ontem na madruga, pra aliviar a tensão de escrever (tá foda, parceiro, tá foda mas é porque é o começo...), reassisti "as horas". nicole kidman de virginia woolf tá um escândalo (como um nariz valoriza, mesmo falso). e a julianne moore, então? obra-prima embalada pelo phillip glass.
do filme, algumas frases e o fim de uma suposta carta de suicídio da virginia woolf (mas não são as reais):
"you cannot find peace by avoiding life"
"what does it mean to regret when you have no choice?"
"Dear Leonard,
To look life in the face,
always to look life in the face.
And to know it, for what it is.
At last to know it. To love it for what it is,
and then to throw it away.
Leonard, always the years between us,
always the years.
Always the love,
always the hours."
29 janeiro 2004
frases de cinema
27 janeiro 2004
skylab
sempre achei o rogério skylab uma figuraça. embora nunca tenha o visto ao vivo, acho hilárias sua letras & performances (aliás, quem quiser me dar um presentão, é só me levar para um show dele). e hoje, num momento de relax teórico, flanando pela internet descobri essa pérola:
Samba
Vivo em papos de aranha,
Tô aqui a ver navios,
Leio sempre o Catatau,
Acabou o século XX.
Eu pareço com Ulisses,
Atravesso a Rio Branco,
Lá na frente tem uma blitz,
Eles tão me rebocando.
Entro na Leonardo da Vinci,
A gringa não percebe nada,
Eu estou desempregado
E quero mais ficar assim.
Eu não tenho nada a ver
Com a linha evolutiva,
Gosto é de ficar deitado
Com o meu piru na mão.
Vou comprar uma mutuca
Lá no quinto dos infernos,
Eu não sou nenhum mané,
Rio de Janeiro.
Sou um garoto seqüelado,
Quero ouvir Zumbi do Mato,
Hanny baby é o caralho,
O meu samba é assim.
...
e não é que o caboclo lê leminski?!
olha a sincronicidade aí, gente!...(chora cavaco!)
domingo, bostejei uma das minhas frases preferidas do cinema, e hoje, isso.
pode vir quente que eu estou fervendo. TSSSSSSSS!...
25 janeiro 2004
a cara de sumpaulo
outro dia, no quadro que o xexéo e o cony tem na cbn, o repórter heródoto barbeiro perguntou qual música eles consideravam a cara da cidade. a do cony não lembro, mas a do xexéo foi a indefectível "sampa".
discordo. para mim, uma das músicas que melhor caracteriza, se não a cidade, o paulistano jovem médio - ou o modelo de juventude que os publicitários de lá querem vender para o resto do país -, é "hey boy", dos mutantes (todos, aliás, paulistanos da gema).
HEY BOY
(Arnaldo Baptista / Élcio Decário)
He he he hey boy
O teu cabelo tá bonito hey boy
Tua caranga até assusta hey boy
Vai passear na Rua Augusta.
Hey he he hey boy
Teu pai já deu tua mesada hey boy
A tua mina tá gamada
Mas você nunca fez nada.
No pequeno mundo do teu carro
O tempo é tão pequeno
Teu blusão importado
Tua pinta de abonado
Tuas idéias modernas.
He he he hey boy
Mas teu cabelo tá bonito hey boy
Tua caranga até assusta hey boy
Vai passear na Rua Augusta.
A menina e as pernas
Vão aparecer
Nos passos ritmados
Do iê-iê-iê bem dançado
Da cuba-libre gelada.
Hey boy, viver por viver
Hey boy, viver por viver
Hey boy, viver por viver
Hey boy
mais tim na sua vida
maia, veja bem. nada a ver com a famigerada operadora de celular.
num rasgo de suíngue jamais visto na música brasileira (popular ou erudita), o negão esculpiu mais uma obra-prima nas massas de ar (como ensinou a natureza de seu ofício frank zappa):
Meus inimigos
Meus inimigos vão falar
Venha comigo pra saber agora
Venha comigo para ver
Por isso mesmo vou lhe mostrar
Tudo no seu devido lugar
Os bons amigos vão me saudar
E agora, sentimentos fora
Desse embalo
Vou botar pra quebrar
Meus inimigos vão contar histórias
Meus inimigos vão falar
Venha comigo pra saber agora
Venha comigo para ver
...
a quem interessar possa, uma boa matéria sobre o tim.
os sons que me contaminam
estou atoladaço com o mestrado. tenho que entregar a dissertação no fim de fevereiro (adeus carnaval...).
mas jacaré já começou a escrever? nem eu!
pois bem, contrariando as ordens auto-impostas, não posso deixar de bostejar, e o assunto de hoje, amiguinhos é a trilha sonora que me acompanha nesses momentos de cu apertadíssimo.
há dois anos, estudando para as provas de admissão no mestrado, na casa da minha avó, me entupia de remédios para emagrecer cheios de anfetaminas e outras bolas na fórmula (bons tempos, saudades...me dou muito bem com estimulantes químicos ingeríveis), e escutava uma trilha sonora rigorosa, à base de:
- lou reed (transformer)
- air (uma compliação dos três primeiros discos)
- gorillaz
- maurício negão (os três, incluindo o recente criolina)
- herbie hancock (cantaloupe island)
- frank zappa (strictly commercial)
- strokes (is this it)
- oscar peterson (ultimate oscar peterson)
hoje, a relação segue assim, por enquanto mais por músicas baixadas do que por discos:
- billie holliday (embraceable you, autumn in new york, i got it bad and that ain't good, on the sunny side of the street)
- nina simone (don't let me be misunderstood, ne me quitte pas, four women, i got it bad and that ain't good)
- mutantes (ave, gêngis khan, minha menina, ave, lúcifer, top top)
- sly and the family stone (the very best of)
- tim maia (além do horizonte - com erasmo tremendão, paz interior, réu confesso, meus inimigos, o caminho do bem, o que me importa)
- cornershop (brimful of asha)
- lou reed (transformer).
aliás, do meu amigo lou reed, estou apaixonado por andy's chest e perfect day, da qual destaco as últimas estrofes, das coisas mais simples - quase óbvia - mas por isso mesmo, da mais lindas que já vi escritas:
Just a perfect day,
Problems all left alone,
Weekenders on our own.
It's such fun.
Just a perfect day,
You made me forget myself.
I thought I was someone else,
Someone good.
Oh it's such a perfect day,
I'm glad I spent it with you.
Oh such a perfect day,
You just keep me hanging on,
You just keep me hanging on.
You're going to reap just what you sow...
um dia hei de viver isso plenamente, na carne.
depois não me falem de preconceito...
nossos irimãos do além-mar são realmente incríveis.
leiam o texto abaixo, coletado aqui.
Domingo, Janeiro 25, 2004
Conversas interessantes entre raparigas...
- Aquele rapaz ali deve ter 18 anos...
- Ah! Não parece...
- Mas olha que tem 18 anos, olha lá a cara...
- Olha pois parece!
- Ele tem 18 anos...
- Pois... deve ter 18 anos...
- Pois deve...
- Pois é...
- É é...
- É pois...
- Pois... Então ambas concordamos que tem 18 anos...
- Pois concordamos
(10 minutos nisto...)
As pessoas envolvidas não fumam coisas que fazem rir nem bebem alcool em excesso, mas são portuguesas!
post por Doido ás 02:00 com 0 comentário(s)
23 janeiro 2004
ligações perigosas
pode ser que sejam apenas meus nervos, mas será que não há um padrão nessas duas músicas, ouvidas recentemente?
the vibes, the vibes...
I'll follow the sun
(The Beatles)
One day you'll look to see I've gone.
For tomorrow may rain, so I'll follow the sun.
Some day you'll know I was the one.
But tomorrow may rain, so I'll follow the sun.
And now the time has come
And so my love I must go.
And though I lose a friend,
In the end you'll know, oooh.
One day you'll find that I have gone.
For tomorrow may rain, so I'll follow the sun.
Yes, tomorrow may rain, so I'll follow the sun.
And now the time has come
And so my love I must go.
And though I lose a friend,
In the end you'll know, oooh.
One day you'll find that I have gone.
For tomorrow may rain, so I'll follow the sun.
...
Fé cega, faca amolada
(Milton Nascimento- Ronaldo Bastos)
Agora não pergunto mais aonde vai a estrada
Agora não espero mais aquela madrugada
Vai ser, vai ser, vai ter de ser, vai ser
Faca amolada
O brilho cego de paixão e fé,
Faca amolada
Deixar a sua luz brilhar e ser muito tranqüilo
Deixar o seu amor crescer e ser muito tranqüilo
Brilhar, brilhar, acontecer, brilhar
Faca amolada
Irmão, irmã, irmã, irmão de fé
Faca amolada
Plantar o trigo e refazer o pão de cada dia
Beber o vinho e renascer a luz de todo dia
A fé, a fé, paixão e fé, a fé,
Faca amolada
Deixar a sua luz brilhar no pão de todo dia
Deixar o seu amor crescer na luz de todo dia
Vai ser, vai ser, vai ter de ser, vai ser
Muito tranqüilo
O brilho cego de paixão e fé
Faca amolada.
22 janeiro 2004
um picasso em são paulo é melhor do que nenhum
já sei qual vai ser a primeira coisa que vou fazer quando sair da tumba daqui a um mês, quando entrego a dissertação: me meto no primeiro ôndebus pra sumpaulo pra encarar o picasso.
sem duplo sentido, por favor.
o que é a cara-de-pau...
vejam aqui quem será o novo próximo ídolo pop inglês.
sem comentários.
é um arquivo de vídeo (quicktime). clique com o botão direito do mouse, e em seguida, em "abrir link em uma nova janela". aguarde baixar.
parece tirado de uma daquelas bombas televisivas do estilo "fama", da globo.
20 janeiro 2004
prtguês de prtgal, essa estranha flor do lácio
sempre que venho aqui para bostejar, o servidor mostra uma coluna à direita com os blogs recém-mexidos. volta e meia dou umas bandas nos títulos em português, à cata de novidades. mas a esmagadora maioria deles vêm de nossa matriz, portugal. brasileiro, necas.
de qualquer forma, é sempre uma diversão ver os nossos irimãos escrevendo. vejam se o texto abaixo não é capaz alegrar o dia de qualquer um. duvido que você chegue ao fim sem pelo menos um sorriso.
ah, se interessar, tirei daqui. dia 18 de janeiro, para se mais exato.
putos sem vida...
há dias assisti a uma cena mesmo absurda.
mais um dia de escola. pus-me a caminho da estação para apanhar o comboio das 13:18. enquanto este não vinha, estive na conversa com as minhas amigas. reparei num grupo de três rapazes que estavam ao nosso lado. tinham cerca de 14 anos. reconheci um deles, era um puto da minha antiga escola. um miúdo muito traquinas e nem sempre o mais agradável para as pessoas. esqueci o grupinho e entrei no comboio. sempre num diálogo alegre com as minhas colegas. a meio da viagem (que é muito curta, é só uma paragem), dei conta de uma cena muito absurda ali a menos de 7 metros. o tal grupinho estava a assaltar um miúdo do 10º ano da minha escola. o mais estúpido foi o facto de a carruagem estar cheia e ninguém ter feito nada com aqueles três putos. a sorte do miúdo foi ter um telemóvel que não lhes interessava.
eu e o meu grupo de amigas assistimos a tudo. uma raiva enorme consumiu-nos a todas. mas por algo que eu não sei explicar, também não fizemos nada. mesmo querendo mandar um estalo a cada um. ficámos paradas, sem saber o que fazer.
são destas coisas que me revoltam. putos que nem sequer sabem o que querem da vida andam aí a chatear o pessoal. não têm mais nada para fazer então decidem importunar os outros. esses putos...
# plantado por Moranguinha @ 16:34 || Morangos: 0
18 janeiro 2004
li e gostei
não sei com o que se come o autor, mas gostei do texto:
::::Promise yourself::::
Promise yourself to be so strong that nothing can disturb your peace of mind. To talk health, happiness and prosperity to every person you meet. To make all your friends feel that there is something in them. To look at the sunny side of everything and make your optimism come true. To think only of the best, to work only for the best and expect only the best. To be just as enthusiastic about the success of others as you are about your own. To forget the mistakes of the past and press on to the greater achievements of the future. To wear a cheerful countenance at all times and give every living creature you meet a smile. To give so much time to the improvement of yourself that you have no time to criticize others. To be too large for worry, too noble for anger, too strong for fear and too happy to permit the presence of trouble.
Christian D. Larson
17 janeiro 2004
deus à siciliana (ou à moda do brooklyn)
de robert de niro, em entrevista ao actor's studio:
entrevistador - o que gostaria que deus te dissesse quando você chegasse ao céu?
de niro - bom, se deus existir mesmo, ele vai ter muito o que se explicar...
sobre porcos e homens
ontem, zapeando pela tv a cabo de babãe, assisti a uma adaptação da “revolução dos bichos”, de george orwell. 1984, do mesmo autor, é um dos meus clássicos de todos os tempos, e a “revolução...” me impressionou bastante aos 14 anos; os porcos, em especial (muito do asco era graças ao medo que adquiri de jodie, o porco-demônio de “horror em amityville”, que acabara de ler na casa de meus primos).
o filme não estava mal. a computação gráfica foi fundamental para fazer os animais falarem, os porcos caminharem em duas patas e pegarem objetos com os cascos. a transposição do romance também estava bem fiel, até o final botar tudo a perder. no livro, o desfecho é perturbador: porcos e homens sentam-se em torno da mesa da fazenda tomada, negociando e bebendo uísque (em clara desobendiência aos mandamentos da revolução), enquanto o narrador diz que “quem os observasse, não saberia mais distingüir porcos de homens”. ponto final.
mas na película, a maldição do happy end atacou. não satisfeito, o diretor john stephenson quis melhorar o perfeito. e fez com que alguns animais fujissem para as cercanias da fazenda, e lá esperassem o fim da tirania dos porcos. há uma alusão à queda do muro de berlim, e no fim, mostra os animais satisfeitos por receber uma nova família que compra a fazenda (!!!). e o take final mostra papai, mamãe e um casal de filhinhos, todos louros e lindos, com sorrisos de cera à la kennedy, passando com um conversível por cima da placa caída da “animal farm”.
porque os animais que sobraram não assumiram a gestão da fazenda eles mesmos, dentro de um esquema de produção coletiva e igualitária, sem líderes, como era o ideal da revolução?
é o maldito reforço da mensagem de que os homens não podem se auto-gerir, de que necessitamos de especialistas que "pensem por nós". de que dependemos de uma estrutura de produção e de vida onde alguém domina o conhecimento e os meios de produção, enquanto o restante permanece alienado do processo, possuindo apenas a força de trabalho. cada um podendo fazer apenas aquilo que sabe, sem que as aptidões de cada um possam ser compartilhadas coletivamente. o conhecimento permanece na mão de especialistas, que o mistificam e o tornam em fetiche. não precisamos de quem nos diga o que fazer. não precisamos de senhores ou líderes. power to the people!
cruzes, como estamos marxistas hoje!...
mas é isso: marx vive! o problema é que as pessoas confundem o regime comunista - fechado em diretrizes de uma elite política, com doutrinas que se cristalizaram e, por isso, ruíram -, com o arcabouço filosófico proposto por marx - plural, dinâmico e, por que não, repleto de contradições, como todo bom arrazoado filosófico.
16 janeiro 2004
os pais do burro
sou tarado por dicionários. como eles são caros, para um geminiano safado como eu, a internet foi uma mão na roda. a disponibilidade deles na rede é um assombro. já cheguei a baixar livros inteiros, só para aproveitar a agilidade que os dicionários virtuais oferecem durante a leitura.
só não entendo como a minha paixão pelo uso correto do vernáculo (uau!) não se reflete em melhoria na minha linguagem. vai entender...
além do babylon (depois de expiração o prazo de gratuidade, sou obrigado a atrasar a data do computador para usá-lo), tenho dois xodós: o american heritage, um fodão de inglês que tem até arquivo sonoro de pronúncia, e o diccionarios.com, que faz traduções de espanhol para outras línguas e vice-versa, ótimo para quem busca termos num terceiro idioma.
os links estão nos favoritos, ao lado. se vira nos trinta.
e como disse drummond de andrade: "Penetra surdamente no reino das palavras./ Lá estão os poemas que esperam ser escritos./ Estão paralisados, mas não há desespero, há calma e frescura na superfície intata./ Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário".
transgressões previstas pelo sistema
pode ser que eu esteja errado, mas acho que a forma predominante de transgressão da juventude hoje é sexual. nos idos dos meus 15 anos, foram as drogas. buscava-se um tipo de transcendência similar ao da geração dos anos 70, anterior à minha. e assim tomávamos todo o tipo de porcaria em nome da expansão da consciência e de um vislumbre de divindade.
(porcaria mesmo. comi pão mofado, fumei fiapo de banana e tomei coca-cola com aspirina, só porque dizia-se que dava onda. sem falar nas receitas caseiras de loló e lança. só não tomei nos canos porque tenho medo de injeção, e crack e ecstasy porque quando apoareceram eu já tinha deixado a farmacopéia de lado).
mas a petizada hoje parece que abandonou a transcedência em nome da imanência. o que importa é o corpo e seus limites, e o que você pode fazer com ele, como pode modificá-lo. a mente é perda de tempo. pensar pra quê? ninguém mais sabe quem foi castañeda, acham que bukowsky é nome de boate, e sequer ouviram falar das experiências de jack kerouac, rimbaud, verlaine, aldous huxley e william burroughs de misturar drogas e literatura (na música, as experiências podem ter permanecido pelo seu caráter mais "sensorial" do que "intelectual").
agora a onda é piercing, tatuagem, body-modification, fisioculturismo, plástica e lipoaspiração - sem falar nessa febre de lesbian-chic de novela, que parece ter contaminado a todo(a)s. de três em três meses sai uma matéria na veja sobre o número cada vez maior de adolescentes apelando para cirurgiões plásticos para corrigir as "imperfeições", que os tornam únicos. hoje ninguém mais quer ser diferente.
mais do que uma atitude contestatória, a transgressão parece ser uma afirmação do sistema, um traço de consumo. o estilo alternativo e rebelde deixa os jovens exatamente iguais uns aos outros. vestindo as mesmas roupas, ouvindo as mesmas músicas, trepando, falando, bebendo, fumando e comendo as mesmas coisas. mas - invariavelmente - consumindo.
desde que você compre, pode ser e fazer qualquer coisa. e se acontece com a moda, porque não aconteceria com as drogas, que movimentam mais grana por ano do que o mercado de petróleo, só perdendo para o de diamantes? por mais que que se reprima, a demanda é grande e os interesses, enormes. esvaziadas de ritual, as drogas deixaram de ser um meio de expandir a mente para tornarem-se meros aceleradores ou amortecedores de sensações. ou o cara quer ficar mais rápido que o mundo, ou quer desacelerá-lo, calçando-lhe pantufas. aliás, parei de usar drogas quando deixei de enxergar a mística de coisa proibida que me seduzira. tava ficando tão fácil encontrar, com tanto nêgo cabecinha usando, que achei melhor parar. não era mais a minha. sou a favor da liberação geral, mas custo a acreditar, como muitos, de que depois o consumo vai diminuir. só acho que vai morrer menos gente desnecessariamente.
na essência, ser transgresor hoje é não consumir.
digo isso tudo porque ontem fui com meu amigo pedro cabeção no empório, em ipanema, onde não punha os pés desde o aniversário da minha irmã, há uns três anos. e o que vi, além daqueles tipos bizarros que parecem brotar nas rachaduras das calçadas à noite (porque nunca se consegue vê-los de dia), foi uma pivetada brincando de crossover sexual. tinha, por exemplo, um molecote todo cheio de piercings, com braceletes de couro e metal (como os que eu gostava, quando me tornei punk, aos 15 anos), cinto sobre a bermuda, e boné. o sujeito se contorcia, dançava e olhava para os lados como se fosse uma bichinha-lacraia. mas logo depois lascou um chupão numa morena com o cabelo tingido de ruivo. que por sua vez, beijou uma menina linda de minissaia e meia colorida até o joelho (tenho tara por minissaia e meias compridas, deve ser algo relacionado com o fato de ter morado duas vezes perto dos colégios pedro II). essa por sua vez, beijou uma narigudinha meio olívia palito, que acabou sendo beijada pelo lacraia.
não conseguiram me chocar, mas fiquei surpreso com a desenvoltura e o descompromisso da garotada. devo estar ficando velho, porque na minha época, liberdades assim - também ultra-transgessoras - eram muito restritas às esferas privadas ou "marginais". andando pelo mainstream, a primeira vez que vi um beijo homossexual foi na faculdade, numa festa de dois amigos casados. eles se beijaram espontaneamente, e só fizeram isso porque estavam na própria casa, em companhia de pessoas absolutamente confiáveis. e mesmo assim, não foi uma atitude afirmativa e demonstrativa - mas apenas uma expressão de carinho. não essa coisa gratuita, ostensiva, feia inclusive quando com heterossexuais.
ah, sei lá, também...mó sociologia de botequim...estou soando muito tijucano? fazer o quê? eu vim de lá, eu vim de lá, pequenininho...
13 janeiro 2004
outra obsessão
há três posts falava eu de algumas obsessões musicais. outra delas é o tim maia. mas não esses discos póstumos & ao vivo, quando os excessos já tinham minado de vez o alcance vocal do negão. gosto do tim na época em que ele era chamado de "deus trovão", o pai do suíngue brasileiro. destaco, além dos sucessos consagrados, os discos "racionais", da época em que ele se engajou no universo em desencanto. dentre elas, a divina:
paz interior
já não dependo das loucuras
já encontrei o que fazer
agora sei outra verdade
estou vivendo com prazer de viver
eu agora já não dependo de você (2x)
voltou o brilho dos meus olhos
voltou a paz interior
no universo em desencanto
me reencontrei com muito amor
racional, e agora
chegando o bem se afasta o mal (2x)
sem vergonha
não é por nada, não, mas sair de casa me fez bem. tava começando a amarrar um bote pretaço. levei um esporro, pra não perder o prumo, mas tô de volta aos eixos. vida, afinal!
ainda tenho uns troços pra resolver comigo mesmo, mas é só não deixar as coisas acumularem, que tudo se ajeita. enfim...
voltando pra casa, ouvi de um apartamento "sem você", do antônio jobim e do vinícius de moraes, cantada por maria bethânia. coisa finíssima, linda de doer no cu, como diz uma grande amiga. sem sentimentalismo ou nostalgia, reproduzo aqui a letra.
mas vale ouvir a música - ô, se vale.
Sem você
Sem você
Sem amor
É tudo sofrimento
Pois você
É o amor
Que eu sempre procurei em vão
Você é o que resiste
Ao desespero e à solidão
Nada existe
E o mundo é triste
Sem você
Meu amor, meu amor
Nunca te ausentes de mim
Para que eu viva em paz
Para que eu não sofra mais
Tanta mágoa assim
No mundo
Sem você