.
a receita deve ser mesmo ouvir boas músicas, ler bons livros, cultivar amizades e atrasar contas; porque afinal, já que você vai perder um tempão por aqui, o ideal é que pelo menos você se distraia durante a estada. e o resto que se dane!
certo deve estar o Richard Dawkins, que escreveu que não passamos mesmo de um amontoado de genes egoístas, cuja única função é a auto-reprodução. o gene só quer saber de se perpetuar, e vem daí toda a aventura da vida, seja ela um vírus, um cocker spaniel, o paulo maluf ou a luana piovani (aliás, luana, se o seu gene quiser se reproduzir às minhas custas, é só mandar um imeio que a gente de cá dá um jeito, viu?). veja bem: qual a utilidade de um mosquito ou de uma barata, a não ser se multiplicarem ao ponto de se tornarem uma praga ou uma epidemia? não há qualquer explicação para eles, salvo o egoísmo genético.
como explicar a rãzinha do deserto do arizona, que passa a vida toda enterrada na areia, só saindo durante o período das chuvas, quando têm não mais que uns quinze dias para chegar à superfície, procurar uma fêmea, cruzar, procriar e se enfiar de novo no chão, onde passrá mais um ano sem fazer absolutamente nada, em estado de quase hibernação. que sentido tem essa vida bunda? que sentido tem a nossa? só porque construímos torres e as explodimos, escrevemos livros e os queimamos, criamos deuses e os esquecemos? cantamos, dançamos, andamos de bicicleta, nos equilibramos sobre o meio-fio, caímos, enfiamos moedas no nariz, chupamos gilete, somos explorados no trabalho e corneados, jogamos no bicho, nos apaixonamos, levamos fora, choramos, bebemos guaraná com formicida, rimos, algumas vezes envelhecemos, e sempre haveremos de morrer. e sabe de uma coisa? isso é tudo. kaput. surpresa! esse papo de transcendência é só para confortar as crianças, os angustiados e os que têm medo de se arriscar. "ah, nessa vida fui pio, casto e só rezei, mas quando chegar do outro lado vou botar pra quebrar, vocês me aguardem!" não senhor, querido. o tíquete só dá direito a uma viagem. bobeou, perdeu. depois daqui, babau. já era. se a tua energia se decompõe e se recompõe com outras para formar uma nova pessoa, não sei. nunca ninguém achou o caminho de volta para contar.
acho que o assunto deveu-se também ao impacto de descobrir Lugal e Nin, os imortais do Max Mallman. ou será o próprio Max um deles? respostas (e mais dúvidas) no zigurate.
aliás, Max, parabéns. li o livro de quase um fôlego. agora vou atrás da epopéia de gilgamesh. não consigo mais parar. ah, rapá, você me paga...
04 novembro 2003
report dead links
flanando, acabei de descobrir que dois links da minha lista morreram: águas claras, do meu bróder dude, e brazileira preta, da clarinhah averbuck. ambos deixaram mensagens de despedida, que reproduzo a seguir. primeiro as damas:
Sexta-feira, Outubro 24, 2003
brazileira!preta - R.I.P.
28.9.01 - 24.10.03
Foi bom, foi lindo, frutífero e inspirado, dois anos de posts ininterruptamente cuspidos e jorrados diretamente do coração desta que vos escreve, dois anos de paixões e amigos e risadas e momentos tristes e uns outros momentos do caralho, dois anos de miséria e euforia.
Mas tudo o que é bom tudo acaba. Senão não tem graça.
Poderia dizer que não tenho mais tempo e que estou afundada entre fraldas e mamadeiras e noites mal dormidas e um frila na mtv - o que é verdade, mas não me impediria de continuar se eu realmente quisesse. Poderia dizer que agora sou uma mulher casada, fiel e apaixonada e que não sofro mais de amor perdido, o que também é verdade - e é que eu procurei a minha vida inteira. Mas isso também não me impediria de escrever no blog. A única coisa que me impede sou eu mesma. Cansei disso tudo, porque um dia cansa.
E eu não vou ficar me forçando a fazer algo que não quero. Sem paixão não rola. Sem paixão não tem condições. Está nos meus Dez Mandamentos: não faço nada que não queira, nada que seja forçado, senão fica sem alma e sem alma não presta pra nada. O brazileira!preta, de um tempo para cá, tornou-se mais uma obrigação do que prazer. Antes eu era obcecada por postar, postar, postar, escrever, escrever, escrever, o tempo todo, o dia inteiro, com chuva, com sol, neve, granizo, coração partido, álcool nas veias, lágrimas nos olhos. Passou. Claro que eu não vou parar de escrever, senão eu morro. These words I write still keep me from total madness, mas elas agora serão escritas de outro jeito, em outros lugares, lidas por outras pessoas, em jornais ou livros ou revistas ou qualquer outro veículo. Mas não mais aqui. Cansei, saturou, não quero mais saber desse negócio de blog. Só essa palavra já me embrulha o estômago, dá ânsia de vômito, "bloooogh". Cansei. Mas não vou parar. Só vou mudar de novo, e de novo, e de novo. Prometo que aviso quando o Vida de Gato sair. Vocês reclamem com o Joca Reiners Terron, que eu já entreguei o livro para ele e agora não é mais comigo. Estou escrevendo outro livro, agora para uma editora grande, bem grande, mas não vou falar sobre essas coisas porque dá azar. Agora eu vou escrever livros. Chega de blog, chega de escrever de graça, chega de gastar as minhas histórias. Queridos leitores, obrigada por tudo, todo o carinho, todos os emails, todos os presentes e tudo que vocês me deram. Eu vou continuar por aí, nas prateleiras, nas revistas, nos arquivos do blog e no coração de vocês.
E agora chega, que eu detesto despedidas.
Com amor,
.: Lady Averbuck :. 1:46 AM
...
já meu amigão foi sucinto. não sei se o que ele mantém com a patroa, o barulinho continua valendo. desconfio que não, mas mantenho o laço que nos une:
Segunda-feira, Novembro 03, 2003
C'est fini. Mas quem quiser usar os links, fique a vontade.
... rascunhado por Dudu mais ou menos às 10:38 AM
...
justificados ou não, ambos cantraram pra subir. com isso, declaro automaticamente extintas duas posições da lista.
bem que minha mãe falou pra eu não acreditar nesse povo de blog!
sem comentários
pô, toda vez que eu mexo no template, essa bagaça apaga o código dos comentários.
ah, minha santa querupita!...mas será impossível?!
comentários
graças à matéria do informática etc., ao blogs.com.br e ao falou e disse, até eu pude instalar um sistema de comentários.
pelo menos agora saberei que não falam comigo pela qualidade dos textos, e não por falta de acesso.
em breve teremos novas e eletrizantes configurações. uau!
01 novembro 2003
a los muertos
amanhã é dia de finados. quão apropriado.
em comemoração à data e ao clima tãããããão acolhedor, siga a bolinha, por peter gabriel:
Indigo
It's too late, this model's out of date.
Got every spare part, but there ain't much heart inside here.
Not like the start, I was good at the art of survival;
I've always tried to keep my feelings deep inside
Where I can hide them, now I'm open wide.
When it ends, again I'll see my friends,
They'll give me a lift, I've been running adrift, so easy...
Shifting the gear, I've got nothing to fear from a showdown,
I'll go down quiet.
And the kids downstairs making a hell of a din,
I'm all alone, getting a quote for the wages of sin.
Beyond the indigo, indigo,
Where the chilly winds, winds will blow,
My time is running low.
Going to cross the dark, dark river,
Going to see my good life-giver,
Better cover my yellow liver.
All right, I'm giving up the fight,
I didn't know when I'd be a stranger again in my own land.
The days are okay, but oh, how I hate these long nights.
You understand?
Darling, please just hold my hand.
You feel so warm, in the eye of the storm,
I'm going away, I'm going away, I'm going away.
See you again someday...
Darling, I'm going away.
Feel like I'm going away, this time I'm going away.
...
taquíuspa!, como eu gostaria de ter escrito isso...
Virgílio já sabia
Forsan et haec olim meminisse iuvabit
ou, em bom portuga "talvez, futuramente, seja prazeroso recordar estes fatos".
sonho frustrado de uma tarde de...verão?
e lá estava eu, debaixo de um calor opressivo dentro das calças jeans e da camiseta escura, pés e meias ensopados de suor, a ressaca atirando dardos no meu cerebelo, a meio caminho de encontrar meu passado. e se não foi bonito, tampouco foi feio. mais parecido com pele morta.
tudo quase como eu havia deixado, com exceção das duas fotos sobre as estantes - estandartes da minha derrota definitiva. eu não conseguia ser engraçado. não conseguia ser nada. o ar faltou, e enquanto falavam ao telefone, busquei a janela da sala. a paisagem resplandecia imóvel, lentamente cozida pelo sol. recuperei-me, e de volta ao quarto, senti-me um pouco mais presente. a ressaca agora atravessava meu crânio com um picador de gelo, e no almoço tomei uns goles de cerveja para rebater. no ônibus, tinha me esforçado para não cair num pranto de auto-piedade pela antecipação do encontro. mas agora, durante o refeição, podia quase reconhecer o velho eu de volta, viçoso, contando histórias e arrancando sorrisos.
quando saímos, entretanto, sabia que o assunto viria à tona. minhas chances eram escassas, e me fechei em copas. mas não fui esperto o suficiente, e uma pergunta me abriu a guarda, expondo meu flanco mais débil. deixei pingarem algumas gotas sobre a situação, mas veio óleo quente sobre as minhas esperanças. respondi com sobras de ironia - quase um dândi - mas meu destino estava consumado. sem perceber, servi meu nervo de bandeja. ela estava certa, eu errado. deixei a emoção tomar conta da situação - embora mais tarde, analisando tudo, no íntimo eu soubesse que ela precisava de uma vitória. sua certeza e paz só seriam completas quando eu me humilhasse. mas no calor do momento, os pensamentos eram amargos: "espero que a proximidade destrua as ilusões", ou "um dia, o amor chegará para mim, esplendoroso, e ao seu lado desfilarei em triunfo".
ao mesmo tempo, pensei quem era eu para querer ainda amor depois de tantas oportunidades atiradas à lama, depois do rastro de corações despedaçados que até hoje marca meu caminho, e às vezes me assombra na escuridão da noite. algum dia terei paz? algum dia serei capaz? algum dia merecedor? alguém?
isso me lembra um poema de Drummond. afinal, mesmo as derrotas precisam de estilo:
Coisa Miserável
Coisa miserável, suspiro de angústia
enchendo o espaço,
vontade de chorar,
coisa miserável,
miserável.
Senhor, piedade de mim,
olhos misericordiosos
pousando nos meus,
braços divinos
cingindo meu peito,
coisa miserável
no pó sem consolo,
consolai-me.
Mas de nada vale
gemer ou chorar,
de nada vale
erguer mãos e olhos
para um céu tão longe,
para um deus tão longe
ou, quem sabe? para um céu vazio.
É melhor sorrir
(sorrir gravemente)
e ficar calado
entre duas paredes,
sem a mais leve cólera
ou humilhação.