não sei porque, hoje acordei feliz. tarde, um solzinho frouxo e aconchegante me acorda depois dos dias de chuva e frio. sinto-me até humano.
tomo quase um litro de café, mas felizmente, a tranqüilidade não me abandona. aparece salsão, bota uns discos na vitrola (que nem temos em casa, mas como eu adoro a palavra!...), lemos jornal, conversamos. gabi está na vera, me conta ele.
tento entrar em contato com os amigos, mas os números estão todos no celulari, esquecido ontem na casa de mamã. fico triste por não poder falar com ninguém, mas feliz porque é menos uma tralha para carregar para a praia.
ainda espero um imeio dela, que nem sei se me escreverá, nem sei se me quer. bom, até espero, mas depois que as roupas saírem da máquina, nada mais me prende em casa. apenas, talvez, uma outra trouxa de roupas - há muito que não lavo nada.
mas não é nada disso que eu queria dizer; e sim que, depois de um ano de muito medo de tudo, o casulo se rompe e volto à vida, ao trabalho, ao samba, ao mestrado e às mulheres (não necessariamente nessa ordem).
2003 já vai tarde.
20 dezembro 2003
depois da morte, à vida!
17 dezembro 2003
more farid (mó farid)
duas pessoas que eu sequer conhecia deixaram seu comentários sobre o nosso bróda farid ( no terceiro bostejo abaixo). e quando eu já achava que o assunto não mexeria mais comigo, os depoimentos trouxeram toda a emoção de volta à tona.
continua parecendo que tudo não passa de uma piada de mau-gosto, e que daqui a pouco, ele vai estar no telefone convidando para mais um show...
quando uns poucos amigos combinamos o encontro em homenagem ao negão, na quinta, a coisa toda talvez tivesse só o gostinho de uma combinação carioca, como os famosos "vou te ligar...", que adoramos pregar uns nos outros, sem, no entanto, a menor intenção de sacanearninguém. (talvez seja um traço cultural, uma herança geográfica, sei lá - mas acreditamos mesmo que vamos ligar depois, só que são tantas coisa a fazer, que ...)
de qualquer forma, amanhã (hoje) estarei pessoalmente empenhado em coordenar a galera toda do gaivotas & cercanias para o encontro.
summer fire (samir faia)
hoje foi um dia radiante para mim - e aqui não faço nenhuma ironia ao calor senegalesco que castigou a cidade, chegando a insuportáveis 41,5º. assim não se pode viver de maneira decente. recomendo à governadorazinha lançar a campanha do ar-condicionado a R$ 1,00.
enfim, radiante porque trabalhei muito bem, e acho que dei o pontapé inicial numa nova perspectiva de vida e de carreira, que promete render frutos a partir do ano que vem. preparem-se, pois ninguém me segura mais.
de noite, eu e tereza fomos comemorar à vera a última noite de trabalho do ano. espírito do chope, cobal do humaitá. lá chegamos de noitinha, vimos a chuva, e só saímos com os garçons já à paisana, loucos para irmos embora. farra como não vivíamos desde os tempos de faculdade.
à certa altura, liguei para a priscilla em busca do telefone da duli. ela não tinha, mas deu as coordenadas para consegui-lo. tenho que ligar para um cara que está na casa do claudio, para que ele encontre numa agenda o telefone da mãe dela, em curitiba. aí, quem sabe, eu consiga jogar uma lábia para conseguir o número de sampaulo. operação de guerra; mas, como disse o poeta, "tudo vale a pena...".
na carona de volta para casa, ouvimos uma velha canção do bob & erasmo de roterdã carlos, "não se esqueça de mim". se tivesse sido encomendada, não teria vindo em tão boa hora:
(algumas canções de amor de bob carlos são tão despudoradamentes emotivas que conseguem me deixar ao mesmo tempo tocado e envergonhado, por serem tão diretas. alguém já sentiu isso, ou só eu mesmo?)
Onde você estiver não se esqueça de mim
Com quem você estiver não se esqueça de mim
Eu quero apenas estar no seu pensamento
Por um momento pensar que você pensa em mim.
Onde você estiver não se esqueça de mim
Mesmo que exista outro amor que te faça feliz
Se resta em sua lembrança
Um pouco do muito que eu te quis
Onde você estiver não se esqueça de mim.
Onde você estiver não se esqueça de mim
Quando você se lembrar não se esqueça que eu
Que eu não consigo apagar
Você da minha minha vida
Onde você estiver não se esqueça de mim.
...
estou definitivamente babão.
16 dezembro 2003
happiness is a warm gun (rapinez esaú amigão)
tenho algumas restrições ao arnaldo jabor, mas não deixo de lê-lo sempre que posso. (assim como o olavo de carvalho, que todo sábado estimula minha produção de bile logo pela manhã, mas isso é outra história.) hoje, no entanto, ele conseguiu expressar um fenômeno que venho reparando muito ultimamente, em pessoas muito próximas a mim, inclusive.
felicidade não é sinônimo de consumo, nem tampouco de alienação. cada vez mais se confirmam minhas suspeitas de que estamos vivendo num tempo muito parecido com o descrito no admirável mundo novo, de huxley (o aldous).
A felicidade é a empada do Bigode
Arnaldo Jabor
No fim de ano todo mundo começa a falar: “Feliz Natal, feliz ano novo!”. Mas, ser feliz, como? O sujeito passou o ano todo quebrando a cara, reclamando da mulher, batendo nos filhos, lutando contra o desemprego, sendo humilhado pelos patrões, e aí chega o fim do ano e todo mundo diz: “Seja feliz!”. E aí o sujeito tem de estampar um sorriso alvar no rosto, uma baba simpática, um olhar vazado de luz bondosa, faz uma arvorezinha de Natal com bolotas coloridas, mata um peru magro e pensa: “Sou feliz! O ano que vem, vai melhorar!”.
Felicidade muda com a época. Antigamente, a felicidade era uma missão, a conquista de algo maior que nos coroasse de louros, a felicidade demandava o “sacrifício”, a luta por cima de obstáculos. Felicidade se construía — por sabedoria ou esforço criávamos condições de paz e alegria em nossas vidas.
Hoje, felicidade é ser desejado. Felicidade é ser consumido, é entrar num circuito comercial de sorrisos e festas e virar um objeto de consumo. Hoje, confundimos nosso destino com o destino das coisas... Uma salsicha é feliz? Os peitos de silicone são felizes?
A felicidade não é mais interna, contemplativa, não é a calma vivência do instante, ou a visão da beleza. A felicidade é ter um “bom funcionamento”. Marshall McLuhan falou que os meios de comunicação são extensões de nossos braços, olhos e ouvidos. Hoje, inverteram-se. Nós é que somos extensões das coisas. Fulano é a extensão de um banco, sicrano comporta-se como um celular, beltrana rebola feito um liquidificador. Assim como a mulher deseja ser um objeto de consumo, como um eletrodoméstico, um “avião”, uma máquina peituda, bunduda. Claro que mulheres lindas nos despertam fantasias sacanas mas, em seguida, pensamos: “E depois? Vou ter de conversar... e aí?”. Como conversar com um “avião” maravilhoso, mas idiota? (Aliás, dizem que uma das vantagens do Viagra é que, esperando o efeito, os homens conversam com as mulheres sobre tudo, até topam “discutir a relação”).
Mas o homem também quer ser “coisa”, só que mais ativa, como uma metralhadora, uma Ferrari, um torpedo inteligente e, mais que tudo, um grande pênis voador, pássaro superpotente, mas irresponsável, frívolo, que pousa e voa de novo, sem flacidez e sem angústias. Seu prazer é cumulativo, feito de apropriações indébitas, dando-lhe o glamour de uma eterna juventude que afasta a idéia de morte ou velhice.
E eu não falo isso como crítica. Não. Eu tenho inveja, a verde, viscosa e sinistra inveja dessa ausência de angústia, dessa ignorância gargalhante que adivinho sob os seios de mulheres gostosérrimas ou nos peitos raspados de garotões lindos. Quero ser feliz, mas carrego comigo lentidões, traumas, conflitos. Sinto-me aquém dos felizes de hoje. Posso ter uma crise de depressão em meio a uma orgia, não tenho o dom da gargalhada frouxa, posso broxar no auge de uma bacanal. Fui educado por jesuítas e pai severo, para quem o riso era quase um pecado. O narcisismo de butique de hoje reprime dúvidas e tristezas óbvias. Eles têm medo do medo e praticam uma espécie de fobia eufórica, uma síndrome de pânico ao avesso: gargalhadas de pavor. E ainda atribuem uma estranha “profundidade” a esta superficialidade, porque, hoje, esse diletantismo tem o charme raso de ser uma sabedoria elegante e “pós-tudo”.
Mas falo, falo e não digo o essencial. Hoje, a felicidade é entrar num pavilhão de privilegiados. Eu queria não pensar, queria ser um imbecil completo sem angústias — meus inimigos dirão: “Você tem tudo pra isso. Sou uma esponja que se deixa tocar por tudo, desde a crise da dívida pública até o muro da Cisjordânia. Lembro a personagem de Eça de Queiroz que dizia: “Como posso ser feliz se a Polônia sofre?”
Hoje, a felicidade está na relação direta com a capacidade de não ver, de negar, de “forcluir”, como dizem os lacanianos. Felicidade é uma lista de negativas. Não ter câncer, não ler jornal, não olhar os meninos miseráveis no sinal, não ver cadáveres na TV, não ter coração. O mundo esta tão sujo e terrível que a felicidade é se transformar num clone de si mesmo, num andróide sem sentimentos, sem esperança, sem futuro, só vivendo um presente longo, como uma rave sem fim. Pedem-me previsões para o ano que vem. Tudo pode acontecer. Quem imaginaria o 11 de Setembro?
Osama nos legou o fatalismo dos árabes. Daqui para frente, teremos de aprender com eles a dizer: “Maktub!” — tudo estava escrito, nada nos surpreenderá mais. Só nos restam a orientalização, a religião evangélica louca ou a “objetificação” do consumo. Ou, então, viver a felicidade das pequenas coisas. Outro dia, eu estava comendo uma empada de palmito na porta da Globo (na Kombi do Bigode, que faz as melhores empadas do mundo) quando, sem quê nem para quê, fui invadido por uma infinita ventura, uma felicidade que nunca tive. Durou uns minutos. Não sei a razão; acho que foi um protesto do corpo, um cansaço da depressão. Mas, logo depois, passou e voltei ao duro show da vida.
Hoje felicidade é o brilho de um solitário que suga o prazer, sem conflitos, sem afetos profundos, mas sempre com um sorriso simpático e congelado, porque é mais “comercial” ser alegre do que o velho herói dos anos 60, que carregava a dor do mundo. O herói feliz acha que não precisa de ninguém, que todos devem se aprisionar em seu charme, mas ele, a ninguém. Para o herói criado pela mídia, o mundo é um grande pudim a ser comido. Feliz Natal e feliz ano novo.
14 dezembro 2003
rest in peace, bro' (resta um piço, broa)
se sábado recebi dois imeios que salpicaram o dia com brilhos dourados, no domingo não tive tanta sorte. estava no parque lage, curtindo um piquenique com marçuda, uns amigos e seus filhotes. mas eis que toca o celulari da minha irmã. ela atende volta e dispara: mar, o farid morreu".
até agora, depois de escrever essa frase, ainda não consigo realizar o fato. um cara muito bom, da minha idade, torcedor do américa, músico de mão cheia, e, sem dúvida, o camarada mais alto-astral que eu já conheci, se foi num acidente de carro besta em cabo-frio.
nem éramos tão próximos, mas tínhamos afinidades musicais muito parecidas, o que redundava num carinho e numa admiração mútua muito grande. sempre fazíamos um carnaval quando nos encontrávamos. de tanto que eu andava ausente, as perguntas que ele fazia à marçuda sobre mim já tinham se tornado uma piada interna.
nos falamos pela última vez na quinta-feira passada, no samba que rola no planetário. conversamos bastante, e ele estava radiante pelos shows em que tinha tocado, e pelos que ainda ia tocar. contou como estava conseguindo encontrar o suíngue que tanto procurara com sua banda anterior, a Garapa, e os caras nem curtiam tanto. eu contei orgulhoso das minhas recentes incursões pelo mundo do samba, e combinamos de ir aos ensaios dos blocos de carnaval. também mexemos com minha prima, uma amiga e outras meninas que vinham conversar conosco.
agora ficamos todos seus órfãos. órfãos da sua simpatia e do seu carinho. alguns amigos mais próximos e que souberam mais cedo, se despencaram para cabo-frio para resolver as questões burocráticas de hospital, reconhecimento...
alguns ficaram dando uma força ao irmão e ao pai, e todos nós pensávamos em como contariam para a mãe dele, que não sabia ainda nem do acidente. ela, que além de tudo que se possa dizer do amor de mãe, ia a todos os seus shows, recebia de braços abertos uma cambada nos fins de semana na casa de saquarema.
...não me venham dizer que existe propósito em tanta dor inútil; não me venham falar de desígnios!
eu e minha irmã fomos encontrar alguns amigos no planetário, onde acabamos formando uma espécie de agência de notícias informal, recebendo e repassando as notícias que chegavam. e bebemos. lembramos histórias dele e com ele, e tentamos rir, pois era assim que o conhecíamos, e assim que ele talvez gostasse de nos ver, reagindo num momento de tristeza.
nesta próxima quinta, estamos pensando em homenageá-lo. um pretende fazer um mural com as fotos que tirou num dos shows do farid, outro levar os cds que ele gravou, e vamos todos beber juntos, à sua memória, mandando boas vibrações para que o nosso negão faça sua passagem numa boa, e que lá em cima ele se enturme logo com a galera pra arrebentar numa jam session divina, cheia de suíngue classe A.
é isso aí, irmão. alexandre, farid, negão, até algum dia...saiba que vais fazer falta...
12 dezembro 2003
i feel sick (a fio seque)
depois de muitas noites em que simplesmente esqueci de dormir, de alimentação irregular, de doses regulares de álcool (em ocasiões não-regulares), essa noite, en la casa de mami, comecei a sentir a garganta fechar, seguida de uma impertinente coriza. os sintomas não poderiam ser mais claros se estampados num autidór: "resfriado a caminho".
merda.
e para não fugir do tema, quando vinha pra casa me acometeu (epa!) uma dor de barriga de dar calafrios. achei que estava com febre, mas o corpo estava gelado. para evitar uma tragédia, inspirava e fazia uns movimentos com o abdômen para tentar inverter o peristaltismo. e ordenava o organismo para segurar por mais alguns minutos/kilômetros. barra pesada, hermanitos!
já na rua, encontro um camarada que conheci ontem no boteco cardosão. falei rapidinho e saí batido. suava. graças ao bom deus, deu tudo certo; mas acho que volto pra mami e fico piano nesse finde. amanhã tinha um showzinho de roquenrrou dos anos 80 na barra, mas diante da atual conjuntura, creio que declinarei. vídeos, cama e vitamina c, aí vou eu!
message in a bottle (massagem abalo)
apenas um náufrago, preso na ilha do meu próprio corpo, cercado de gente por todos os lados. "mais solidão", diz o sting, "que qualquer homem pode agüentar. Resgate-me antes que eu caia em desespero".
no entorno da ilha, graças a são sebá, também há montanhas, umas poucas matas nas encostas ainda não tomadas por favela, e também o samba - ritmo melancólico bom de cantar e de botar para mexer o esqueleto. e as praias, claro, as quais não posso mais ignorar, sob pena de começar a ser chamado para trabalhar como rebatedor de luz.
e à parte o desespero das perguntas aindas sem respostas, e da voz que ecoa no vazio, vivo bem. um resfriado anda brincando comigo, mas já já dou um jeito nele. são os excessos, meu pai, são os excessos, minha mãe...
voltemos à ilha: tento mantê-la da melhor maneira, mas às vezes a solidão me leva a arroubos que não compreendo ou controlo.
a mulher que um dia tomar posse dessa gleba, fértil e rica de novidades, corre o risco de, com jeito, desencavar um tesouro. embora já avise que não é fácil, pois está ele muito bem entocado. outras já tombaram tentando, e as poucas que porventura conseguiram tocá-lo, por algum atrapalhamento, deixaram a terra engoli-lo mais.
até hoje está la. mas o tempo, o inexorável passar das eras - ou quem sabe, os ventos de verão - está afastando a terra, a hera e o limo que o cobrem.
posso acreditar que ele deve estar pronto para ser escavado. e talvez até queira ser encontrado...quem sabe...
11 dezembro 2003
sobre a beleza da noite fatal
gosto muito da idéia da morte. calma, não sou um depressivo mórbido (pelo menos não mais que a maioria), mas me agrada muito a certeza desse evento único, o avesso e, ao mesmo tempo, o irmão gêmeo do nascimento, que nos iguala a todos, está sempre à distância do comprimento do braço esquerdo (não esqueci de ti, castañeda!), e do qual ninguém sabe absolutamente nada.
o caso é que o assunto me fascina, assim como as canções que tratam do tema, inclusas aí as parcerias de nelson cavaquinho e guilherme de brito, entre muitas outras. das quais destaco duas: indigo, do peter gabriel (cuja letra já foi bostejada aqui), e picasso's last words, do álbum band on the run, do bom e velho macca. percebam com que nobreza e elegância o sujeito, mesmo derrotado, prepara-se para o encontro definitivo.
a propósito da música, ouvi outro dia uma história, atribuída ao dustin hoffman, de que ele e um grupo de pessoas estavam passado um fim de semana com o mccartney, e que alguém perguntou ao músico sobre seu processo criativo. ao que ele respondeu que bastava sentar e propor-se a compor, que saía uma música. e pediu um tema qualquer para provar. picasso tinha morrido naquele dia, e alguém apontou-lhe a notícia no jornal. e macca foi, viu e venceu. saiu a canção abaixo.
quem me contou essa história disse que o dustin hoffman jurava que fora a única vez em que testemunhara a gênese de uma obra de arte.
Picasso's last words
The Grand Old Painter Died Last Night
His Paintings On The Wall
Before He Went He Bade Us Well
And Said Goodnight To Us All.
Drink To Me, Drink To My Health
You Know I Can't Drink Any More
Drink To Me, Drink To My Health
You Know I Can't Drink Any More
3 O'clock In The Morning
I'm Getting Ready For Bed
It Came Without A Warning
But I'll Be Waiting For You Baby
I'll Be Waiting For You There
So Drink To Me Drink To My Health
You Know I Can't Drink Any More
Drink To Me Drink To My Health
You Know I Can't Drink Any More...
odores familiares e nostálgicos
da rua, enquanto trabalho, vem um cheiro como o das gavetas de roupa do tempo em que morei no jardim botânico.
um cheiro fresco, quase como o de ozona (O3) ao se desprender do chão quando chove num dia de muito calor; mas ao mesmo tempo, ligeiramente perfumado, como um sabonete muito suave sobre a pele feminina recém saída do banho.
ah, nostalgia desgraçada!
hoje estou quase um casemiro de abreu:
Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
o último poema de amor
em 11 de janeiro de 1999 (portanto, há um mês de completar cinco anos...cinco anos! meu deus! parece que foi hontem!), ganhei uma antologia de poemas do neruda, que até hoje preservo como lembrança carinhosa de um tempo feliz.
é bem verdade que há muito não abria o livro, mas na madrugada de hoje saquei dele essa pérola, o último dos vinte poemas do volume "veinte poemas y una canción desesperada". segue em espanhol mesmo, tá mole de entender.
Puedo escribir los versos más tristes esta noche.
Escribir, por ejemplo: "La noche está estrellada
y tiritan, azules, los astros, a lo lejos".
El viento de la noche gira en el cielo y canta.
Puedo escribir los versos más tristes esta noche.
Yo la quise, y a veces ella también me quiso.
En las noches como ésta la tuve entre mis brazos.
La besé tantas veces bajo el cielo infinito.
Ella me quiso, a veces yo también la quería.
Cómo no haber amado a sus grandes ojos fijos.
Puedo escribir los versos más tristes esta noche.
Pensar que no la tengo. Sentir que la he perdido.
Oir la noche inmensa, más inmensa sin ella.
Y el verso cae al alma como al pasto el rocío.
Qué importa, que mi amor no pudiera guardarla.
La noche está estrellada y ella no está conmigo.
Eso es todo. A lo lejos alguien canta. A lo lejos.
Mi alma no se contenta con haberla perdido.
Como para acercarla mi mirada la busca.
Mi corazón la busca, y ella no está conmigo.
La misma noche que hace blanquear los mismos árboles.
Nosotros, los de entonces, ya no somos los mismos.
Ya no la quiero, es cierto, pero cuánto la quise.
Mi voz buscaba el viento para tocar su oído.
De otro. Será de otro. Como antes de mis besos.
Su voz, su cuerpo claro. Sus ojos infinitos.
Ya no la quiero, es cierto, pero tal vez la quiero.
Es tan corto el amor, y es tan largo el olvido.
Porque en noches como ésta la tuve entre mis brazos,
mi alma no se contenta con haberla perdido.
Aunque éste sea el último dolor que ella me causa,
y ésos sean los últimos versos que yo le escribo.
...
às musas que já cruzaram meu caminho.
10 dezembro 2003
fome de knut hamsun
semana passada terminei de ler "fome", do autor supracitado. há mais de 20 anos saiu a última edição em português, se não me engano, traduzida pelo drummond de andrade. há tempos percorro em vão os sebos atrás de um exemplar, até que tive que me contentar com uma edição em inglês que, pelo menos, tem uma bela introdução do issac bashevis singer.
bashevis singer explica que hamsun é o pai da narrativa moderna. frases curtas, mecanismos psicológicos do personagem etc. foram recursos - na época revolucionários - de que ele lançou mão. hoje as qualidades inovadoras do livro passam praticamente despercebidas, tanto seu estilo já foi copiado.
singer também desfaz as acusações de que hamsun teria sido partidário do nazismo. ele descreve inclusive uma foto em que o escritor, com então 80 anos, aparece apertando a mão de hilter. enquanto o primeiro apresenta um semblante visivelmente embaraçado, o açogueiro alemão o observa com desprezo, segundo singer. (tentei procurá-la pela internet, mas até agora, nada. se alguém (?) consegui-la, avisem-me.)
mas nada disso importa; e sim que o livro é uma pequena obra-prima. na cidade christiania, noruega, um sujeito de seus vinte anos, agoniza de fome enquanto tenta escrever artigos de jornal que lhe paguem a próxima refeição e o quarto de pensão. seu cérebro delira pela falta de alimento, enquanto os dias vão passando, e sempre que parece que seu destino é definitivo, ele consegue alguma coroas (a moeda local) que garantam seu sustento por mais alguns dias.
fiz uma tradução livre de uma das passagens que julguei mais fortes, quando nosso anti-herói pede um osso num açougue para tentar saciar sua fome. ele mastiga os pequenos pedaços de carne que vêm colados, mas o odor de sangue seco o faz vomitar. ele tenta de novo, mas o estômago é incapaz de reter a carne crua. entre lágrimas e vômitos sucessivos, ele se enfurece com sua sorte, na escuridão da noite:
Silêncio. Nenhuma pessoa à minha volta, nem luzes, nenhum som. Eu estava num estado selvagem, minha respiração pesada e audível, e soluçava, rangendo os dentes, toda vez que tinha que abandonar esses pedaços de carne que teriam satisfeito minha fome. Quando nada mais ajudava, a despeito do quanto eu tentasse, atirei o osso contra o portão, enlouquecido pelo mais impotente ódio. Levado pela ira, gritei e urrei ameaças aos céus, rouco e selvagem vociferei o nome de Deus, e dobrei meus dedos como garras...Eu te digo, seu Baal sagrado no céu, tu não existes, mas se existires, eu te amaldiçôo tanto que teu paraíso vai estremecer com o fogo do inferno! Sabes que me ofereci como teu servo, e me rejeitaste, me afastaste de ti, e agora dou-te as costas por toda a eternidade, porque não soubeste a hora de tua visitação! Eu te digo, sei que vou morrer, e zombo de ti do mesmo jeito, mesmo estando cara a cara com a morte, seu Apis dos céus! Usaste de força contra mim, mas não percebeste que ela não funciona comigo. Será que não viste? Será que estavas a dormir quando fizeste meu coração e minha alma? Eu te digo, toda minha energia e cada gota do meu sangue se regozija para que eu zombe de ti e cuspa nas tuas graças. De agora em diante, eu renuncio todos os teus trabalhos e todas as tuas formas, exilarei meus pensamentos mesmo que eles pensem em ti de novo, e rasgarei meus lábios se eles pronunciarem teu nome uma vez mais. Agora, se tu existes, direi-te minha palavra final na vida ou na morte, eu te digo adeus. E como estou mudo, viro-te as costas, e sigo meu caminho...
Silêncio.
tem alguém mexendo comigo?
foi lançado um livro chamado "Quem mexeu no meu sabonete?". tem também "Quem mexeu no meu queijo?", "Quem mexeu no meu queijo? - para jovens" e "Quem mexeu no meu hambúrguer?".
ou muito me engano, ou um surto de paranóia e mania de perseguição está acometendo os administradores do mundo todo.
as belas da noite
depois de trabalhar, fui com a tereza tomar um chope de fim de ano na cobal. o clima estava agradável e a lua estupidamente cheia desperdiçava beleza para um monte de bêbados incapazes de levantar os narizes acima das tulipas.
o cansaço acumulado das noites passadas estava me deixando muito disperso. mas também colaboravam as meninas, muitas. de todos os formatos, tamanhos e etnias, para todos os gostos. mal conseguia prestar atenção aos planos para o trabalho no ano que vem, às últimas pendências, e às questões filosóficas que nunca saem da nossa pauta.
mais tarde, voltando do banheiro, lembrei de uma frase de uma amiga, queixando-se de estar só no dia dos namorados. "o mundo é feito para casais".
achei-a exagerada na ocasião, mas o tempo e a solidão confirmaram a afirmativa. tudo é feito para dois e a dois. de publicidade às diárias de hotéis.
e ao meu redor, todas aquelas mulheres desfilando desacompanhadas. talvez o ximenes esteja certo com a coisa das homonóicas. o senso comum diz que não dá para viver só, mas ao mesmo tempo, há um esforço, uma propaganda, uma campanha subliminar, sei lá!, para vender homens e mulheres inatingíveis. as mulheres compraram isso, e salvo exceções, se tornam escravas de dietas, academias e cosméticos (a concorrência é grande, qualquer uma pode levar seu homem!), enquanto vivem a insatisfação oscilando entre o brucutu ("não respeita meus sentimentos") e o sensível ("será que é bicha?").
não que eu esteja reclamando, mas graças a esse padrão, caras como eu têm que utilizar de todas as artimanhas para conseguir alguma coisa.
ponto para as que sabem que o tempo urge, e que o importante é saber agarrar as oportunidades.
a bela da tarde
na segunda página do blogger, quando se entra para postar, há no canto direito superior uma lista de blogs recentemente mexidos. quase nunca dou importância a ela. hoje, entretanto, um dos nomes me chamou a atenção: belle de jour. como o filme homônimo do buñuel é conhecido em todo o mundo, o blog poderia ser de qualquer lugar. mas qual não foi a surpresa de descobrir que é um diário de uma suposta puta de londres.
li algumas coisas, e além de interessante é bem escrito.
me fez pensar que as pessoas talvez busquem nos blogs algum tipo de evasão através das experiências alheias. sei lá, divago. mas não acho que tenho feito esse espaço muito atrativo nos últimos tempos. talvez em tempo algum.
parafraseando "o iluminado", do stephen king (de quem eu devorava livros dos quinze aos dezessete):
pouco trabalho e pouca diversão fazem de marcelo um garoto tedioso.
09 dezembro 2003
quase cantei
aliás, no sábado, quase cantei the man in me. a vontade foi forte, mas segurei a onda.
...acho que se cantasse, dançava.
dois casamentos e um churrasco (e um show)
este foi o saldo dos últimos três dias: sábado e segunda-feira fui a dois casamentos de amigos. no domingo, teve um típico e folclórico churrascão de subúrbio e, mais tarde, um puta show cover dos beatles.
os dois casamentos foram vizinhos: o de sábado, no topo do forte do leme, a uns 800 metros de altura, com uma vista acachapante estendendo-se desde a baía até o fim de copacabana. o de segunda, foi morro abaixo, no salão do círculo militar, de frente para a praia vermelha.
(aliás, só entende o nome da praia quem vem do mar. à distância, a areia adquire uma coloração avermelhada. já fiz a experiência uma vez, num veleiro.)
no sábado, valsei com minha irmã, forrozei com uma curitibana espetacular, e bailei esse tal de roquenrrou. tomei "chicote" selo preto, e, pasmem! peguei o buquê da noiva. terminamos, umas treze pessoas, na suíte dos noivos, bebendo prosecco (me segurei para não fazer um trocadilho de baixíssimo calão) no gargalo. resumindo, uma pândega.
depois fui à praia, brinquei muito, suei tudo o que podia e o que não podia, e acabei chegando em casa às sete e tal da matina, nas nuvens, com o espírito leve leve de alegria.
às onze acordei, piano, e fui devidamente rebocado para a casa de uma ex-empregada que foi praticamente criada com a minha mãe. zarpamos para o caju, depois do cemitério e do arsenal de guerra da cidade. ela se emocionou quando nos viu chegar, e nós também. e a parentaia estava toda lá. uma festa como nos tempos da casa da minha vó. e tome cerveja, e tome papo, e tome churrasco (ela cozinha às pampas). nos fez questão de mostrar a casa, apresentar a família etc. digam o que disserem, a velha cortesia e a gentileza sobrevivem no subúrbio. gente de peito aberto, recebendo com carinho e com fartura, sem desconfiança.
o filho dela, meu chapinha de brincadeiras e implicâncias dna infância, é professor de percussão e sax, e toca no centro de artes e cultura banto - ou algo assim, não estou muito certo do nome - lá na lapa. do lado do casarão do grupo de teatro tá na rua. quando falei que tava arranhando uma caixa no Laranjada, me chamou para participar das aulas de bateria do bloco dele. aceitei na hora, e se deus quiser, sexta à noite tô eu lá, mais banto do que nunca. negão de nascença.
cheguei em casa, dei uma dormida, e às nove tava tinindo para assistir a mais um show da pepperband. os caras fazem cover dos beatles, e são tão bons que já ganharam prêmio de melhor banda no concurso promovido pelo cavern club, de liverpool. concorrendo com gente do mundo inteiro. neguinho é foda.
todo o primeiro e terceiro domingos do mês eles tocam no far up, na cobal do humaitá. a sensação é a de estar ouvindo o quarteto ao vivo. de arrepiar. entre outras coisas, tocaram a day in the life, e tive que me segurar para as lágrimas não descerem. essa é, por sinal, a interpretação mais pungente do john lennon, na minha opinião. a única que me faz lembrar "putz! john lennon morreu!..." .
os caras não fazem feio. todos cantam, e os efeitos sonoros de estúdio e orquestrações estão todas lá. um dos integrantes é meu bróder de colégio militar, gustavo camardela, na guitarra solo e nos vocais de deixar o paul mccartney de queixo caído.
o casório de ontem também foi jóia. outra faixa etária, universitários. muita dança, biritinha e bifê de primeira. depois conheci um camarada gente fina, e fomos com um grupo para o espírito do chope. lá encontrei mais alguns amigos, e acabei chegando em casa um pouco mais tarde do que devia.
minha maré está definitivamente mudando para melhor. sinto no ar. basta uma sintonia fina minha com o mundo, e de 2004 em diante, ninguém me segura.
caô cabecile, meu pai Xangô!
06 dezembro 2003
meu mundo é hoje
salsão chegou em casa com o disco do filme sobre o paulinho da viola.
devo confessar que, tempos atrás, não era muito chegado no cara. achava meio choroso, voz pequena etc. ... tava acostumado com monarco, candeia...vozeirão, sacumé? mas, ao contrário do zé keti, mudei de opinião. e a prova do mau julgamento é essa pérola cantada, de autoria de wilson e josé batista (irmãos?):
eu sou assim, quem quiser gostar de mim eu sou assim
meu mundo é hoje não existe amanhã pra mim
e tenho dito.
03 dezembro 2003
suassuna e collor
é quase um pecado conspurcar o nome de mestre Ariano Suassuna situando-o ao lado do (pé-de-pato, mangalô três vezes!) ex-presidente cheirando collor de mello.
é que ontem estava na casa da minha mãe e assisti os dois na tevê (não juntos, claro). primeiro o collor na gimenez, com um orte de cabelo inacreditável de ridículo, tentando passar uma imagem de bom-moço-injustiçado. acredito que ele estava dopado, tamanha sua calma. no auditório, a ex-primeira fuinha rosane collor. magra pacas, era só olhos, gengivas e limpa-trilhos. tão esticada que não deve conseguir mais piscar (os olhos!). deve ser um castigo ser condenado a dar de cara com aquele tribufu toda manhã. mas ele merece muito mais...
depois, a redenção com Ariano Suassuna, na tevê senac. na pauta, o de sempre: o sucesso de sua obra, a origem de seus personagens, o brasil oficial e o brasil real, conceitos apropriados de Machado de Assis, e a globalização. sobre essa última, deu show.
separou globalização desse novo colonialismo cultural que nos tem sido impingido. "por ser internacionalista é que sou contra essa falsa internacionalização", sapecou. e concluiu dizendo que a cultura deve ser sim, mundial, mas que "na vasta sinfonia da cultura universal, cada país deve contribuir, igualmente, com sua nota. e não apenas receber o lixo que vem de fora".
óbvio, mas é o tipo de declaração que nunca é suficientemente repetida.
assino embaixo e dou fé.
02 dezembro 2003
o samba é meu dom
...com uma certa dose de presunção de minha parte, faço minhas as palavras do bamba Wilson das Neves:
O samba é meu dom
Aprendi bater samba
Ao compasso do meu coração
De quadra, de enredo
De roda na palma da mão
De breque, de partido alto
E o samba-canção
O samba é meu dom
Aprendi dançar samba
Vendo o samba de pé no chão
No Império Serrano
A escola da minha paixão
No terreiro, na rua, no bar
Gafieira e salão
O samba é meu dom
Aprendi cantar samba
Com quem dele fez profissão
Mario Reis, Vasourinha,
Ataulfo, Ismael, Jamelão
Com Roberto Silva, Sinhô,
Donga, Cyro e João
O samba é meu dom
Aprendi muito samba
Com quem sempre fez samba bom
Silas, Zinco, Aniceto, Anescar
Cachinê, Jaguarão,
Zé-com-Fome, Herivelto,
Marçal, Mirabeau, Henricão
O samba é meu dom
É no samba que eu vivo
É do samba que eu ganho
O meu pão
E é num samba que eu quero morrer
De baquetas na mão
Pois quem é do samba
Meu nome não esquece mais não.
...
Salve, padrinho!
o samba volta à vida (à minha)
as memórias musicais mais marcantes da minha infância são bete carvalho cantando "coisinha do pai" e maria alcina interpretando "kid cavaquinho", ouvidas na rádio mundial, lá na tijuca, com a minha irmã bete. tinha também o elvis (de quem assisti o último show, transmitido pela tevê), a "melô da asa delta", o peter frampton, a nikka costa (minha primeira paixão infantil, depois da minha prima renata, aos quatro anos), mas o grosso era samba, mesmo.
aí fui morar nos estados zunidos, e como era de se esperar, voltei intoxicado, nem tanto pelo roquenrrou, mas por um popizinho muito do sem vergonha. com o tempo, os representantes da língua inglesa tornaram-se mais encorpados, e vieram beatles, ella, billie holliday, louis armstrong, dave brubeck, e porque não, black sabbath, sex pistols, dead kennedys e outros que tais.
com a adolescência afloraram a revolta, o comunismo, a maconha, o álcool, o sexo e descoberta da psicodelia dos mutantes, mais a poesia de chico, gil & caetano, joba, giba, dorival e nana. até o dia em que esbarrei nos discos do meu primo paulinho, em especial na coleção completa de música brasileira lançada pela editora abril nas bancas, nos anos 70. foi uma epifania embalada por pixinguinha, donga, joão da bahiana, blecaute, mario reis, chico viola, quatro ases e um coringa, aracy de almeida, sinhô, herivelto martins, geraldo pereira, dolores duran, e ela, a maior de todas, a divina elizete cardoso.
eu e meu bróder joão trocávamos figurinhas musicais, ele na viola e eu assassinando os vocais. depois veio o ricardo, nos apresentado pela ana sylvia. daí para a criação do cordão do boitatá foi um pulo, questão de reunir mais uma galera.
mas como diria chico, por conta de umas questões paralelas, me retirei do grupo. logo em seguida, o núcleo passou por uma fissão, e alguns dos treze integrantes partiram para projetos próprios, mais identificados com os gostos individuais. mas o carinho permaneceu.
tô enrolando à vera pra contar que o motivo de tudo foi eu ter ido na sexta passada ao "flor do chorume". pra quem não conhece, é o samba da rua do mercado, onde ficava a bolsa de valres, no centro, já tinha ouvido falar, mas nunca tinha dado às caras lá. e qual não foi minha surpresa ao topar com a gangue toda do boitatá, que além de comandar o espetáculo, comemorava a última promissória paga de um casarão que compraram, lá mesmo, em parceria com o abayomi (das bonequinhas negras) e o teatro do anônimo. a felicidade e o samba me contagiaram. e fiquei feliz quando o ricardo me apresentou numa roda como um dos criadores do boitatá.
no sábado, salsão, gabi e marçuda e eu fomos ao candongueiro, no lançamento da biografia do adoniran pelo andré diniz e patroa, a juliana. putaquiupariu! o lugar é demais, e o melhor é que fica a um espirro da casa do zé luis, namorado de mi mamã. tamos combinandos, mái sister e eu, de voltarmos lá no sábado pra ver a teresa cristina.
e por último, mas não menos importante, está o Laranjada Samba Clube, o bloco aqui da general glicério, do qual farei parte da bateria, se deus quiser. para isso, venho atacando uma caixa toda segunda. já tô conseguindo enganar legal, e no sábado de carná pretendo estar tinindo.
o samba, meus amigos, é a suprema felicidade. é inspirador de uma alegria que eu não sentia desde os tempos do boitatá, e da qual eu andei afastado tanto tempo. a alegria de participar, de misturar-se à massa e ser - cantando, tocando, dançando ou simplesmente curtindo - parte importante de uma totalidade de prazer. o sonho de fusão que os regimes totalitários tentaram através da coerção pela violência e pelo medo, e por isso fracassaram.
o samba é a grande utopia.