augusto dos anjos disse que "o homem, que (...) mora entre feras, sente inevitável necessidade de também ser fera". e talvez seja mesmo assim. e talento deve pegar, porque só isso explicaria uma época tão fecunda de "feras" quanto o rio da segunda metade do século passado. do qual destaco uma pérola recém-descoberta.
Mensagem a Rubem Braga
Vinicius de Moraes
Os doces montes cônicos de feno
(Decassílabo solto num postal de Rubem Braga, da Itália.)
A meu amigo Rubem Braga
Digam que vou, que vamos bem: só não tenho é coragem de escrever
Mas digam-lhe. Digam-lhe que é Natal, que os sinos
Estão batendo, e estamos no Cavalão: o Menino vai nascer
Entre as lágrimas do tempo. Digam-lhe que os tempos estão duros
Falta água, falta carne, falta às vezes o ar: há uma angústia
Mas fora isso vai-se vivendo. Digam-lhe que é verão no Rio
E apesar de hoje estar chovendo, amanhã certamente o céu se abrirá de azul
Sobre as meninas de maiô. Digam-lhe que Cachoeiro continua no mapa
E há meninas de maiô, altas e baixas, louras e morochas
E mesmo negras, muito engraçadinhas. Digam-lhe, entretanto
Que a falta de dignidade é considerável, e as perspectivas pobres
Mas sempre há algumas, poucas. Tirante isso, vai tudo bem
No Vermelhinho. Digam-lhe que a menina da Caixa
Continua impassível, mas Caloca acha que ela está melhorando
Digam-lhe que o Ceschiatti continua tomando chope, e eu também Malgrado uma avitaminose B e o fígado ligeiramente inchado.
Digam-lhe que o tédio às vezes é mortal; respira-se com a mais extrema
Dificuldade; bate-se, e ninguém responde. Sem embargo
Digam-lhe que as mulheres continuam passando no alto de seus saltos, e a moda das saias curtas
E das mangas japonesas dão-lhes um novo interesse: ficam muito provocantes.
O diabo é de manhã, quando se sai para o trabalho, dá uma tristeza, a rotina: para a tarde melhora.
Oh, digam a ele, digam a ele, a meu amigo Rubem Braga
Correspondente de guerra, 250 FEB, atualmente em algum lugar da Itália
Que ainda há auroras apesar de tudo, e o esporro das cigarras
Na claridade matinal. Digam-lhe que o mar no Leblon
Porquanto se encontre eventualmente cocô boiando, devido aos despejos
Continua a lavar todos os males. Digam-lhe, aliás
Que há cocô boiando por aí tudo, mas que em não havendo marola
A gente se agüenta. Digam-lhe que escrevi uma carta terna
Contra os escritores mineiros: ele ia gostar. Digam-lhe
Que outro dia vi Elza-Simpatia-é-quase-Amor. Foi para os Estados Unidos
E riu muito de eu lhe dizer que ela ia fazer falta à paisagem carioca
Seu riso me deu vontade de beber: a tarde
Ficou tensa e luminosa. Digam-lhe que outro dia, na Rua Larga
Vi um menino em coma de fome (coma de fome soa esquisito, parece
Que havendo coma não devia haver fome: mas havia).
Mas em compensação estive depois com o Aníbal
Que embora não dê para alimentar ninguém, é um amigo. Digam-lhe que o Carlos
Drummond tem escrito ótimos poemas, mas eu larguei o Suplemento Digam-lhe que está com cara de que vai haver muita miséria-de-fim-de-ano
Há, de um modo geral, uma acentuada tendência para se beber e uma ânsia
Nas pessoas de se estrafegarem. Digam-lhe que o Compadre está na insulina
Mas que a Comadre está linda. Digam-lhe que de quando em vez o Miranda passa
E ri com ar de astúcia. Digam-lhe, oh, não se esqueçam de dizer
A meu amigo Rubem Braga, que comi camarões no Antero
Ovas na Cabaça e vatapá na Furna, e que tomei plenty coquinho
Digam-lhe também que o Werneck prossegue enamorado, está no tempo
De caju e abacaxi, e nas ruas
Já se perfumam os jamineiros. Digam-lhe que tem havido
Poucos crimes passionais em proporção ao grande número de paixões
À solta. Digam-lhe especialmente
Do azul da tarde carioca, recortado
Entre o Ministério da Educação e a ABI. Não creio que haja igual
Mesmo em Capri. Digam-lhe porém que muito o invejamos
Tati e eu, e as saudades são grandes, e eu seria muito feliz
De poder estar um pouco a seu lado, fardado de segundo sargento. Oh
Digam a meu amigo Rubem Braga
Que às vezes me sinto calhorda mas reajo, tenho tido meus maus momentos
Mas reajo. Digam-lhe que continuo aquele modesto lutador
Porém batata. Que estou perfeitamente esclarecido
E é bem capaz de nos revermos na Europa. Digam-lhe, discretamente,
Que isso seria uma alegria boa demais: que se ele
Não mandar buscar Zorinha e Roberto antes, que certamente
Os levaremos conosco, que quero muito
Vê-lo em Paris, em Roma, em Bucareste. Digam, oh digam
A meu amigo Rubem Braga que é pena estar chovendo aqui
Neste dia tão cheio de memórias. Mas
Que beberemos à sua saúde, e ele há de estar entre nós
O bravo Capitão Braga, seguramente o maior cronista do Brasil
Grave em seu gorro de campanha, suas sombrancelhas e seu bigode circunflexos
Terno em seus olhos de pescador de fundo
Feroz em seu focinho de lobo solitário
Delicado em suas mãos e no seu modo de falar ao telefone
E brindaremos à sua figura, à sua poesia única, à sua revolta, e ao seu cavalheirismo
Para que lá, entre as velhas paredes renascentes e os doces montes cônicos de feno
Lá onde a cobra está fumando o seu moderado cigarro brasileiro
Ele seja feliz também, e forte, e se lembre com saudades
Do Rio, de nós todos e ai! de mim.
04 novembro 2006
o roto (!) falando pro esfarrapado (!)
03 novembro 2006
somos como cães e gatos
tarrei da solange (inclusive o estilo de apresentação), que, por sua vez, tarrou daqui.
What is a dog?
Dogs spend all day sprawled on the most comfortable piece of furniture in the house.
They can hear a package of food opening half a block away, but don't hear you when you're in the same room.
They can look dumb and lovable all at the same time.
They growl when they are not happy.
When you want to play, they want to play.
When you want to be alone, they want to play.
They leave their toys everywhere.
They do disgusting things with their mouths and then try to give you a kiss.
They go right for your crotch as soon as they meet you.
What is a cat?
Cats do what they want.
They rarely listen to you.
They're totally unpredictable.
When you want to play, they want to be alone.
When you want to be alone, they want to play.
They expect you to cater to their every whim.
They're moody.
They leave hair everywhere.
Conclusion:
Dogs are tiny men in little fur coats.
Cats are tiny women in little fur coats.
diário de bordo
aos três dias do décimo-primeiro mês do ano da graça de dois mil e seis, a.d. (mais de um mês à deriva nesse mundão prenhe de possibilidades.)
minha biografia confirma: desde antes do nascimento, dona sorte sorri para mim. ultimamente tem dado até para ver o vermelhão das gengivas. muitas coisas boas têm esbarrado em mim. o trabalho exige, mas não assusta; as entranhas afinal remendaram-se; e até as nuvens negras que alguns amigos identificaram se afastaram com um pé-de-vento. enquanto isso, bruceleeanamente, sigo buscando ser água, moldando-me a cada recipiente em que sou derramado.
"o que a língua trava, a pena solta". acho que acabei de inventar essa frase, e é tanto o que eu quereria pra mim, que a adotarei como lema. meu analista a teria adorado.
está provado, ônibus são ótimos para a reflexão rasteira. proponho enquadrar ao lado da filosofia de botequim a categoria da "metafísica de ônibus". a ocasião é quase tão propícia ao devaneio quanto ao se lavar louça. com a vantagem de se poder olhar para dentro dos apartamentos e para as pernas das motoristas e caronas nos carros lá embaixo. o único inconveniente é a letra tremida, que dificulta um pouco a compreensão depois.
as palavras são suseranas caprichosas, e por mais que tente, raramente extraio significados precisos. até formulei uma teoria meio maluca de que todos têm uma guerra a combater. pode ser conviver com uma doença ou má-formação, vencer um vício etc., mas sempre será uma superação, interior ou exterior. já sei, o paulo coelho já deve ter dito alguma coisa nesse sentido, mas, a grosso mole, os muçulmanos já tinham um conceito bem parecido -- a tão aviltada jihad. talvez a luta com as palavras seja o combate da minha vida. eu gostaria que fosse. nada mais geminiano...
15 outubro 2006
se eu quiser falar com deus
citei o karel capek no bostejo passado, então vou contar como o decobri, que a história é bacana. no fim do ano passado, enquanto desperdiçava importantes horas de vida diante do computador, topei com o saite igod. deus é um programa de inteligência artificial criado para desenvolver-se à medida que conversa. é legalzinho, embora ainda precise de melhoramentos.
bom, no primeiro papo, sujeito atormentado que sou (não confundir com gay ou sueco, plís), parti logo para a ignorância, cobrando: anyway, who put you in charge?. ao que deus, em sua infinita sabedoria, me responde In any case, Carel Capek. :-). fiquei deveras intrigado, o nome era totalmente desconhecido. fui "googar" o cara e deu nisso. pra resumir, ele é considerado um dos pais da ficção científica moderna, e o autor incontestável da palavra "robô" (embora ele transferisse o crédito para seu irmão joseph).
semana passada fui tocado pela sorte suprema ao encontrar num sebo uma edição portuguesa de A guerra das salamandras. e na rede encontrei sua obra-prima, a peça R.U.R - Rossum's Universal Robots, que foi o que deu origem a esse bostejo enciclopeidico dominical.
vale a pena correr atrás do cara como der, até porque, os editores tupiniquins, em sua santa ignorância, só lançaram dele o infantil Dachenka: a vida de uma cachorrinha. não é nada, não é nada, não é porra nenhuma. o ouro ainda está para ser descoberto.
14 outubro 2006
sem título
essa bagaça tá acumulando poeira. juro que gostaria de escrever alguma coisa legal ou esprituosa, mas tô vazio. preciso tomar um banho. acho que vou dar uma flanada pelas ruas e partir para meu passatempo favorito: café-e-água-com-gás. juntando fragmentos do passado, uma peça com cachaça do domingos de oliveira daqui, uma oficina de roteiro com o lourenço mutarelli dali (grande cabra, nunca é demais citar), me deu muita vontade de ler schopenhauer. o mundo como vontade e representação. odeio a união européia, porque disseram que a tradução portuguesa era melhor que a brasileira, mas não há mais escudos no mercado, e o euro está pela hora da morte. justo quando arrumei um canal quente com portugal. porcaria de televisão que não para de matraquear, não importa quantos canais eu troque. deve ser algum tipo de conspiração. feriado é uma droga, perdi a conta dos dias e a minha aula de hoje. era quase uma da tarde quando acordei (porque hoje é sábado, como na poesia) e lembrei do compromisso. fogo é que a mensalidade já foi paga. e os mojitos de ontem voltaram em forma de broca e estão perfurando a base do meu crânio. quase posso sentir o cheiro da poeira de ossos. segunda começo a trabalhar, sem apartamento, financiamento, conhecimento, lenço, mas felizmente documento ainda possuo. esqueci meu cd na casa daquele povo. tudo bem, depois eu pego. tinha uma gatinha cotó, a ponta do que sobrou do rabo era torta para o lado, e os pêlos pareciam um espanador velho, arregaçado. a sensação de tocar naquele rabo torto era meio estranha. dava vontade de desentortá-lo. o gato preto brincava de morder meus dedos, de levinho. fiquei com saudades dos bichanos de casa, da antiga vida. luisinho veio de longe, são vinte e seis anos de bons papos e muitas histórias. pensamos em reunir o resto da turma. pensando bem, só restaram quatro de nós. os quatro cavaleiros do apocalipse. a felicidade dele me fez pesar melhor as coisas. mas é andando que se caminha. o negócio é acreditar que o horizonte a frente é colorido. acho que finalmente entendi o slogan: just do it. que, por outro lado, quer dizer: don't think. ignorance is bliss, ensinou o orwell. baixei o karel capek, com acento circunflexo de cabeça pra baixo no c, por favor, que o cara é tcheco. a guerra das salamandras é muito bom. eu sou muito empolgado com alguns livros, mas esse tornou-se um dos meus clássicos pessoais. e é de 35. será que algum dia escreverei alguma coisa? será que aquele livro que combinei com o fabinho algum dia será parido? se for para ficar só na promessa, é melhor não fazer planos, essa é a lição que tento me ensinar há anos, sem sucesso. não prometa o que não será capaz de cumprir, não envolva os outros nas suas fantasias, a menos que esteja certo do que está dizendo, porque você é bom de papo e as pessoas acabam acreditando que é sério. e é, quando digo, pelo menos, é. nesses momentos, sou incapaz de mentir. mas acho que não basta. o que nos leva de volta ao princípio. segure a língua e seja feliz. segurança da informação, não é assim? acho que meu timo precisa de uma massagem. a dor de cabeça agora é uma agulha perfurando meu olho esquerdo por trás. vou tomar banho e sair para um café. seja o que deus quiser. amém. epluracas orega.
29 setembro 2006
combinado para domingo
por mais que tentem criar um fato político com o objetivo de forçar um segundo turno, marquemos posição fazendo como nossos hermanos argentinos nos anos 50:
"Ladrón o no ladrón, queremos a Perón!"
pra encerrar de vez o assunto
I pray you, in your letters,
When you shall these unlucky deeds relate,
Speak of me as I am; nothing extenuate,
Nor set down aught in malice: then must you speak
Of one that loved not wisely but too well;
(...)
Of one whose hand,
Like the base Indian, threw a pearl away
Richer than all his tribe (...).
Othello - Ato 5, cena 2
24 setembro 2006
"Separação"
por affonso romano de sant'anna:
Desmontar a casa
e o amor. Despregar
os sentimentos das paredes e lençóis.
Recolher as cortinas
após a tempestade
das conversas.
O amor não resistiu
às balas, pragas, flores
e corpos de intermeio.
Empilhar livros, quadros,
discos e remorsos.
Esperar o infernal
juizo final do desamor.
Vizinhos se assustam de manhã
ante os destroços junto à porta:
-pareciam se amar tanto!
Houve um tempo:
uma casa de campo,
fotos em Veneza,
um tempo em que sorridente
o amor aglutinava festas e jantares.
Amou-se um certo modo de despir-se
de pentear-se.
Amou-se um sorriso e um certo
modo de botar a mesa. Amou-se
um certo modo de amar.
No entanto, o amor bate em retirada
com suas roupas amassadas, tropas de insultos
malas desesperadas, soluços embargados.
Faltou amor no amor?
Gastou-se o amor no amor?
Fartou-se o amor?
No quarto dos filhos
outra derrota à vista:
bonecos e brinquedos pendem
numa colagem de afetos natimortos.
O amor ruiu e tem pressa de ir embora
envergonhado.
Erguerá outra casa, o amor?
Escolherá objetos, morará na praia?
Viajará na neve e na neblina?
Tonto, perplexo, sem rumo
um corpo sai porta afora
com pedaços de passado na cabeça
e um impreciso futuro.
No peito o coração pesa
mais que uma mala de chumbo.
17 setembro 2006
a vergonha da segurança estadual
desde que mudei-me para botafogo, há dois anos, sempre me surpreendi com o número de viaturas abandonadas no pátio do 2o BPM, na esquina da são clemente com a real grandeza. cheguei a contar 15 carcaças, entre rádio-patrulhas, kombis e camburões, completamente deteriorados pelas intempéries, de pneus vazios, sem motores, lanternas e pára-brisas. qualquer morador da região mais atento pode corroborar a informação.
a notória incompetência do governo estadual no combate ao crime é estrutural: os pms não têm formação psicológica e tática antes de irem para as ruas, não sabem atirar, e não têm viaturas em condições operacionais. ou seja, não são capazes nem de exercer mal suas atividades.
eis que, em junho/julho, é dada a largada oficial para a campanha para o estado. nossa digníssima governadora, rosinha garotinho, manda recolher os carros abandonados, empilhá-los num canto coberto do pátio, escondendo-os do escrutínio público com uma lona azul.
como era freqüente a força do vento expor as vergonhas da política de segurança, o pano acabou sendo amarrado às ferragens de um dos ferros-velhos escondidos. tivesse eu uma máquina digital disponível na época, essa crônica do grotesco estaria registrada em imagens irrefutáveis.
15 setembro 2006
ao benjamin du mmal
Jumento não é
Jumento não é
O grande malandro da praça
Trabalha, trabalha de graça
Não agrada a ninguém
Nem nome não tem
É manso e não faz pirraça
Mas quando a carcaça ameaça rachar
Que coices, que coices
Que coices que dá
"O Jumento - Os Saltimbancos"
Composição: Chico Buarque, Enriquez, Bardotti
dedico o trecho da canção a um pilantra que expropriou não apenas a minha força de trabalho, mas minha confiança.
por empenho próprio, as coisas mudaram. como já diria rosa, o guimarães, "cada um tem a sua hora e a sua vez".
11 setembro 2006
a vingança é um prato que se come frio, muito frio...
não sou um camarada rancoroso, mas tenho dificuldade em perdoar mau-caratismo e baixeza (como deve saber agora o ex-chefe que me deu um calote no valor de um carro popular, por sete meses de trabalho, e que na audiência teve a desfaçatez de dizer na minha cara que tinha a consciência tranqüila de que não me devia nada, porque eu jamais havia trabalhado para ele. eu venci a causa, e se não fugir do brasil ele deve recorrer. mas isso é um papo futuro).
refiro-me especificamente há uma história entalada na minha garganta há 14 anos. na faculdade de teatro, um calouro um pouco mais velho que eu, então suboficial da marinha, oferece uma carona para mim e minha namorada. eu e ele sentados na frente, ela no banco de trás. depois de chegarmos ao nosso destino, ela me conta das tentativas dele de passar a mão em sua perna diversas vezes durante o percurso, e de como ela furara suas mãos como os fechos de sua presilha de cabelo, pontudos a ponto de poderem ser classificados como arma branca.
ela guardara o fato até o infeliz arrancar com o carro, ciente do baixinho esquentado que ela tinha por namorado. espumei de ódio, minhas relações com ele esfriaram de vez, e logo em seguida a vida me soprava para outros rumos, em outras faculdades.
essa história vinha esquecida até hoje, quando um casal de amigos me passa a notícia fatídica. tem mais aqui.
há um equilíbrio no universo, regido, entre outras coisas, por leis como a que estabelece que e não se abusa da confiança dos outros. demorou, mas valeu a espera.
10 setembro 2006
gnarls barkley
não sei se é um cara ou se o nome de um grupo (botei o saite no título mas ainda não o vi). conheci-o(s) no churrasco de um amigo, há algumas semanas. talvez tenha sido a cerveja, mas demorou uns cinco minutos para eu entender o nome, devidamente esquecido no segundo seguinte, claro. mas hoje vi o clipe abaixo na tv e voltou tudo.
saca só essa outra música:
também gostei muito; lembra um pouco o que o ed motta poderia ter sido. botei o álbum pra baixar. pode ser apenas mais um "two-hit-wonder", mas só o fato de, depois de tantos anos, ouvir algo com alma de novo já me deixou feliz.
07 setembro 2006
o exterminador do futuro (2010)
uma amiga indicou-me o vídeo-documentário liberdade, essa palavra, de marcelo baêta, feito como projeto final de curso de jornalismo na ufmg em junho desse ano. esse caboclo promete...
o tema gira em torno das relações espúrias entre os donos dos veículos de comunicação e o poder, este personificado por nosso futuro presidente, aécio "déficit zero" neves, o mauricinho das gerais.
assista o vídeo aqui.
tamos bem servidos...
************************
atualização:
parece que o vídeo causou tanto mal-estar que a assessoria do candidato entrou em campo, acusando o trabalho de baêta de manipulação petista, e produziu um "documentário" em resposta. liberdade de imprensa em minas está disponível em três partes no you tube. a terceira não responde nada, é apenas uma ataque ao pt através do caso da demissão do boris casoy da record.
alea jacta est.
quanto a mim, quero mais é ver o circo pegar fogo.
funcionário do mês
responda rápido aonde um camarada com esse perfil seria mais adequado: na presidência da república ou na gerência de uma farmácia, supermercado ou loja de tecidos na tijuca?
03 setembro 2006
the manchurian candidate
essa noite tive um sonho muito estranho (talvez, quem sabe, pelo fato de ter ido na sexta à belzonte): eu era contratado para manipular mamulengos com a cara dos vencedores das eleições para o governo estadual de minas e são paulo.
a "apresentação" seria nas sacadas dos respectivos palácios, no fim da contagem dos votos. o discurso de posse estava gravado, e eu apenas faria a mímica, acenando, cumprimentando etc. mas não seria uma paródia, as pessoas deviam ser convencidas de que estavam vendo os políticos reais.
acordei com a angústia de perceber que, nos dois casos, a população nas ruas não percebia o engodo, por mais toscos que fossem os mamulengos.
será que isso quer dizer alguma coisa?...
cartas para esse endereço.
29 agosto 2006
gênios da publicidade
já repararam a semelhança entre a nova campanha do net vírtua e o logotipo dos carrinhos hot wheels?
fica a pergunta que não quer calar: plágio ou ignorância? ou será que em propaganda existe um nome inglês que defina esse conceito?
20 agosto 2006
money for nothing
em entrevista à caros amigos de agosto - a que tem a opus dei como chamada de capa - o sr. nagashi furukawa, ex-secretário da adminstração penitenciária de são paulo, diz com todas as letras na página 34: "Em Presidente Bernardes, a manutenção de um preso custa cerca de 3000, 3500 reais por mês".
prestaram atenção aos valores? um camarada, sem produzir nada, recebe invetimentos mensais mais altos que o salário pago a vários profissionais que conheço, com mestrado e dez horas de trabalho diário.
bom, levante a mão quem acha isso um absurdo. e essa excrescência nem é exclusiva do brasil. arrisco chutar mais longe e identificar o problema com o próprio sistema econômico que alimentamos e que nos sujeita. o truque é naturalizar as coisas ao ponto de nos fazer repetir "ah, mas essas coisas são assim mesmo". assim mesmo o cacete, farroupilha! se tá todo mundo insatisfeito, vamos ousar levantar a cabeça acima da manada e pensar que pode as coisas podem sim, ser diferentes. o "como", fica a cargo da criatividade de cada um.
17 agosto 2006
análise combinatória
sem motivo aparente, ando obcecado com uma música há dias. enquanto não conseguia baixar a danada, dei uma circulada na rede e encontrei o vídeo abaixo. duas coisas muito boas em síntese perfeita. o que é o talento criativo, não é mesmo minha gente? (regina style)
11 agosto 2006
cadê o fidel?
podem me chamar de baba-ovo, mas não me canso de tecer loas ao fausto wolff, talvez o único (será o último?) cérebro pensante em atividade na grande imprensa brasileira. ouvi falar sobre o artigo a seguir numa aula dessa semana, aparentemente tendo sido publicado nojb. não sei. achei-o no saite do lobo.
Fidel já morreu?
Se morreu, foi-se, na minha opinião, o maior herói do século 20. Com ele morrem muitos personagens: o jovem advogado, filho de rico fazendeiro envergonhado de viver numa pátria em que um patife vagabundo como Batista havia transformado num bordel de luxo para a máfia e políticos norte-americanos corruptos. Morreu o rapaz que passou dos 27 aos 29 anos na cadeia por não aceitar a democracia imposta pelos americanos com votos comprados ou obtidos à força.
Morreu o leitor de Martí, de frei Bartolomeo de las Casas, de Marx e, certamente, de Cervantes. Morreu o homem mais amado de Cuba e o mais odiado pelos cubanos que preferiram Miami e Disney. Morreu também o homem que condenou muita gente à morte, entre elas, o número 2 das Forças Armadas Cubanas, envolvido com o tráfico de drogas. Morreu o homem que a CIA tentou matar mais de dez vezes e que suportou o maior embargo econômico da história moderna.
Morreu o homem que fez a reforma agrária como já poderíamos ter feito há muito tempo: pagando aos latifundiários o que declararam que valiam as terras na hora de pagar seus impostos. Morreu o homem que devolveu a auto-estima aos cubanos. Morreu o homem que diziam possuir a quinta fortuna no mundo. Fidel respondeu que, se encontrassem um dólar numa conta em seu nome no exterior, ele resignaria ao cargo. Morreu o homem que acabou com o analfabetismo, tornou obrigatório o ensino médio e financiou universitários. Morreu o homem que fez de Cuba um exemplo para a medicina da América Latina. Morreu o homem que fez de Cuba a maior potência atlética da América Latina. Morreu o comunista que o papa abençoou.
Certa vez, em Cuba, comecei a entrevistar passantes nas ruas. Todos estavam empregados, ninguém morava em casa alugada e todos, de certa forma, eram funcionários do Estado. Menos um. Perguntei ao senhor carequinha se era funcionário e ele, sorrindo, disse-me que não. "Profissional liberal. Soy limpiabotas."
Na verdade, foram os americanos que jogaram Fidel nos braços da União Soviética. Queriam eleições em Cuba e tinham um candidato que - como já haviam feito com Batista - seria apenas um homem de palha. Foi muito ingênuo achar que, depois de limpar e dedetizar a casa, Fidel deixaria que os americanos colocassem alguém como Collor, por exemplo, lembram-se? Ou como Sarney e FHC, que deixaram o poder riquíssimos e o povo cada vez mais pobre e ignorante.
Arthur Miller, Robert Frost, Edmond Wilson, Sartre, Russell, Clifford Odets, Adlai Stevenson, John Steinbeck, entre outros grandes intelectuais da época, escreveram artigos pedindo a Kennedy que deixasse Cuba em paz. Mas ele preferiu promover o fiasco da Baía dos Porcos e receber, como hóspedes, cubanos leais que em Cuba ninguém queria.
Estive duas vezes com Fidel. Da primeira, perguntei-lhe (ordem da direção da TV) por que não instituía eleições livres. Ele me declarou que sairia muito caro para eles e mais caro ainda para os americanos que mandariam dinheiro para corromper os poucos indecisos. Da segunda vez, eu e outros jornalistas o acompanhamos num passeio pelas ruas - e não vi um guarda-costas.
Formou-se uma multidão gritando "Viva Fidel!" e uma mulher grávida o abraçou. Perguntou-lhe quantos filhos já tinha. Ela disse que este seria o terceiro, e ele: "Por que não está tomando pílula? Que seja o último. Nossa ilha não pode alimentar mais do que o seu espaço permite". Hoje em dia falam muito das prostitutas de Cuba, mas esquecem-se de falar dos milhões de mulheres que, graças a Fidel, salvaram-se da miséria, da fome e da prostituição. Podemos dizer a mesma coisa?
Mas Cuba é uma ditadura e Fidel um ditador. Pois eu lhes digo que 80% do povo brasileiro jamais viu tal democracia. Da última vez que estive em Cuba, entrevistei Teófilo Stevenson, cinco vezes campeão mundial olímpico dos pesos pesados. Ele me apresentou a mulher e filhos, bem como os alunos de educação física. Perguntei-lhe por que não aceitara o contrato de US$ 5 milhões que os americanos haviam lhe oferecido. Respondeu: "Havia muito a fazer em Cuba e, além disso, há coisas mais importantes que o dinheiro".
Fidel já morreu? Não? Então, viva Fidel.
nova identidade
esse ano passei por um acontecimento de forte carga simbólica, e repleto de sentidos ocultos. durante o carnaval, em pleno cordão do bola preta,perdi minha carteira com minhas mirradas economias e todos os meus documentos. para dar uma melhor dimensão dramática ao incidente, posso resumi-lo ao dizer que no bola preta perdi minha identidade.
mas só me dei conta disso muito depois de enfrentar a via-crúcis de registrar um b.o. na polícia, dar baixa no cartão do banco, e entrar com a solicitação para os novos documentos. foi a resposta de uma amiga à notícia de que o rg havia ficado pronto. "parabéns pela nova identidade!", escreveu ela no msn. foi então que pensei em como seria saudável se as pessoas pudessem trocar as identidades quando julgassem estar entrando numa nova fase de vida, ou superassem um grande problema, por exemplo.
mal sabia eu o quão profética era minha divagação: em menos de um mês, comecei a vivenciar um processo de melhorias que deu uma guinada radical na minha realidade, de forma que eu sequer podia sonhar (e ainda está longe de completar-se). e por mais que pareça exagerado, junto com as mudanças externas, uma metamorfose psicológica também está em curso. aos poucos sinto que, sob vários aspectos, antigas perspectivas de visão de mundo estão sendo abandonadas por outras mais frescas. é como se eu fosse uma cobra trocando de pele.
nem preciso dizer que para um geminiano triplo, esse é o melhor dos mundos.