31 agosto 2004

cinema ou realidade?

o nome do filme é alien vs predador, mas dada a proximidade com as eleições americanas, podia muito bem ser kerry vs bush.

* * *
update:
a sensação de certeza confirmou-se com o slogan dos cartazes do filme pelas ruas: "não importa quem vença. nós perdemos". ironia ou previsão?

29 agosto 2004

para não dizer que não falei de política

é o seguinte, garotada: a situação tá uma merda? tá. o pt parece estar meio desorientado? parece. o lula anda trocando os pés pelas mãos? anda. veja bem, concordo com todas as reclamações contra o nosso presidente. mas não se pode esperar que o caboclo mude tudo em quatro anos. principalmente se lembrarmos que não houve revolução. as elites políticas e empresariais que estão aí são as mesmas que, há quatrocentos e tantos anos, mandavam cortar os pés dos "negros fujões", e que tratavam índio a fogo de arcabuz. como ouvi por aí, os "empresários do ano" costumam ser filhos de senadores, netos de comendadores, bisnetos de barões e tataranetos de ladrões de cavalo. assim nasceram as grandes fortunas do brasil, e até hoje não apareceu quem me provasse o contrário.

no quesito política internacional, com a tal da globalização, quem acha que o nosso sapo barbudo poderia fazer algo diferente, com a estreita faixa de manobra que o g-8 nos dedicou, ou é louco, burro, ou mal-intencionado. vamos falar a verdade, as ordens vêm de fora, mesmo, e a menos que rompamos os laços com o capital de forma definitiva (e nos tornamos uma cuba, mas aí, meus caros amigos da barra da tijuca e do interior de são paulo, não tem mais jatinho, helicóptero, angra, maresias e daslu...), a coisa não poderia ter um rumo diferente. ainda mais com a herança deixada pelo nosso ex-príncipe, fernando II, o artífice da estabilidade econômica, como ele gostaria de entrar para a história. mas parece que ninguém lembra mais de seu legado de incompetência.

mas hoje, não me lembro porque cargas d'água, comentei com a tati sobre a entrevista do barbosa lima sobrinho para a falecida bundas, em 99. barbosa, que de bobo não tinha nada, já conhecia o potencial lambão do fernando henrique cardoso de outros carnavais. repito: a declaração abaixo é do nosso barbosa lima sobrinho, a única unanimidade do país, a reserva moral da nação. faço questão de reproduzi-la:

Bundas - O senhor votou nele [FHC]?

Barbosa - Não, votei no Lula. O pai de Fernando Henrique, general Leônidas Cardoso, e o tio, general Felicíssimo Cardoso, eram nacionalistas. Seu pai, eleito deputado federal com o apoio dos comunistas - que estavam na ilegalidade - desempenhou seu mandato na Câmara inspirado em ideais nacionalistas. O filho, atual presidente da República, não honrou o nome do pai nem a tradição da família. Empregou o genro numa agência empenhada numa política declaradamente anti-Petrobrás. Gostaria de contar uma história: em 1968 houve uma reunião da Campanha Nacional de Defesa da Amazônia na casa do general Felicíssimo Cardoso, presidente da comissão, tio do atual presidente. Participavam Henrique Miranda, hoje diretor da ABI, o general Carlos Hesse de Melo, Os professores Alvércio Gomes e Orlando Valverde e a geógrafa Irene Garrido. Todos foram testemunhas. Discutia-se a redação de um documento de defesa da Amazônia e Henrique Miranda sugeriu que se mandasse o texto para Fernando Henrique, em São Paulo, para que ele o divulgasse e colhesse mais assinaturas. Aí o general Felicíssimo disse: "Pode mandar, Miranda, mas este meu sobrinho não é de confiança". Concordo com a opinião dele.


28 agosto 2004

pílulas barretianas

afonso henriques de lima barreto. nome de rei ou nobre. na verdade, mulato, pobre, alcoólatra e um dos maiores escritores nacionais. com certeza o mais carioca deles, ao lado de joão do rio.

sua condição marginal lhe conferia uma visão aguda da natureza humana e da sociedade; quase sempre implacável quando o assunto era seu próprio papel nela.

há muito tempo li o "cemitério dos vivos", amargo diário sobre sua derradeira estadia no sanatório da praia vermelha, atualmente, campus da ufrj. é lá que fica, entre outras, a escola de comunicação da ufrj, onde concluí o mestrado (pode-se dizer que há pontos de contato entre o passado e o presente, mas isso é outra história...). hoje, fazendo uma mega-limpeza no computa, achei uns trechos do livro, que faço questão de reproduzir. depois me digam se o sujeito não era um azougue.

"Eu não tenho nenhuma espécie de superstição pelos nossos títulos escolares ou universitários; eles dão algumas vezes algum saber profissional, muito restrito e ronceiro, e nunca uma verdadeira cultura (...)"

"Esta nossa sociedade é absolutamente idiota. Nunca se viu tanta falta de gosto. Nunca se viu tanta atonia, tanta falta de iniciativa e autonomia intelectual! É um rebanho de Panúrgio, que só quer ver o doutor em tudo, e isso cada vez mais se justifica, quanto mais os doutores se desmoralizam pela sua ignorância e voracidade de empregos. Quem quiser lutar aqui e tiver de fato um ideal qualquer superior, há de por força cair. Não encontra quem o siga, não encontra quem o apoie. Pobre, há de cair pela sua própria pobreza; rico, há de cair pelo desânimo e pelo desdém por esta Bruzundanga. Nos grandes países de grandes invenções, de grandes descobertas, de teorias ousadas, não se vê nosso fetichismo pelo título universitário que aqui se transformou
em título nobiliárquico. É o Don espanhol."


" (...) embora a glória me tenha dado beijos furtivos, eu sinto que a vida não tem mais sabor para mim. Não quero, entretanto, morrer; queria outra vida, queria esquecer a que vivi, mesmo talvez com perda de certas boas qualidades que tenho, mas queria que ela fosse plácida, serena, medíocre e pacífica, como a de todos."

só para manter o fluxo...

acordei e fui no mercado comprar pamonha (nota: mercado no fim de semana de manhã é coisa de pobre. não que minha condição financeira me habilite a esse tipo de julgamento, mas a única coisa que me faz encarar esse tipo de programa ianomâmi é a recém-adquirida paixão por pamonha. doce, não. ainda guardo algum tipo de dignidade...).
para variar, estava lotado, e aproveitei para dar uma calibrada na despensa de casa. na fila, quilométrica, pedi pro cara da frente dar uma olhada no carrinho, enquanto voei na banca para comprar um jornal. para variar, nada de novo, mas como faz falta a novidade vazia travestida de informação que nos obrigam a engolir nesse mundo globalizado, para manter-nos dispersos e fragmantados.
na hora de pagar, vi que estava sem dinheiro e sem o cartão. ligo para a patroa (ela vai adorar a denominação), em casa. oi, dá para trazer o cartão? tá, bom, to indo. uns dez minutos depois, ela chega. de perfume. quis ensaiar uma gracinha mal-criada, e ouvi um "quem foi que esqueceu o cartão, mesmo?", só para me botar de volta ao prumo. bonito isso.

e o dia transcorria, preguiçoso. e as preocupações escorriam sob o mormaço, enquanto eu pensava em como é bom estar vivo...

27 agosto 2004

atendendo a pedidos: a lei de imprensa

sei que tenho andado sumidão, mas não ando desligado. as delícias da vida a dois, as agruras de tentar deixar a casa minimamente habitável com salário (qual?) apertado, e o trabalho que não ata nem desata têm consumido tempo e paciência para cuidar do boteco. no entanto, introduzo (epa!) o tema a partir do diálogo travado nos comentários do bostejo anterior, com meu amigo análise, sobre a lei de imprensa. para não deixá-lo sem resposta, reproduzo o artigo do elio gaspari (de 25 de agosto), impecável, que traduz minha opinião melhor do que eu mesmo jamais seria capaz de formulá-la. vai ficar enorme, mas quem tiver saco de ler, lerá.

A essência da LulaPress é a empulhação

Aqui vão dois pares de textos. Relacionam-se com noções de ética e disciplina dos jornalistas. Estão separados pelo tempo, pelo propósito e pela origem.

O primeiro diz o seguinte:

"As notícias devem ser precisas, versando apenas sobre fatos consumados. Não permitir informações falsas, supostas, dúbias ou vagas."

"A divulgação da informação, precisa e correta, é dever dos meios de comunicação pública, independentemente da natureza de sua propriedade."

A segunda frase está no Código de Ética que servirá de base para a definição da alma do projeto que Lula mandou ao Congresso para "normatizar, fiscalizar e punir as condutas inadequadas dos jornalistas". Esse Código, aprovado num congresso da classe em 1987, é muito mais um manual de conduta. Acoplado ao projeto de Lula resultará num regulamento disciplinar dos jornalistas.

A primeira afirmação é do general Silvio Correa de Andrade, chefe da Polícia Federal em São Paulo, no Manual de Censura que distribuiu aos jornais em dezembro de 1968, horas antes da edição do Ato Institucional n 5.

O problema está na coincidência

O Código de Ética do aparelho sindical diz que "é dever do jornalista prestigiar as entidades representativas e democráticas da categoria."

Outro manual de censura, de junho de 1969, avisava que não se podia "publicar notícias ou comentários tendentes a provocar conflitos entre as Forças Armadas, ou entre essas e o poder público, ou entre esse e o povo."

No mundo dos generais considerava-se desprestígio dizer que em alguns de seus quartéis praticavam-se a tortura e o extermínio como política de Estado.

No mundo dos companheiros, os jornalistas têm o dever de "prestigiar" os sindicatos e a Federação Nacional dos Jornalistas, a Fenaj. Seria desprestígio lembrar a maracutaia das aposentadorias de falsos perseguidos políticos, promovida em 1995 pelo Sindicato dos Jornalistas do Rio de Janeiro?

Qualquer semelhança entre os manuais de censura e a visão autoritária e aparelhada que acompanha o projeto de criação do conselho federal do ofício é mera coincidência. Quando uma iniciativa de Lula, associado à Fenaj, guarda semelhanças retóricas com o palavrório dos censores, algo de ruim está acontecendo.

O projeto enviado por Lula ao Congresso ficará alguns anos na gaveta, rosnando. É um documento pedestre, mal intencionado. Na exposição de motivos o ministro Ricardo Berzoini diz o seguinte: "A sociedade tem o direito à informação prestada com qualidade, correção e precisão, baseada em apuração ética dos fatos." Sabendo-se que em 1968, durante a reunião em que se decidiu baixar o Ato Institucional n 5, louvou-se 19 vezes a democracia e condenou-se 13 vezes a ditadura, pode-se perceber como palavras bonitas ("qualidade, correção e precisão"), escondem o bornal do controle ("disciplina", "advertência", "censura", "suspensão", "cassação").

O projeto confunde deliberadamente um elemento essencial à profissão (a correção e o zelo pela precisão da notícia) com uma obrigação legal submetida à fiscalização, ao julgamento e à disciplina de um braço sindical sustentado pelo confisco de uma parte da renda dos profissionais.

A imprensa tem horror à fiscalização


Depois de se dizer tudo isso contra o projeto, pode-se argumentar que os jornalistas querem publicar grampos telefônicos obtidos ilegalmente, violar o sigilo bancário dos outros, defender o controle externo dos poderes alheios e escrever mentiras. Quando se fala em fiscalizá-los, esperneiam, cantam a "Marselhesa" e se escondem debaixo da alegoria da liberdade de imprensa. Quem achar assim estará muito mais certo do que errado.

O pior é que essa pessoa pode achar mais. Ela pode achar que há órgãos de imprensa que vendem reportagens, entregando-as aos leitores como se fossem produto daquela tal atividade protegida pela Constituição. Pode também suspeitar que os governos federal, estaduais e municipais gastam o dinheiro da patuléia e das empresas estatais com publicidade geralmente associada à simpatia do noticiário. Pode amaldiçoar jornalistas que escrevem belezas sobre eventos aos quais foram convidados a custo zero. São as chamadas "bocas-livres". Em suma: há corrupção, e muita, na imprensa. Essas práticas não atingem a todos os jornais, revistas e emissoras, mas as maracutaias do mundo das comunicações são menos noticiadas no Brasil do que pedofilia de padre no Observatore Romano.

A imprensa brasileira precisa de algum tipo de fiscalização crítica independente. Uma forma simples, pública e bem-sucedida de fiscalização é a figura do ombudsman, adotada em 1989 pela "Folha de S. Paulo". Depois de passar por memoráveis vexames, o "New York Times" criou o seu ombudsman no ano passado. Pode-se achar que é pouco.

Devem existir instâncias de fiscalização além do Poder Judiciário? Para médicos, advogados e arquitetos, elas existem.

Essas instâncias devem se misturar com o Estado ou devem se confinar ao universo do prestígio profissional? De um lado ficam os conselhos como o que Lula quer criar. São organismos de alistamento e arrecadação compulsória. De outro, entidades como as associações de jornais, revistas ou emissoras. Como as instâncias fiscalizadoras dos agrupamentos patronais freqüentemente não fiscalizam coisa alguma, a bola poderia rolar para a Associação Brasileira de Imprensa?

Essas são questões a respeito das quais cada um deve formar a sua opinião, pronto para mudá-la a cada duas semanas. Debate bonito é assim.

Notícia e verdade não são a mesma coisa

Vale voltar às duas primeiras afirmativas lá de cima. Pode-se sustentar que o Código de Ética dos jornalistas e o Manual de Censura do general dizem coisas parecidas porque dizem coisas verdadeiras. É aí que mora o perigo. Toda vez que se fala em notícias necessariamente precisas, verdadeiras, seguras e claras, o que se quer é embaralhar o debate. Coisa do tipo enquanto-houver-fome-não-haverá-democracia.

A confusão entre notícia e verdade é uma falácia. Ela foi desmontada há quase um século por Walter Lippmann, um dos maiores jornalistas do seu tempo:

"Quem acredita que notícia e verdade são duas palavras que designam a mesma coisa, não vai a lugar algum. A função da notícia é sinalizar um acontecimento. A função da verdade é trazer à luz fatos ocultos, formando um quadro da realidade dentro do qual as pessoas possam agir. (?) Nós não entendemos a natureza limitada das notícias e a complexidade ilimitada da sociedade; nós superestimamos nossa capacidade de resistir, nosso espírito público e nossa competência." Ele se divertiu lembrando que os cidadãos pagam bom dinheiro pelos seus lugares no teatro e pelas passagens de trem, mas querem comprar a verdade, todos os dias, pagando com a menor moeda em circulação (Em 1921 os jornais custavam um centavo de dólar).

"Precisas e corretas" mistificações


Em 1964 num memorável julgamento da Suprema Corte dos Estados Unidos, o juiz William Brennan Jr. redigiu a sentença que assegura à imprensa americana o direito de cometer erros factuais no noticiário relacionado com personalidades públicas. Brennan sustentou que se os jornalistas forem colocados debaixo do medo de punições legais caso não contem histórias "precisas e corretas", quem perde é a sociedade, por ficar menos informada. Nada a ver com licença para mentir. O jornalista obriga-se a demonstrar que não sabia da falsidade da notícia e que não agiu como se pouco lhe importasse o fato de ela ser verdadeira ou falsa. Se alguém acha que a Corte Suprema é leniente com a imprensa, vale informar que, pelos seus critérios, algumas dezenas de jornalistas brasileiros teriam passado pela cadeia por conta da publicação de grampos. As casas impressoras ou transmissoras onde trabalhavam teriam corrido o risco de falir.

O comissariado que produziu o projeto de LulaPress promete ao público um regime de informações "precisas e corretas", sabendo que esse tipo de doce não existe. Às vezes essa empulhação parte dos jornalistas. Outras vezes parte daqueles que pretendem controlar os jornalistas. Em todos casos, o que se quer é empulhar a patuléia.

10 agosto 2004

se não ficou bem...

...é porque ainda não é o fim. na vida, aprendi, tudo se resolve. antigamente, meu lema era "calma, tranqüilidade e cara-de-pau". nada mais útil. hoje, penso em termos de "calma, respiração e cara-de-pau". embora ainda não tenha me decidido pela mudança, atesto e dou fé na eficácia. ajuda mesmo. impressionante.

outro dia vi o michael moore novo. gostei mas me fez mal. hoje o ali kamel veio descascando o diretor, acusando de manipular informações e fatos, de forma a desmoralizar o bushinho. pode ser, mas tem coisa melhor do que falar mal dos outros? e pelas costas, ainda por cima? gostei mesmo.

quer dizer então que só um os poderosos podem mentir e omitir? a direita hidrófoba e os conglomerados de comunicação pintam e bordam, os anunciantes pautam escaradamente e sem vaselina, e que a "cobertura isenta" funciona na base do "aos amigos, tudo, aos inimigos, justiça". agora, porque o "outro lado" tem que ser arauto do factual, a vestal da pureza e da verdade imaculada?

a informação virou moeda corrente, e a luta por sua posse, uma guerra. das sujas. então, meus caros, já que o clima é de vale-tudo, então fiat lux. a verdade é uma abstração, e quem chegar primeiro, leva.

viva michael moore, viva a especulação, o boato e a fofoca. chega de engolir tudo o que te falam, espalhem vocês também as boas novas e a epidemia. como diz o povo do cmi (linque ao lado) parafraseando o jello biafra, "odeia a mídia? torne-se a mídia".

(cara, acho que escolhi a profissão errada...)

...

só para concluir: fiz o teste do dude (águas claras, linque ao lado) e deu o seguinte (e não é que há alguma semelhança com as sandices bostejadas acima?):

Morpheus
Morpheus


Which Of The Greek Gods Are You ?
brought to you by Quizilla

"i give you everything i got for a little peace of mind"...

tempos estranhos, tempos instáveis, tempestuosos...
a força para me manter firme ao timão (não, não sou corinthiano, e para mim, o grande time será sempre o glorioso) drena a disposição de bostejar.
aguardem, em muito breve, definições e mudança de ânimo.

juro que não serei mais tão enigmático, também.

jundas.

02 agosto 2004

pimenta no orkut dos outros

estou no orkut. mantenho-o razoavelmente atualizado, pertenço a comunidades interessantes e engraçadas, e até coloquei algumas fotos nesse último finde.

mas admito que tem que ter um saco de jó para freqüentá-lo. e descobri que, quanto maior a comunidade, menos saco eu tenho para ler as mensagens. às vezes são mais de 100 respostas muito parecidas, sobre um assunto completamente bobo. é uma perda de tempo enorme.

cheguei à conclusão de que só vale a pena participar dos grupos sobre assuntos que me interessam muito, e sobre os quais há a possibilidade de conseguir informações novas. de resto, vou reduzir o número de comunidades drasticamente.

já tenho amigos suficientes. os antigos, com exceção de um ou outro, provavelmente causarão mais constrangimentos do que alegria. além do mais, estou um pouco preocupado com o excesso de exposição. acho que já a tenho em demasia aqui com o borduna!...imagina no outro, em que botei uma descrição detalhada, ainda por cima com fotos!

por isso que não deixo de me solidariezar com o arnaldo bloch, em sua coluna deste sábado passado. fiquem aí com o texto:

Orkut na reta

O Orkut, "site de relacionamentos" do Google, ainda não era a coqueluche que é hoje (com um milhão de usuários, metade deles no Brasil) quando Lia, amiga minha, contou a novidade, numa noitada no Baixo Gávea.

- Gente, é um clube na internet onde várias coisas legais acontecem.

Fiquei curiosíssimo.

- E como faz para entrar no Orkut, Lia?

- Ah, você tem que ser convidado por um amigo. Ou uma amiga.

O jornalista galês (personagem que ora e vez dá as caras nos botecos) interveio.

- Esto é uma fôrma de ecsclusáo !

- Exclusão nada. Tá todo mundo entrando. Todo mundo convidando ? reagiu Lia.

E virou-se para mim, provocante:

- Quer ser meu amigo no Orkut?

- Que isso, Lia. Estou comprometido. Fechei meu botequim.

- Que isso digo eu, Arnaldo. O Orkut é um mundo eletrônico.

- Ah, se é eletrônico tudo bem.

No dia seguinte, recebi um e-mail de Lia me convidando para entrar. Fui conferir e entrei. O Orkut começou a me fazer um montão de perguntas. Tipo: você é mais de sol ou de lua? Gosta de cinema ou teatro? Considera-se um sujeito engraçado, burro, tímido, idiota ou alternativo? É pan, metro, hetero, bi, retro?

Fui respondendo. Depois, descobri que havia um sistema classificatório, no qual você dá estrelinhas para as pessoas. E decide se vão ser suas amigas. E tem foto dos amigos tipo galeria de revista de celebridades.

Então a Lia veio ao meu terminal:

- Aí, Arnaldo, dá estrela pra mim!

Obedeci. Dei estrela para a Lia. Exausto, desliguei o computador.

Foi a última vez que entrei no Orkut.

Mas, a partir daquele dia, os convites começaram a se multiplicar. Quase todo mundo que eu conhecia me convidava para ser seu amigo no Orkut. Inclusive gente legal, inteligente, cheia de conteúdo.

E comecei a ouvir umas conversas estranhas, o pessoal contando vantagem.

- Entupiram meu Orkut de estrelas!

- Ah, mas eu já tenho 60 amigos.

Rapaziada, aquilo começou a me irritar, me irritar... e descambei a falar mal do Orkut pra todo mundo, a encarnar na Lia e nos que me convidavam, inventar gracinhas do gênero ?o que o Orkut tem a ver com as calças??

Aí as pessoas me atacaram: ih, Arnaldo, que mau-humor. Cara chato. Ficando velho.

Lia ainda tentou me convencer a voltar, dizendo que o Orkut é ótimo pra você encontrar pessoas que não vê há décadas, amigos de infância, gente do maternal.

- Mas Lia, quem disse que eu quero rever meus amiguinhos de um ano de idade?

- Qual o problema?

- Coisa chata. Daqui a pouco vou estar formando grupos de ex-amiguinhos de um ano de idade. Prefiro encontrar as pessoas que tiver que encontrar por acaso, na rua. Isso já dá bastante trabalho, entre boas surpresas e grandes decepções e aluguéis.

- Velho - disparou Lia.

- Chata - reagi.

Como vingança, postei um comentário no meu blog. Um curto manifesto anti-Orkut.

Nele eu dizia (e redigo e amplio), que o Orkut é um micromundinho frívolo e vazio que repete o universo da rede num sistema de pirâmide que multiplica seus membros à medida que todos querem ter amigos, ganhar estrelas, fazer parte de grupinhos de interesse e reencontrar coleguinhas de infância.

Uma leitora disse que Orkut é meio bobo mesmo, mas é uma forma de fugir da solidão nesse mundo desumanizado.

Eu respondi que ela corria o risco de ficar presa do outro lado do espelho (ver o "Buraco do espelho", de Arnaldo Antunes.)

Numa apresentação aqui no jornal para colegas que fazem parte do Calandra 2004, um programa de aperfeiçoamento profissional, repeti minhas críticas. E, mudando de assunto, contei um episódio sobre a implicância de uns amigos por eu ter confessado, numa crônica, que fiz pilates (temporariamene).

- Pra vocês verem... tem gente que tem o maior preconceito contra pilates.

A Glauce, colega minha aqui do Caderno Boa Viagem, pediu a palavra.

- Pois é, e tem gente que tem preconceito contra o Orkut.

Silêncio no auditório. Precisei de uns segundos para me reestruturar.

- É verdade, há um certo preconceito. Desconfio dessas manias animadinhas que pegam todo mundo num roldão.

Glauce replicou.

- Você leva muito a sério. O Orkut não é tão sério assim.

- Talvez não seja para você, mas há uma horda de aficionados. Orkut é sintoma de uma época estranha, em que pessoas falam como robôs em telefones e dizem que "vão estar enviando", em que amigos se reúnem para caminhar sobre tabuleiros vivos testando conhecimentos gerais, em que tudo é meio game , em que a galera alternativa vibra atropelando criancinhas na pele de bandido eletrônico, em que os amiguinhos se reencontram em praças imaginárias em shoppings virtuais.

O pessoal do Calandra deve ter achado que estava diante de um maníaco da teoria da conspiração. É o preço de zoar do Orkut...

só para fãs do charlie brown jr.

não conheço quase nada da banda, exceto que eles fazem um esporro desgraçado. mas isso não nos impediu (eu e a tatipiv) de descobrirmos o motivo da agressão do chorão contra o marcelo camelo. ao se encontrarem, o cantor do los hermanos teria, na verdade, elogiado a banda:

- pô, cara, me amarro naquela canção de vocês, "papo seu reto".

...

pano rápido.

26 julho 2004

Cenas do cotidiano a dois

interlúdio.

manhã de inverno. "ele" está no quarto, aprontando-se para o trabalho. "ela", está na cama, depois de ter virado a noite de plantão.


ele (falando do banheiro, já meia hora atrasado para ao trabalho) - Ei, amor! Sabe que eu tive uma idéia genial?

ela espera interessada, como se ele fosse anunciar a cura para os males da humanidade.

ele (radiante) - Vou começar a fazer a barba de noite!...

ela (rindo muito) - Ué, Fofo, mas a sua barba não cresce durante à noite?

ele - Cresce, mas como as lâminas que eu uso são geralmente uma porcaria mesmo, ninguém vai notar se eu fiz hoje ou ontem. E além do mais, isso vai me dar mais tempo para dormir com você...


...

morra de inveja, truffaut!

*Update*
num rasgo de sabedoria zen, ele resolve deixar a barba crescer...

...lá vou eu de novo, como um tolo...

mais uma vez, como na canção, estou movendo mundos e (poucos) fundos, para morar junto. de novo.

dessa vez (de novo), o céu está claro e sem nuvens. no entanto, diferente de antes, não há sequer sinal de precipitação no horizonte. como se diz no jargão aeronáutico, "céu de brigadeiro". ou seja, uma beleza.

stay tuned, folks! em breve, novas previsões metereológicas.

...

no segmento de minha trajetória cigana, abandonei o lar do casal de amigos que me aturarou por quase um ano, para aninhar-me nos braços da minha cara-metade (cafonalha geral, perdão).

adeus, laranjeiras, não chore, nosso caso de amor está apenas começando. alô, comunidade de botafogo! preparem a área que eu tô chegando com tudo! alô tereza, seremos vizinhos!

segundo um recente cálculo, desde que saí do lar materno, na gávea, há sete anos, esse é o quinto bairro em que morarei. nada mal. por ordem cronológica, passei pelo humaitá, jardim botânico, tijuca, laranjeiras, e agora, botafogo. todos moram no meu coração, e de todos guardo boas recordações. até da tijuca.

descontando os percalços, a vida até que tem sido boa para mim.

24 julho 2004

reflexões musicais ranzinzas

outro dia - antes dos acontecimentos fatídicos de anteontem - na sala contígua à minha, no escritório em que trabalho, botaram imagine para tocar. aí, ouvi alguém de lá comentando:

"esse cara não precisava ter feito nada, só essa música já bastava, né?"

apesar da pena que uma ignorância de tal magnitude deixa transparecer (de beatles, você nunca ouviu falar, minha filha?), a asneira soou como uma chicotada.

odeio imagine. como odeio qualquer obra com a pretensão de passar uma "mensagem". ou melhor, em que objetivo de transmiti-la se sobreponha sobre forma e/ou conteúdo. mas, infelizmente, é o caso dessa música. transborda boas intenções, mas é de uma ingenuidade boçal.
(além do mais, todos sabem em que lugar as boas intenções e seus autores costumam ir parar.)

de tão executada, a suposta vitalidade de conteúdo esvaziou-se. ela já deve ter figurado até em publicidade de papel-higiênico. é um pouco o caso de what a wonderful world, cantada pelo louis armstrong. metade dos filmes americanos nas duas últimas décadas usou-a para ilustrar todos os tipos de emoções e situações: nascimento, morte, defloração, bombardeio...

outro caso é aquela canção do carl orff, o fortuna-sei-lá-o-quê, do carmina burana. o único bom uso desta foi em excalibur, do john boorman, na cena da cavalgada de recuperação do rei arthur. foi a primeira vez que a ouvi, e a imagem gravou-se a ferro na cabeça. até hoje, quando a ouço, visualizo a cena.
(essa é a nossa dica de cinema da semana.)

mas, voltando ao imagine, um dos agravantes que ma fazem detestá-la é saber que tem uma grande possibilidade da japa-vodu yoko ono ter metido o bedelho lá.

o fato é que os grandes não buscaram passar nada. vá achar "mensagem" em rubens, velasquez, nelson rodrigues, mozart. o que é mais bonito e representativo de picasso? a série de pinturas das touradas, ou as "imagens da guerra", e guernica? não adianta, "mensagem" é para pouquíssimos, e definitivamente, o nosso "beautiful boy" não figura nesse hall.

23 julho 2004

o blog está de luto

lula, luiz fernando para a imprensa, meu amigo, foi mais uma vítima da boçalidade do governo, do egoísmo e da corrupção das autoridades, que tem na violência apenas sua face mais óbvia e cruel.

tô colocando esse meu amigo na conta de vocês, rosinha e garotinho. um dia vocês hão de pagar, podem ter certeza.

no que depender de mim, vocês e sua corja de vendilhões do templo, de parasitas sanguessugas, serão varridos para fora da MINHA CIDADE e do MEU ESTADO.

deixando a raiva de lado, reproduzo a carta publicada n'o dia, que a marcia, mãe dele, minha ex-professora de faculdade, escreveu, depois de tudo. dói.

'Sua imprudência? Ter sido solidário'
A mãe de Luiz Fernando, a psicóloga Márcia Lopes Caldeira, escreveu a carta abaixo quando soube da morte do filho.

Tiro de repente....

De manhã, a brincadeira...

Você hoje caprichou... tão arrumado!

-
É que vou visitar clientes, tenho que ir mais bonito!

Tudo porque pro Luiz Fernando, o bom é trabalhar na oficina, andar com roupa manchada, bem à vontade, desarrumado até...

E isso é sempre motivo de queixa e reclamação. Mas ele é assim. Adora seu trabalho, mexer com madeiras, plásticos, acrílicos, escalar, acampar, estar com a namorada, encontrar amigos. Fazer churrasco. Tudo é motivo.

Aí, ao meio-dia, o telefone toca e meu filho mais velho diz, segurando o choro: "Mãe, o Luiz sofreu um acidente. Ele levou um tiro. Foi nas costas, mas ele está bem. Está com todos os movimentos, falando".

Um susto. Pensar o que fazer e como fazer. Falar com amigos que podem ajudar. Avisar à irmã em Brasília - ela deve vir? - , aos avós, aos tios, aos amigos. Será verdade que ele está bem?

E, assim, tão de repente, já o vejo em coma. Sei, pressinto que é sério. Cinco horas de cirurgia. Saiu do centro cirúrgico.

Chega o médico. "Ele teve uma parada cardíaca". Morreu. Acabou. Deixou de ser o que era. Passou a ser, tão de repente, o impensável, aquilo que não tinha nos acontecido mas que andava perto.

Seu pecado? Sua imprudência? Ter sido solidário.

Ajudou uma senhora que, com seu neto, saíra do banco e estava sendo assaltada.

Assim, tão de repente, acabou. De certa forma, como viveu. Amando o que fazia, aproveitando suas oportunidades, vivendo a vida e... sendo amigo e solidário.

Perdi meu filho. Meus outros filhos, seu irmão menor. Os avós, seu neto. Assim estamos, tão de repente, perplexos. Até quando?

...
só sei que o baixo-astral é foda. vou melhorar em breve...





09 julho 2004

hitler começou assim

deu na edição de hoje do globo e no plantão do site:

08/07/2004 - 11h54m
Crianças com doenças mentais são presas nos EUA, diz jornal
O Globo

WASHINGTON - Uma equipe de investigação do Congresso dos Estados Unidos descobriu que mais de 15 mil crianças com distúrbios psiquiátricos foram indevidamente encarceradas no ano passado no país, porque não havia serviços de atendimento a doentes mentais em suas comunidades. Os dados foram revelados por deputados democratas do Comitê de Reforma do Governo, na primeira pesquisa sobre os centros de detenção juvenis dos EUA. As informações são do jornal "New York Times".

é o capital tentando achar uma solução (final?) para o fardo do contingente não-produtivo que é obrigado, por alguns ultrapassados escrúpulos humanistas, a carregar.

06 julho 2004

contra as asneiras que circulam por aí

quem me acomapanha aqui (?) sabe da ojeriza que tenho a textos "autorais" - do tipo que a gente recebe por email, supostamente assinados por "personalidades" como o millôr, mario quintana, ziraldo, jabor e outros que tais. comigo, eles recebem o mesmo destino das correntes e tudo o mais que vem gritando "urgente" em caixa alta e com pontos de exclamação no subject. sinceramente, nem abro. e posso garantir, até hoje não peguei leptospirose por beber direto da latinha, não fui alvo de um super-vírus de computador, não tive meu celurlar ou cartão de banco clonados, ou grampearam meu telefone.

mas, voltando a essas mensagens, apenas quem nunca sequer ouviu falar nos autores citados podem confundi-los com as indigências semi-analfabetas a eles atribuí­das. o quino já protestou contra, e agora o jabor, na abertura de sua coluna de hoje, bota a boca no trombone. o texto todo é bom, mas em respeito aos leitores (?), só reproduzo as primeiras frases. quem se interessar pelo resto, procure no site do jornal o globo.

Está rolando na internet um texto ridículo sobre “mulheres” atribuído a mim. Sou uma besta, todos o sabem; mas não chego a esse relincho lamentável do asno que o escreveu. Diz coisas como: “A mulher tem um cheirinho gostoso, elas sempre encontram um lugarzinho em nosso ombro...” Uma bosta, atribuída a mim. Toda hora um idiota me copia e joga na rede.

o sacana ainda apresenta uma teoria que estou desenvolvendo há alguns meses, e estava prestes a bostejá-la. o sacana chegou na minha frente, mas foi na veia:

Hoje em dia, as mulheres foram expulsas de seus ninhos de procriação, de sua sexualidade passiva, expectante, e jogadas na obrigação do sexo ativo e masculino. A supergostosa é homem. É um travesti ao contrário. Alguns dizem que os homens erigiram seus poderes e instituições apenas para contrariar os poderes originais bem superiores da mulher.

em breve voltarei ao assunto deste último trecho. evoé!

01 julho 2004

improviso sobre o centro da cidade

uma das coisas que mais me dão prazer é flanar pelo centro da cidade. é bem verdade que me divertia mais quando ia a passeio, mas mesmo agora, como mais um proletário na multidão, tento manter a cabeça acima da manada, e o distanciamento de quem não se locomove apenas por necessidade, com um destino definido a cumprir.

tem dias em que fico sem tostão, e tenho que me contentar com uma refeição de três saquinhos de amendoim a um real. especialmente nessas ocasiões, preencho a hora do almoço no trottoir (meu francês merece a guilhotina), e me deixo levar para o interior de galerias e outros buracos escuros que abundam no centro (sem trocadalho, por favor). dia desses saí sem destino e descobri algumas coisas interessantes:

1) na são josé, em frente a uma farmácia, tem um camelô de dvds e softwares único. rodrigo (ou ricardo) tem os últimos lançamentos: kill bill (xibiu) volume 2, o pornô novo do alexandre frota, o filme da rita cadillac, e uns outros troços que não me lembro. o diferencial é que rodrigo (ou ricardo) faz dois preços (com ou sem a capa do filme), fornece garantia e o celular para reclamações e encomendas. e jura estar sempre no mesmo ponto.

2) na esquina do carmo com a rua sete (de setembro, para os menos íntimos) tem uma banca de jornal exibindo entre várias revistas antigas de mulher pelada, um exemplar palstificado da status da xuxa - a única em que ela aparece nua EM PÊLO. tive a sorte de ter essa revista nas mãos, quando do lançamento, por intermédio de um primo mais velho, que infelizmente já cantou para subir. na época, eu sequer sabia a utilidade de uma mulhwer pelada, mas se tivesse um palpite de que essa revista seria tão disputada hoje, teria guardado uma comigo. ah, o preço? uma bagatela de R$ 300,00. (aliás, para quem se interessa, a cavídeo tem uma das únicas cópias do filme "amor, estranho amor" do walter hugo khoury. para os mais novos, a película mostra uma cena em que a "rainha" demonstra a origem de toda a sua intimidade com os baixinhos. talvez seja a única cópia não recolhida pela xuxa.

3) na saraiva da rua do ouvidor, descobri que desprezo praticamente toda a atual cena musical brasileira. ivete sangalo, adriana calcanhoto, jota quest, maria bethânia, ney matogrosso e a parede, sandy e junior, pitty, sepultura e ana carolina são igualmente chatos pra caralho. até o ed motta anda me enchendo o saco. me dão náuseas as campanhas publicitárias, as promoções, os apelos, as fotos, as temporadas, os clipes, os acústicos, as harmonias, os arranjos, as entrevistas. não ouço rádio. não tenho mtv. não vou a shows. salvo quando viajo no carro da tereza, que às vezes sintoniza numa rádio que só toca música nacional 9algumas boas, até), meu conhecimento musical raras vezes chega aos anos 80. rock nacional? puá! deixei de gostar aos 15 anos, quando era punk. outro dia ouvi o disco da plebe rude, e tive vergonha de ter gostado tanto daquilo. sou obscurantista mesmo, fazer o quê? do pouco que conheço, talvez salve o lenine e os los hermanos, mas não devo conhecer mais de três músicas dos dois juntos.

mas o que isso tem a ver com centro da cidade, mesmo? pelo menos deu a impressão daquelas reflexões que surgem quando se está andando...

26 junho 2004

de jornalista, toda puta tem um pouco...

como bostejei anteriormente, tem uma ocupação que pretendo exercer profissionalmente pelos próximos anos - nada definitivo, (in)felizmente (?) tenho a necessidade vital de não me apegar a nada.

é que existem alguns mitos a respeito de jornalistas, que na minha ignorância e arrogância, pretendo comentar:

1) jornalistas são "urubus", sempre atrás de desgraças e do que há de pior na natureza humana:
correto. dizem que na redação do new york times tem um quadro com os dizeres "bad news, good news". agora, vocês já se perguntaram o por quê? alguém aí no fundo respondeu "porque vende mais?" bingo! as notícias trágicas têm muito mais apelo. faça o teste. se a primeira página trouxer uma manchete sobre a decaptação de uma personalidade do entretenimento num acidente automobilístico, e outra sobre o novo pacote econômico do governo, qual você vai ler primeiro?...somos urubus para satisfazer a SUA curiosidade mórbida.

2) jornalistas são pessoas bem informadas:
sim e não. por cacoete profissional, e por lidar com a reprodução dos fatos em quantidade industrial e velocidade instantânea, jornalistas carregam uma quantidade de informação ao suportável por qualquer outro mortal sadio. mas jornalistas não sabem tudo. na verdade, eles conhecem gente que sabe. no máximo, descobrem mais rapidamente onde procurar. no resto do tempo, estão blefando.

3) jornalistas são "vendidos":
correto. como qualquer profissional com necessidade de alimentar-se três vezes ao dia, os jornalistas fazem tudo por dinheiro. principalmente porque em geral, ganham mal. muito mal para o volume de trabalho. pergunte ao jornalista do seu lado quantos fins-de-semana ele tem de descanso por ano. no geral, somos como médicos. horário estabelecido inexistente, plantões nos finde, poucas folgas e - guardando as devidas proporções - a mesma responsa. duvida? um fato errado pode arruinar a vida de uma pessoa, provocar a sua demissão sumária, ou, na melhor das hipóteses, gerar uma enxurrada de emails, cartas e telefonemas com reclamações. estamos sempre no fio da navalha.

4) por dinheiro, jornalistas fazem coisas que até as putas recusam:
essa segue a linha de raciocínio da resposta acima. descontando todo o blábláblá ético, como qualquer outro profissional liberal, o jornalista tem que se submeter aos caprichos do patrão, se quiser continuar tendo uma cadeira onde pendurar o paletó todos os dias. ou isso ou é passar no departamento pessoal. amiguinhos, você que é postulante ao mundo das "pretinhas", saiba que a única liberdade que existe no jornalismo é a "de empresa". e parcialidade é a casa do cacete. o que não configura rima e tampouco, solução. portanto, vou botar as coisas por meio de uma parábola, que acredito ser do conhecimento de todo "coleguinha" que esquentou cadeira numa universidade por pelo menos um semestre:

reza a lenda que alcindo guanabara, deputado, senador, nome de rua, e um dos maiores jornalistas da história da imprensa nacional, ao ser convocado para escrever um editorial sobre jesus cristo, em função do natal, não titubeia e lasca a pergunta ao editor, do alto de suas polainas: "contra ou a favor, chefia?"
* * * * * *
preciso dizer mais? é por isso que eu amo essa profissão.

25 junho 2004

de volta das trevas...

...que nem foram tão negras assim. basta apenas um pouco de desorganização para, como diz o ditado, o lado mais fraco da corda arrebentar. infelizmente, o lado mais fraco é esse mesmo. mais juro pela sua mãe mortinha embaixo de um boeing onomatopáico de uma bola de tênis quicando sobre os ovos de um político do interior daquela obscura província no lado norte da região mais escarpada do deserto de gobi destruída pelo repentino estouro de uma tempestade subtropical graças ao efeito do desenrolar da trompa de uma borboleta que ficou presa na gosma pegajosa de uma planta carnívora mimetizada em orquídea ao tentar sugar seu suposto néctar, que não deixo mais de escrever.

depois disso tudo, alguém na platéia teria a audácia de duvidar da minha palavra?

bom, quem lê a tatipiv, sabe que passei um tempo nos estadozunidos por uns três quatro dias, a trabalho. pois é, rapaziada, vale do silício (ou do silicone, numa tradução mais apressada e distraída), o coração do cérebro tecnológico do ocidente. san jose, californification. de um lado, adobe, do outro, a cisco systems. ei, não é a sun ali? acho que o presidente da oracle acabou de acenar para mim daquele jaguar...fui super bem-tratado, bem-hospedado, tudo muito bacana, etcetera e tal, mas a quem interessar possa, é o seguinte:

1. as americanas não chegam perto das brasileiras. são na sua maioria obesas mórbidas com uma vozes finíssimas, como se fossem a minnie mouse nos seus dias mais afetados. aliás, esqueça os corpos sarados que você vê nos filmes, de homens e mulheres: se o resto do mundo comesse como os americanos, não só não haveria alimento suficiente para todos, como passaríamos a complementar as necessidades calóricas diárias com alguns vietnamitas e africanos.

2. são quase todos neuróticos (como diria o obelix) e paranóicos. leis, em geral, não são coisas boas, mas nunca vi um povo tão motivado em criar obstáculos à própria felicidade. às vezes, achava que uma camisa-de-força deveria ser mais confortável que, por exemplo, o esquema "não-fumar-dentro-de-nenhum-estabelecimento-não-beber-fora-de-nenhum-estabelecimento". o saco de papel pardo que se vê no cinema é apenas para TRANSPORTAR bebidas, e não dá o direito de consumí-las em public places.

3. todos reclamam que o café consumido lá é um lixo, mas se conformam e o consomem mesmo assim. a starbucks deveria dar junto com o café (?) um atestado de panaca.

4. todos os empregados de bar, faxineiros, lixeiros e trabalhadores de baixo extrato social são latinos (pelo menos na califórnia).

5. dica fundamental: em qualquer país, procure conversar com taxistas, vagabundos, garis e demais categorias profissionais mencionadas acima. eles são experts em ciências aplicadas - economia, sociologia, política, etc. - e sabem direitinho explicar quando a barra pesa. dois dos momentos mais emocionantes da viagem foi conversar com um ex-presidiário (san quentin) na condicional (o cara me mostrou a carterinha), enquanto bebíamos (ilegalmente!) do lado de fora de um seven eleven; e com três malucos que protestavam contra a ocupação do iraque numa esquina no meio de lugar nenhum. eles disseram que eu e meus amigos fomos os primeiros a parar para bater papo, em mais de um ano em que eles batem ponto ali.

com o tempo vou contando mais. aguardem. ou escolham outra página.

08 junho 2004

revisitando alfarrábios (I)

pensei em bostejar uns artigos antigos que escrevi para a falecida "Geração". era um projeto louco e ambicioso (sinônimos?) de duas meninas, a joana e a antônia, de publicar uma revista com a proposta inicial de ser uma espécie de time out carioca, mas que depois acabou se tornando uma salada de estilos, um bricabraque da geração gente-bem (a expressão denuncia a idade) carioca do ano 2000.

infelizmente, como é o destino de toda publicação independente, pouco depois de um ano - a primeira edição veio ao mundo em outubro de 2000 - ela foi para o buraco. não sem antes ter tido o seu derradeiro número encartado na edição para assinantes do jb, em um remoto sábado de 2002. foi bom enquanto durou.

nunca pude avaliar o barulho que fizemos (se é que fizemos algum), mas a história rendeu para as duas editoras uma seção na revista de domingo do mesmo jornal - depois assinada apenas pela antônia. foi bonito, amador e anárquico. eu escrevia uma coluna que se pretendia de política, mas não de partidarismo, e sim, voltada para apresentar uma "política do cotidiano". a idéia era mostrar como os assuntos da cidade diziam respeito a todos, e o que os jovens poderiam fazer para mudar as coisas ao seu redor. ou seja, uma puta pretensão. no decorrer do tempo, minhas boas intenções naufragaram no emaranhado que estava se tornando minha vida, e acabei tentando um pouco de tudo.

o primeiro texto que apresentei, ainda muito "durão" (mas que me habilitou a entrar para o "staff"), foi sobre o 27o aniversário da revolução dos cravos, em portugal. era uma tentativa de transmitir a emoção do primeiro contato com essa história, via capitães de abril, da maria de medeiros. porra!, uma revolução feita com flores, praticamente sem tiros, e embalada por uma canção- na minha humilde opinião - lindíssima, grândola, vila morena! era demais para meu coração insurreto.

infelizmente não trenho mais o texto. mas tenho todos os que saíram publicados. considero uns poucos bons, embora às vezes resvalem num certo pedantismo de quem acha que tem um dever a cumprir. enfim, ninguém é perfeito. vou aos poucos os colocando aqui, para não espantar de vez os poucos leitores. divirtam-se (?).

O Geisel foi meu bicho-papão
Minhas primeiras referências políticas vieram da infância


Até uns anos atrás, eu pensava que a minha consciência política havia nascido depois das dezenas de filmes sobre o Vietnã assistidos na adolescência. Achava então uma injustiça o "sacode" que os comunas amarelos infligiram aos ianques, coitadinhos. Para vocês verem como eu estava por fora.

Muito antes, porém, eu já havia recebido uma valorosa lição. Só me lembrei dela há pouco, numa reunião de família, enquanto se rememoravam os micos de infância. Entre um causo e outro, me perguntaram se eu lembrava do Geisel. "Quem, o presidente?", estranhei, calculando que quando ele governara o país, nos anos 70, eu não passava de um molecote. Era quando minha avó materna morava para lá do Maracanã, num recanto batizado São Francisco Xavier, próxima à segunda estação da Central (a primeira, não mentem os sambas, é a Mangueira).sua casa era o point das festas que reuniam a parentada, e varavam madrugada adentro. Eu, com não mais que cinco anos, acabava sempre dormindo, não raro embaixo da mesa de jantar, protegido por uma toalha que se estendia até o chão.

Meus pais, não querendo me acordar, às vezes me deixavam aos cuidados da Vóca - apelido que todos os netos usam para chamar minha avó. até porque, se tentassem, eu muito provavelmente distribuiria pataços a torto e a direito (hábito que, aliás, ainda cultivo). e quando me levavam para o quarto eu despertava com a a casa vazia e com poucas luzes, o que me levava a crer que havia sido abandonado. Então eu corria para a varanda e, na esperança de ainda encontrá-los, chamava-os aos berros.

Aí, minha tia Cléa - que morava numa casa em frente e sempre ficava para ajudar na arrumação -, preocupada que meu escândalo acordasse todo o bairro, alertava:

- Não grite, porque senão o Geisel vem para levar embora criança que chora!".

A princípio, eu não dava a menor bola e seguia com o concerto, até que ela, muito engenhosa, tirava o telefone do gancho como se houvessem ligado:

- Alô, Geisel? Não, não é daqui que tem criança chorando, não! deve ser em outra casa. Como? Você vem conferir?"

Nesse momento, eu parava de chorar na hora, me pelanndo de medo do tal "geisel", que eu não sabia se era homem, bicho ou assombração (talvez, para minha tia Cléa, apolítica até a raiz do cabelo, ele devia ser um pouco dos três).

O general Ernesto Geisel chegou à presidência em 74, um ano depois do meu nascimento. Foi ele quem começou a desmontar o aparelho ditatorial, através de uma distensão "lenta, gradual e segura". Não era dos piores, comparado aos seus antecessores, Costa e Silva e, principalmente, Médici. O primeiro foi o responsável pela assinatura do AI-5, em 68, quando foram rasgados os últimos "escrúpulos de consciência", e passou-se a prender, torturar e sumir com gente, em nome da segurança nacional. No ano seguinte, o outro assumiria o botequim, e não faria feio - ou melhor, bonito. Aniquilou o que restava de resistência (armada ou não) na base do chumbo quente. E saturou o povo com slogans ("Brasil, ame-o ou deixe-o") e canções como "Pra Frente, Brasil", até hoje reconhecida por qualquer torcedor de futebol.

Minha tia até poderia estar enganada, mas certamente estava escaldada. Ao invocar o presidente para me calar, talvez se lembrasse das histórias ouvidas na surdina, sobre pessoas desaparecidas. Ou, quem sabe, viessem à memória as marcas das borrachadas recebidas pelo irmão da minha mãe, apenas por ter tido a infeliz idéia de e passar perto de um soldado a cavalo, para ver de perto um tumulto na Cinelândia. Ou ainda, a história do vôo rasante que minha avó deu para dentro de uma loja, enquanto baixavam as portas de ferro para protegerem-se do gás lacrimogêneo usado para dispersar uma manifestação.

Foi através de relatos de testemunhas assim, sem qualquer formação política, que passei a sempre duvidar das versões oficiais. Pode ter sido essa origem da busca quixotesca que empreendo a caminho dos fatos, e que acabou me levando ao jornalismo. O resto, meus caros, é História...

03 junho 2004

enquanto isso, no torrão ao norte do rio bravo...

digam aí se as coisas não parecem ser assim mesmo...

But you can reach the top of your profession
If you become the leader of the land
For murder is the sport of the elected
And you don't need to lift a finger of your hand


Murder by numbres - The Police (com sting em pessoa em versão ao vivo do frank zappa)