a primeira vez que ouvi falar de konstantinos kaváfis foi no filme "morango e chocolate". o personagem do gay, em meio ao processo de sedução do jovem militante cubano, apresenta-lhe uma poltrona do apartamento, especial "só para ler kaváfis". depois foi meu amigo carlos arimathéia que, numa tarde de preguiça na calógeras, em companhia da laura, nos leu Ítaca.
desde então procurei o livro que, acredito, seja o único do poeta alexandrino (de nacionalidade, não de métrica), editado no brasil pela nova fronteira. quando trabalhava no bondfaro, descobri que o safado não tem isbn. pode checar. alguma mutreta deve ter aí...
mas, enfim, separei alguns poemas do cabra, pra dar vazão de vez à esse mormaço que vai em minh'alma.
(virge! alguém me segura que hoje eu tou co'a breca!)
Desejos
belos corpos de mortos que nunca envelheceram,
com lágrimas sepultos em mausoléus brilhantes,
jasmin nos pés, cabeça circundada de rosas -
assim são os desejos que um dia feneceram
sem chegar a cumprir-se, sem conhecerem antes
o prazer de uma noite ou manhã luminosa.
Fui
Não me deixei prender. Libertei-me de todo e fui
em busca de volúpias que em parte eram reais,
em parte haviam sido forjadas por meu cérebro;
fui em busca da noite iluminada.
E bebi vinhos fortes, como
bebem os destemidos no prazer.
Jura
A cada pouco jura começar vida nova.
Mas quando a noite vem com seus conselhos,
seus compromissos, com suas promessas;
mas quando a noite vem com sua força
(o corpo quer e pede), ele de novo sai,
perdido, atrás da mesma alegria fatal.
Ao fim da tarde
Não duraria muito, em todo caso. A prática
dos anos me ensinou. Então, subitamente,
veio lhe dar um fim a Sorte.
Os aromas, porém, como eram fortes.
Em que leitos esplêndidos deitamos.
A que prazeres demos nossos corpos.
Um eco daqueles dias de prazer,
um eco daqueles dias me voltou,
um pouco da chama de nossos juvenis transportes.
Peguei nas mão uma das cartas, absorto, e
a li, uma e outra vez, até a luz faltar-me.
E saí para o balcão, melancolicamente
- saí para distrair os pensamentos, ver ao menos
um pouco da cidade bem-amada,
um pouco do movimento de suas ruas e lojas.
13 janeiro 2004
algum kaváfis
sly para fechar a noite (ou começar o dia)
tava baixando uns troços e peguei uma seleção de sly and the family stone. tem uns sons que eu aprendi a gostar quando era mais novo, e que se tornaram verdadeiras obsessões: uma delas é jorge ben, e a outra é sly. é batata. podem ser as mais bobas, mas as músicas de ambos têm uma vibração que me dá uma levantada no astral necessária para contrabalancear a sorumba. uma delas, em especial, transborda boas ondas.
(queria poder tocá-las aqui...)
Everyday people
Sometimes I'm right and I can be wrong
My own beliefs are in my song
The butcher, the banker, the drummer and then
Makes no difference what group I'm in
I am everyday people, yeah yeah
There is a blue one who can't accept the green one
For living with a fat one trying to be a skinny one
And different strokes for different folks
And so on and so on and scooby dooby doo-bee
Oh sha sha - we got to live together
I am no better and neither are you
We are the same whatever we do
You love me you hate me you know me and then
You can't figure out the bag l'm in
I am everyday people, yeah yeah
There is a long hair that doesn't like the short hair
For bein' such a rich one that will not help the poor one
And different strokes for different folks
And so on and so on and scooby dooby doo-bee
Oh sha sha-we got to live together
There is a yellow one that won't accept the black one
That won't accept the red one that won't accept the white one
And different strokes for different folks
I am now everyday people
é melhor ser alegre que ser triste?
outro dia cheguei à conclusão que tenho uma inclinação atávica para o banzo. avaliando a frio, pelo lado estético, meus gostos musicais, cinematográficos, artísticos, etc., observo um padrão meio deprimido. no entanto, não sou de ficar me queixando da vida que nem a hiena do desenho - "ó dia, ó vida, ó azar...". simplesmente tenho meus calundús. e gosto deles. e os preservo em segredo, num vidro de compota guardado numa prateleira entre o cérebro e o coração.
é como o traço de ciclotimia dos palhaços, muito bem retratada pelo nelson cavaquinho: "volta, que a platéia te reclama/ sei que choras palhaço/ por alguém que não te ama/ (...) faça a platéia gargalhar/ um palhaço não deve chorar". acho que por isso que gosto tanto de palhaços, e porque, no íntimo, gostaria de sê-lo por profissão.
mas nesse sábado pude satisfazer minha verve clóvis (melhor que clown). é que fui, com a bibi, ao aniversário de um ano do tarik, filho da judith, que está com o marido passando o holiday on ice no brasil. foi divertidíssimo, e para completar, todos os ADULTOS ganharam saquinho surpresa, com nariz de palhaço, dentes postiços e língua-de-sogra (ótimo nome, já repararam?). tiramos fotos paramentados e de chapeuzinho, e seguimos para outro aniversário, da rê queveda, no rio scenarium. eu e bibi no carro de palhaço - óbvio. até o flanelinha esqueceu de nos cobrar, na ida. aliás, quando viu a dentadura postiça na boca da bibi, escancarou um sorriso limpa-trilho de fazer inveja. perguntei, com o vidro fechado (pro sujeito não ouvir):
- e aí, onde foi que você comprou os seus?
na fila, todos nos olhavam, e eu retribuá a curiosidade, cumprimentando-os tirando o chapéu - afinal, sou um camarada educado. na hora de pegar a cartela de consumação, o atendente perguntou o nome. num surto esquizofrênico, respondi na lata:
- coçadinha! - mas o dani, sem senso de humor, consertou - marcelo.
lá dentro, a chegada foi uma festa. fiz jus ao apelido de "loco", que essa galera me deu há...treze anos (cacete!), e do qual sequer me lembrava.
vieram falar comigo, e eu cumprimentava batendo na bunda, "como vai, vai bem, veio a pé ou veio de trem?". quando era um pessoal interessante que eu não conhecia, virava de costas, tirava o aparato e me apresentava:
- como vai? marcelo, seu criado. qual a sua graça?
me diverti, dancei pra dedéu, cheirei uns cangotes no forró, reencontrei o povo do boitatá, e sai quase cinquenta reais mais leve. vagabundo tá metendo a mão no finde, 18 paus! e sem direito a consumir uma azeitona sequer. mas valeu.
agora estou aqui - como dizem os gringos - mais azul do que o azul pode ser. ouvindo umas sonatas de piano do beethoven que aprendi no "homem que não estava lá", dos irmão coen, que aliás, no momento aproveito para baixar. filme triste e bonito. preto-e-branco, como convém.
doze dias para ficar assim...boa média para 2004.
11 janeiro 2004
humano, demasiado humano...
hoje peguei emprestado dois livros do hesíodo - a "teogonia", que já conhecia e do qual li algumas partes, e "os trabalhos e os dias", como o anterior, um poemão. mas neste, me chamou a atenção um dos trechos em que ele fala das "cinco raças" de mortais criadas por zeus. De ouro, de prata, de bronze, de heróis e de ferro, à medida em que vão decrescendo em termos de perfeição, os graus de selvageria e barbárie aumentam. algo na descrição me remeteu de leve a traços do zigurate, do meu amigo max mallman.
para hesíodo, somos da raça do ferro, dos quais transcrevo o fragmento. atentem para a atualidade do caboclo, que provavelmente entre o fim do século VIII e o início de VII a. C. (!), já havia matado a xarada da civilização ocidental que o sucederia em até quase três milênios.
Raça de Ferro
Antes não estivesse eu entre os homens da quinta raça,
mais cedo tivesse morrido ou nascido depois.
Pois agora é a raça de ferro, e nunca durante o dia
cessarão de labutar e penar e nem à noite de se
destruir; e árduas angústias os deuses lhe darão.
Entretanto a esses males bens estarão misturados.
Também esta raça de homens mortais Zeus destruirá,
no momento em que nascerem com têmporas encanecidas.
Nem pais a filhos se assemelhará, nem filhos a pai; nem hóspedes a
hospedeiro ou companheiro a companheiro,
e nem irmão a irmão caro será, como já havia sido;
vão desonrar os pais tão logo estes envelheçam
e vão censurá-los, com duras palavras insultando-os;
cruéis; sem conhecer o olhar dos deuses e sem poder
retribuir aos velhos pais os alimentos;
[com a lei nas mãos, um do outro saqueará a cidade]
graça alguma haverá a quem jura bem, nem ao justo
nem ao bom; honrar-se-á muito mais ao malfeitor e ao
homem desmedido; com justiça na mão, respeito não
haverá; o covarde ao mais viril lesará com
tortas palavras falando e sobre elas jurará.
A todos os homens miseráveis a inveja acompanhará,
ela, malsonante, malevolente, maliciosa ao olhar.
Então, ao Olimpo, da terra de amplos caminhos,
com os belos corpos envoltos em alvos véus,
à tribo dos imortais irão, abandonando os homens,
Respeito e Retribuição; e tristes pesares vão deixar
aos homens mortais. Contra o mal força não haverá!
10 janeiro 2004
sergio kalili desce o pau
achei uma entrevista espetacular do sergio kalili no comunique-se.
o sujeito ficou mais de dois meses cobrindo a guerra do iraque, e foi o único brasileiro a presenciar o terremoto de bam. na entrevista, ele detona o mito da imparcialidade jornalística e fala dos abusos cometidos pelos americanos, que estão prendendo jornalistas iraquianos a rodo. a seguir, dois trechinhos pinçados a dedo.
"(...) é uma mentira isso, a mentira da imparcialidade. Você vai ouvir o outro lado só para disfarçar a sua opinião. Você sempre vai reforçar mais um dos lados. Até a ordem em que você coloca as declarações dos dois lados. O tempo todo você vai jogar, editar, colocar uma versão da história".
"Os jornalistas iraquianos que estão lá trabalhando são presos direto e somem. As tropas americanas prendem os caras e somem com eles. As famílias não sabem onde eles vão parar, as empresas... Eles denunciam algumas coisas, os caras pegam e somem com eles. Eles são iraquianos.
Link SP- Prendem por quê?
SK- Porque o cara vai lá e escreve uma matéria dizendo que as tropas americanas mataram tantos jovens que estavam protestando num bairro de Bagdá chamado Aadhamyia, onde eles são antiamericanos, são anticoalizão. Fecharam jornais iraquianos. Depois que os americanos dominaram o país, abriram mais de 150 jornais. Muitos que fazem oposição foram fechados pelos americanos. Eles censuraram, fecharam jornal. Ninguém fala isso.
Ser iraquiano no Iraque hoje em dia é não ser cidadão. É melhor ser estrangeiro, americano. Ou você [iraquiano] é colaborador deles, e aí eles te dão uma força. Por que a imprensa internacional não fala nada?"
vá logo, antes que tirem do ar!
09 janeiro 2004
da série "frases inspiradoras"
"Apesar de não ter nada, ele tinha a si mesmo. E a partir do momento que se tem a si mesmo, se tem tudo".
- josé mojica marins, o zé do caixão, sobre o também cineasta rogério sganzarela, que partiu pra terra do pé-junto hoje (sexta-feira), com 57 cajus.
balancete de 2004
há nove dias em 2004, segue um breve relatório do que já aconteceu esse ano:
- desde a primeira madrugada do ano, estou trocando de pele, depois de cinco horas ininterruptas debaixo de sol (sendo que antes disso, o último encontro entre mim e o astro-rei havia sido há mais de seis meses);
- graças à minha síndrome de jerry lewis, ostento arranhões e machucaduras diversos;
- pintou um trabalho de pintura pra teatro;
- a assessoria arrebanhou novo cliente;
- conheci uma menina espetacular;
- comprei dois cds (john coltrane e ella fitzgerald) na banca por R$ 4,00;
- engordei alguma coisa durante as festas;
-ontem dormi decentemente pela rimeira vez no ano;
- não consegui ler nada ainda;
- mestrado, por enquanto, nem pensar (vergonha!).
e por aí vai. ainda aguardo o que me prometeram na musiquinha, "muito dinheiro no bolso/saúde pra dar e vender"...
08 janeiro 2004
o sueco e o italiano
hoje li duas entrevistas impactantes: lars grael na veja e diogo mainardi na trip.
grael - "A vida é uma questão de parâmetros".
mainardi - "Sou bidimensional, não tenho profundidade psicológica, ninguém consegue me atingir. Tenho um aparato psicológico pobre, não dá para me colocar num estado de exaltação ou de depressão".
vai lá, pô!
millôr de verdade
na época da bolha da internet, quando eu trabalhava num sáite, volta e meia recebia uns textos supostamente assinados por celebridades nacionais, de pena & traço. mas uma leitura um tiquinho mais atenta denunciava rapidinho que os autores não eram os próprios signatários. alguém com um conhecimento mínimo - nem digo da obra, mas da pessoa - de mário quintana acharia realmente que ele usaria uma expressão que se assemelhasse a "corpos sarados"?
ou que o ziraldo abriria mão de sua sutileza mineira para divulgar pela internet um panfleto recheado de palavrões, explicando a razão pela qual não economizaria energia durante o apagão? ah, tem também o caso clássico do suposto poema sentimentalóide do borges, que chegou até a ser utilizado num reclame (alguém se lembra dessa palavra?) de tv. o caso depois virou até notícia de jornal.
é interessante analisar essa inversão estabelecida pelo advento da internet, no que diz respeito à originalidade de uma idéia. antes, a autoria de qualquer boa idéia ou declaração inteligente era disputada a tapa. depois da internet, o volume de informação que se recebe no dia-a-dia é tão grande que, para merecer a atenção do destinatário, ela tem que conter algo de extraordinário imediatamente identificável. para isso, as pessoas camuflam suas próprias idéias sob a chancela de um nome famoso. daí os títulos dos imeios serem sempre "poema de fernando pessoa", "texto do ziraldo - leia", ou coisa que o valha.
esse narigão de cera tem dois motivos: primeiro, porque até hoje esses textos às vezes vêm bater à minha caixa postal, ou alguém vem citá-los, cheio de erudição. e dá um trabalhão desmenti-los. o outro (e real) motivo é porque li uma das famosas "fábulas fabulosas" do millôr, em seu sáite, que me deu vontade de reproduzir. e para que não reste dúvidas quanto à sua autenticidade, eis o link.
O milagre econômico. (à maneira dos... persas)
Um mendigo surdo-mudo entrou num botequim e, com gestos fortes e significativos, pediu esmolas. Os fregueses, irritados em sua generosidade, recusaram. O mendigo ficou insistindo de mesa em mesa, até que o dono do botequim enxotou-o dali. O mendigo continuou pela rua afora, pedindo a todos os passantes do mesmo jeito. Uma hora depois, voltou, sentou com espalhafato numa mesa do botequim e gritou, para que todos ouvissem:
- Uma Brahma estupidamente!
O garçom trouxe a Brahma correndo, abriu e disse:
- Ué, como é? Você não era surdo-mudo? Ficou bom de repente?
E o mendigo respondeu:
- Que adianta a gente falar, quando não tem o puto de um níquel pra pedir uma Brahma?
MORAL: O DINHEIRO FALA MAIS ALTO.
07 janeiro 2004
às vezes elas voltam...
cenas recentes. sempre com um quê de constrangimento.
cena 1: festa. na sala, duas mulheres. uma, há muito tempo. uma combinação de tranqüilidade e delicadeza talvez desconcertantes demais para a minha ansiedade. paralisia total. medo. não durou. a outra, algum tempo atrás. como um trapo emocional, sou colhido, as feridas tratadas, o ego afagado. amado. idolatrado. salvem-me, salvem-me. sufocado, escapo pela tangente. soube por aí que ambas andaram falando mal de mim. aguardo na cozinha até que a multidão de convidados me tornem invisível.
cena 2: festa. terraço. primeira: uma aposta recente, de várias fichas, que resolveu voltar atrás para o antigo proprietário. sem maiores dores e feridas. limpo. segunda: um encontro inconseqüente, mas muito prazeroso. sem maiores alongamentos, embora alguma expectativa rondasse a outra parte. terceira: uma possível futura conquista, ávida. com o timing, entretanto, defasado em alguns dias. pena. nenhuma das três agraciadas, mas até a situação chegar a termo, o livre circular esteve algo prejudicado. prefiro acreditar que, até agora, ninguém fala mal de mim.
fim de episódios? difícil, pela certeza de que amigos comuns me presentearão com a visão de um passado recente aparentemente bem superado. e por melhor que a coisa esteja, é sempre chato ver que seu tempo passou e sua presença não é mais necessária. fatos da vida...
por essas e outras é que ando cansado de topar com esqueletos saídos do armário. esqueletos, é bom que se diga, descarnados pela minha completa ausência de tato e etiqueta sentimental. canso-me, fico ansioso; o passado volta e, com ele, uma certa culpa injustificada e desnecessária. culpa o cacete! tô fora.
tenho buscado contornar a situação com um esforço combinado de atenção, paciência e observação. mas não sei cafajestar. não sei não ligar depois. tampouco sei estabelecer os limites entre envolvimento e curtição. é este o ponto em que troco os pés pelas mãos; onde o caldo entorna e eu me queimo.
procuro familiaridade e disparo no coração. corpo sem cabeça é conjunto vazio; o ideal é a interseção dos elementos. menos do que isso, dispenso. faço o possível para me manter atual. a meu favor, cada vez menos estereótipos.
a seguir, cenas dos próximos capítulos. veremos.
03 janeiro 2004
açúcar marrão é bão!
meninas e meninos, acabei de baixar brown sugar também. diz-se por aí que essa era a gíria pra heroína, na época. bem, a letra é cheia de safadeza, e quem, como eu, achava que misturar-se com as negrinhas era coisa de portuga, percebe que o esporte também era muito apreciado lá pelas bandas de nova orleãs.
de qualquer maneira, ficam escritos na minha carne os versos desse começo de 2004:
brown sugar, how come you taste so good?
brown sugar, just like a young girl should
e salvem gilberto feyre e jorge amado, que já sabiam muito antes...e em português!
isso são horas?
porra, depois de três dias, o caboclo escrevedor tem que baixar logo agora, uma e tal da matina, eu cheio de sono, querendo dormir? tá direito um troço desses?
não, não e não! amanhã conto da festa. amanhã, sim, porque só é amanhã depois que eu acordo.
igual ao problema de "bom-dia-boa-tarde". quem é que nunca chegou num lugar - um elevador, por exemplo - deu bom-dia e teve que ouvir a correção "boa-tarde"? (em frases desse tipo invejo os espanhóis, que colocam logo um ponto de interrogação de cabeça pra baixo no início, para avisar logo de sua natureza interrogativa.)
até o dia em que fui mal-criado:
- boa tarde, não. bom dia, porque eu ainda não almocei. o senhor já? então é bom-dia mesmo. boa-tarde só depois do almoço - reagi.
minha vida mudou desde então. eis meu testemunho de fé.
ponto final em 2003
sabe essas músicas que você passa a vida inteira escutando sem nunca prestar atenção à letra? pois bem, baixei hoje angie, dos stones, e qual não foi a surpresa quando mais não digo. quem sabe, sabe, quem não sabe, bobeou. leiam e julguem por si mesmos, condenem, executem, esquartejem, salguem o terreno e cuspam em cima, ou calem-se para sempre.
pensando melhor, apenas calem-se para sempre...
Angie
Angie, Angie, when will those clouds all disappear?
Angie, Angie, where will it lead us from here?
With no loving in our souls and no money in our coats
You can't say we're satisfied
But Angie, Angie, you can't say we never tried
Angie, you're beautiful, but ain't it time we said good-bye?
Angie, I still love you, remember all those nights we cried?
All the dreams we held so close seemed to all go up in smoke
Let me whisper in your ear:
Angie, Angie, where will it lead us from here?
Oh, Angie, don't you weep, all your kisses still taste sweet
I hate that sadness in your eyes
But Angie, Angie, ain't it time we said good-bye?
With no loving in our souls and no money in our coats
You can't say we're satisfied
But Angie, I still love you, baby
Ev'rywhere I look I see your eyes
There ain't a woman that comes close to you
Come on Baby, dry your eyes
But Angie, Angie, ain't it good to be alive?
Angie, Angie, they can't say we never tried
...e a vida segue plena de alegria.
happy new year's eve...brussel!
esse foi o título do post que tentei publicar no dia 31, e que por uma goiaba inexplicável, foi perdido sem chance de apelação. o título, pra quem é mais lento ou está desatento, é uma brincadeira com a canção do jorge ben + caetano veloso.
era mais ou menos sobre a arbitrariedade da comemoração, que por mais que haja gente envolvida, não passa, a frio, de uma troca de folhinha. a prova é que chineses, árabes e judeus (os irmãos brigões) contam do tempo de outra maneira, e todos ficam contentes.
e que se a gente fosse seguir a lógica da renovação, teríamos que comemorar o início de cada novo mês, e aprofundando mais a matéria, de cada dia. e afinal, assim é que deveria ser, porque cada novo despertar sobre essa terra tão cheia de miséria e beleza só pode ser um milagre.
mas parece que muito pouca gente se toca disso. às vezes é preciso uma professora primária perder as pernas para lembrar-nos do óbvio ululante.
e aí eu seguia desejando uma boa virada de ânus para todos etc. e para compensar a grosseria, recuperava dois trechinhos do "agora é que são elas", do cachorro doido polaco paulo leminski, um livro relido ao acaso no dia. e que não tinha nada a ver com o assunto, mas também não importava, era só pra ver se ao menos transcrevendo, a fluência dele passava um tiquinho que fosse pra mim.
(há muito deixei de querer sê-lo, bem como ao nelson rodrigues, mas isso é um outro capítulo apócrifo da minha vida...)
ei-lo:
Com aquela cara de homem fingindo estar interessado no papo de uma mulher apenas porque está com vontade de comê-la, com aquela cara de mulher costurando e bordando pensamentos apenas porque está afim de ser comida por ele, cheguei, caprichei, relaxei, lembrei de tudo o que tinha aprendido em Kant e Hegel, repassei toda a teoria dos quanta, a morfologia dos contos de magia de Propp, o vôo do 14-bis, cheguei e não perdoei:
- Tem fogo?
(...)
Isso lá é jeito de se chegar numa dona, conversar com uma senhora, hein, seu isso e aquilo, que pensou ter atingido a sabedoria? Mulher tem que ser abordada com vinte e cinco canhões de bolha de sabão, princesa e flor do oriente, rosa de incenso, filé minhon da parte esquerda do meu cérebro, abre os braços, isto é, os pássaros, isto é, faça-se luz, paradise me now...
29 dezembro 2003
dias interessantes
reza a lenda que uma das piores pragas que os ingleses rogam é desejar que um sujeito tenha "dias interessantes".
pois bem, os últimos dias até que tiveram sua cota de interesse - para minha sorte, para bem. e se o movimento no botequim continua fraco, paciência. pelo menos não tive muito tempo para pensar nisso.
terça-feira, véspera de natal, fui devolver uns filmes na cavídeo antes de zarpar para a casa de mamã. mas eis que um amigo me vê passar e me chama pelo celular. na mesa ele está com ex-namorada (ou namorada, não entendi bem a situação) e uma outra menina, amiga de amigas de outra galera. já de cara saquei que tinha angu naquele caroço, mas estava por demais elétrico no dia para me concentrar. além do mais, estava gostando da velocidade.
depois do natal, dia 26, fui com o povo de casa e mais dois amigos de salsão ver o último "senhor dos anéis". antes do filme, queimei a língua com um café comprado para evitar o sono. na noite anterior, inexplicavelmente virara a noite, só tendo ido dormir de nove da matina ao meio-dia. o filme é maravilhoso, mas quando o aragorn foi coroado, achei que ele viraria-se para câmera para repetir o bordão do mel brooks: "it's good to be the king". houve duas fugas para xixi durante a projeção, sem maiores danos. e o trailer do segundo homem-aranha, que me deixou bem empolgado.
depois fomos beber, e mais tarde, seguimos para a casa de um dos amigos do salsão, de onde saímos lá pelas cinco, mais sábios, depois de assistir ao show de tributo ao george harrison e algumas cenas do primeiro "senhor..." que não entraram na edição final.
ou seja, outra noite sem dormir.
aí, ontem teve festa aqui em casa, para comemorar o aniversário dos meus "pais". festa ótima, muitos amigos, rostos conhecidos, boa bebida e boa comida até de manhã. resultado: sono picado o dia inteiro, até à nove e meia da noite, mais ou menos.
não tenho tido muito do que me queixar, afinal de contas...apesar dos pesares - que não são poucos - os últimos dias têm sido gratificantes.
26 dezembro 2003
bertrand russel era fera, mas não era cristão
fragmento impecável que encontrei entre os argumentos expostos por russel no seu porque não sou cristão.
Como já disse, não creio que a verdadeira razão pela qual as pessoas aceitam a religião tenha algo que ver com argumentação. Aceitam a religião por motivos emocionais. Dizem-nos com freqüência que é muito errado atacar-se a religião, pois que a religião torna os homens virtuosos. Isso é o que me dizem; eu jamais o percebi. Conheceis, por certo, a paródia desse argumento, tal como é apresentado no livro Erewhom Revisited, de Samuel Butler. Vós vos lembrais de que, em Erewhom, há um certo Higgs que chega a um país remoto e que, após passar lá algum tempo, foge do país num balão. Vinte anos depois, volta ao mesmo país e encontra uma nova religião, na qual é ele adorado sob o nome de “Filho do Sol”, e na qual se afirma que ele subiu ao céu. Verifica que a Festa da Ascensão está prestes a ser celebrada, e ouve os Professores Hanky e Panky dizerem entre si que jamais puseram os olhos no tal Higgs e que esperam não o fazer jamais – mas eles são altos sacerdotes da religião do Filho do Sol. Higgs sente-se muito indignado e, aproximando-se deles, diz-lhes: “Vou desmascarar todo este embuste e dizer ao povo de Erewhom que se tratava apenas de mim, Higgs, e que subi num balão”. Responderam-lhe: “Não deve fazer isso, pois toda a moral deste país gira em torno desse mito e, se souberem que você não subiu aos céus, todos os seus habitantes se tornarão maus”. Persuadido disso, Higgs afasta-se do país silenciosamente.
Eis aí a idéia – a de que todos nós seríamos maus se não nos apegássemos à religião cristã. Parece-me que as pessoas que se apegaram a ela foram, em sua maioria, extremamente más. Tendes este fato curioso: quanto mais intensa a religião em qualquer época, e quanto mais profunda a crença dogmática, tanto maior a crueldade e tanto pior o estado das coisas. Nas chamadas Idades da Fé, quando os homens realmente acreditavam na religião cristã em toda a sua inteireza, houve a Inquisição, com as suas torturas; houve milhares de infelizes queimadas como feiticeiras – e houve toda a espécie de crueldade praticada sobre toda a espécie de gente em nome da religião.
Constatareis, se lançardes um olhar pelo mundo, que cada pequenino progresso verificado nos sentimentos humanos, cada melhoria no direito penal, cada passo no sentido da diminuição da guerra, cada passo no sentido de um melhor tratamento das raças de cor, e que toda diminuição da escravidão, todo o progresso moral havido no mundo, foram coisas combatidas sistematicamente pelas Igrejas estabelecidas do mundo. Digo, com toda convicção, que a religião cristã, tal como se acha organizada em suas Igrejas, foi e ainda é a principal inimiga do progresso no mundo.
como diriam os velhos anarquistas espenhóis, no começo do século passado: "o mundo só será realmente habitável quando o último rei for enforcado nas tripas do último padre".
ou algo assim.
mary crisma!
natal não é das épocas que mais gozam da minha simpatia. depois que deixei de ganhar a montanha de presentes da infância, então, nem se fala. além disso, não sou fã de peru (em nenhuma de suas manifestações), avelãs, nozes etc. mas o desse ano foi legal.
uma semana antes, minha mãe organizou um jantar na casa dela com a parentada do lado wanderley. um povo ótimo, mas que, estranhamente sempre ficava do lado mais comportado da sala nos pagodes (vai no dicionário!) da casa da minha vó. gente muito boa, com laços fortes entre eles, com tias portadoras da história da família.
o melhor de tudo é que não teve cara de natal. as crianças receberam presentes, e foi tudo. comemos, conversamos e nos divertimos.
na data propriamente dita, estava combinado de irmos para a casa de zé luis, em niterói. confesso que fiquei um pouco dividido entre a satisfação de passar com um pessoal muito animado, mas ao mesmo tempo, que me era totalmente desconhecido. e fora do meu território. mas, ok, vamos lá.
estava combinado de rolar uma leitura de poesias, o que achei por deveras chique. para mim, achei perfeito o o oitavo poema do guardador de rebanhos, de alberto caeiro, vulgo f'rnando p'ssoa.
como era de se esperar, a reação da minha mãe foi mesma de quando a li para minha irmã: ficou chocada. não adiantou argumentar que, apesar das blasfêmias, o menino zizús saía limpo da história, e que os dogmas da igreja católica são apenas representações falhas - e muitas vezes contraditórias - do espírito dos ensinamentos de jotacristo. mas qual, de nada adiantou meu latim. fiquei puto e, de pirraça, me recusei ler o beijo de papai, do meu bisavô eustórgio wanderley (calma, revisão!), já que era o único de nós que conhecia bem a métrica e que conseguia lê-la sem chorar. (no final das contas, já com várias na cabeça, eu a declamaria de bom grado, mas não houve impressora na casa, e "o beijo..." acabou ficando para o ano que vem.)
lá na casa do zé luis almoçamos, e depois o povo seguiu para decorar a outra casa, onde seria a festa. mas fiquei foi na rede, de papo pro ar, meio lendo o jornal, meio cochilando. aí o marim me ligou. disse que tinha comprado um carro, e estava passando lá para me dar um abraço de natal. carro é o cacete! era uma puta caminhonete mitsubishi, a diesel, com direito a cascata artificial com filhote de jacaré. rodamos até achar uma padaria aberta, onde trabalhamos uma cerveja boa, e depois ele me deixou em casa.
de noite apareceram os filhos e sobrinhos. uma molecada dos 25 aos 27, todos quase o dobro do meu tamanho, mas uma rapaziada engraçada e acolhedora. tava também a paula, de quem me haviam falado tanto. o repertório de palavrões no começo me deu um susto, mas depois me acostumei. eu mesmo tenho uma boca suja pra caralho...
amigo-oculto, ceia etc. aí veio a roda de poesias, cantei nelson cavaquinho acompanhado pelo zé luis, aprendia a tocar harpa de nariz, e terminamos a noite todos bailando e forrozando. ah, descobri que não sei dançar.
boa, a noite, boa.
depois segui com o marão para tomarmos a saideira, perto do country. tinha uma festiva onde toda niterói estava. inclusive os galalaus lá da minha festa, só que os caras tinham uns ingressos vips, que davam dierito a tudo de grátis. íamos mesmo apenas tomar uma cerveja, mas um amigo do marão me deu o convite que tinha sobrando. entramos, mas achei um bobódromo. cheguei de manhã em casa. minha irmã disse, para minha surpresa, que ronquei direto.
boa, a festa, boa.
22 dezembro 2003
telemerda e o fim da cidadania
há dias que não consigo mais ligar para celulares do meu telefone fixo. no finde, tive a idéia de tomar satisfações com a telemerda, mas como só lembrava disso nos horários mais desarrazoados, resolvi deixar pra hoje.
assim, descobri que fui vítima de uma armadilha semântica: através de uma atendente que provavelmente não leva o cérebro para o trabalho (ou será esse um pré-requisito para trabalhar nesse cargo? será que eles ganham adicional de insalubridade para aturar os maus-bofes de consumidores como eu? será que estamos, pela privação de alimentação e alternativas de educação, criando uma sub-casta como os ipsilones semi-imbecis do admirável mundo novo, do huxley? eu sei, sou obcecado por esse livro. mas, enfim, divago...), a atendente me informou que em novembro eles "habilitaram" esse serviço de bloqueio de celular.
- desabilitaram, você quer dizer.
- não, senhor. o serviço foi habilitado, e gratuitamente.
- não, você não me entendeu. vocês desabilitaram. se antes eu conseguia ligar para celulares e agora fui impedido de fazê-lo, eu deixo de ter um serviço à minha disposição, correto? fui, portanto, desabilitado.
- senhor, esse é um dos serviços que a tele... oferece ao custo de dois reais mensais.
- peraí! vocês não estão me cobrando por isso, não, é?
- não, senhor, o serviço foi oferecido gratuitamente para o senhor.
- mas se foi oferecido, como é que eu não fiquei sabendo? como é que vocês presumiram que eu queria fazer uso disso, se eu não disse nada? se não concordei com nada?
- a informação foi enviada junto com a a sua conta de novembro.
bom, diante disso, não havia mais o que fazer, a não ser pedir que me reabilitassem logo. não costumo ler as propagandas e demais chorumelas que eles me mandam.
mas tive mais uma prova da engrenagem do capital neoliberal: você não importa, mesmo que pague. antes, se você pagava, anida tinha direitos, era tratado de "doutor" e tinha lá sua cota de rapapés; hoje, nem isso. as decisões são tomadas à sua revelia, e você que se dane para acompanhá-las.
o consumidor, hoje o substituto do cidadão, tem que dançar conforme a música que tocam. e ai daquele que não puder sequer ser consumidor. perde o direito à própria dignidade humana; e um resquício de ética religiosa é o que os impede de desenvolver uma "solução final" efetiva aos párias do capital. no entanto, se as previsões de que, com a automação, 20% terão trabalho e 80% terão "tempo livre" (ô, eufemismo!), é bom preparar o pescoço para o fio da espada.
21 dezembro 2003
o anjo exterminador
hoje acordei piano, tranqüilão, mesmo, fiz café, li o jornal, molhei as plantas e pensei em ir pra praia. recebi a mãe do salsão, que veio dar um trato na tutuca (a gatinha da casa).
aí caí na esparrela de jack in (ah, neuromancer!...) pra ver os imeios. tinha um da duli, que levei um tempão respondendo. e me loguei aqui pra mandar um bostejinho, mas eis que topo com a grata surpresa de um comentário da conceição, que não vejo acho que desde o fim da faculdade. escrevi sobre ela há um tempo atrás, quando falei de ricardo reis. enfim, outro imeio.
bom, o saldo da brincadeira é que não consegui me desplugar. o tempo passou, nublou, não almocei e sequer consegui botar o nariz pra fora de casa. são quase nove da noite, tem um sambão comendo solto desde de tarde em algum lugar da rua e eu, nada. achei que era num terraço aqui em frente, mas não tenho certeza de onde vem a música.
além de não conseguir sair de casa, continuo sem celulari e, portanto, impossibilitado de entrar em contato com quem quer que seja.
para não dizer que estou apenas choramingando pelo dia (voluntariamente) perdido, encontrei no gravataí merengue uma história hilária sobre a aracy de almeida, contada pelo caetano.
quando se fala em aracy de almeida, a primeira imagem que me vem a cabeça é dela como jurada do sílvio santos. na época, já uma senhora, ela parecia uma bruxa de óculos escuros, emoldurada por um pixaim bléqui, com o humor de uma sogra com tpm. só anos depois é que fui entender porque era ela que gongava os calouros, ao som do famoso bordão "vai levar dez paus". mas chega de blábláblá e vamos à história, de 26 de novembro do corrente:
CAETANO VELOSO: "LETRA SÓ" E "SOBRE AS LETRAS"
Chegaram hoje os dois livros de Caetano Veloso, recém-lançados pela Companhia das Letras. "Letra Só" é uma compilação de letras de música. Uma boa para quem não tenha os encartes de todos os CDs. Para os que têm, que se presume sejam fãs, é uma ótima (pois para fã tudo do ídolo é ótimo). Tiro certeiro da editora.
Já "Sobre as Letras" é uma coisa mais interessante, sobretudo para os fãs. Caetano fala de suas letras, desfaz alguns postulados até então tidos como verdadeiros, e explica situações bem inusitadas. Gostei muito do pouco que li.
Uma vez falei da música "A Voz do Morto". Adoro a letra, adoro a melodia. Ele fez para a Aracy de Almeida, disso eu sabia. Mas não conhecia o contexto da coisa. É algo engraçado, faz parte da história da MPB (Aracy, Caetano e o contexto).
Quem quiser ouvir a gravação na voz do autor, precisa conseguir o "compacto duplo ao vivo", gravado com Mutantes (do qual constam, além dessa, "Baby", "Saudosismo" e "Marcianita"). Era o showzinho gravado na boate Sucata, paralelamente ao Festival da Globo de 1968 (em que CV tocou "É Proibido Proibir" e deu no que deu...).
Vejam como Caetano Veloso narra o episódio da composição:
"Assim como 'Baby' me foi sugerida por Bethânia, 'A Voz do Morto' me foi ditada pela Aracy de Almeida. Ela estava em São Paulo para fazer a Bienal do Samba, que era um festival só de sambas, e estava muito irritada com a ideologia em torno daquilo. Ela vei falar comigo: 'Pô, me tratar como glória nacional pensando que vão me salvar? Puta que o pariu, salvar o caralho! Estão pensando que vaão salvar o samba na televisão? Salvar o caralho! Quero que você faça um samba porque você que é o verdadeiro Noel, porque você é violento, você é novo!'. Era assim que ela falava para mim: 'Eu já estou por aqui, de saco cheio' - e ela pegava, como se tivesse saco mesmo -; 'Eu estou de saco cheio desse negócio de Noel Rosa, ter que arrastar esse morto pelo resto da vida. Quando eu canto é a voz desse morto! E ninguém me engana com essa porra não, de festival do samba. Faça uma música da pesada para eu gravar, esculhambando essa porra toda!'. Ela me ditou o samba! Fiz essa música, ela adorou e gravou"
Agora, a tal letra:
A VOZ DO MORTO - Caetano Veloso
Estamos aqui no tablado
Feito de ouro e de prata
De filó, de náilon
Eles querem salvar as glórias nacionais
As glórias nacionais
Coitados
Ninguém me salva
Ninguém me engana
Eu sou alegre
Eu sou contente
Eu sou cigana
Eu sou terrível
Eu sou o samba
A voz do morto
Os pés do torto
A vez do louco
A paz do mundo
Na glória
Na glória
Na glória
Na glória
Eu canto com o mundo que roda
Eu e Paulinho da Viola
Viva Paulinho da Viola
há algo de podre no reino da...dinamarca?
tenho desenvolvido a postura zen de não julgar nada. apenas observo os fatos, tentando reagir como o junco, que muda de atitude conforme a direção do vento. digo isso porque abri o noticiário do meu provedor (não digo o nome, ele não merece a propaganda), e me choquei com as notícias.
me corrijam se eu estiver errado (ou se eu começar outra frase com pronome oblíquo): ou existe uma conspiração tendenciosa entre as principais agências internacionais, ou humildemente percebo algo como um desequilíbrio de forças na política do oriente médio.
vejam as notícias de hoje (21/12):
Guerra no O. Médio :: 12:54:12
Israel está radiante com Kadafi, a prisão de Saddam e a pressão sobre Assad
Guerra no O. Médio :: 11:55:14
Catar intermediou entre EUA e Hamas para fim de ataques a civis
Guerra no O. Médio :: 10:35:07
Dois menores palestinos são mortos por soldados israelenses
Guerra no O. Médio :: 09:44:09
Um menino palestino de cinco anos é morto perto de Nablus
Guerra no O. Médio :: 09:18:15
Israelenses prendem autoridade do Hamas na Cisjordânia
Guerra no O. Médio :: 07:54:07
George W. Bush quer se "livrar" de Arafat, diz jornal
Guerra no O. Médio :: 07:15:09
Bush defende que "é preciso se livrar de Arafat", diz jornal
Guerra no O. Médio :: 07:05:11
Exército israelense detém porta-voz do Hamas na Cisjordânia
Guerra no O. Médio :: 06:54:10
Israel prendeu um importante chefe do Hamas na Cisjordânia
Guerra no O. Médio :: 06:15:09
Exército israelense destrói dois edifícios na zona de Rafah
papai noel/ vê se você tem/ a felicidade/ pra você me dar.
socorro!