21 outubro 2003

coca-cola é isso aí!

não tenho nada contra a coca-cola. ou melhor, nada além da antipatia de praxe para com grande parte das major companies, porque se elas conseguiram galgar esse status, não foi pelas boas maneiras com a concorrência ou a cordialidade com funcionários (basta dar uma olhadina no ADBUSTERS, no link dos favoritos aí do lado). only the strong survive!, vociferam os neoliberais, reiventando a teoria darwinista.

enfim, voltando à coca (cola!), apesar do meu paladar não se animar muito com o gasoso (salvo em ressacas), não deixei de bebê-lo quando os states resolveram fincar pé no iraque. entretanto, a notícia que li hoje na internet me surpreendeu. não pelo fato em si, afinal, a estratégia de estrangular e encampar companhias menores não é nova, vide o que foi feito com os"guaranás paquera", só para citar um exemplo mais fresco na memória. o inusitado é alguém ter posto a boca no mundo:

Dono de refrigerante Dolly disse que se acontecer algo a ele ou à família será obra da Coca-Cola

19:06 20/10
Agencia Brasil

Desde junho deste ano, Laerte Codonho, dono da marca de refrigerantes Dolly - com sede em São Paulo -, vem realizando uma cruzada para reunir provas de que a Coca-Cola teria agido deliberadamente para tirar a empresa brasileira dele do mercado. "Vindo à tona tudo isso, só nos ajuda, me tranqüiliza porque se alguma coisa acontecer comigo ou com alguém da minha família, está claro que isso é obra da Coca-Cola", afirmou Codonho.

Ele esteve reunido hoje com o secretário de Direito Econômico, Daniel Goldberg. Depois do encontro, o empresário contou que, em 15 dias, vai apresentar todas as provas à secretaria que confirmam a sua denúncia para que seja possível abrir um processo administrativo. "Vamos entregar provas que apontam que a Coca-Cola tentou tirar as empresas menores do mercado e a Dolly é a principal. E que eles realmente não pouparam nenhum tipo de intriga, de pressão em cima de clientes e fornecedores para que a Dolly saísse do mercado", disse.

Durante reunião realizada hoje, o dono da marca Dolly apresentou ao secretário uma lista de fornecedores dispostos a testemunhar contra a Coca-Cola. Segundo Codonho, os fornecedores foram obrigados, pela Coca-Cola, a paralisar fornecimento para Dolly para que ela não pudesse atender seus clientes e que as empresas que não fornecessem para Dolly seriam recompensadas pela Coca-Cola com paralisia de pressão. "Pressão por órgãos governamentais e também a compra de insumo que era vendido por esta empresa para Dolly por um preço maior para Coca-Cola. Ou seja, a Coca-Cola pagaria a mais pelo insumo que a Dolly estava comprando, mas desde que a empresa não fornecesse nada para Dolly", explicou.

Codonho promete entregar ainda fitas de vídeo que comprovam as denúncias. Uma delas contém a gravação de conversas entre Codonho e Luís Eduardo Capistrano do Amaral, ex-diretor de compras e estratégia da Spal-Panamco (maior engarrafadora da Coca no Brasil, recém-adquirida pela mexicana Femsa). Na gravação, Capistrano disse que tinha a missão de tirar a Dolly do mercado. Um dos primeiros artifícios para isso, segundo Codonha, foi o envio de um e-mail fraudulento afirmando que a Dolly fazia mal à saúde e que esta mensagem foi colocada ainda em hospitais, pontos de venda, postos de saúde e academias de ginástica.

Nenhum representante da Coca-Cola quis se pronunciar sobre o tema. No entretanto, a empresa divulgou nota oficial em que trata do caso. "O Sr. Luiz Eduardo Capistrano do Amaral, que figura como fonte de informações e que trabalhou na Spal/Panamco até Dezembro de 2000, prestou depoimento no Terceiro Distrito Policial de Diadema/SP e não confirmou as acusações". Em outro trecho da nota nega ter disseminado informações contra o refrigerante brasileiro. "A acusação do presidente da Dolly, de que a Panamco teria propalado um e-mail na internet contra seu produto, é falsa e não faz sentido. Este e-mail, na verdade, atingiu o Guaraná Kuat, numa versão criminosa de grande repercussão na internet". A nota coloca ainda que a Femsa ainda não tem nenhuma informação ou evidência que comprovem as referidas acusações.

A nota termina com a seguinte afirmação: "Com 60 anos de presença no Brasil, a Coca-Cola e seus fabricantes adotam uma conduta comercial fundamentada em princípios éticos, que respeitam as normas legais e a concorrência leal em todos os segmentos que atua. Como resultado, ao longo destes anos, vêm conquistando a preferência de clientes e consumidores com produtos da mais elevada qualidade", finaliza.

19 outubro 2003

outras coisas que tenho ouvido

além das já citadas versões de "on the sunny side of the street", baixei "my favorite things" com o John Coltrane. aliás, sobre essa música, tem uma história curiosa. a ouvi pela primeira vez na trilha do American Splendor, pelo menos assim eu pensava, embora tenha achado familiar a melodia e a assinatura do sax óbvia desde as primeiras notas.

Pois bem, a trilha toda era magnífica, e fiquei doido para procurá-la e baixar tudo pela rede. dito e feito. embora algumas das músicas sejam cascudas de encontrar, apostei de cara no Coltrane. consegui e gostei muito. daí que, uns dois dias depois, estava eu com a gabriela num birô de xerox quando começo a murmurar a melodia. e ela completa as partes que não me lembrava. espantado, perguntei se conhecia. aí vei a minha surpresa:
- claro, essa música é da noviça rebelde.

- UQUÊ????!!!!! - respondi, incrédulo. o queixo encostava na ponta dos sapatos. - da noviça rebelde???? porra, esse é o filme que eu mais odeio na vida!...

e não é que era mesmo. ela até contou quando entrava, e tive que concordar, apesar da pouca lembrança. e para completar, ela sapecou que têm umas três músicas que foram regravadas por jazzmen. por essa realmente eu não esperava. uma das músicas mais lindas do universo saída justamente do pior filme.

bom, só tenho uma coisa a mais para dizer: goste ou não você de jazz, procure escutar "my favorite things". sua vida pode transformar-se para sempre.

no lado ensolarado da rua

é, amiguinnhos, depois de semanas de trabalho duro e exposição da própria figura - mesmo quando negativa, que bom o sentimento de estar vivo! -, as coisas continuam estéreis, o dinheiro curto, e a justiça - alas! - sendo feita com as próprias mãos.

mas quem se importa se a colheita da noite anterior foi inútil, se a língua travou e o ritmo perdeu o tempo, se no dia seguinte, camarada, você abre as ventanas, e vê um puta sol e a brisa da primavera beijando seu corpo cheio de cerveja?

e pra completar a felicidade, ouço sem parar as "versão" recém-baixadas de "on the sunny side of the street", por BILLIE HOLIDAY e DIZZIE GILLESPIE, esta cantada por SONNY ROLLINS, (nem maiúsculas para esses, é caixa alta mesmo).

dá até pra acreditar que deus existe...e que tá tentando se comunicar comigo.

se o diabo é o pai do rock, deus definitivamente deve ser o do jazz.

mas vamos às letras:

on the sunny side of the street

Grab your coat and get your hat
Leave your worries on the doorstep
Just direct your feet
To the sunny side of the street

Can't you hear the pitter-pat
And that happy tune is your step
Life can be so sweet
On the sunny side of the street

I used to walk in the shade with my blues on parade
But I'm not afraid...this rover's crossed over

If I never had a cent
I'd be rich as Rockefeller
Gold dust at my feet
On the sunny side of the street


...é de encher um sujeito de esperanças na vida, na humanidade, em si mesmo, no cacete a quatro...

acho que estou vivendo uma maré muito boa. embora as coisas não estejam nem um pouco cor-de-rosa, minha atitude perante a vida e o olhar sobre os fatos estão bem mais positivos.

e assim pretendo seguir, sem medo de trupicar, negão.
você está com um mundo em suas mãos. levante e corte.

09 outubro 2003

chlöe sevigny

fiquei com a pulga atrás da orelha em relação à ela. tinha certeza de que já a havia visto em algum filme, mas não lembrava qual.

aí, depois de um café, fui vasculhar a rede e descobri que só deu chlöe sevigny nesse festival. além dos dois filmes mencionados no post anterior, ela está também em dogville (esse não vi, apesar de estrelado pela mulher mais linda do mundo - Nicole Kidman).

e de quebra, chlöe fez dois dos piores filmes que já vi - american psycho e kids. sabia que já a conhecia de algum lugar...

"only the strong survive" y otras cositas más

hoje à meia-noite vai passar o filme pelo qual eu venho esperando desde o começo do festival: "only the strong survive", sobre os músicos que fizeram o nome da Stax (maiúscula!), a correspondente da Motown em memphis.

vai entrar em cartaz amanhã. mas podendo ver de graça...

outro filme que eu "se amarrei" foi o american splendor. mas vi muita coisa ruim.

o tal do brown bunny é um cu (com todo respeito aos cus). a única ação do filme que tem sentido é realmente o boquete, que aliás a chlöe sevigny executa com maestria. fico imaginando o papo brabo de "entrega do ator ao papel" que o vincent gallo deve ter jogado para convencê-la a realizar a cena. mas inegavelmente, é muita coragem. (um parêntese: engraçado que NINGUÉM na sala de cinema esboçou a menor reação diante da cena. todos estavam grudados nas poltronas, e não se ouvia sequer o som das respirações. todos os fôlegos estavam suspensos.)

mas voltando ao roteiro (roteiro?), tudo bem que o cara está atormentado com a perda da mulher etc. mas há outras maneiras de se mostrar sofrimento, menos internalizadas. é que o gallinho de quintino não comunica para a platéia o sofrimento. o cara é oco a maior parte do tempo. quem expressa o que está rolando são as músicas, que aparecem nos momentos-videoclipe, quando a câmera dentro do carro vai filmando a estrada à medida que ele viaja. aliás, tô pra ver artifício mais óbvio.

numa boa, os críticos que me perdoem, mas eu prefiro um feijão com arroz bem feito do que um experimentalismo só para chocar.

aliás, vi um outro filme com a chloe sevigny, "demonlover". esse sim, um filme estranho, mas na melhor acepção da palavra. estranho bacana, respeitando a carpintaria do cinema. lembra um pouco "videodrome", do david cronemberg.

mas até agora não cheguei à conclusão se mme. sevigny é feia ou bonita. quero dizer, no brown bunny ela está bem bonita, mas no demonlover ela tá com cara de adolescente abestada. não sei...

já o elefante tem umas coisas interessantes, mas acho que também cai na esparrela de experimentalizar. o bom é que o gus van sant não vai pelo caminho fácil de explicar o porquê dos meninos terem resolvido encher os coleguinhas de azeitona. ele não explica nada, e aliás, até quase a metade do filme, não se tem a menor idéia de quem serão os assassinos.

mas a revelação foi mesmo "chouchou em apuros". filme gay francês para a família. o chouchou é um camarada que se finge de refugiado chileno pra conseguir viver numa igreja, e vai vivendo sua vida numa boa, até descobrir o amor. engraçado, mesmo.

perdi o saco de escrever. depois continuo. ou não.

o tal texto...

salve, povo!
com o festival acabando, a sala ficou vazia e deu para dar uma olhadinha um pouco mais detalhada no blog. o tal texto que eu achava que tinha perdido, voltou. ou melhor, nunca havia ido, foi publicado direto.
on the other hand, o espaço para comentários desapareceu de novo, o danado.

acho que isso é um trabalho para o super-dude!

não gosto muito de importuná-lo com essas coisa, mas vou ver qual é.

08 outubro 2003

otras cositas más, perdidas

depois que, por algum estranho desígnio, meu template ficou apagado durante uns quatro dias, e conseqüentemente, a página, vazia, descobri que a minha lista de links foi apagada. vou ver se em algum lugar dessa parte administrativa os links estão armazenados, em vez de perdidos.
dude, my main man, where are you, bro?!

04 outubro 2003

"não consigo ler nada..."

alguém lembra dessa frase de um desenho do pica-pau? ele vai fazer um exame de vista para renovar a carteira de motorista, e o examinador dá a ele uma sopa de letrinhas que formam a frase do meu título. o cara vai approximando a cabeça do picapau da tigela, até enfiá-la lá perguntando "e agora? já consegue ler?"

pano rápido.

tudo isso para dizer que há algo errado com o blog hoje. tá tudo apagado. quem entra na página não consegue etc.

mistério...

american splendor

algumas informações relevantes sobre o filme, coletadas do site do festival do rio 2003: "Grande Prêmio da Crítica Internacional da mostra Um Certo Olhar no Festival de Cannes de 2003 e o Grande Prêmio do Júri no Sundance Film Festival deste ano".

bem que o john cooper, diretor do sundance, que conheci ao servir de intérprete numa entrevista, me deu o toque: "esse american splendor é muito bom".

harvey pekar de ouro

pare tudo o que estiver fazendo e vá assistir "American Splendor" (maiúsculas! maiúsculas!). vi ontem e fiquei chapado! o diretor (nem sei quem é) fez um caldo maneiro, com toques de documentário entrando pela ficção, com animações etc.

o filme é sobre um camarada chamado harvey pekar (nome que dá piada tanto em português como em inglês), amigaço do Crumb, Robert Crumb (esse também merece maiúsculas!). bom, quando este começou a fazer sucesso com quadrinhos, o pekar ficou tentado a engrossar seu raquítico orçamento da mesma forma. mas o cara era incapaz de traçar uma linha reta no papel. na base dos bonequinho de palito, ele apresenta umas histórias pro Crumb, que imediatamente topa desenhá-las. aí nasceu o gibi que dá nome ao filme. hoje ele tem programa de rádio, blog, vende livros, camisas, bonequinhos com sua estampa etc.

os idiotas da objetividade podem alegar que o sujeito "se vendeu ao sistema", ou qualquer outra baboseira do gênero. ora, direi aos sacripantas, o que há de mal em faturar uns cobres de forma decente, utilizando como matéria-prima apenas a própria vida, e ainda por cima, sem passar absolutamente por cima de ninguém?

enfim, como diria o tim (maia, não lopes), "não perca tempo!" vá no google, digite o nome do gibi e do seu autor e veja o que há. e levante essa bunda gorda da cadeira e vá assistir ao filme qundo entrar em cartaz. no festival ele já tava até legendado.

03 outubro 2003

de volta (e sem maiúsculas!...)

hola, considerados

estou voltando depois de um longo inverno de acesso precário ou nenhum. me mudei (mas ainda não perdi a mania de iniciar as frases com pronomes oblíqüos), tentei instalar o Velox, perderam meu pedido e depois (para minha sorte) consegui um frila no festival do rio. resumindo o entrevero, só vão poder instalar a banda larga (ô nome feio!...) no dia 10.

acho que tenho passado por algumas mudanças, não tão visíveis pela perspectiva externa, mas internamente. sendo que a mais visível foi uma sensível perda de peso (no que o festival tem contribuído bastante com o ritmo puxado) e o abandono das maiúsculas. sei lá, estou querendo descomplicar as coisas,e as maiúsculas me parecem um bom começo.

ah, ontem eu escrevi um textão falando disso tudo, de transformações etc., bem escrito até, meio profundão, mas acabei apagando-o sem querer.

vou pegar uma carona para assistir um filme, e depois escrevo mais.

jundas!

é bom estar de volta...

02 outubro 2003

Depois de um longo inverno...

Hola, rapaziada!

Depois de muito tempo, estou quase retomando essa joça. É que muitas coisas aconteceram: me mudei, fiquei - e ainda estou - sem internet, peguei uns frila por aí (que, se Deus quiser vão se multiplicar e encorpar até formar um emprego fixo, com um salário decente. Ou então, vou encarar de vez as atres plásticas/ilustrações como meio de vida. Já acho agora que as coisas não se excluem, mas isso é outra história...).

Resumindo, ressucitei. Estava morto, ou morrendo, intoxicado pelo miasma putrefacto de meu próprio corpo inerte, mas agora as coisas estão mudando. O sangue pulsa novamente em minhas veias, estou mais forte, sentindo o vigor voltar aos músculos, a cor às faces. Ainda não sei bem o que quero, mas (oh! clichê...) sei muito bem o que não quero mais.

Em pouco tempo, muito mudou, mas não na medida externa dos homens; as transformações foram internas. Mais coragem e menos punheta filosófica.

Uma das paredes do meu querto é recoberta com tinta misturada com limalha de ferro, o que a torna aderente a magnetos. Celso e Gabi deixaram lá um monte daqueles imãzinhos com palavras. Um dia, meio inconsciente do que fazia, escrevi "alegria no lugar de idéia". Até hoje estou meio intrigado com o significado. Não entendi muito bem a frase e fiquei com medo dela. Para mim, abdicar da racionalidade é um passo grande demais. Embora já sejam reflexos das transformações previstas no meu mapa astral. Ascendente em peixes - migração de razão para sentimento.

Barra pesada, irmãos...

Mas a verdade é que ando meio cabreiro com sentimentos. Melhor, acho que perdi tempo demais tentando me completar através de relacionamentos, quando na verdade o que precisava era procurar maneiras de me fortalecer e seguir adiante. Sei lá, isso parece aquele papo do Delfim Netto de "primeiro fazer o bolo crescer, para depois dividi-lo". Pode ser, não sei. Lo que pasa es que tô feliz em estar tocando a vida assim, aprendendo a ser só. Dá um aperto às vezes, tem noites em que sou assombrado por fantasmas, pinta uma certa melancolia no luco-fusco, mas tudo certo. As coisas estão redondinhas.

Tô no Festival do Rio (aliás, tô escrevendo depois da hora, desde o escritório), aprendendo meus limites, varrendo o quarto, fazendo compras, lavando e, pasmem!, passando roupas!

(acabei de reler o texto e parece que estou fazendo tudo isso no festival. hahaha! não confundam! lá estou na assessoria, o resto das atividades eu faço em casa!)

Bom, é isso. Acho que só vou poder voltar a escrever oficialmente depois do dia 10 de outubro, quando reinstalarei o Velox. Até lá, só se pintar a mamata de ficar depois da hora no escritório, babe!

Um dia eu falo dos filmes que vi, das terras por onde andei...lá lá lá lá... Como é aquela música do Gonzagão "minha vida é andar por esse país..."?






24 agosto 2003

Acontecimentos passados

Como o Velox andou de sacanagem comigo nos últimos dias, saindo do ar etc. Deixei de postar algumas paradas.

queria contar uma cena que vivi outro dia.

Vinha eu de uma consulta num médico, na Gávea, de tarde. Enquanto o 410 serpenteava pela área do Estácio-Rio Comprido, coalhada de morros, eu ia tranqüilão lendo meu Fante.

Na Campos da Paz - rua que já até me inspirou uma poesinha no colégio -, ao dobrar a esquina numa loja de ferragens bem na subida do morro de São Carlos, ouço duas pancadas, como se estivessem batendo com um martelo numa chapa de ferro.

um pouco adiante, vejo um cara em trajes civis, atrás de uma pilastra da loja, empunhando um baita fuzil. As pancadas eram tiros que ele dava em direção a uma quadra de futebol, lá no alto do morro.

O estranho - e, de certa forma, assustador -, é que essas situações não me dão medo. Como não sou o alvo, sinto uma curiosidade, uma atração hipnótica. E assim fiquei de olhos grudados na cena. Mas logo o ônibus afastou-se e não pude mais ver o que acontecia. Graças aos céus, ninguém atirou de volta, pois a possibilidade de levar um balaço era grande. Mais à frente, algumas pessoas observavam protegidas dentro de uma garagem de oficina.

O pior é que esta não é uma cena fora do comum por aqui. Todos os dias, e digo TODOS, sem exceção, escuto tiros daqui de casa. À noite, principalmente, mas de tarde também são comuns. já vi um carro metralhado poucos minutos antes de eu cruzar a esquina da Rua do Bispo com Haddock Lobo. Na Itapiru, várias casas ostentam placas de "vende-se".

Quando vim para cá, ouvia os pipocos e me assustava. Ia para a janela procurar de onde partiam. Vi algumas vezes balas traçantes cruzando o céu. Hoje o sobressalto é menor, mas não consigo me acostumar. Não quero me acostumar. Se achar isso normal, tenho a impressão de que perderei parte do que me caracteriza como humano. Terei caminhado um pouco mais para o estágio de besta.

E essa é uma experiência que dispenso.

O garoto com o espinho do lado

Hoje acordei tarde e dei de cara com um imeio fatal. Na hora, por sincronicidade, tava ouvindo uma música no computador. Não poderia ser mais catastroficamente perfeito. Ou, como diria o velho Crumb: "How goddamn perfectly delightful it is to be sure".

(Tentei traduzir, mas invariavelmente perde a sonoridade mântrica. Seriamais ou menos, "que maldição perfeitamente deleitosa é ter certeza".)

Mas tudo bem, à parte o travo amargo na língua, há a certeza de uma onda mais profunda que essa se formando no mar. Não é assim, Sting?

Vamos a letra. Salve, Calamaro!

Flaca

Andres Calamaro


Flaca no me claves
tus puñales
por la espalda
tan profundo
no me duelen
no me hacen mal

Lejos
en el centro
de la Tierra
las raíces
del amor
donde estaban
quedarán

Entre el no me olvides
me dejes nuestros abriles olvidados
en el fondo del placard
del cuarto de invitados
eran tiempos dorados
de un pasado mejor

Aunque casi me equivoco
y te digo poco a poco
no me mientas
no me digas la verdad
no te quedes callada
no levantes la voz
no me pidas perdón

Aunque casi te confieso
que también he sido un perro compañero
un perro ideal que aprendió a nadar
y a volver al hogar
para poder comer

Flaca no me claves
tus puñales
por la espalda
tan profundo
no me duelen
no me hacen mal

Lejos
en el centro
de la Tierra
las raíces
del amor
donde estaban
quedarán

...

É isso aí, pe-pe-pessoal!

22 agosto 2003

Herança maldita

Deu no Globo de hoje:

Testes descartam gravidez de Rosinha

Graças a Deus, seremos poupados de mais um rebento dessa linhagem.

João Ubaldo Ribeiro

E por falar em ABL, vale a pena reproduzir o libelo do Ubaldo contra FHC, por conta da reeleição deste. É uma das porradas mais diretas e classudas que alguém já deu publicamente. Deve ter estragado o domingo do hômi.

O artigo foi publicado pelo Globo em 98, mas o estadão, que também mantém uma coluna do imortal baiano, vetou o texto. Cen-su-rou-o.

Garanto que não é potoca de internet, como os textos atribuídos ao Ziraldo, Millôr, Mários Prata e Quintana, onde fica patente a falta de estilo. Esse é véro. Atesto e dou fé. Vamos a ele:

Ao senhor presidente

João Ubaldo Ribeiro

Senhor Presidente,

Antes de mais nada, quero tornar a parabenizá-lo pela sua vitória estrondosa nas urnas. Eu não gostei do resultado, como, aliás, não gosto do senhor, embora afirme isto com respeito. Explicito este meu respeito em dois motivos, por ordem de importância. O primeiro deles é que, como qualquer semelhante nosso, inclusive os milhões de miseráveis que o senhor volta a presidir, o senhor merece intrinsecamente o meu respeito. O segundo motivo é que o senhor incorpora uma instituição basilar de nosso sistema político, que é a Presidência da República, e eu devo respeito a essa instituição e jamais a insultaria, fosse o senhor ou qualquer outro seu ocupante legítimo. Talvez o senhor nem leia o que agora escrevo e, certamente, estará se lixando para um besta de um assim chamado intelectual, mero autor de uns pares de livros e de uns milhares de crônicas que jamais lhe causarão mossa. Mas eu quero dar meu recadinho.

Respeito também o senhor porque sei que meu respeito, ainda que talvez seja relutante privadamente, me é retribuído e não o faria abdicar de alguns compromissos com que, justiça seja feita, o senhor há mantido em sua vida pública - o mais importante dos quais é com a liberdade de expressão e opinião. O senhor, contudo, em quem antes votei, me traiu, assim como traiu muitos outros como eu. Ainda que obscuramente, sou do mesmo ramo profissional que o senhor, pois ensinei ciência política em universidades da Bahia e sei que o senhor é um sociólogo medíocre, cujo livro O Modelo Político Brasileiro me pareceu um amontoado de obviedades que não fizeram, nem fazem, falta ao nosso pensamento sociológico. Mas, como dizia antigo personagem de Jô Soares, eu acreditei.

O senhor entrou para a História não só como nosso presidente, como o primeiro a ser reeleito. Parabéns, outra vez, mas o senhor nos traiu. O senhor era admirado por gente como eu, em função de uma postura ética e política que o levou ao exílio e ao sofrimento em nome de causas em que acreditávamos, ou pelo menos nós pensávamos que o senhor acreditava, da mesma forma que hoje acha mais conveniente professar crença em Deus do que negá-la, como antes. Em determinados momentos de seu governo, o senhor chegou a fazer críticas, às vezes acirradas, a seu próprio governo, como se não fosse o senhor seu mandatário principal. O senhor, que já passou pelo ridículo de sentar-se na cadeira do prefeito de São Paulo, na convicção de que já estava eleito, hoje pensa que é um político competente e, possivelmente, tem Maquiavel na cabeceira da cama. O senhor não é uma coisa nem outra, o buraco é bem mais embaixo. Político competente é Antônio Carlos Magalhães, que manda no Brasil e, como já disse aqui, se ele fosse candidato, votaria nele e lhe continuaria a fazer oposição, mas pelo menos ele seria um presidente bem mais macho que o senhor.

Não gosto do senhor, mas não tenho ódio, é apenas uma divergência histórico-glandular. O senhor assumiu o governo em cima de um plano financeiro que o senhor sabe que não é seu, até porque lhe falta competência até para entendê-lo em sua inteireza e hoje, levado em grande parte por esse plano, nos governa novamente. Como já disse na semana passada, não lhe quero mal, desejo até grande sucesso para o senhor em sua próxima gestão, não, claro, por sua causa, mas por causa do povo brasileiro, pelo qual tenho tanto amor que agora mesmo, enquanto escrevo, estou chorando.

Eu ouso lembrar ao senhor, que tanto brilha, ao falar francês ou espanhol (inglês eu falo melhor, pode crer) em suas idas e vindas pelo mundo, à nossa custa, que o senhor é o presidente de um povo miserável, com umas das mais iníquas distribuições de renda do planeta. Ouso lembrar que um dos feitos mais memoráveis de seu governo, que ora se passa para que outro se inicie, foi o socorro, igualmente a nossa custa, a bancos ladrões, cujos responsáveis permanecem e permanecerão impunes. Ouso dizer que o senhor não fez nada que o engrandeça junto aos corações de muitos compatriotas, como eu. Ouso recordar que o senhor, numa demonstração inacreditável de insensibilidade, aconselhou a todos os brasileiros que fizessem check-ups médicos regulares. Ouso rememorar o senhor chamando os aposentados brasileiros de vagabundos. Claro, o senhor foi consagrado nas urnas pelo povo e não serei eu que terei a arrogância de dizer que estou certo e o povo está errado. Como já pedi na semana passada, Deus o assista, presidente. Paradoxal como pareça, eu torço pelo senhor, porque torço pelo povo de famintos, esfarrapados, humilhados, injustiçados e desgraçados, com o qual o senhor, em seu palácio, não convive, mas eu, que inclusive sou nordestino, conheço muito bem. E ouso recear que, depois de novamente empossado, o senhor minta outra vez e traga tantas ou mais desditas à classe média do que seu antecessor que hoje vive em Miami.

Já trocamos duas ou três palavras, quando nos vimos em solenidades da Academia Brasileira de Letras. Se o senhor, ao por acaso estar lá outra vez, dignar-se a me estender a mão, eu a apertarei deferentemente, pois não desacato o presidente de meu país. Mas não é necessário que o senhor passe por esse constrangimento, pois, do mesmo jeito que o senhor pode fingir que não me vê, a mesma coisa posso eu fazer. E, falando na Academia, me ocorre agora que o senhor venha a querer coroar sua carreira de glórias entrando para ela. Sou um pouco mais mocinho do que o senhor e não tenho nenhum poder, a não ser afetivo, sobre meus queridos confrades. Mas, se na ocasião eu tiver algum outro poder, o senhor só entra lá na minha vaga, com direito a meu lugar no mausoléu dos imortais.

...

Deve ter doído um pouco nesse ego inflado, héin Efeagá? Tu bem que podias acabar o mandato em Paris sem essa, né?

Academia Brasileira de Letgas

Pára tudo! Marco Maciel é candidato à ABL!

Não é possível que o Lapiseira, o político sombra, que mantém-se sorrateiramente no poder há quase 40 anos, consiga infiltrar-se lá também.

Alô, Jaguar! Ovo nesse cabra!

Da série "notícias velhas"

Bem que o palco do Municipal podia ter caído com o Gerald Thomas em cima!...

21 agosto 2003

Bordunadas de volta

Estranho, as bordunadas misteriosamente voltaram às páginas. Estou mais tranqüilo agora, certo de que ninguém terá novamente o direito de comentar as besteiras que escrevo.

O melhor disco do Pink Floyd da semana

Não gosto mais tanto de Pink Floyd quanto no passado, quando o The Wall era capaz de expressar todas as minhas angústias adolescentes. Depois que cresci, aprendi que certas coisas na vida não precisam de tanto peso, e passei a achar o Roger Waters um mala sem alça. E o Pink Floyd ficou relegado ao hall das lembranças "carburadas".

Mas outro dia, sei lá porque, me deu vontade de ouvir o Meddle. É aquele que tem uma foto indefinível, mas abrindo a capa dupla do LP, via-se que era uma orelha. Se não me engano, submersa. é de 71, acho. Enfim, esse disco andou lá em casa há um tempão, emprestado por alguém. Devolvi-o, mas sem prestar muita atenção. Só lembrava que a onda era boa. E no geral, continua sendo.

Ele passa igualmente longe da chatice-psicodélica-interminável do começo da carreira, e da choradeira recalcada do Roger Waters no fim. Nessa época o Syd Barret, o grande responsável pelas "viagens", já tinha ido para o vinagre, piradão, mas ainda tem uns climinhas estranhos. O fim da Echoes é meio Bruxa de Blair misturado com Os pássaros e Arquivo X.

No entanto, há canções bem legais. Um pop melosinho gostoso, de tarde de mormaço. Estou preferindo ele ao Dark side of the moon, muito grandioso, mas que de tão tocado, perdeu um pouco o viço.

Destaque para San Tropez e Seamus, um bluesinho sem vergonha sobre um cachorro uivando para o poente. Se eu tivesse saco pra ter cachorro, daria o nome de Seamus (Xêimas, se diz).