28 agosto 2004

só para manter o fluxo...

acordei e fui no mercado comprar pamonha (nota: mercado no fim de semana de manhã é coisa de pobre. não que minha condição financeira me habilite a esse tipo de julgamento, mas a única coisa que me faz encarar esse tipo de programa ianomâmi é a recém-adquirida paixão por pamonha. doce, não. ainda guardo algum tipo de dignidade...).
para variar, estava lotado, e aproveitei para dar uma calibrada na despensa de casa. na fila, quilométrica, pedi pro cara da frente dar uma olhada no carrinho, enquanto voei na banca para comprar um jornal. para variar, nada de novo, mas como faz falta a novidade vazia travestida de informação que nos obrigam a engolir nesse mundo globalizado, para manter-nos dispersos e fragmantados.
na hora de pagar, vi que estava sem dinheiro e sem o cartão. ligo para a patroa (ela vai adorar a denominação), em casa. oi, dá para trazer o cartão? tá, bom, to indo. uns dez minutos depois, ela chega. de perfume. quis ensaiar uma gracinha mal-criada, e ouvi um "quem foi que esqueceu o cartão, mesmo?", só para me botar de volta ao prumo. bonito isso.

e o dia transcorria, preguiçoso. e as preocupações escorriam sob o mormaço, enquanto eu pensava em como é bom estar vivo...

27 agosto 2004

atendendo a pedidos: a lei de imprensa

sei que tenho andado sumidão, mas não ando desligado. as delícias da vida a dois, as agruras de tentar deixar a casa minimamente habitável com salário (qual?) apertado, e o trabalho que não ata nem desata têm consumido tempo e paciência para cuidar do boteco. no entanto, introduzo (epa!) o tema a partir do diálogo travado nos comentários do bostejo anterior, com meu amigo análise, sobre a lei de imprensa. para não deixá-lo sem resposta, reproduzo o artigo do elio gaspari (de 25 de agosto), impecável, que traduz minha opinião melhor do que eu mesmo jamais seria capaz de formulá-la. vai ficar enorme, mas quem tiver saco de ler, lerá.

A essência da LulaPress é a empulhação

Aqui vão dois pares de textos. Relacionam-se com noções de ética e disciplina dos jornalistas. Estão separados pelo tempo, pelo propósito e pela origem.

O primeiro diz o seguinte:

"As notícias devem ser precisas, versando apenas sobre fatos consumados. Não permitir informações falsas, supostas, dúbias ou vagas."

"A divulgação da informação, precisa e correta, é dever dos meios de comunicação pública, independentemente da natureza de sua propriedade."

A segunda frase está no Código de Ética que servirá de base para a definição da alma do projeto que Lula mandou ao Congresso para "normatizar, fiscalizar e punir as condutas inadequadas dos jornalistas". Esse Código, aprovado num congresso da classe em 1987, é muito mais um manual de conduta. Acoplado ao projeto de Lula resultará num regulamento disciplinar dos jornalistas.

A primeira afirmação é do general Silvio Correa de Andrade, chefe da Polícia Federal em São Paulo, no Manual de Censura que distribuiu aos jornais em dezembro de 1968, horas antes da edição do Ato Institucional n 5.

O problema está na coincidência

O Código de Ética do aparelho sindical diz que "é dever do jornalista prestigiar as entidades representativas e democráticas da categoria."

Outro manual de censura, de junho de 1969, avisava que não se podia "publicar notícias ou comentários tendentes a provocar conflitos entre as Forças Armadas, ou entre essas e o poder público, ou entre esse e o povo."

No mundo dos generais considerava-se desprestígio dizer que em alguns de seus quartéis praticavam-se a tortura e o extermínio como política de Estado.

No mundo dos companheiros, os jornalistas têm o dever de "prestigiar" os sindicatos e a Federação Nacional dos Jornalistas, a Fenaj. Seria desprestígio lembrar a maracutaia das aposentadorias de falsos perseguidos políticos, promovida em 1995 pelo Sindicato dos Jornalistas do Rio de Janeiro?

Qualquer semelhança entre os manuais de censura e a visão autoritária e aparelhada que acompanha o projeto de criação do conselho federal do ofício é mera coincidência. Quando uma iniciativa de Lula, associado à Fenaj, guarda semelhanças retóricas com o palavrório dos censores, algo de ruim está acontecendo.

O projeto enviado por Lula ao Congresso ficará alguns anos na gaveta, rosnando. É um documento pedestre, mal intencionado. Na exposição de motivos o ministro Ricardo Berzoini diz o seguinte: "A sociedade tem o direito à informação prestada com qualidade, correção e precisão, baseada em apuração ética dos fatos." Sabendo-se que em 1968, durante a reunião em que se decidiu baixar o Ato Institucional n 5, louvou-se 19 vezes a democracia e condenou-se 13 vezes a ditadura, pode-se perceber como palavras bonitas ("qualidade, correção e precisão"), escondem o bornal do controle ("disciplina", "advertência", "censura", "suspensão", "cassação").

O projeto confunde deliberadamente um elemento essencial à profissão (a correção e o zelo pela precisão da notícia) com uma obrigação legal submetida à fiscalização, ao julgamento e à disciplina de um braço sindical sustentado pelo confisco de uma parte da renda dos profissionais.

A imprensa tem horror à fiscalização


Depois de se dizer tudo isso contra o projeto, pode-se argumentar que os jornalistas querem publicar grampos telefônicos obtidos ilegalmente, violar o sigilo bancário dos outros, defender o controle externo dos poderes alheios e escrever mentiras. Quando se fala em fiscalizá-los, esperneiam, cantam a "Marselhesa" e se escondem debaixo da alegoria da liberdade de imprensa. Quem achar assim estará muito mais certo do que errado.

O pior é que essa pessoa pode achar mais. Ela pode achar que há órgãos de imprensa que vendem reportagens, entregando-as aos leitores como se fossem produto daquela tal atividade protegida pela Constituição. Pode também suspeitar que os governos federal, estaduais e municipais gastam o dinheiro da patuléia e das empresas estatais com publicidade geralmente associada à simpatia do noticiário. Pode amaldiçoar jornalistas que escrevem belezas sobre eventos aos quais foram convidados a custo zero. São as chamadas "bocas-livres". Em suma: há corrupção, e muita, na imprensa. Essas práticas não atingem a todos os jornais, revistas e emissoras, mas as maracutaias do mundo das comunicações são menos noticiadas no Brasil do que pedofilia de padre no Observatore Romano.

A imprensa brasileira precisa de algum tipo de fiscalização crítica independente. Uma forma simples, pública e bem-sucedida de fiscalização é a figura do ombudsman, adotada em 1989 pela "Folha de S. Paulo". Depois de passar por memoráveis vexames, o "New York Times" criou o seu ombudsman no ano passado. Pode-se achar que é pouco.

Devem existir instâncias de fiscalização além do Poder Judiciário? Para médicos, advogados e arquitetos, elas existem.

Essas instâncias devem se misturar com o Estado ou devem se confinar ao universo do prestígio profissional? De um lado ficam os conselhos como o que Lula quer criar. São organismos de alistamento e arrecadação compulsória. De outro, entidades como as associações de jornais, revistas ou emissoras. Como as instâncias fiscalizadoras dos agrupamentos patronais freqüentemente não fiscalizam coisa alguma, a bola poderia rolar para a Associação Brasileira de Imprensa?

Essas são questões a respeito das quais cada um deve formar a sua opinião, pronto para mudá-la a cada duas semanas. Debate bonito é assim.

Notícia e verdade não são a mesma coisa

Vale voltar às duas primeiras afirmativas lá de cima. Pode-se sustentar que o Código de Ética dos jornalistas e o Manual de Censura do general dizem coisas parecidas porque dizem coisas verdadeiras. É aí que mora o perigo. Toda vez que se fala em notícias necessariamente precisas, verdadeiras, seguras e claras, o que se quer é embaralhar o debate. Coisa do tipo enquanto-houver-fome-não-haverá-democracia.

A confusão entre notícia e verdade é uma falácia. Ela foi desmontada há quase um século por Walter Lippmann, um dos maiores jornalistas do seu tempo:

"Quem acredita que notícia e verdade são duas palavras que designam a mesma coisa, não vai a lugar algum. A função da notícia é sinalizar um acontecimento. A função da verdade é trazer à luz fatos ocultos, formando um quadro da realidade dentro do qual as pessoas possam agir. (?) Nós não entendemos a natureza limitada das notícias e a complexidade ilimitada da sociedade; nós superestimamos nossa capacidade de resistir, nosso espírito público e nossa competência." Ele se divertiu lembrando que os cidadãos pagam bom dinheiro pelos seus lugares no teatro e pelas passagens de trem, mas querem comprar a verdade, todos os dias, pagando com a menor moeda em circulação (Em 1921 os jornais custavam um centavo de dólar).

"Precisas e corretas" mistificações


Em 1964 num memorável julgamento da Suprema Corte dos Estados Unidos, o juiz William Brennan Jr. redigiu a sentença que assegura à imprensa americana o direito de cometer erros factuais no noticiário relacionado com personalidades públicas. Brennan sustentou que se os jornalistas forem colocados debaixo do medo de punições legais caso não contem histórias "precisas e corretas", quem perde é a sociedade, por ficar menos informada. Nada a ver com licença para mentir. O jornalista obriga-se a demonstrar que não sabia da falsidade da notícia e que não agiu como se pouco lhe importasse o fato de ela ser verdadeira ou falsa. Se alguém acha que a Corte Suprema é leniente com a imprensa, vale informar que, pelos seus critérios, algumas dezenas de jornalistas brasileiros teriam passado pela cadeia por conta da publicação de grampos. As casas impressoras ou transmissoras onde trabalhavam teriam corrido o risco de falir.

O comissariado que produziu o projeto de LulaPress promete ao público um regime de informações "precisas e corretas", sabendo que esse tipo de doce não existe. Às vezes essa empulhação parte dos jornalistas. Outras vezes parte daqueles que pretendem controlar os jornalistas. Em todos casos, o que se quer é empulhar a patuléia.

10 agosto 2004

se não ficou bem...

...é porque ainda não é o fim. na vida, aprendi, tudo se resolve. antigamente, meu lema era "calma, tranqüilidade e cara-de-pau". nada mais útil. hoje, penso em termos de "calma, respiração e cara-de-pau". embora ainda não tenha me decidido pela mudança, atesto e dou fé na eficácia. ajuda mesmo. impressionante.

outro dia vi o michael moore novo. gostei mas me fez mal. hoje o ali kamel veio descascando o diretor, acusando de manipular informações e fatos, de forma a desmoralizar o bushinho. pode ser, mas tem coisa melhor do que falar mal dos outros? e pelas costas, ainda por cima? gostei mesmo.

quer dizer então que só um os poderosos podem mentir e omitir? a direita hidrófoba e os conglomerados de comunicação pintam e bordam, os anunciantes pautam escaradamente e sem vaselina, e que a "cobertura isenta" funciona na base do "aos amigos, tudo, aos inimigos, justiça". agora, porque o "outro lado" tem que ser arauto do factual, a vestal da pureza e da verdade imaculada?

a informação virou moeda corrente, e a luta por sua posse, uma guerra. das sujas. então, meus caros, já que o clima é de vale-tudo, então fiat lux. a verdade é uma abstração, e quem chegar primeiro, leva.

viva michael moore, viva a especulação, o boato e a fofoca. chega de engolir tudo o que te falam, espalhem vocês também as boas novas e a epidemia. como diz o povo do cmi (linque ao lado) parafraseando o jello biafra, "odeia a mídia? torne-se a mídia".

(cara, acho que escolhi a profissão errada...)

...

só para concluir: fiz o teste do dude (águas claras, linque ao lado) e deu o seguinte (e não é que há alguma semelhança com as sandices bostejadas acima?):

Morpheus
Morpheus


Which Of The Greek Gods Are You ?
brought to you by Quizilla

"i give you everything i got for a little peace of mind"...

tempos estranhos, tempos instáveis, tempestuosos...
a força para me manter firme ao timão (não, não sou corinthiano, e para mim, o grande time será sempre o glorioso) drena a disposição de bostejar.
aguardem, em muito breve, definições e mudança de ânimo.

juro que não serei mais tão enigmático, também.

jundas.

02 agosto 2004

pimenta no orkut dos outros

estou no orkut. mantenho-o razoavelmente atualizado, pertenço a comunidades interessantes e engraçadas, e até coloquei algumas fotos nesse último finde.

mas admito que tem que ter um saco de jó para freqüentá-lo. e descobri que, quanto maior a comunidade, menos saco eu tenho para ler as mensagens. às vezes são mais de 100 respostas muito parecidas, sobre um assunto completamente bobo. é uma perda de tempo enorme.

cheguei à conclusão de que só vale a pena participar dos grupos sobre assuntos que me interessam muito, e sobre os quais há a possibilidade de conseguir informações novas. de resto, vou reduzir o número de comunidades drasticamente.

já tenho amigos suficientes. os antigos, com exceção de um ou outro, provavelmente causarão mais constrangimentos do que alegria. além do mais, estou um pouco preocupado com o excesso de exposição. acho que já a tenho em demasia aqui com o borduna!...imagina no outro, em que botei uma descrição detalhada, ainda por cima com fotos!

por isso que não deixo de me solidariezar com o arnaldo bloch, em sua coluna deste sábado passado. fiquem aí com o texto:

Orkut na reta

O Orkut, "site de relacionamentos" do Google, ainda não era a coqueluche que é hoje (com um milhão de usuários, metade deles no Brasil) quando Lia, amiga minha, contou a novidade, numa noitada no Baixo Gávea.

- Gente, é um clube na internet onde várias coisas legais acontecem.

Fiquei curiosíssimo.

- E como faz para entrar no Orkut, Lia?

- Ah, você tem que ser convidado por um amigo. Ou uma amiga.

O jornalista galês (personagem que ora e vez dá as caras nos botecos) interveio.

- Esto é uma fôrma de ecsclusáo !

- Exclusão nada. Tá todo mundo entrando. Todo mundo convidando ? reagiu Lia.

E virou-se para mim, provocante:

- Quer ser meu amigo no Orkut?

- Que isso, Lia. Estou comprometido. Fechei meu botequim.

- Que isso digo eu, Arnaldo. O Orkut é um mundo eletrônico.

- Ah, se é eletrônico tudo bem.

No dia seguinte, recebi um e-mail de Lia me convidando para entrar. Fui conferir e entrei. O Orkut começou a me fazer um montão de perguntas. Tipo: você é mais de sol ou de lua? Gosta de cinema ou teatro? Considera-se um sujeito engraçado, burro, tímido, idiota ou alternativo? É pan, metro, hetero, bi, retro?

Fui respondendo. Depois, descobri que havia um sistema classificatório, no qual você dá estrelinhas para as pessoas. E decide se vão ser suas amigas. E tem foto dos amigos tipo galeria de revista de celebridades.

Então a Lia veio ao meu terminal:

- Aí, Arnaldo, dá estrela pra mim!

Obedeci. Dei estrela para a Lia. Exausto, desliguei o computador.

Foi a última vez que entrei no Orkut.

Mas, a partir daquele dia, os convites começaram a se multiplicar. Quase todo mundo que eu conhecia me convidava para ser seu amigo no Orkut. Inclusive gente legal, inteligente, cheia de conteúdo.

E comecei a ouvir umas conversas estranhas, o pessoal contando vantagem.

- Entupiram meu Orkut de estrelas!

- Ah, mas eu já tenho 60 amigos.

Rapaziada, aquilo começou a me irritar, me irritar... e descambei a falar mal do Orkut pra todo mundo, a encarnar na Lia e nos que me convidavam, inventar gracinhas do gênero ?o que o Orkut tem a ver com as calças??

Aí as pessoas me atacaram: ih, Arnaldo, que mau-humor. Cara chato. Ficando velho.

Lia ainda tentou me convencer a voltar, dizendo que o Orkut é ótimo pra você encontrar pessoas que não vê há décadas, amigos de infância, gente do maternal.

- Mas Lia, quem disse que eu quero rever meus amiguinhos de um ano de idade?

- Qual o problema?

- Coisa chata. Daqui a pouco vou estar formando grupos de ex-amiguinhos de um ano de idade. Prefiro encontrar as pessoas que tiver que encontrar por acaso, na rua. Isso já dá bastante trabalho, entre boas surpresas e grandes decepções e aluguéis.

- Velho - disparou Lia.

- Chata - reagi.

Como vingança, postei um comentário no meu blog. Um curto manifesto anti-Orkut.

Nele eu dizia (e redigo e amplio), que o Orkut é um micromundinho frívolo e vazio que repete o universo da rede num sistema de pirâmide que multiplica seus membros à medida que todos querem ter amigos, ganhar estrelas, fazer parte de grupinhos de interesse e reencontrar coleguinhas de infância.

Uma leitora disse que Orkut é meio bobo mesmo, mas é uma forma de fugir da solidão nesse mundo desumanizado.

Eu respondi que ela corria o risco de ficar presa do outro lado do espelho (ver o "Buraco do espelho", de Arnaldo Antunes.)

Numa apresentação aqui no jornal para colegas que fazem parte do Calandra 2004, um programa de aperfeiçoamento profissional, repeti minhas críticas. E, mudando de assunto, contei um episódio sobre a implicância de uns amigos por eu ter confessado, numa crônica, que fiz pilates (temporariamene).

- Pra vocês verem... tem gente que tem o maior preconceito contra pilates.

A Glauce, colega minha aqui do Caderno Boa Viagem, pediu a palavra.

- Pois é, e tem gente que tem preconceito contra o Orkut.

Silêncio no auditório. Precisei de uns segundos para me reestruturar.

- É verdade, há um certo preconceito. Desconfio dessas manias animadinhas que pegam todo mundo num roldão.

Glauce replicou.

- Você leva muito a sério. O Orkut não é tão sério assim.

- Talvez não seja para você, mas há uma horda de aficionados. Orkut é sintoma de uma época estranha, em que pessoas falam como robôs em telefones e dizem que "vão estar enviando", em que amigos se reúnem para caminhar sobre tabuleiros vivos testando conhecimentos gerais, em que tudo é meio game , em que a galera alternativa vibra atropelando criancinhas na pele de bandido eletrônico, em que os amiguinhos se reencontram em praças imaginárias em shoppings virtuais.

O pessoal do Calandra deve ter achado que estava diante de um maníaco da teoria da conspiração. É o preço de zoar do Orkut...

só para fãs do charlie brown jr.

não conheço quase nada da banda, exceto que eles fazem um esporro desgraçado. mas isso não nos impediu (eu e a tatipiv) de descobrirmos o motivo da agressão do chorão contra o marcelo camelo. ao se encontrarem, o cantor do los hermanos teria, na verdade, elogiado a banda:

- pô, cara, me amarro naquela canção de vocês, "papo seu reto".

...

pano rápido.

26 julho 2004

Cenas do cotidiano a dois

interlúdio.

manhã de inverno. "ele" está no quarto, aprontando-se para o trabalho. "ela", está na cama, depois de ter virado a noite de plantão.


ele (falando do banheiro, já meia hora atrasado para ao trabalho) - Ei, amor! Sabe que eu tive uma idéia genial?

ela espera interessada, como se ele fosse anunciar a cura para os males da humanidade.

ele (radiante) - Vou começar a fazer a barba de noite!...

ela (rindo muito) - Ué, Fofo, mas a sua barba não cresce durante à noite?

ele - Cresce, mas como as lâminas que eu uso são geralmente uma porcaria mesmo, ninguém vai notar se eu fiz hoje ou ontem. E além do mais, isso vai me dar mais tempo para dormir com você...


...

morra de inveja, truffaut!

*Update*
num rasgo de sabedoria zen, ele resolve deixar a barba crescer...

...lá vou eu de novo, como um tolo...

mais uma vez, como na canção, estou movendo mundos e (poucos) fundos, para morar junto. de novo.

dessa vez (de novo), o céu está claro e sem nuvens. no entanto, diferente de antes, não há sequer sinal de precipitação no horizonte. como se diz no jargão aeronáutico, "céu de brigadeiro". ou seja, uma beleza.

stay tuned, folks! em breve, novas previsões metereológicas.

...

no segmento de minha trajetória cigana, abandonei o lar do casal de amigos que me aturarou por quase um ano, para aninhar-me nos braços da minha cara-metade (cafonalha geral, perdão).

adeus, laranjeiras, não chore, nosso caso de amor está apenas começando. alô, comunidade de botafogo! preparem a área que eu tô chegando com tudo! alô tereza, seremos vizinhos!

segundo um recente cálculo, desde que saí do lar materno, na gávea, há sete anos, esse é o quinto bairro em que morarei. nada mal. por ordem cronológica, passei pelo humaitá, jardim botânico, tijuca, laranjeiras, e agora, botafogo. todos moram no meu coração, e de todos guardo boas recordações. até da tijuca.

descontando os percalços, a vida até que tem sido boa para mim.

24 julho 2004

reflexões musicais ranzinzas

outro dia - antes dos acontecimentos fatídicos de anteontem - na sala contígua à minha, no escritório em que trabalho, botaram imagine para tocar. aí, ouvi alguém de lá comentando:

"esse cara não precisava ter feito nada, só essa música já bastava, né?"

apesar da pena que uma ignorância de tal magnitude deixa transparecer (de beatles, você nunca ouviu falar, minha filha?), a asneira soou como uma chicotada.

odeio imagine. como odeio qualquer obra com a pretensão de passar uma "mensagem". ou melhor, em que objetivo de transmiti-la se sobreponha sobre forma e/ou conteúdo. mas, infelizmente, é o caso dessa música. transborda boas intenções, mas é de uma ingenuidade boçal.
(além do mais, todos sabem em que lugar as boas intenções e seus autores costumam ir parar.)

de tão executada, a suposta vitalidade de conteúdo esvaziou-se. ela já deve ter figurado até em publicidade de papel-higiênico. é um pouco o caso de what a wonderful world, cantada pelo louis armstrong. metade dos filmes americanos nas duas últimas décadas usou-a para ilustrar todos os tipos de emoções e situações: nascimento, morte, defloração, bombardeio...

outro caso é aquela canção do carl orff, o fortuna-sei-lá-o-quê, do carmina burana. o único bom uso desta foi em excalibur, do john boorman, na cena da cavalgada de recuperação do rei arthur. foi a primeira vez que a ouvi, e a imagem gravou-se a ferro na cabeça. até hoje, quando a ouço, visualizo a cena.
(essa é a nossa dica de cinema da semana.)

mas, voltando ao imagine, um dos agravantes que ma fazem detestá-la é saber que tem uma grande possibilidade da japa-vodu yoko ono ter metido o bedelho lá.

o fato é que os grandes não buscaram passar nada. vá achar "mensagem" em rubens, velasquez, nelson rodrigues, mozart. o que é mais bonito e representativo de picasso? a série de pinturas das touradas, ou as "imagens da guerra", e guernica? não adianta, "mensagem" é para pouquíssimos, e definitivamente, o nosso "beautiful boy" não figura nesse hall.

23 julho 2004

o blog está de luto

lula, luiz fernando para a imprensa, meu amigo, foi mais uma vítima da boçalidade do governo, do egoísmo e da corrupção das autoridades, que tem na violência apenas sua face mais óbvia e cruel.

tô colocando esse meu amigo na conta de vocês, rosinha e garotinho. um dia vocês hão de pagar, podem ter certeza.

no que depender de mim, vocês e sua corja de vendilhões do templo, de parasitas sanguessugas, serão varridos para fora da MINHA CIDADE e do MEU ESTADO.

deixando a raiva de lado, reproduzo a carta publicada n'o dia, que a marcia, mãe dele, minha ex-professora de faculdade, escreveu, depois de tudo. dói.

'Sua imprudência? Ter sido solidário'
A mãe de Luiz Fernando, a psicóloga Márcia Lopes Caldeira, escreveu a carta abaixo quando soube da morte do filho.

Tiro de repente....

De manhã, a brincadeira...

Você hoje caprichou... tão arrumado!

-
É que vou visitar clientes, tenho que ir mais bonito!

Tudo porque pro Luiz Fernando, o bom é trabalhar na oficina, andar com roupa manchada, bem à vontade, desarrumado até...

E isso é sempre motivo de queixa e reclamação. Mas ele é assim. Adora seu trabalho, mexer com madeiras, plásticos, acrílicos, escalar, acampar, estar com a namorada, encontrar amigos. Fazer churrasco. Tudo é motivo.

Aí, ao meio-dia, o telefone toca e meu filho mais velho diz, segurando o choro: "Mãe, o Luiz sofreu um acidente. Ele levou um tiro. Foi nas costas, mas ele está bem. Está com todos os movimentos, falando".

Um susto. Pensar o que fazer e como fazer. Falar com amigos que podem ajudar. Avisar à irmã em Brasília - ela deve vir? - , aos avós, aos tios, aos amigos. Será verdade que ele está bem?

E, assim, tão de repente, já o vejo em coma. Sei, pressinto que é sério. Cinco horas de cirurgia. Saiu do centro cirúrgico.

Chega o médico. "Ele teve uma parada cardíaca". Morreu. Acabou. Deixou de ser o que era. Passou a ser, tão de repente, o impensável, aquilo que não tinha nos acontecido mas que andava perto.

Seu pecado? Sua imprudência? Ter sido solidário.

Ajudou uma senhora que, com seu neto, saíra do banco e estava sendo assaltada.

Assim, tão de repente, acabou. De certa forma, como viveu. Amando o que fazia, aproveitando suas oportunidades, vivendo a vida e... sendo amigo e solidário.

Perdi meu filho. Meus outros filhos, seu irmão menor. Os avós, seu neto. Assim estamos, tão de repente, perplexos. Até quando?

...
só sei que o baixo-astral é foda. vou melhorar em breve...





09 julho 2004

hitler começou assim

deu na edição de hoje do globo e no plantão do site:

08/07/2004 - 11h54m
Crianças com doenças mentais são presas nos EUA, diz jornal
O Globo

WASHINGTON - Uma equipe de investigação do Congresso dos Estados Unidos descobriu que mais de 15 mil crianças com distúrbios psiquiátricos foram indevidamente encarceradas no ano passado no país, porque não havia serviços de atendimento a doentes mentais em suas comunidades. Os dados foram revelados por deputados democratas do Comitê de Reforma do Governo, na primeira pesquisa sobre os centros de detenção juvenis dos EUA. As informações são do jornal "New York Times".

é o capital tentando achar uma solução (final?) para o fardo do contingente não-produtivo que é obrigado, por alguns ultrapassados escrúpulos humanistas, a carregar.

06 julho 2004

contra as asneiras que circulam por aí

quem me acomapanha aqui (?) sabe da ojeriza que tenho a textos "autorais" - do tipo que a gente recebe por email, supostamente assinados por "personalidades" como o millôr, mario quintana, ziraldo, jabor e outros que tais. comigo, eles recebem o mesmo destino das correntes e tudo o mais que vem gritando "urgente" em caixa alta e com pontos de exclamação no subject. sinceramente, nem abro. e posso garantir, até hoje não peguei leptospirose por beber direto da latinha, não fui alvo de um super-vírus de computador, não tive meu celurlar ou cartão de banco clonados, ou grampearam meu telefone.

mas, voltando a essas mensagens, apenas quem nunca sequer ouviu falar nos autores citados podem confundi-los com as indigências semi-analfabetas a eles atribuí­das. o quino já protestou contra, e agora o jabor, na abertura de sua coluna de hoje, bota a boca no trombone. o texto todo é bom, mas em respeito aos leitores (?), só reproduzo as primeiras frases. quem se interessar pelo resto, procure no site do jornal o globo.

Está rolando na internet um texto ridículo sobre “mulheres” atribuído a mim. Sou uma besta, todos o sabem; mas não chego a esse relincho lamentável do asno que o escreveu. Diz coisas como: “A mulher tem um cheirinho gostoso, elas sempre encontram um lugarzinho em nosso ombro...” Uma bosta, atribuída a mim. Toda hora um idiota me copia e joga na rede.

o sacana ainda apresenta uma teoria que estou desenvolvendo há alguns meses, e estava prestes a bostejá-la. o sacana chegou na minha frente, mas foi na veia:

Hoje em dia, as mulheres foram expulsas de seus ninhos de procriação, de sua sexualidade passiva, expectante, e jogadas na obrigação do sexo ativo e masculino. A supergostosa é homem. É um travesti ao contrário. Alguns dizem que os homens erigiram seus poderes e instituições apenas para contrariar os poderes originais bem superiores da mulher.

em breve voltarei ao assunto deste último trecho. evoé!

01 julho 2004

improviso sobre o centro da cidade

uma das coisas que mais me dão prazer é flanar pelo centro da cidade. é bem verdade que me divertia mais quando ia a passeio, mas mesmo agora, como mais um proletário na multidão, tento manter a cabeça acima da manada, e o distanciamento de quem não se locomove apenas por necessidade, com um destino definido a cumprir.

tem dias em que fico sem tostão, e tenho que me contentar com uma refeição de três saquinhos de amendoim a um real. especialmente nessas ocasiões, preencho a hora do almoço no trottoir (meu francês merece a guilhotina), e me deixo levar para o interior de galerias e outros buracos escuros que abundam no centro (sem trocadalho, por favor). dia desses saí sem destino e descobri algumas coisas interessantes:

1) na são josé, em frente a uma farmácia, tem um camelô de dvds e softwares único. rodrigo (ou ricardo) tem os últimos lançamentos: kill bill (xibiu) volume 2, o pornô novo do alexandre frota, o filme da rita cadillac, e uns outros troços que não me lembro. o diferencial é que rodrigo (ou ricardo) faz dois preços (com ou sem a capa do filme), fornece garantia e o celular para reclamações e encomendas. e jura estar sempre no mesmo ponto.

2) na esquina do carmo com a rua sete (de setembro, para os menos íntimos) tem uma banca de jornal exibindo entre várias revistas antigas de mulher pelada, um exemplar palstificado da status da xuxa - a única em que ela aparece nua EM PÊLO. tive a sorte de ter essa revista nas mãos, quando do lançamento, por intermédio de um primo mais velho, que infelizmente já cantou para subir. na época, eu sequer sabia a utilidade de uma mulhwer pelada, mas se tivesse um palpite de que essa revista seria tão disputada hoje, teria guardado uma comigo. ah, o preço? uma bagatela de R$ 300,00. (aliás, para quem se interessa, a cavídeo tem uma das únicas cópias do filme "amor, estranho amor" do walter hugo khoury. para os mais novos, a película mostra uma cena em que a "rainha" demonstra a origem de toda a sua intimidade com os baixinhos. talvez seja a única cópia não recolhida pela xuxa.

3) na saraiva da rua do ouvidor, descobri que desprezo praticamente toda a atual cena musical brasileira. ivete sangalo, adriana calcanhoto, jota quest, maria bethânia, ney matogrosso e a parede, sandy e junior, pitty, sepultura e ana carolina são igualmente chatos pra caralho. até o ed motta anda me enchendo o saco. me dão náuseas as campanhas publicitárias, as promoções, os apelos, as fotos, as temporadas, os clipes, os acústicos, as harmonias, os arranjos, as entrevistas. não ouço rádio. não tenho mtv. não vou a shows. salvo quando viajo no carro da tereza, que às vezes sintoniza numa rádio que só toca música nacional 9algumas boas, até), meu conhecimento musical raras vezes chega aos anos 80. rock nacional? puá! deixei de gostar aos 15 anos, quando era punk. outro dia ouvi o disco da plebe rude, e tive vergonha de ter gostado tanto daquilo. sou obscurantista mesmo, fazer o quê? do pouco que conheço, talvez salve o lenine e os los hermanos, mas não devo conhecer mais de três músicas dos dois juntos.

mas o que isso tem a ver com centro da cidade, mesmo? pelo menos deu a impressão daquelas reflexões que surgem quando se está andando...

26 junho 2004

de jornalista, toda puta tem um pouco...

como bostejei anteriormente, tem uma ocupação que pretendo exercer profissionalmente pelos próximos anos - nada definitivo, (in)felizmente (?) tenho a necessidade vital de não me apegar a nada.

é que existem alguns mitos a respeito de jornalistas, que na minha ignorância e arrogância, pretendo comentar:

1) jornalistas são "urubus", sempre atrás de desgraças e do que há de pior na natureza humana:
correto. dizem que na redação do new york times tem um quadro com os dizeres "bad news, good news". agora, vocês já se perguntaram o por quê? alguém aí no fundo respondeu "porque vende mais?" bingo! as notícias trágicas têm muito mais apelo. faça o teste. se a primeira página trouxer uma manchete sobre a decaptação de uma personalidade do entretenimento num acidente automobilístico, e outra sobre o novo pacote econômico do governo, qual você vai ler primeiro?...somos urubus para satisfazer a SUA curiosidade mórbida.

2) jornalistas são pessoas bem informadas:
sim e não. por cacoete profissional, e por lidar com a reprodução dos fatos em quantidade industrial e velocidade instantânea, jornalistas carregam uma quantidade de informação ao suportável por qualquer outro mortal sadio. mas jornalistas não sabem tudo. na verdade, eles conhecem gente que sabe. no máximo, descobrem mais rapidamente onde procurar. no resto do tempo, estão blefando.

3) jornalistas são "vendidos":
correto. como qualquer profissional com necessidade de alimentar-se três vezes ao dia, os jornalistas fazem tudo por dinheiro. principalmente porque em geral, ganham mal. muito mal para o volume de trabalho. pergunte ao jornalista do seu lado quantos fins-de-semana ele tem de descanso por ano. no geral, somos como médicos. horário estabelecido inexistente, plantões nos finde, poucas folgas e - guardando as devidas proporções - a mesma responsa. duvida? um fato errado pode arruinar a vida de uma pessoa, provocar a sua demissão sumária, ou, na melhor das hipóteses, gerar uma enxurrada de emails, cartas e telefonemas com reclamações. estamos sempre no fio da navalha.

4) por dinheiro, jornalistas fazem coisas que até as putas recusam:
essa segue a linha de raciocínio da resposta acima. descontando todo o blábláblá ético, como qualquer outro profissional liberal, o jornalista tem que se submeter aos caprichos do patrão, se quiser continuar tendo uma cadeira onde pendurar o paletó todos os dias. ou isso ou é passar no departamento pessoal. amiguinhos, você que é postulante ao mundo das "pretinhas", saiba que a única liberdade que existe no jornalismo é a "de empresa". e parcialidade é a casa do cacete. o que não configura rima e tampouco, solução. portanto, vou botar as coisas por meio de uma parábola, que acredito ser do conhecimento de todo "coleguinha" que esquentou cadeira numa universidade por pelo menos um semestre:

reza a lenda que alcindo guanabara, deputado, senador, nome de rua, e um dos maiores jornalistas da história da imprensa nacional, ao ser convocado para escrever um editorial sobre jesus cristo, em função do natal, não titubeia e lasca a pergunta ao editor, do alto de suas polainas: "contra ou a favor, chefia?"
* * * * * *
preciso dizer mais? é por isso que eu amo essa profissão.

25 junho 2004

de volta das trevas...

...que nem foram tão negras assim. basta apenas um pouco de desorganização para, como diz o ditado, o lado mais fraco da corda arrebentar. infelizmente, o lado mais fraco é esse mesmo. mais juro pela sua mãe mortinha embaixo de um boeing onomatopáico de uma bola de tênis quicando sobre os ovos de um político do interior daquela obscura província no lado norte da região mais escarpada do deserto de gobi destruída pelo repentino estouro de uma tempestade subtropical graças ao efeito do desenrolar da trompa de uma borboleta que ficou presa na gosma pegajosa de uma planta carnívora mimetizada em orquídea ao tentar sugar seu suposto néctar, que não deixo mais de escrever.

depois disso tudo, alguém na platéia teria a audácia de duvidar da minha palavra?

bom, quem lê a tatipiv, sabe que passei um tempo nos estadozunidos por uns três quatro dias, a trabalho. pois é, rapaziada, vale do silício (ou do silicone, numa tradução mais apressada e distraída), o coração do cérebro tecnológico do ocidente. san jose, californification. de um lado, adobe, do outro, a cisco systems. ei, não é a sun ali? acho que o presidente da oracle acabou de acenar para mim daquele jaguar...fui super bem-tratado, bem-hospedado, tudo muito bacana, etcetera e tal, mas a quem interessar possa, é o seguinte:

1. as americanas não chegam perto das brasileiras. são na sua maioria obesas mórbidas com uma vozes finíssimas, como se fossem a minnie mouse nos seus dias mais afetados. aliás, esqueça os corpos sarados que você vê nos filmes, de homens e mulheres: se o resto do mundo comesse como os americanos, não só não haveria alimento suficiente para todos, como passaríamos a complementar as necessidades calóricas diárias com alguns vietnamitas e africanos.

2. são quase todos neuróticos (como diria o obelix) e paranóicos. leis, em geral, não são coisas boas, mas nunca vi um povo tão motivado em criar obstáculos à própria felicidade. às vezes, achava que uma camisa-de-força deveria ser mais confortável que, por exemplo, o esquema "não-fumar-dentro-de-nenhum-estabelecimento-não-beber-fora-de-nenhum-estabelecimento". o saco de papel pardo que se vê no cinema é apenas para TRANSPORTAR bebidas, e não dá o direito de consumí-las em public places.

3. todos reclamam que o café consumido lá é um lixo, mas se conformam e o consomem mesmo assim. a starbucks deveria dar junto com o café (?) um atestado de panaca.

4. todos os empregados de bar, faxineiros, lixeiros e trabalhadores de baixo extrato social são latinos (pelo menos na califórnia).

5. dica fundamental: em qualquer país, procure conversar com taxistas, vagabundos, garis e demais categorias profissionais mencionadas acima. eles são experts em ciências aplicadas - economia, sociologia, política, etc. - e sabem direitinho explicar quando a barra pesa. dois dos momentos mais emocionantes da viagem foi conversar com um ex-presidiário (san quentin) na condicional (o cara me mostrou a carterinha), enquanto bebíamos (ilegalmente!) do lado de fora de um seven eleven; e com três malucos que protestavam contra a ocupação do iraque numa esquina no meio de lugar nenhum. eles disseram que eu e meus amigos fomos os primeiros a parar para bater papo, em mais de um ano em que eles batem ponto ali.

com o tempo vou contando mais. aguardem. ou escolham outra página.

08 junho 2004

revisitando alfarrábios (I)

pensei em bostejar uns artigos antigos que escrevi para a falecida "Geração". era um projeto louco e ambicioso (sinônimos?) de duas meninas, a joana e a antônia, de publicar uma revista com a proposta inicial de ser uma espécie de time out carioca, mas que depois acabou se tornando uma salada de estilos, um bricabraque da geração gente-bem (a expressão denuncia a idade) carioca do ano 2000.

infelizmente, como é o destino de toda publicação independente, pouco depois de um ano - a primeira edição veio ao mundo em outubro de 2000 - ela foi para o buraco. não sem antes ter tido o seu derradeiro número encartado na edição para assinantes do jb, em um remoto sábado de 2002. foi bom enquanto durou.

nunca pude avaliar o barulho que fizemos (se é que fizemos algum), mas a história rendeu para as duas editoras uma seção na revista de domingo do mesmo jornal - depois assinada apenas pela antônia. foi bonito, amador e anárquico. eu escrevia uma coluna que se pretendia de política, mas não de partidarismo, e sim, voltada para apresentar uma "política do cotidiano". a idéia era mostrar como os assuntos da cidade diziam respeito a todos, e o que os jovens poderiam fazer para mudar as coisas ao seu redor. ou seja, uma puta pretensão. no decorrer do tempo, minhas boas intenções naufragaram no emaranhado que estava se tornando minha vida, e acabei tentando um pouco de tudo.

o primeiro texto que apresentei, ainda muito "durão" (mas que me habilitou a entrar para o "staff"), foi sobre o 27o aniversário da revolução dos cravos, em portugal. era uma tentativa de transmitir a emoção do primeiro contato com essa história, via capitães de abril, da maria de medeiros. porra!, uma revolução feita com flores, praticamente sem tiros, e embalada por uma canção- na minha humilde opinião - lindíssima, grândola, vila morena! era demais para meu coração insurreto.

infelizmente não trenho mais o texto. mas tenho todos os que saíram publicados. considero uns poucos bons, embora às vezes resvalem num certo pedantismo de quem acha que tem um dever a cumprir. enfim, ninguém é perfeito. vou aos poucos os colocando aqui, para não espantar de vez os poucos leitores. divirtam-se (?).

O Geisel foi meu bicho-papão
Minhas primeiras referências políticas vieram da infância


Até uns anos atrás, eu pensava que a minha consciência política havia nascido depois das dezenas de filmes sobre o Vietnã assistidos na adolescência. Achava então uma injustiça o "sacode" que os comunas amarelos infligiram aos ianques, coitadinhos. Para vocês verem como eu estava por fora.

Muito antes, porém, eu já havia recebido uma valorosa lição. Só me lembrei dela há pouco, numa reunião de família, enquanto se rememoravam os micos de infância. Entre um causo e outro, me perguntaram se eu lembrava do Geisel. "Quem, o presidente?", estranhei, calculando que quando ele governara o país, nos anos 70, eu não passava de um molecote. Era quando minha avó materna morava para lá do Maracanã, num recanto batizado São Francisco Xavier, próxima à segunda estação da Central (a primeira, não mentem os sambas, é a Mangueira).sua casa era o point das festas que reuniam a parentada, e varavam madrugada adentro. Eu, com não mais que cinco anos, acabava sempre dormindo, não raro embaixo da mesa de jantar, protegido por uma toalha que se estendia até o chão.

Meus pais, não querendo me acordar, às vezes me deixavam aos cuidados da Vóca - apelido que todos os netos usam para chamar minha avó. até porque, se tentassem, eu muito provavelmente distribuiria pataços a torto e a direito (hábito que, aliás, ainda cultivo). e quando me levavam para o quarto eu despertava com a a casa vazia e com poucas luzes, o que me levava a crer que havia sido abandonado. Então eu corria para a varanda e, na esperança de ainda encontrá-los, chamava-os aos berros.

Aí, minha tia Cléa - que morava numa casa em frente e sempre ficava para ajudar na arrumação -, preocupada que meu escândalo acordasse todo o bairro, alertava:

- Não grite, porque senão o Geisel vem para levar embora criança que chora!".

A princípio, eu não dava a menor bola e seguia com o concerto, até que ela, muito engenhosa, tirava o telefone do gancho como se houvessem ligado:

- Alô, Geisel? Não, não é daqui que tem criança chorando, não! deve ser em outra casa. Como? Você vem conferir?"

Nesse momento, eu parava de chorar na hora, me pelanndo de medo do tal "geisel", que eu não sabia se era homem, bicho ou assombração (talvez, para minha tia Cléa, apolítica até a raiz do cabelo, ele devia ser um pouco dos três).

O general Ernesto Geisel chegou à presidência em 74, um ano depois do meu nascimento. Foi ele quem começou a desmontar o aparelho ditatorial, através de uma distensão "lenta, gradual e segura". Não era dos piores, comparado aos seus antecessores, Costa e Silva e, principalmente, Médici. O primeiro foi o responsável pela assinatura do AI-5, em 68, quando foram rasgados os últimos "escrúpulos de consciência", e passou-se a prender, torturar e sumir com gente, em nome da segurança nacional. No ano seguinte, o outro assumiria o botequim, e não faria feio - ou melhor, bonito. Aniquilou o que restava de resistência (armada ou não) na base do chumbo quente. E saturou o povo com slogans ("Brasil, ame-o ou deixe-o") e canções como "Pra Frente, Brasil", até hoje reconhecida por qualquer torcedor de futebol.

Minha tia até poderia estar enganada, mas certamente estava escaldada. Ao invocar o presidente para me calar, talvez se lembrasse das histórias ouvidas na surdina, sobre pessoas desaparecidas. Ou, quem sabe, viessem à memória as marcas das borrachadas recebidas pelo irmão da minha mãe, apenas por ter tido a infeliz idéia de e passar perto de um soldado a cavalo, para ver de perto um tumulto na Cinelândia. Ou ainda, a história do vôo rasante que minha avó deu para dentro de uma loja, enquanto baixavam as portas de ferro para protegerem-se do gás lacrimogêneo usado para dispersar uma manifestação.

Foi através de relatos de testemunhas assim, sem qualquer formação política, que passei a sempre duvidar das versões oficiais. Pode ter sido essa origem da busca quixotesca que empreendo a caminho dos fatos, e que acabou me levando ao jornalismo. O resto, meus caros, é História...

03 junho 2004

enquanto isso, no torrão ao norte do rio bravo...

digam aí se as coisas não parecem ser assim mesmo...

But you can reach the top of your profession
If you become the leader of the land
For murder is the sport of the elected
And you don't need to lift a finger of your hand


Murder by numbres - The Police (com sting em pessoa em versão ao vivo do frank zappa)

salto de che guevara a jorge ben

ainda não vi o filme do waltinho salles sobre o che, mas desde o ano passado já havia lido "mi primer gran viaje", os diários que inspiraram o cineasta.

pensei em botar a letra da bela "hasta siempre, comandante che guevara". não sei se toca no filme, mas é tão linda que deveria, nem que fosse nos créditos finais. não sei quem a compôs, mas tenho duas versões: uma da soledad bravo, e outra do compay segundo.

em vez disso, escutei "o circo chegou", do jorge ben. tentem visualizar as situações e os personagens:

O circo chegou - Jorge Ben

O circo chegou, vamos "todo" até lá
Olha que o circo chegou, não custa nada você ir até lá
O circo é alegria de viver,
O circo é a alegria que você precisa conhecer

Tem um macaco cientista
Um urubu que toca flauta e violão
Uma orquestra de sapo
A cabra ciclista e a girafa seresteira

Tem um anão gigante,
A mulher barbada e o homem-avestruz
Tem o homem-foguete
que entra em órbita a qualquer hora

E quando você menos espera - suspense! -
O leão foge da jaula
Mas calma, minha gente que o leão é sem dente
calma, minha gente que o leão é sem dente

Um mágico que engole espada e come fogo,
Vira elefante, sai voando
Vinda diretamente de Paris uma linda, sexy bailarina
Dançando ao som da escaldante banda do Seu Tião Brilhantina

E quando não está roubando mulher, aparece o palhaço Tereré
Distribuindo goiabada e requeijão
E ingressos pra domingo que vem
E anunciando a grande atração:

A grande atração é uma grande vidente
Uma grande vidente, que tudo sabe, que tudo vê, que tudo sente
E agora, com vocês, a grande cartomante, a internacional Deise,
A mulher do homem que come raio laser

O circo chegou vamos "todo" até lá
Banacuca Cungungum, o palhaço que é ladrão de mulher

coisas que vou começar/retomar

a culpa pelo adiamento de uma série de coisas era atribuída ao mestrado. findo o problema, vamos à lista de tarefas:

- voltar a desenhar;
- aquarelar;
- xilogravar;
- retomar o sufi;
- tocar o projeto das camisas;
- reencontrar os amigos (joão, paulito, pedro, cabeção, daniel etc.);
- pegar um sol, para variar;
- nadar;
- comprar um dvd pro computador;
- ler asimov;
- bertrand russel;
-aldous huxley;
- salinger;
- os sermões;
- reler os sertões;
- a pedra do reino;
- lord of the flies;
- baixar zappa, muito zappa;
- todo o jorge ben;
- voltar a ser sócio da sala de vídeo do ccbb;
- aprender violão;
- voltar às aulas de caixa-de-guerra;
- achar tempo para tudo isso, e ainda por cima, dormir razoavelmente (coisa que aliás, deveria estar fazendo há horas. entonces, buenas).

02 junho 2004

sir paul e as "dgogas"

eu bem que desconfiava, mas não sabia que era tanto.

PLANTÃO
06/02/2004 - 15h39m
Paul McCartney revela que usou heroína e cocaína
Globo Online

RIO - O ex-beatle Paul McCartney revelou ter tomado heroína e cocaína, no auge do sucesso de sua lendária banda. Em entrevista à revista britânica "Uncut", McCartney disse que não sabia que havia provado heroína. "Não me dei conta de que havia usado. Me deram algo para fumar, e eu fumei. Mas não me afetou em nada", afirmou.Sir Paul disse também ter usado cocaína "por cerca de um ano" mas "nunca se viciou". De acordo com o cantor e compositor, as drogas davam inspiração para muitas canções dos Beatles. "Got to get you into my life", por exemplo, "era sobre maconha, mas ninguém sacou na época", disse ele. Já a música "Day tripper" era sobre ácido lisérgico. O ex-beatle contou ainda ser "bem óbvio" que "Lucy in the sky with diamonds" tratava de LSD. Segundo ele, muitas outras faixas dos Beatles faziam "sutis alusões" a drogas. As informações são do site da "BBC".


*******
"got to get you into my life", é? quem diria?...

back in the high life again

estou de volta, amiguinhos!

como quem lê a tati sabe, passei no mestrado. foi um sufoco danado, mais ou menos como se eu tivesse parido um abacaxi pela coroa. nos três dias que antecederam a defesa, devo ter dormido apenas umas cinco horas, talvez seis. o pior é que só comecei a desacelerar dois dias depois. minha médica disse que vai demorar algum tempo para o organismo se livrar da quantidade de anfetaminas que ainda corre nas minhas veias.

mas o que importa é que vim, vi, caguei no pau, mas venci. a propósito, de onde virá essa expressão "cagar no pau"? respostas para esse endereço.

mais mestre, mais calejado e mais velho. aliás, foi meu aniversário dia 30, preciso mudar o número no canto superior direito da página. mas não comemorei. meu estado de ânimo estava mais murcho que pneu furado, e não via motivos para celebrar enquanto não me livrasse do karma acadêmico. não fiz nada, e sequer contei aos amigos. terei 31 até o fim de maio do ano que vem, ora bolas!, portanto, realmente não tenho pressa de festejá-los.

enfim, amiguinhos, muitas coisas aconteceram, e a lição que tiramos disso tudo é "não deixe as coisas para a última hora, por mais fudido que você esteja", e que "saturno é a casa do caralho!" felizmente, tenho mais trinta anos até o nosso próximo encontro quando ele completará outra órbita completa. até lá, ao contrário de agora, estarei preparado. por enquanto, volto à vida, aos amigos, às "coisas úteis que se pode comprar com dez cruzeiros" (salve, jorge ben!).

16 maio 2004

o melhor presente da minha vida!

com quase duas semanas de antecedência, recebi hoje meu presente de aniversário. nada menos que um cobiçadíssimo (por mim) exemplar de The Real Frank Zappa Book! vocês entenderam? vou repetir:

The Real Frank Zappa Book!



eu namorava esse livro há anos pela amazon. entrava no site e pensava: quando conseguir um cartão de crédito internacional... quando a paridade com o dólar voltar...quando os planetas se alinharem... aí, sim, ninguém me segura.

o tempo passou, até consegui o cartão, mas me esqueci. até que um dia mencionei algo a seu respeito - ou o vimos na rede, sei lá. e hoje, isso! pode haver felicidade maior?

o amor deve ter algo a ver com o prazer de captar os mínimos desejos de quem se gosta, e tentar realizá-los...

15 maio 2004

nou bízis laique chou bízis

pois é, rapaziada, cheguei à conclusão de que nem o crime, nem a vida de jornalista compensam. portanto, resolvi me entregar de corpo e alma ao mundo da farândula audiovisual. como ainda engatinho no ramo (epa!), minha primeira experiência foi bem - como diz a tatipiv - pimba. só teve o visual; faltou verba para o áudio...

tati me contou que "doença de são guido", é como os mais velhos se referem à "coréia de sydenham", que deve ser mais ou menos o que depois se popularizou como "bicho carpinteiro". os sintomas costumam se apresentar como "movimentos descoordenados incessantes dos membros, por vezes imitando os movimentos de um verme".

quando ela era pequena, sua avó dizia que ela e os primos deviam estar acometidos por tal moléstia, já que não conseguiam parar quietos. foi o suficiente para a idéia do nosso...ahrm...mínima metragem...ahrm...científico.

bom, chega de lero-lero. peguem a pipoca e linquem. mas cuidado para não engasgar.

contratos artísticos e convites para animação de aniversários, batizados, velórios e bar-mitzvahs, entrem em contato com meu agente.

Saint William´s Disease

14 maio 2004

"ó maria, como é que me descobriste cá no motel, pá?"

a frase é da piada do português que atende a uma ligação da mulher no celular. usei-a para ilustrar a graça que é verificar pelo conta-giros (esse quadradinho azul do lado direito da página) como é que as pessoas chegaram aqui. segue uma seleção das mais surreais:

opinões contra as touradas

fotos xuxa siliconada na caprichosos

Letra da música Ave Maria cantada por Fafá de Belém

resumo de livros capitão gancho"Peter Pan"

sob a luz polarizada jorge ben
(esse deve ser sangue bom, fã do babulina!)

mas o melhor mesmo, que infelizmente já não aparece desde ontem, era

velhos trepando com adolescentes

definitivamente, eu mereço.

menos é mais

o que também ajuda a salvar a pátria são músicas como little green bag. nem devia botar link para a letra, de tão babaca que é. mas sabe aquelas que tinham tudo para ser imbecis, mas são geniais? como dizia confúcio, "menos é mais".

meio mistura de surf-music com rockabilly, um vocal meio grandioso-galhofa e um suíngue féladaputa (só o baixo no princípio já é de arrepiar). um dia aprendo a linkar as músicas, juro!

ninguém perguntou, mas o autor chama-se george baker, um holandês que fez muito sucesso nos anos 70 (saca só o naipe do sujeito no auge do sucesso), e foi recussitado 20 anos depois pelo tarantino, que usou a citada canção nos créditos iniciais do "cães de aluguel" (que curioso, achei o roteirodo filme).

não sei se já disse isso antes, mas a cena inicial, em que os caras discutem no bar sobre o significado de "like a virgin", pode entrar para a antologia dos melhores diálogos do cinema de todos os tempos.

para não dizer que não falei de flores...

vamos desanuviar esse clima de derrota, nem que seja na base da borduna, valeu? vai um post descaradamente chupado (epa!) do markun. vai lá ver, pô!
já tá meio antiguinho, mas ainda dentro da validade.

terça-feira, 4 de maio de 2004

CUIDADO COM A IRONIA

A ironia é arma letal, mas perigosa, em que o tiro pode sair pela culatra com muita facilidade. Que o diga o ex-prefeito Celso Pitta, preso hoje por desacato na CPI do Banestado. Pitta se deu mal ao tentar aplicar a mesma manobra feita pelo Barão de Itararé para fugir de uma pergunta de um delegado no tempo do Estado Novo e para a qual só lhe davam a opção de sim ou não. O Barão respondeu com outra pergunta - que seu interrogador teria de responder com um sim ou não. E colocou o delegado numa bela sinuca.
A pergunta era: - O senhor continua batendo na sua mulher?
Pitta deve ter assimilado mal a pegadinha. Originalidade nunca foi o forte dele.
Já o Barão era um craque. Elegeu-se vereador no Rio pelo Partido Comunista em 1947 com um lema que era mais do que um trocadilho:

Mais água e mais leite. Mas menos água no leite.

Até morrer, em 1971, aos 76 anos, produziu milhares de frases ácidas, irônicas certeiras. Como estas:

Um bom jornalista é um sujeito que esvazia totalmente a cabeça para o dono do jornal encher nababescamente a barriga.

Negociata é todo bom negócio para o qual não fomos convidados.

Senso de humor é o sentimento que faz você rir daquilo que o deixaria louco de raiva se acontecesse com você.

Neurastenia é doença de gente rica. Pobre neurastênico é malcriado.

Preso várias vezes pela polícia de Vargas,o Barão reencontrou-o numa coletiva de imprensa no Senado - Getúlio senador, ele repórter político. O ex-ditador quis dar uma de esperto e sapecou:

- Até tu, Barão?

Levou o troco na hora:

- Tubarão é o senhor, eu sou o Barão de Itararé.

Itararé, é bom registrar, foi a famosa batalha da guerra do Paraguai, que jamais se consumou. Nela Aparício Torelly inventou uma participação fantasiosa e por causa dela, outorgou a si mesmo o título de Duque de Itararé. Uma semana depois, rebaixou-se para Barão, por modéstia.

Foi o pai da turma do Pasquim e o avô do pessoal do Casseta e Planeta. Estivesse entre nós, ativo, e, com certeza, teria um blog.

enviado por Markun às 19:43:36

faltam cinco dias (tô fudido de verde e amarelo)

não tenho escrito nos últimos dias, é bem verdade. encontro-me numa roda-viva violenta, resultado do acúmulo de coisas que resolveram cair sobre mim todas de uma vez. como diz o ditado (ou não diz, talvez eu o esteja inventando agora): "problema nunca vem desacompanhado". posso afirmar com categoria que aprendi na carne o significado da expressão "estar no bagaço". sinto-me chupado (epa!) na pior acepção do termo. e todo o carinho recebido só tem sido capaz de operar reversões momentâneas no quadro.

às vezes, no fim do dia, a angústia me dá vontade de chorar, arrancar os cabelos ou quebrar tudo. o que salva é a consciência de que a situação foi quase toda causada por mim mesmo, e é localizada no tempo. quarta-feira, metade termina, e no máximo, daqui a duas semanas, a outra metade. é claro que, se antes disso, eu não descer pelo ralo. se eu soubesse, ou acreditasse que adiantaria, rezava.

enquanto isso, vão fazer alguma coisa de interessante. sei lá, lera a tatipiv, o dudu, a ,maffalda (aliás, tirando a parte do cabelo, a depilação e a máquina de lavar louça, eu poderia ter escrito isso), o eudes ou o kibeloco, qualquer coisa. não fiquem muito por aqui, não, que esse meu bode pode ser contagioso. não sei se é impressão minha, mas sinto um certo peso no ar, generalizado, nos últimos dias. espero que sejam sinais de mudança para melhor em breve...

maldito inferno astral. o bom é que este ano terei dois aniversários.

09 maio 2004

guerra de todos contra todos e o estado moderno

a tati (piv, para os íntimos) fez um comentário
ao bostejo anterior que reproduzia um texto do hobbes, autor do leviatã, que faço questão de comentar. mas primeiro, a citação:

"Durante o tempo em que os homens vivem sem um poder comum capaz de os manter a todos em respeito, eles se encontram naquela condição a que se chama guerra; e uma guerra que é de todos os homens contra todos os homens."

bão, o negócio é mais ou menos assim (perdoe-me os historiadores que porventura passarem aqui. meu conhecimento na matéria é absolutamente enciclopêidico): no texto, o hobbes fazia a defesa do estado moderno. é que, depois do domínio da igreja católica durante a idade média, os monarcas absolutos "organizaram" as pessoas ao seu redor sob uma mesma língua, moeda, em um território comum, dando-lhes o nome de "povo". mas gente não é gado para deixar-se levar de um lado para o outro, e até alcançar essa coesão, o rei precisou acabar na marra com as resistências. e para instituir seu poder, precisou de um exército que amedrontasse e punisse os possíveis descontentes. assim, todo o estado moderno se cria sobre a violência e a supressão de grupos menores, em nome de uma "maioria", submetida ao poder por medo ou inércia (procurem o maravilhoso "discurso da servidão voluntária", do etienne de la boétie).

submetendo-se à máquina de violência real, e através de um "contrato social" (responsável pelos princípios regentes da vida em sociedade), as pessoas passam a delegar a terceiros (o rei e a máquina estatal) o poder de decisão sobre suas vontades. é mais ou menos assim, amiguinhos, que eu, você, eles, deixamos um pouco do nosso tesão de vida, para tornarmos algo próximo de legumes sociais, medrosos da lei e dos que não a respeitam, satisfeitos por nos alimentarem com migalhas de entretenimento vez por outra. e assim vamos levando a vida, como laranjas mecânicas (salve, burgess!), apenas esperando a hora de ser colhidos, enquantoacreditamos que somos livres ou que temos vontade própria.

mas, voltando à vaca fria, hobbes defende acima o estado moderno. o estado, para ele, é quem permite a harmonia entre os homens, quem instaura a paz e cessa o estado atávico humano, que é a "guerra de todos contra todos". ora, essa "guerra" era a definição do horror que a multidão, ou a ausência de governo, causavam à nobreza, e mais tarde, à burguesia. a multidão é a multiplicidade das vontades. e como todos sabem, quando todos falam ao mesmo tempo, duas coisas podem acontecer: ou faz-se um ruído abominável, ou se consegue, em algum momento, uma voz em uníssono. mas não há poder, e sim alianças precárias. a multidão é o terror do poder, é chamando-a de "caos" que os poderosos assustam os incautos. o caos é a ausência de ordem, é o processo de tentativa e erro que leva à criação de novidade e ao equilíbrio. não é à toa que os físicos mais eminentes estão voltados para o estudo das "teorias do caos".

a instituição das tecnologias de informação, com os dispositivos de comunicação remota (celular, pager, laptop, palm etc.), possibilitaram a conexão de pessoas e grupos de descontentes ao redor do mundo. é sobre essa essência que se constróem os movimentos erradamente denominados "anti-globalização" - na verdade, muito mais "anti-capitalistas" e "anti-poder". eles constituem uma "multidão inteligente" (vide smart mobs, do rheingold), que consegue estabelecer resistência ao estado sem liderança. da mesma forma organizam-se redes terroristas, e de traficantes (daí a burrice suprema de se chamar o tráfico no rio de "poder paralelo". eles não são poder, não querem o poder. eles são uma rede. tem sua hierarquia, mas não dialogam com o estado nos mesmos termos. o que poucos perceberam é que não é uma luta entre iguais, e sim, assimétrica. o tráfico funciona sob a mesma lógica do capital que as grandes corporações. no pain, no gain. manter as aparências de "contrato social" e "sociedade de bem-estar" é atribuição do estado. ao capital isso não diz nada. ele funciona em outra esfera).

caceta dourada! falei às pampas. se antes poucos liam, agora então...não sei se fez sentido algum, mas foi bom. se escrevi alguma asneira brutal, depois corrijo. hoje é dia das mães e tenho que ver a minha.

sobre a guerra

tendo recomeçado a trabalhar, estando numa firma de segurança de redes, sendo colega de um white hacker de linux que conseguesaber remotamente tudo o que aparece na tela do meu computador, não tenho tido tempo e culhões para bostejar do trabalho. e como pintou uma pequena brecha na minha atarefada agenda (ui!), resolvi derramar uma enxurrada de bobeiras.

depois de tanto se falar nas arbitariedades americanas, apareceram fotos para provar que a guerra é a desculpa perfeita para libertar a boçalidade que alguns (todos?) levam dentro de si. mas na verdade, ao invés de ficar cagando goma humanista, queria mesmo era mostrar duas poesias sobre o assunto; uma, do walt whitman, outra do meu bisavô. reparem como ambas são parecidas...

RECONCILIATION (Walt Whitman)

Word over all, beautiful as the sky,
Beautiful that war and all its deeds of carnage must in time be utterly lost,
That the hands of the sisters Death and Night incessantly softly washed again, and ever again, this soil'd world;
For my enemy is dead, a man divine as myself is dead,
I look where he lies white-faced and still in the coffin - I draw near,
Bend down and touch lightly with my lips the white face in the coffin.


O Beijo de Papai (Eustórgio Wanderley)

Foi no tempo da guerra entre a Rússia potente
e os heróicos nipões, calmos filhos do oriente.
Em torno a Porto Arthur o cerco se apertava
como um cinto de ferro e fogo, que fechava
as portas da cidade a quem, valente, ousasse
por ali penetrar, ou por ali passasse. (...)



08 maio 2004

contagem regressiva

faltam 12 dias.

fragmentos

a expressão "fragmentos" quem inventou foi minha irmã, para se referir a todos os livros que soltam páginas, e às vezes, seções inteiras. isso começou no fim dos anos 80/início dos 90, para designar o estado em que se encontrava minha cópia emprestada d'o exorcista, do william peter blatty. desde então, todo livro que se despedaça é chamado por nosostros de "fragmentos". (um dia bostejo mais sobre ela, minha irmã - uma figuraça ímpar. entre nós, muito do equilíbrio de um depende do outro, e vice-versa. tô te devendo, coisinha...).

mas os fragmentos a que me refiro são pedaços de textos que escrevo em qualquer lugar, e que nunca viram nada além de lembranças de determinados momentos. tão íntimos que não devem fazer sentido a ninguém além de mim. mas, como topei com uns três por agora, enquanto futucava "as catacumbas de papel", resolvi arriscar e bostejar. como monarca absoluto e déspota de mim mesmo, declaro que assim seja:

fragmento 1 - diário de arraial 'dajuda
sexta-feira, 12


depois de uma noite virado (passando roupa, escrevendo, arrumando mala e chateando com a maffalda), tereza passa de táxi às 7h para irmos para o aeroporto. tomamos o avião até são paulo, onde faríamos baldeação. no mesmo vôo, já era possível identificar muitos famosos, inclusive uma grande estrela global, recente heroína de manoel carlos, a quem eu quase atropelei, depois de um giro brusco de 180o na hora do embarque. no segundo avião , assim como no primeiro, bastou o avião decolar (é a hora que mais gosto, seguida das do pouso e do lanche) para que eu chapasse. cheguei em porto seguro um zumbi. depois de tomar uma vã do aeroporto até umas barcas que nos levariam ao hotel, estávamos incógnitos. ambos nervosos com a situação nova, mas mantendo a pose e ostentando uma naturalidade quase blasé. na barca saquei quem deveria ser a diretora de marketing, fui até ela e me apresentei. bingo! ea nos cumprimentou e abraçou a tereza, como nos conhecesse há anos. recepção calorosa. bom, muito bom. já no hotel, nos indicaram o quarto, e depois partimos para o almoço. ótima comida, embora sentisse uma ponta de frustração pelo cardápio não ser típico, pois desde o rio eu salivava ao pensar em acarajés tapiocas, abarás, pimentas e camarões. nos adiantaram todo o material que precisávamos, com uma eficiência que desmentia tudo o que dizem dos baianos. mais tarde foi que descobrimos que quase ninguém dali era baiano.

fragmento 2 - sem título, sem data

a mulher é um ser magnífico demais para ser maltratado. especialmente aquela que a gente gosta. se cada pequeno gesto, mesmo imperceptível para elas, é uma fonte de prazer infinito, o mínimo que se pode fazer é ter como obrigação (ou melhor, tarefa de vida) retribui-los com o máximo de devoção - cobrindo-as de carinhos, mimos, agrados e gentilezas. durante muito tempo enxerguei nas mulheres o objetivo único e primário do sexo. o resto era como se fosse um interlúdio até o próximo intercurso. e como, para conseguir meu quinhão, era preciso tolerá-las, que pelo menos elas fossem agradáveis, e principalmente, interessantes e vivazes. como desperdicei oportunidades de ouro! como deixei escapar gentes maravilhosas. hoje sei que não é nada disso...

fragmento 3 - sem título, sem data

Sou escravo e senhor das ardósias,
molduras vivas de um poente de mel
que irradia do centro da noite.

Talvez a fonte mesma do néctar
de flor em que me afogo
quando soas tua música mais profunda.

fragmento 4 - sem título, data previsível

ontem foi o segundo turno das eleições para presidente, e o lula ganhou de lavada. de noite, eu e gabriela fomos a casa de um casal amigo comemorar a vitória e tomar umas cervejas. estava lá uma amiga, em vésperas de seguir para o méxico - conhecera um mexicano no "encontro das américas" e pensava em morar com ele. depois chegaram grazi, joana e daniel. conversei muito com este, e combinamos para ele aparecer na faculdade na quarta, assistir uma das minhas aulas e participar de uma sessão do laboratório. gosto muito dele. é um cara bastante perspicaz e intiutivo. o papo flui bem, porque ele pega as coisas rápido e desenvolve questões interessantes. todos estávamos muito animados com o lula, e pensei que vivíamos um momento histórico para o país, e que talvez pudesse ser possível contar a história de cada um de nós a partir daquele ponto.

05 maio 2004

ojeriza ao trabalho

realmente, odeio trabalhar. não é figura de linguagem, não; embora reconheça a importante parcela que ele tem na manutenção da minha sanidade e do meu humor. mas não gosto de ver minhas capacidades condicionadas ao recebimento de salário, e nem o corte dele como punição. não sou foca de circo, caso ainda não tenham percebido, para tocar as buzininhas em troca de peixe. o sistema capitalista naturalizou o trabalho (transformou-o em verdade "natural" e inquestionável, como se fosse um fenômeno como a chuva ou o calor), e agora, até as cabeças mais coroadas da esquerda acham que ele é necessário. é preciso superar essa praga.

vejam bem, não sou ingênuo a ponto de propor a todos largar seus empregos e deitar sobre a relva, com um capinzinho no canto da boca. mas é preciso saber o que é esse deus ex-machina. vamos botar o trabalho em perspectiva, porque aí sim, será possível ter real consciência da exploração.

quem estiver com tempo de sobra - ainda não tiver sido cooptado pelo trabalho, ou expelido de sua esfera - pode dar uma olhada no maravilhoso manifesto contra o trabalho, do grupo de teóricos alemães auto-intitulado "krisis", ou procurar os livros do henri david thoreau, como "desobediência civil", e "walden: life in the woods" (esse não sei se tem em português, vale a pena procurar). domenico de masi não gosto tanto. é bem verdade que o li pouco, mas suas considerações não oferecem alternativa ao trabalho, não rompem com sua naturalização.

04 maio 2004

Rodrigo Rato vai assumir o FMI

o fmi finalmente escolhe alguém à sua altura. existe lugar mais apropriado para um rato?

it's alive!

bão, já que estou prestes a sofrer um volume pantagruélico de visitas graças à tatipiv, acho melhor bostejar alguma coisa, antes que a acusem de propaganda enganosa. (é verdade, estamos juntos, e isso basta. quem quiser ver minha carranca, basta ir no fotolog dela (procure lá o endereço, que eu não sei de cor), que tem uma foto nossa no aniversário do dudu.)

entre as coisas boas que vêm acontecido desde que nos conhecemos, uma delas é que consegui esticar o prazo de entrega da minha dissertação ao limite da racionalidade, e voltei a trabalhar - o que só é vantagem, vá lá, pelo lado financeiro. se eu pudesse ("if i had my way", diriam os saxões), baniria para sempre essa palavra dos dicionários. por que não seguimos o exemplo dos índios nossos sábios antepassados? mas não, preferimos ser europeus, judaico-cristãos, imundos, cheios de gripe, cólera, sífilis e escorbuto. antes tivéssemos olhado os lírios do campo, que não teciam nem fiavam, e nem salomão, com toda sua majestade, curtiu tanto. mas não, preferimos acreditar em pecado original e dignificação através do *puá!* trabalho. odeio admitir, mas caetano estava certo: somos uns boçais. que remédio...

mas divago. volto ao tema e ao mercado, atuando numa empresa que distribui uma solução de rede para corporações. o pessoal é ótimo, e o clima, idem. é o que vale. o ritmo de trabalho ainda não apertou, pelo menos até hoje. já amanhã... sei que ninguém perguntou o nome da companhia, e por isso mesmo, poupá-los-ei disso.

tá tarde, tô cheio de coisa pra ler, escrever e preparar para amanhã. a paciência está curta, mas, antes de me despedir de modo tão ríspido e mal-humorado, queria registrar a lisonja e a alegria sentida ao ler o texto da tatipiv sobre mim. por essas e outras que a menina me ganhou...

23 abril 2004

arrumando a casa

troquei alguns linques, mas para aparecer, tem que bostejar um qualquer.

o braga, o mar e o livro

sempre achei difícil responder qual seria o melhor livro que já li. mas hoje, fazendo um balanço, tem um que ganharia por antigüidade. e se está comigo há tanto tempo, é porque tenho um carinho especial por ele. é o "200 crônicas escolhidas", do rubem braga, de uma edição antigona (paroxítona), do círculo do livro. digo com tranqüilidade que é a minha bíblia. braga é lírico sem ser piegas, espirituoso sem ser engraçado, emotivo sem ser dramático. um mestge, enfim.

lembro-me que assim que o vi, logo me fascinaram a cor de leite achocolatado da capa, e os tipos arredondados do nome do autor, em degradé (é assim?) vermelho. um dia, a parentada foi passar o dia no forte do imbuí, em niterói, e enquanto os outros se divertiam correndo pela praia, me atraquei com o livro sob uma amendoeira. me atraquei mesmo, porque a prosa poética era por demais abstrata para uma criança de quê?...nove anos? a briga foi feia, e perdi de lavada. já à tardinha, cansado do baile que o braga me infligiu, fui me distrair vendo uns mergulhadores (que então, por influência do desenho do johnny quest, eu chamava de "homens-rã"), e um baiacu que um amigo pescara. como ele havia engolido o anzol (o peixe, não o amigo), dávamos umas porradas com ele nas pedras, para ver se ele o cuspia. mas, para espanto de todos, ele inflou. o que foi a parte mais emocionante de todo o dia de pescaria. guardo a imagem até hoje.

digo isso porque hoje estava relendo algumas das crônicas para uma pessoa muito querida (é mulher, antes que esse papo de "pessoa" comece a dar margem a especulações sobre minha opção sexual), e por acaso topei com uma em que o "velho urso" fala da emoção de ver o mar pela primeira vez (ele, como o bob carlos, é de cachoeiro do itapemirim), numa excursão que fez, ainda menino, com um grupo de amiguinhos. depois conta de sua juventude passada à beira-mar, pescando, velejando, nadando, ou simplesmente amando sua beleza. no fim do texto ele termina falando com ele, de uma maneira que me encheu de emoção:

Este homem esqueceu, grande mar, muita coisa que aprendeu contigo. Este homem tem andado por aí, ora aflito, ora chateado, dispersivo, fraco, sem paciência, mais corajoso qua audacioso, incapaz de ficar parado e incapaz de fazer qualquer coisa, gastando-se como se gasta um cigarro. Este homem esqueceu muita coisa, mas há muita coisa que ele aprendeu contigo e que não esqueceu, que ficou, obscura e forte, dentro dele, no seu peito. Mar, este homem pode ser um mau filho, mas é teu filho, é um dos teus, e ainda pode comparecer diante de ti, gritando, sem glória, mas sem remorso, como naquela manhã em que ficamos parados, respirando depressa, perante as grandes ondas que arrebentavam - um punhado de meninos vendo pela primeira vez o mar...

Julho, 1938

22 abril 2004

confissão

tô há um tempão sem escrever, basicamente por dois motivos: 1) vivo um período muito bom, de intensa felicidade, como só poderia supor nos meus mais desvairados delírios românticos adolescentes. sem aquela melosidade piegas, mas utilizando todo o bom senso que consegui reunir ao longo desses 30 outonos. estou, pela primeira vez na vida, deixando o coração frouxo, sem que o cérebro o castigue a cada instante. dá uma certa vertigem, mas recomendo a todos. 2) vivo um período muito ruim, de intensa ansiedade, um pesadelo mesmo. confronto contra esqueletos até então sublimados. barra pesada, amiguinhos (será uma prévia do inferno astral que me aguarda em poucos dias?).

o que está bem, está bem; o que me preocupa é o resto. numa tentativa de ser menos vago, direi que o problema é mais ou menos o seguinte: tenho uma transa mal resolvida com autoridade. me amedronta e repugna, mas ao mesmo tempo, é o motor que me tira da inércia. dificilmente produzo sem pressão. com um agravante: amizade é amizade, chefia é chefia. tal água e óleo, não consigo misturá-las sem prejuízo para ambas as partes. tenho buscado alcançar um meio-termo, mas, por enquanto, ou bem estou pagando pelos pecados de adão, ou bem estou no jardim das delícias.

outra coisa é uma estranha mania de me desinteressar por qualquer assunto no exato momento em que ele se torna uma obrigação. foi assim até com o desenho. o período em que cursei a faculdade de belas-artes, foi quando praticamente abandonei as histórias em quadrinhos. desenhava, sim, mas deixei de lado minha verdadeira paixão. depois fui cair na besteira de acreditar na conversa burra e preconceituosa de que tinha que arrumar um emprego de gente grande. afinal, todo mundo sabe que esse negócio de desenhar não vai te levar a lugar nenhum...
mas isso é outra história.

tenho uma auto-crítica insana. e um medo danado de me expor ao julgamento alheio (mas não sou um cara tímido; sou do tipo que, com um pouco de inspiração e algumas latinhas na cabeça, sou capaz de fazer as pedras gargalharem. pensando bem, às vezes, não preciso nem das latinhas...). a possibilidade de críticas, ou de que descubram que não passo de uma farsa – é isso aí, gente fina, a coisa é ruim assim – me paralisa. meu nível de exigência dispara e, mesmo inconsciente, se não for para ser o melhor, prefiro declinar. até os elogios e expectativas positivas soam como cobrança.
bem-aventurados os caras-de-pau, pois deles será o mundo. não é despeito, não. é admiração.

agora misture os igredientes até formar uma massaroca, bata repetidamente na cabeça, e não dê tempo para ela descansar. deu para perceber o drama ou querem que eu desenhe?

isto posto, só me resta tocar um tango argentino, ou manter-me atento e forte, sem medo de temer a morte, porque afinal de contas, tudo é perigoso, tudo é divino maravilhoso.

pensando bem, fico com a segunda opção. i choose life. whatever the cost. que venham os tártaros. tombarei lutando.

16 abril 2004

descoberta feliz

o mundo gira, a lusitana roda, e a corda aperta-se em torno do meu pescoço à medida que o tempo escorre e aproxima-se a data fatídica da minha defesa. descontando-se o fato de que preciso de um milagre urgente, até que o buraco no meu estômago parece estar sob controle.

e ainda encontro tempo para pequenas felicidades! depois de anos, hoje afinal descobri o nome da música que toca no yellow submarine quando uma das criaturas do sea of monsters (a de luvas de box), acende um charuto que depois explode na sua cara. é a "ária na corda sol da suíte orquestral no 3 de bach. no desenho só toca um trechinho rápido, mas como sua beleza ficou impressa em mim.

em face dos últimos acontecimentos (2)

bom, agora que o secretário de segurança provou em brasília que a situação do rio não está fora de controle (sic), que a política de segurança da governadora não está indo pelo ralo, e que, ao que tudo indica, temos mesmo uma política de segurança (sic), muito me tranqüiliza saber que o tráfico na rocinha já tem um substituto para lulu. segundo comentou a "coisinha" no post passado, ele atende pela singela alcunha de zarur.

segundo a fonte, ele disse que vai retomar as operações dentro de um esquema de paz e harmonia com a comunidade. que alívio saber que tudo não passou de um pequeno desajuste comercial, e que a intervenção benéfica do estado ajudou a regularizar as atividades do mercado. e tem gente que ainda é contra o controle do estado sobre a economia!...

só mais um detalhe: para quem não sabe, o zarur original era o alzírio zarur, radialista criador da "ronda da caridade", que em 1962, distribuía sopa para os moradores de rua do rio. a iniciativa, popularmente conhecida como o "sopão do zarur", foi o embrião da legião da boa vontade (lbv). espero que a versão aditivada do zarur honre o bom nome de seu antecessor, e saia pela cidade num "bonde" do bem, servindo à população carioca o "maconhão do zarur", ou o "brizolão do zarur".

15 abril 2004

em face dos últimos acontecimentos

dudu no vidigal, lulu na rocinha; rosinha em laranjeiras, garotinho em brasília... já ouvi falar em banalização da violência, mas que tal imbecilização da violência?

se as principais figuras da cidade ainda não saíram da fase dos apelidos infantilizantes, como esperar alguma seriedade no debate político, ou resolução minimamente decente?

12 abril 2004

exorcizando velhas mágoas

costuma-se dizer que, cicatrizadas pelo tempo, as dores tornam-se risíveis. concordo totalmente. hoje, noves fora, estou por cima novamente, esbanjando felicidade. no entanto, descobri uma pérola do tim maia que me lembrou uma rasteira espetacular que levei em meados de 2000. como se sabe, há poucos com tanta propriedade para cantar dores-de-cotovelo como o tim.

se a conhecesse na época, não me abatia tanto. apesar de ser sobre traição, vale pelo registro do rancor. vamos a ela:

Sofre (Tim Maia)

Não vou mais chorar, mas se eu chorar
Vai ser baixinho pra ninguem me ver
O quanto eu sofro pois amei você
Vou seguir o meu caminho triste
Como antes de te conhecer
Porém marcado, humilhado, magoado, pode crer

Você foi mulher
Se isso é ser mulher
Está enganada, pois não é não
Isso foi pura podridão

Se valeu o sentimento puro e belo que eu tinha por você
Para fazer das suas crueldades e maldades sem perdão

Agora sofre, sofre
Todo o mal que 'cê me fez
Você bem cedo irá pagar
Disse a todo que eu que era o mal
E no entanto foi você quem riu
E quem me fez penar

momento cafajeste

passadas as estripulias de feriado, todos salvos e exangues de tão constante labuta, faço minhas as palavras de raul seixas, no lp (que museu, xará!) de estréia "krig-ha, bandolo!":

Que o meu é doce, é coisa que me nego a afirmar; mas que parece doce, isso eu afirmo plenamente.

08 abril 2004

depois de longa ausência, uma bordunada

maluco! mó tempão que não bostejo. deixei de dar minhas bordunadas porque a vida anda a mil (ou a passos de cágado, dependendo do ponto de vista, mas pressinto mudanças radicais no ar. embora ainda não as saiba para o bem ou mal, escuto o silêncio que antecede o esporro).

mesmo sabendo que "não sou nada, nunca serei nada, não posso querer ser nada" (valeu, álvaro de campos), sou um cara atento. adoro o xexéo desde os tempos do jb, ouço todo dia sua coluna com o cony e o heródoto barbeiro na cbn, mas ultimamente ele tem deixado a desejar...primeiro foi o vacilo de confundir a hilda hist com a lya luft no rádio, na ocasião do falecimento da primeira. e hoje, enquanto eu calmamente folheava o caderno zona sul d’o globo no banheiro, dei de cara com uma coluna do citado coleguinha na matéria de capa, sobre o renascimento dos cineclubes.

estranhei o título de cara: Godard, Hengel, Marx e Truffaut. peralá, Hengel????????? li a coluna. ele conta que, nos primeiros cineclubes, os debates depois dos filmes faziam a cabeça da rapaziada. e fecha com a frase:

Só que as cabeças já chegavam feitas às salas de cinema improvisadas. Não por Marx ou Hengel, mas por Godard e Truffaut.

incrível! qual um dr. frankenstein das ciências humanas, ele fundiu hegel com engels! essa foi a relação teórica mais arrojada que já vi.

ou pode ser que eu esteja fazendo piada da minha própria ignorância. dei uma googada em hengel, e descobri que existe um estudioso alemão chamado martin hengel, autor de uma obra considerada um marco nos estudos sobre o processo de helenização do judaísmo palestino, Judaism and Hellenism, entre outros livros. ok, xexéo, mea culpa, mea maxima culpa...

02 abril 2004

primeiro de abril

ver a polícia carioca prender o suposto asassino do casal de americanos zera todd & michelle staheli rendeu meu primeiro de abril. muito mal contada essa história de "caseiro do vizinho". espero que confirmem a autoria com o material recolhido sob as unhas de uma das vítimas (se é que ele ainda presta), e com o tal reagente que identifica sangue mesmo depois de a arma do crime ter sido lavada. no entanto, a polícia, por via das dúvidas, já deu o caso por encerrado. embora duvide da motivação.

de qualquer forma, ficam duas lições: 1) o pessoal do fbi não possui metade da sagacidade que vemos nos filmes; 2) muito cuidado com quem você chama de "crioulo" daqui para frente.

31 março 2004

e já que falamos em felicidade...

...existe alguma maior do que encontrar dinheiro no bolso das roupas que estão para lavar?

o rei e a felicidade

há mais de uma década, uns amigos meus formaram uma banda chamada rc cover, só com versões de músicas do roberto carlos. foi então que descobri que o legado do já então "índia velha" (manu, amigão, diz que o rei foi o único sujeito que, com a idade, não ficou velho, e sim, velha) era rechado de biscoitos finos.

depois a banda transformou-se em "acabou la tequila", diversificou-se em "matanza", e de lá - pasmem - surgiram o embrião do cordão do boitatá, o cérebro musical de moreno veloso, regina casé & os modernos da tv globo, e o cavaquinho da badalada teresa cristina (leia-se grupo semente).

e foi, ainda nos tempos de rc, que conheci a canção abaixo. que, diga-se de passagem, nunca fez tanto sentido quanto agora. tenho escutado direto uma versão primorosa, cantada por erasmo & tim maia. (aliás, sobre o sentido das músicas, o lobão disse que só entendeu seu verso "nem sempre se vê lágrimas no absurdo", quando ele resolveu não se deixar abater pela derrota do brasil na copa de 98).

Além do Horizonte (Roberto Carlos - Erasmo Carlos)

Além do horizonte deve ter algum lugar bonito
Pra viver em paz
Onde eu possa encontrar a natureza
A alegria, e felicidade, com certeza

Lá, nesse lugar, o amanhecer é lindo
Com flores festejando mais um dia que vem vindo
Onde a gente pode se deitar no campo
Se amar na relva sscutando o canto dos pássaros

Aproveitar a tarde sem pensar na vida
Andar despreocupado sem saber a hora de voltar
Bronzear o corpo todo sem censura
Gozar a liberdade de uma vida sem frescura

Se você não vem comigo tudo isso vai ficar
No horizonte esperando por nós dois
Se você não vem comigo nada disso tem valor
De que vale o paraíso sem amor

Além do horizonte existe um lugar
Bonito e tranquilo pra gente se amar


30 março 2004

as trigêmeas de belleville

the triplets of belleville (arbitrariamente traduzido "as bicicletas de belleville") foi o grande perdedor do oscar de longa de animação deste ano. não chegou a ser uma sacanagem, porque o vencedor, procurando nemo, também é uma obra-prima. mas deu uma pontinha de frustração ver uma produção tão original voltar pra casa de mãos vazias.

meio suspense, meio comédia surrealista, o desenho dirigido por sylvain chomet mistura vaudeville com o tour de france, máfia e jogos de azar, num clima nonsense e animação expresionista e classuda, de qualidade impecável, e praticamente sem diálogos.

há diversas referências divertidas, como uma "ponta" do violonista cigano django reinhardt, uma piada com a marca de queijo francesa la vache qui rit, e sobre as consequências do hábito estadunidense de se empanturrar de junk food, além de um bônus para nós, lusófonos: uma versão impagável de uma casa portuguesa. e por falar em música, a trilha sonora é primorosa, composta quase toda de jazz no estilo "cabaré". o filme também era candidato ao oscar de melhor canção (esse prêmio, sim, roubado).

o filme valeu cada segundo - dos muitos - que esperei para baixá-lo. agora é só esperar a sony tomar vergonha na cara e fazer a distriuição no brazuca. enquanto isso, fique com algumas imagens e um trailer.