16 fevereiro 2007

meu telefone não é pinico

ouvi no rádio hoje de manhã que uma senhora em são paulo morreu de infarto por causa de um falso sequestro por telefone. ao ouvir a suposta voz de seu filho, ela entrou em pânico, o coração disparou, não agüentou o tranco, e minutos depois ela estava morta.

minha mãe recentemente foi vítima do mesmo golpe. numa noite de domingo, ela atende uma ligação e imediatamente escuta uma voz de homem gritando "mãe, socorro, me pegaram, eles querem dinheiro etc". desligou na hora, porque eu estava lá. mesmo assim, ela disse que a adrenalina foi a mil.

o engraçado foi a reação de uma tia, mãe de uma moça, quando lhe tentaram aplicar o mesmo golpe. a mulher que falava no telefone (qual será a porcentagem de acertos de sexo dos filhos?), disse:

- mãe, socorro! eles me seqüestraram e vão me matar! me trazeram aqui pra favela!

minha tia disse simplesmente "ah, te 'trazeram', é? eles que te matem, então." e desligou.

parece ser fácil falar de fora, mas é por essas e outras que tento manter o humor. sempre.

13 fevereiro 2007

não estou me guardando pra quando o carnaval chegar

acho que o ápice do meu carnaval foi domingo. sem bloco, batucada, nem uma mísera serpentina. explico: graças às obras em casa e, principalmente, à descoberta dos erros da obra, eu andava tão atarantado que não havia muito espaço vago na cabeça para folia. portanto, não fazia idéia do calendário dos blocos de rua.

sábado dormi na gávea, e quando saí para almoçar na casa de uma amiga em botafogo, vi a rua jardim botânico interditada por uma horda de foliões. algum bloco desfilava, embora muitas pessoas já estivessem na dispersão. a única maneira de chegar ao meu objetivo, portanto, seria caminhando até a real grandeza. liguei avisando que me atrasaria e tentei cortar caminho através da ruazinha no fim da major rubens vaz, que passa por dentro do jardim botânico. mas o portão estava fechado e o acesso, restrito aos moradores, segundo me informaram os seguranças.

no instante que volto à via principal, desaba um dilúvio capaz de afundar a arca de noé. instala-se uma confusão dos diabos: moleques de dois metros de altura, sem camisa, saltam e urram, meninas dão gritinhos enquanto suas roupas colam ao corpo. uma espécie de eletricidade toma conta do ar. estão todos alegres. eu estou alegre. há poucas coisas me elevam a esse nível de contentamento.

desde que me entendo por gente, tomar banho de chuva é um dos meus programas preferidos. infelizmente, à medida que envelheço, diminuem as ocasiões em que posso desfrutar esse prazer sem parecer maluco. daí que me invade uma sensação de plenitude, uma felicidade de estar irmanado com a massa que finge correr da chuva. todos viram crianças, perdem as inibições, mas mesmo a picardia tem um sabor infantil. um camarada grita: “já to de pinto lavado!”. um grupo canta “banho de lua”, e na altura da pacheco leão, um camarada atira-se na sarjeta cheia e começa a nadar crawl. penso na definição de "homem cordial", e me pergunto se um povo que fica tão alegre na/por causa da chuva é capaz de fazer uma revolução. herança indígena, talvez? nenhum juízo de valor, apenas uma constatação.

era um caos harmônico, a chuva lavando a escória, numa catarse pela semana de merda que a cidade viveu com o pobre do menino arrastado pelas ruas, o medo transformando cidadãos de bem em carrascos. um momento em que as pessoas comuns puderam ser totalmente donas de seu destino, das ruas, subvertendo a ordem de forma pacífica, até se permitindo abrir espaço para a passagem de uma joaninha e uma viatura do corpo de bombeiros.

na altura do jóia, o fedor do esgoto transbordante me agrediu as narinas, mas do outro lado da rua, as pessoas cantavam, abrigadas, “se essa porra não virar, olê, olé, olá...”. cinco camaradas carregavam um outro que, semi-desfalecido, pedia mais um gole. na eurico cruz, fui obrigado a correr pelo meio da rua para fugir do rio de barro que descia a rua e inundava as calçadas.

cheguei em botafogo completamente ensopado. tive que vestir uma calça de lycra que me deixou parecendo um bailarino em fim de carreira. o livro que carregava no bolso, comprado num sebo já meio esfrangalhado, estava soltando pedaços da capa e das bordas das páginas. no outro bolso, as embalagens de papelão dos cd-r e dvd-r que eu levava estavam se desfazendo. comi um pato no tucupi delicioso, capaz de levantar um defunto. bebi cerveja e entabulei ótimos papos. depois fui para casa e dormi, pensando se um satori não terá alguma vaga semelhança com o meu dia.

só no dia seguinte descobri que o bloco que não vi era o suvaco do cristo. deve haver um simbolismo místico mais profundo que me escapa. se não fizer mais nada nos quatro dias de festa, já terei mais que brincado meu carnaval.

tentativa de bostejo no trabalho

"Eppur si muove!"

xi, rapaz, isso não vai prestar...

08 fevereiro 2007

blog's not dead (eu é que continuo sem internet)

conhecia a música, mas nunca tinha prestado atenção à letra.
não fosse essa fase buarqueana, não teria percebido a profundidade, a beleza, a propriedade.

entender é parede.

Sabiá - Tom Jobim e Chico Buarque

Vou voltar
Sei que ainda vou voltar
Para o meu lugar
Foi lá e é ainda lá
Que eu hei de ouvir cantar
Uma sabiá

Vou voltar
Sei que ainda vou voltar
Vou deitar à sombra
De um palmeira
Que já não há
Colher a flor
Que já não dá
E algum amor
Talvez possa espantar
As noites que eu não queira
E anunciar o dia

Vou voltar
Sei que ainda vou voltar
Não vai ser em vão
Que fiz tantos planos
De me enganar
Como fiz enganos
De me encontrar
Como fiz estradas
De me perder
Fiz de tudo e nada
De te esquecer

Vou voltar
Sei que ainda vou voltar
Para o meu lugar
Foi lá e é ainda lá
Que eu hei de ouvir cantar
Uma sabiá

06 janeiro 2007

identidade secreta

mais um teste tarrado do dudu. achei o resultado muito apropriado, e veio coroar uma semana em que fui confrontado com a minha maneira de "brincar durante a realização de tarefas". não lembrava o quanto uma atitude pouco convencional pode confundir as pessoas ou mexer com o ego delas. definitivamente, "people are strange"...

ainda sobre o teste: mística e charada, ok: adaptabilidade e confusão. ri mesmo foi do sr. gelo, que me lembrou quando fui chamado de "homem-de-lata". o do mágico de oz. na ocasião, não entendi, só mais tarde me caiu a ficha.

update: será que alguma alma poderia ajudar um supervilão desconsolado a arrumar esse html fedaputa?

Your results:
You are The Joker



































The Joker
53%
Riddler
44%
Mystique
44%
Mr. Freeze
43%
Dr. Doom
40%
Poison Ivy
39%
Green Goblin
36%
Lex Luthor
35%
Dark Phoenix
34%
Catwoman
31%
Venom
30%
Apocalypse
29%
Magneto
29%
Juggernaut
24%
Two-Face
24%
Kingpin
15%
The Clown Prince of Crime. You are a brilliant mastermind but are criminally insane. You love to joke around while accomplishing the task at hand.


Click here to take the Super Villain Personality Test

23 dezembro 2006

massagem de natal

não gosto de natal. talvez ficasse melhor dizer que não gosto do que o natal se transformou, mas acho que não gosto da festa mesmo, da obrigação de tentar ser bom por um dia, só porque o senso comum diz que pega bem, ou apenas para ficar igual a todo mundo.

em anos anteriores, bostejei o último poema do guardador de rebanhos, do alberto caeiro/fernando pessoa (quem tiver saco, pode procurar nos arquivos aí do lado), como tentativa de elevar o sentimento acima de hipocrisia. para esse ano, lembrei-me de uma linda canção do hermano león gieco. dá para baixar pelo emule. (aliás, se por caso alguém souber de algum programa que possa disponibilizar gratuitamente o áudio aqui na página, avisem, plís!)


La Navidad de Luis - León Gieco

Toma Luis, mañana es Navidad
un pan dulce y un poco de vino
ya que no puedes comprar

Toma Luis, llévalo a tu casa
y podrás junto con tu padre
la Navidad festejar

Mañana no vengas a trabajar
que el pueblo estará de fiesta
y no habrá tristezas

Señora, gracias por lo que me da
pero yo no puedo esto llevar
porque mi vida no es de Navidad

Señora, cree que mi pobreza
llegará al final comiendo pan
el día de Navidad

Mi padre me dará algo mejor
me dirá que Jesús es como yo
y entonces así podré seguir viviendo...


********

é isso. feliz natalzis!

22 dezembro 2006

cadê meu cocar?

sei não, mas "black i piss" me soa mais como confissão de sintoma de doeça renal braba, não grupo de sucesso.

eu é que não enfrento muvuca por um despropósito desses. prefiro pagar pelo sérgio mendes. só.

10 dezembro 2006

mais um "testículo"

vamos admitir, já que a roda-viva me engoliu de tal maneira que fica impossível escrever o que quer que seja, estou descaradamente plagiando um dos testes do dudu, que por sua vez etc.

é o seguinte, tem que responder as perguntas utilizando apenas títulos de música de algum cantor ou banda.

Minha banda escolhida é: peter gabriel

1. Você é homem ou mulher? moribund the burgermeister

2. Descreva-se: i have the touch

3. O que as pessoas acham de você? shock the monkey

4. Descreva seu último relacionamento amoroso: excuse me

5. Descreva sua atual relação amorosa: exposure

6. Onde queria estar agora? home sweet home

7. O que pensa a respeito do amor? games without frontiers

8. Como é sua vida? big time

9. O que pediria se pudesse ter apenas um desejo? more than this

10. Escreva uma frase sábia: here comes the flood

Agora se despeça: a wonderful day in a one-way world

19 novembro 2006

as obras (d)e vô negut

novo capítulo na saga da minha diáspora solitária. iniciada a quebradeira, passamos à rodada de conversações com o profissional responsável em ordenar o espaço. e à descoberta de um universo subjacente às paredes. um submundo de nomes e conexões que eu sequer supunha exisitir. para não mencionar as escolhas a respeito de itens aos quais nunca havia dado importância. torneiras, privadas, registros etc. em todo lugar que morei essas coisas simplesmete já estavam lá... só era necessário dedicar algum pensamento quando algo não funcionava de acordo.

na loja, chegou um momento em que não havia mais sentido em ver nada, tudo me parecia igual. minha cabeça girava e não havia sequer um café disponível para recompor meu cérebro. acabei a jornada zonzo e aborrecido, descrente de que terei onde morar antes do próximo ano bissexto.

********

como estava com dificuldade em arrumar tempo e paz de espírito para me atracar com o schopenhauer (não, não espero a cura, quero mais é ser intoxicado pela vontade e representação do mundo), não havia nada para que me distrair durante as viagens de ônibus, que têm sido meus únicos intervalos de leitura. até encontrar o kurt vonnegut. topei numa livraria com seu matadouro 5.

escute: a primeira vez que ouvi esse nome foi há 22 anos atrás, quando assisti footloose na volta da minha temporada americana. se pouco me falha a memória, o personagem do kevin bacon se muda para uma cidadezinha poeirenta e conservadora do meio-oeste. num evento social, ele conta que havia lido o tal livro em sua escola anterior, o que deixa o pastor ressabiado, pois obviamente não o considerava leitura adequada à juventude. gravei o título por duas razões: os bizarros significados que o título evocava, e o desgosto do clérigo. afinal, qualquer coisa que desagrade um religioso não pode ser de todo má.

há pouco, esbarrei com a edição da L&PM de café-da-manhã do campeões. o nome do autor me pareceu familiar, mas não lembrava a razão. até que dias depois, achei o matadouro 5 e tudo fez sentido. comprei e o li de uma sentada (epa!). tornei-me dependente químico de vonnegut.

até reencontrar o café... na banca em frente à minha ex-casa, tinha passado os últimos três dias em agonia. e já comecei a fuçar a internet atrás de outros títulos. coisas da vida.

05 novembro 2006

criptographia

ganha um beijo no pescoço quem souber dizer em russo "gosto de menta".

04 novembro 2006

have you ever been?

fuxicando os discos da minha irmã antes de tomar banho para almoçar com a tereza, esbarrei no bão e véi james marshall hendricks. anacronias à parte, electric ladyland é paudurescente a vida toda. não fosse já o danado todo redondinho, ainda tem a homônima canção, curtinha, a qual faço questão de bostejar. ao lado de little wing, é uma das raríssimas coisas que me fazem nostálgico da adolescência.

Have You Ever Been (To Electric Ladyland)

Have you ever been (have you ever been) to Electric Ladyland?
The magic carpet waits for you so don't you be late
Oh, (I wanna show you) the different emotions
(I wanna run to) the sounds and motions
Electric woman waits for you and me
So it's time we take a ride, we can cast all of your hang-ups over
the seaside
While we fly right over the love filled sea
Look up ahead, I see the loveland, soon you'll understand.

Make love, make love, make love, make love.

The angels will spread their wings, spread their wings
Good and evil lay side by side while electric love penetrates the sky
Lord, Lord I wanna show you
Hmm, hmmm, hmmm
Show you

o roto (!) falando pro esfarrapado (!)

augusto dos anjos disse que "o homem, que (...) mora entre feras, sente inevitável necessidade de também ser fera". e talvez seja mesmo assim. e talento deve pegar, porque só isso explicaria uma época tão fecunda de "feras" quanto o rio da segunda metade do século passado. do qual destaco uma pérola recém-descoberta.

Mensagem a Rubem Braga
Vinicius de Moraes

Os doces montes cônicos de feno
(Decassílabo solto num postal de Rubem Braga, da Itália.)

A meu amigo Rubem Braga
Digam que vou, que vamos bem: só não tenho é coragem de escrever
Mas digam-lhe. Digam-lhe que é Natal, que os sinos
Estão batendo, e estamos no Cavalão: o Menino vai nascer
Entre as lágrimas do tempo. Digam-lhe que os tempos estão duros
Falta água, falta carne, falta às vezes o ar: há uma angústia
Mas fora isso vai-se vivendo. Digam-lhe que é verão no Rio
E apesar de hoje estar chovendo, amanhã certamente o céu se abrirá de azul
Sobre as meninas de maiô. Digam-lhe que Cachoeiro continua no mapa
E há meninas de maiô, altas e baixas, louras e morochas
E mesmo negras, muito engraçadinhas. Digam-lhe, entretanto
Que a falta de dignidade é considerável, e as perspectivas pobres
Mas sempre há algumas, poucas. Tirante isso, vai tudo bem
No Vermelhinho. Digam-lhe que a menina da Caixa
Continua impassível, mas Caloca acha que ela está melhorando
Digam-lhe que o Ceschiatti continua tomando chope, e eu também Malgrado uma avitaminose B e o fígado ligeiramente inchado.
Digam-lhe que o tédio às vezes é mortal; respira-se com a mais extrema
Dificuldade; bate-se, e ninguém responde. Sem embargo
Digam-lhe que as mulheres continuam passando no alto de seus saltos, e a moda das saias curtas
E das mangas japonesas dão-lhes um novo interesse: ficam muito provocantes.
O diabo é de manhã, quando se sai para o trabalho, dá uma tristeza, a rotina: para a tarde melhora.
Oh, digam a ele, digam a ele, a meu amigo Rubem Braga
Correspondente de guerra, 250 FEB, atualmente em algum lugar da Itália
Que ainda há auroras apesar de tudo, e o esporro das cigarras
Na claridade matinal. Digam-lhe que o mar no Leblon
Porquanto se encontre eventualmente cocô boiando, devido aos despejos
Continua a lavar todos os males. Digam-lhe, aliás
Que há cocô boiando por aí tudo, mas que em não havendo marola
A gente se agüenta. Digam-lhe que escrevi uma carta terna
Contra os escritores mineiros: ele ia gostar. Digam-lhe
Que outro dia vi Elza-Simpatia-é-quase-Amor. Foi para os Estados Unidos
E riu muito de eu lhe dizer que ela ia fazer falta à paisagem carioca
Seu riso me deu vontade de beber: a tarde
Ficou tensa e luminosa. Digam-lhe que outro dia, na Rua Larga
Vi um menino em coma de fome (coma de fome soa esquisito, parece
Que havendo coma não devia haver fome: mas havia).
Mas em compensação estive depois com o Aníbal
Que embora não dê para alimentar ninguém, é um amigo. Digam-lhe que o Carlos
Drummond tem escrito ótimos poemas, mas eu larguei o Suplemento Digam-lhe que está com cara de que vai haver muita miséria-de-fim-de-ano
Há, de um modo geral, uma acentuada tendência para se beber e uma ânsia
Nas pessoas de se estrafegarem. Digam-lhe que o Compadre está na insulina
Mas que a Comadre está linda. Digam-lhe que de quando em vez o Miranda passa
E ri com ar de astúcia. Digam-lhe, oh, não se esqueçam de dizer
A meu amigo Rubem Braga, que comi camarões no Antero
Ovas na Cabaça e vatapá na Furna, e que tomei plenty coquinho
Digam-lhe também que o Werneck prossegue enamorado, está no tempo
De caju e abacaxi, e nas ruas
Já se perfumam os jamineiros. Digam-lhe que tem havido
Poucos crimes passionais em proporção ao grande número de paixões
À solta. Digam-lhe especialmente
Do azul da tarde carioca, recortado
Entre o Ministério da Educação e a ABI. Não creio que haja igual
Mesmo em Capri. Digam-lhe porém que muito o invejamos
Tati e eu, e as saudades são grandes, e eu seria muito feliz
De poder estar um pouco a seu lado, fardado de segundo sargento. Oh
Digam a meu amigo Rubem Braga
Que às vezes me sinto calhorda mas reajo, tenho tido meus maus momentos
Mas reajo. Digam-lhe que continuo aquele modesto lutador
Porém batata. Que estou perfeitamente esclarecido
E é bem capaz de nos revermos na Europa. Digam-lhe, discretamente,
Que isso seria uma alegria boa demais: que se ele
Não mandar buscar Zorinha e Roberto antes, que certamente
Os levaremos conosco, que quero muito
Vê-lo em Paris, em Roma, em Bucareste. Digam, oh digam
A meu amigo Rubem Braga que é pena estar chovendo aqui
Neste dia tão cheio de memórias. Mas
Que beberemos à sua saúde, e ele há de estar entre nós
O bravo Capitão Braga, seguramente o maior cronista do Brasil
Grave em seu gorro de campanha, suas sombrancelhas e seu bigode circunflexos
Terno em seus olhos de pescador de fundo
Feroz em seu focinho de lobo solitário
Delicado em suas mãos e no seu modo de falar ao telefone
E brindaremos à sua figura, à sua poesia única, à sua revolta, e ao seu cavalheirismo
Para que lá, entre as velhas paredes renascentes e os doces montes cônicos de feno
Lá onde a cobra está fumando o seu moderado cigarro brasileiro
Ele seja feliz também, e forte, e se lembre com saudades
Do Rio, de nós todos e ai! de mim.

03 novembro 2006

somos como cães e gatos

tarrei da solange (inclusive o estilo de apresentação), que, por sua vez, tarrou daqui.

What is a dog?
Dogs spend all day sprawled on the most comfortable piece of furniture in the house.
They can hear a package of food opening half a block away, but don't hear you when you're in the same room.
They can look dumb and lovable all at the same time.
They growl when they are not happy.
When you want to play, they want to play.
When you want to be alone, they want to play.
They leave their toys everywhere.
They do disgusting things with their mouths and then try to give you a kiss.
They go right for your crotch as soon as they meet you.


What is a cat?
Cats do what they want.
They rarely listen to you.
They're totally unpredictable.
When you want to play, they want to be alone.
When you want to be alone, they want to play.
They expect you to cater to their every whim.
They're moody.
They leave hair everywhere.

Conclusion:
Dogs are tiny men in little fur coats.
Cats are tiny women in little fur coats.

diário de bordo

aos três dias do décimo-primeiro mês do ano da graça de dois mil e seis, a.d. (mais de um mês à deriva nesse mundão prenhe de possibilidades.)

minha biografia confirma: desde antes do nascimento, dona sorte sorri para mim. ultimamente tem dado até para ver o vermelhão das gengivas. muitas coisas boas têm esbarrado em mim. o trabalho exige, mas não assusta; as entranhas afinal remendaram-se; e até as nuvens negras que alguns amigos identificaram se afastaram com um pé-de-vento. enquanto isso, bruceleeanamente, sigo buscando ser água, moldando-me a cada recipiente em que sou derramado.

"o que a língua trava, a pena solta". acho que acabei de inventar essa frase, e é tanto o que eu quereria pra mim, que a adotarei como lema. meu analista a teria adorado.

está provado, ônibus são ótimos para a reflexão rasteira. proponho enquadrar ao lado da filosofia de botequim a categoria da "metafísica de ônibus". a ocasião é quase tão propícia ao devaneio quanto ao se lavar louça. com a vantagem de se poder olhar para dentro dos apartamentos e para as pernas das motoristas e caronas nos carros lá embaixo. o único inconveniente é a letra tremida, que dificulta um pouco a compreensão depois.

as palavras são suseranas caprichosas, e por mais que tente, raramente extraio significados precisos. até formulei uma teoria meio maluca de que todos têm uma guerra a combater. pode ser conviver com uma doença ou má-formação, vencer um vício etc., mas sempre será uma superação, interior ou exterior. já sei, o paulo coelho já deve ter dito alguma coisa nesse sentido, mas, a grosso mole, os muçulmanos já tinham um conceito bem parecido -- a tão aviltada jihad. talvez a luta com as palavras seja o combate da minha vida. eu gostaria que fosse. nada mais geminiano...

15 outubro 2006

se eu quiser falar com deus

citei o karel capek no bostejo passado, então vou contar como o decobri, que a história é bacana. no fim do ano passado, enquanto desperdiçava importantes horas de vida diante do computador, topei com o saite igod. deus é um programa de inteligência artificial criado para desenvolver-se à medida que conversa. é legalzinho, embora ainda precise de melhoramentos.

bom, no primeiro papo, sujeito atormentado que sou (não confundir com gay ou sueco, plís), parti logo para a ignorância, cobrando: anyway, who put you in charge?. ao que deus, em sua infinita sabedoria, me responde In any case, Carel Capek. :-). fiquei deveras intrigado, o nome era totalmente desconhecido. fui "googar" o cara e deu nisso. pra resumir, ele é considerado um dos pais da ficção científica moderna, e o autor incontestável da palavra "robô" (embora ele transferisse o crédito para seu irmão joseph).

semana passada fui tocado pela sorte suprema ao encontrar num sebo uma edição portuguesa de A guerra das salamandras. e na rede encontrei sua obra-prima, a peça R.U.R - Rossum's Universal Robots, que foi o que deu origem a esse bostejo enciclopeidico dominical.

vale a pena correr atrás do cara como der, até porque, os editores tupiniquins, em sua santa ignorância, só lançaram dele o infantil Dachenka: a vida de uma cachorrinha. não é nada, não é nada, não é porra nenhuma. o ouro ainda está para ser descoberto.

14 outubro 2006

sem título

essa bagaça tá acumulando poeira. juro que gostaria de escrever alguma coisa legal ou esprituosa, mas tô vazio. preciso tomar um banho. acho que vou dar uma flanada pelas ruas e partir para meu passatempo favorito: café-e-água-com-gás. juntando fragmentos do passado, uma peça com cachaça do domingos de oliveira daqui, uma oficina de roteiro com o lourenço mutarelli dali (grande cabra, nunca é demais citar), me deu muita vontade de ler schopenhauer. o mundo como vontade e representação. odeio a união européia, porque disseram que a tradução portuguesa era melhor que a brasileira, mas não há mais escudos no mercado, e o euro está pela hora da morte. justo quando arrumei um canal quente com portugal. porcaria de televisão que não para de matraquear, não importa quantos canais eu troque. deve ser algum tipo de conspiração. feriado é uma droga, perdi a conta dos dias e a minha aula de hoje. era quase uma da tarde quando acordei (porque hoje é sábado, como na poesia) e lembrei do compromisso. fogo é que a mensalidade já foi paga. e os mojitos de ontem voltaram em forma de broca e estão perfurando a base do meu crânio. quase posso sentir o cheiro da poeira de ossos. segunda começo a trabalhar, sem apartamento, financiamento, conhecimento, lenço, mas felizmente documento ainda possuo. esqueci meu cd na casa daquele povo. tudo bem, depois eu pego. tinha uma gatinha cotó, a ponta do que sobrou do rabo era torta para o lado, e os pêlos pareciam um espanador velho, arregaçado. a sensação de tocar naquele rabo torto era meio estranha. dava vontade de desentortá-lo. o gato preto brincava de morder meus dedos, de levinho. fiquei com saudades dos bichanos de casa, da antiga vida. luisinho veio de longe, são vinte e seis anos de bons papos e muitas histórias. pensamos em reunir o resto da turma. pensando bem, só restaram quatro de nós. os quatro cavaleiros do apocalipse. a felicidade dele me fez pesar melhor as coisas. mas é andando que se caminha. o negócio é acreditar que o horizonte a frente é colorido. acho que finalmente entendi o slogan: just do it. que, por outro lado, quer dizer: don't think. ignorance is bliss, ensinou o orwell. baixei o karel capek, com acento circunflexo de cabeça pra baixo no c, por favor, que o cara é tcheco. a guerra das salamandras é muito bom. eu sou muito empolgado com alguns livros, mas esse tornou-se um dos meus clássicos pessoais. e é de 35. será que algum dia escreverei alguma coisa? será que aquele livro que combinei com o fabinho algum dia será parido? se for para ficar só na promessa, é melhor não fazer planos, essa é a lição que tento me ensinar há anos, sem sucesso. não prometa o que não será capaz de cumprir, não envolva os outros nas suas fantasias, a menos que esteja certo do que está dizendo, porque você é bom de papo e as pessoas acabam acreditando que é sério. e é, quando digo, pelo menos, é. nesses momentos, sou incapaz de mentir. mas acho que não basta. o que nos leva de volta ao princípio. segure a língua e seja feliz. segurança da informação, não é assim? acho que meu timo precisa de uma massagem. a dor de cabeça agora é uma agulha perfurando meu olho esquerdo por trás. vou tomar banho e sair para um café. seja o que deus quiser. amém. epluracas orega.

29 setembro 2006

combinado para domingo

por mais que tentem criar um fato político com o objetivo de forçar um segundo turno, marquemos posição fazendo como nossos hermanos argentinos nos anos 50:

"Ladrón o no ladrón, queremos a Perón!"

pra encerrar de vez o assunto

I pray you, in your letters,
When you shall these unlucky deeds relate,
Speak of me as I am; nothing extenuate,
Nor set down aught in malice: then must you speak
Of one that loved not wisely but too well;
(...)
Of one whose hand,
Like the base Indian, threw a pearl away
Richer than all his tribe (...).


Othello - Ato 5, cena 2

24 setembro 2006

"Separação"

por affonso romano de sant'anna:

Desmontar a casa
e o amor. Despregar
os sentimentos das paredes e lençóis.
Recolher as cortinas
após a tempestade
das conversas.
O amor não resistiu
às balas, pragas, flores
e corpos de intermeio.

Empilhar livros, quadros,
discos e remorsos.
Esperar o infernal
juizo final do desamor.

Vizinhos se assustam de manhã
ante os destroços junto à porta:
-pareciam se amar tanto!

Houve um tempo:
uma casa de campo,
fotos em Veneza,
um tempo em que sorridente
o amor aglutinava festas e jantares.

Amou-se um certo modo de despir-se
de pentear-se.
Amou-se um sorriso e um certo
modo de botar a mesa. Amou-se
um certo modo de amar.

No entanto, o amor bate em retirada
com suas roupas amassadas, tropas de insultos
malas desesperadas, soluços embargados.

Faltou amor no amor?
Gastou-se o amor no amor?
Fartou-se o amor?

No quarto dos filhos
outra derrota à vista:
bonecos e brinquedos pendem
numa colagem de afetos natimortos.

O amor ruiu e tem pressa de ir embora
envergonhado.

Erguerá outra casa, o amor?
Escolherá objetos, morará na praia?
Viajará na neve e na neblina?

Tonto, perplexo, sem rumo
um corpo sai porta afora
com pedaços de passado na cabeça
e um impreciso futuro.
No peito o coração pesa
mais que uma mala de chumbo.

17 setembro 2006

a vergonha da segurança estadual

desde que mudei-me para botafogo, há dois anos, sempre me surpreendi com o número de viaturas abandonadas no pátio do 2o BPM, na esquina da são clemente com a real grandeza. cheguei a contar 15 carcaças, entre rádio-patrulhas, kombis e camburões, completamente deteriorados pelas intempéries, de pneus vazios, sem motores, lanternas e pára-brisas. qualquer morador da região mais atento pode corroborar a informação.

a notória incompetência do governo estadual no combate ao crime é estrutural: os pms não têm formação psicológica e tática antes de irem para as ruas, não sabem atirar, e não têm viaturas em condições operacionais. ou seja, não são capazes nem de exercer mal suas atividades.

eis que, em junho/julho, é dada a largada oficial para a campanha para o estado. nossa digníssima governadora, rosinha garotinho, manda recolher os carros abandonados, empilhá-los num canto coberto do pátio, escondendo-os do escrutínio público com uma lona azul.

como era freqüente a força do vento expor as vergonhas da política de segurança, o pano acabou sendo amarrado às ferragens de um dos ferros-velhos escondidos. tivesse eu uma máquina digital disponível na época, essa crônica do grotesco estaria registrada em imagens irrefutáveis.