tendo finalmente completado a mudança da antiga casa, deparei-me com a tarefa de reduzir uma pilha babilônica de papel aos padrões aceitáveis. esbarrei com antigos trabalhos e anotações do período de faculdade, praticamente todos relacionados à aula de português da conceição - sem sombra de dúvida, a única matéria que justificou os quatro anos de curso. vou bostejar os mais queridos, para azar de quem os ler.
o texto a seguir é fruto da primeira aula, quando ela já entrou de sola, pedindo para que escrevêssemos a seguinte redação: "quem sou eu?". a minha ficou entre as lida em voz alta para a turma, o que me encheu de orgulho e vergonha.
Bom, eu sou esse nome aí no topo da página. Mas às vezes não sou apenas um nome. Sou também adjetivos. Vários. Poderia gastar cadernos e mais cadernos só me adjetivando. E não seria narcisismo, não. Porqeu nem todos os adjetivos que me dou são agradáveis; mas esses eu prefiro guardar para mim mesmo.
é lógico que há também os que me atribuem. Alguns são simpáticos, outros não são do meu agrado, mas normalmente consigo sobreviver a eles. E até gosto, porque me servem de ponto de partida para auto-análises e reavaliações de comportamento.
Acho que poderia falar mais de mim, mas não gosto de parecer impertinente - não há nada mais maçante do que alguém falando de si mesmo o tempo todo. não é mesmo.
30 outubro 2004
traças (1)
28 outubro 2004
meu qi é 133
não sei se é bom ou ruim, mas foi o resultado desse testezinho. segundo ele, sou um filósofo visionário. meu pai não discordaria muito.
foi assim a resposta:
Your Intellectual Type is Visionary Philosopher. This means you are highly intelligent and have a powerful mix of skills and insight that can be applied in a variety of different ways. Like Plato, your exceptional math and verbal skills make you very adept at explaining things to others — and at anticipating and predicting patterns.
ética e capital
Da terra vos sei dizer que é mãe de vilões ruins e madrasta de homens honrados. Porque os que se cá lançam a buscar dinheiro, sempre se sustentam sobre a água como bexigas; mas os que sua opinião deita a las armas, Mouriscote, como a maré corpos mortos à praia, sabei que, antes que amadureçam, se secam.
Carta de Luís Vaz de Camões, escrita da Índia a um seu amigo, resumindo a ética da civilização cristã e ocidental. mas, diante dos recentes eventos, pode-se dizer que se encaixa como uma luva à (falta de) moralidade capitalista. enquanto essa praga não for superada, só haverá dor e escravidão.
17 outubro 2004
15 outubro 2004
recado ao poder
wilson das neves é baterista de mão cheia e compositor supimpa, mas não sabia que era vidente. e como bom malandro, dá o recado no sapatinho, em forma de música.
vamos acordar, minha gente: "os hômi" tão brincando, e o bicho não tarda a pegar (pra mim, já tá pegando...). não vai ter passeata na praia e abraço que dê jeito, não, rapeize...
O dia em que o morro descer e não for carnaval
(W. das Neves/ P. Cesar Pinheiro)
O dia em que o morro descer e não for carnaval
Ninguém vai ficar pra assistir o desfile final
Na entrada rajada de fogos pra quem nunca viu
Vai ser de escopeta metralha granada e fuzil (guerra civil)
O dia em que o morro descer e não for carnaval
Não vai nem dar tempo de ver o ensaio geral
E cada uma ala da escola será uma quadrilha
A evolução já vai ser de guerrilha
E a alegoria é um tremendo arsenal
O tema do enredo vai ser "A Cidade Partida"
No dia em que o couro comer na avenida
Se o morro descer e não for carnaval
(repete tudo)
O povo virá de cortiço, alagado e favela
Mostrando a miséria sobre a passarela
Sem a fantasia que sai no jornal
Vai ser uma única escola, uma só bateria
Quem vai ser jurado? Ninguém gostaria
Que desfile assim não vai ter nada igual
Não tem órgão oficial, nem governo, nem liga,
Nem autoridade que compre essa briga
Ninguém sabe a força desse pessoal
Melhor o poder devolver pra esse povo a alegria
Senão todo mundo vai sambar no dia que o morro descer
E não for carnaval
14 outubro 2004
associação direta
os portões dos campos de concentração alemães eram encimados pela inscrição "arbeit mach frei" ("só o trabalho liberta"). donde se pode concluir que o trabalho não apenas é uma violência brutal, como tem o sabor de uma cruel ironia nazista.
cqd.
chupado de outro blog...
Enviado por César Seabra - 5/10/2004 - 18:24
A idiotia americana
Papo fresquinho, agora há pouco, num elevador da Chambers Street, em Manhattan. Dois amigos brasileiros conversavam, quando uma agente imobiliária americana interrompeu:
- Me perdoem, mas vocês são de onde? E que língua estranha é essa que vocês falam?
- Somos do Brasil e falamos Português - respondeu um deles.
- Ah, eu tenho uma amiga de Portugal, ela também fala Português - disse a gringa.
- Sim, o Brasil foi colonizado por Portugal, por isso falamos o Português. Assim como os Estados Unidos foram colonizados pela Inglaterra e vocês falam o Inglês - respondeu o outro brasileiro.
- Ah... quer dizer, então, que o Brasil faz fronteira com Portugal? - perguntou a americana.
Os dois brazucas se entreolharam e disseram baixinho:
- Não faz isso comigo... Mauuuuuuuuuuuuu...
salve, joão cabral!
uma amiga usou o poema abaixo nos agradecimentos de sua dissertação. eu não poderia estar mais de acordo. até porque as circunstâncias me levaram a utilizar do mesmo expediente.
Num Monumento à Aspirina
Claramente: o mais prático dos sóis,
o sol de um comprimido de aspirina:
de emprego fácil, portátil e barato,
compacto de sol na lápide sucinta.
Principalmente porque, sol artificial,
que nada limita a funcionar de dia,
que a noite não expulsa, cada noite,
sol imune às leis de meteorologia,
a toda a hora em que se necessita dele
levanta e vem (sempre num claro dia):
acende, para secar a aniagem da alma,
quará-la, em linhos de um meio-dia...
13 outubro 2004
autonomia carioca: eu apóio
já tinha ouvido falar, mas pensei em rumores e delírios. no entanto, um outdoor na real grandeza me alertou: o negócio é sério. o movimento pretende separar a cidade do rio do resto do estado, recuperando o antigo estado da guanabara. uma proposta assaz interessante, seja pelo lado político, seja pelo econômico.
carioca ou não, se você ama o rio, não perca tempo. vamos lavar a escória dos "politiquinhos" de volta para o buraco de onde eles nunca deveriam ter saído.
saiba aqui como participar.
12 outubro 2004
adiós, mestre.
meu gosto pela leitura, teve também o mineiro fernando sabino como grande culpado. não me esqueço da primeira vez que que li suas crônicas - forma de literatura pela qual nutro preferência até hoje - no exemplar do "para gostar de ler" que exibia na capa a ilustração de um pintinho, em referência a um dos textos. além dele (o sabino, não o pintinho), paulo mendes campos, carlos drummond e o urso braga: uma trinca da pesada.
mais tarde, foi com ele meu "encontro marcado" com as dores das transformações da adolescência, e os primeiros vislumbres da maturidade. eduardo marciano foi meu modelo de erros e acertos, uma espécie de grilo falante.
foi também graças ao fernando sabino, ou melhor, de sua filha, verônica, que descobri minha paixão por mulheres narigudas.
e agora ele me apronta uma dessas e se vai, provavelmente ao encontro dos outros três cavaleiros do apocalipse - o já citado pmc, hélio pellegrino e otto lara resende. a freqüência lá em cima está cada vez melhor, enquanto que aqui embaixo...
nesse momento de tristeza (fiquei arrepiado quando ouvi a notícia), deixo uma crônica ainda não conhecida - linda - que ma foi apresentada pela tati (linda também).
09 outubro 2004
"era urso?"
era uma vez um livrinho que um dia foi lido por um menino. o menino nunca mais esqueceu da história escrita naquele livrinho, e tampouco dos desenhos que ilustravam suas páginas. passados muitos anos, é possível entender que muitas das escolhas feitas por aquele menino foram influenciadas por aquele livrinho. e hoje, quase vinte e cinco anos depois, o menino descobre o nome do autor: frank tashlin.
o livrinho?
"era urso?"
mesmo sem as ilustrações (primorosas), é uma obra-prima.
respostas cretinas para perguntas imbecis
este questionário tarrei na mão grande.
Adjetivo: imprevisível (dica da tati, de quem roubei o questionário);
Alergia: a estudante de marketing e administração (se tá estudando é porque não sabe);
Amigo(a): o reflexo do espelho;
Amuleto: meu canivete;
Ano: 2004;
Aperitivo: os que vêm antes da comida;
Área: dentro da calcinha;
Arma: língua afiada;
Barulho: gemidos;
Bebida: cerveja;
Bebida alcoólica: grão destilado da caledônia (essa é para os fãs de asterix);
Bordão: "vai por mim que eu te quero bem", "só alegria";
Brega: chorar em filme. choro mesmo;
Brincos: que isso, rapá?! tá me estranhando?;
Calçado: CONFORTÁVEL e durável;
Carne: lombo - no bom e no mau sentido;
Cheiro: mulher de cabelo lavado;
Chocolate: meio amargo;
Cigarro: semedão;
Colégio: nenhum presta;
Cômodo: mais ou menos;
Cor: preto no branco (epa!);
Data: 09/10/2004 (hoje);
Doce: não, obrigado;
Esporte: purrinha;
Fantasia: de esqueleto, fosforescente - sempre quis ter uma;
Fetiche: sandálias pretas em pés de marfim;
Flor: de cactus;
Fruta: não tenho nada contra;
Horário: sem;
Instrumento: caixa de guerra - ainda chego no violão;
Irmão: não, só irmã, a "coisinha";
Junk Food: Bob's;
Língua: português, mas tá cada vez mais difícil encontrar alguém que saiba, para conversar;
Livro: "era urso?", frank tashlin;
Loucura: shopping no fim de semana;
Lugar: colo;
Medo: de ETs, mediocridade e ignorância;
Mobília: rede;
Música: "don't you eat that yellow snow", zappa;
Nome: marcelo;
Número: três, porque é demais!;
Ódio: burrice,
Paisagem: mulher pelada;
Parte do corpo: Meus seios (da tati). A única coisa que gosto mesmo em mim, sem quaisquer ressalvas (deixa ela...);
Perfume: o que eu ganhar de presente. nunca comprei;
Pergunta: "quo vadis?";
Pessoa: fernando;
Piercing: só cerveja;
Programa: comprar pamonha;
Queijo: minas;
Recheio: queijo;
Religião: só lamento;
Revista: trip;
Roupa: limpa;
Ritmo: o que dê para chacoalhar;
Sentido: sem;
Sentimento ultimamente?: prefiro não;
Série: de números;
Signo: gêmeos com peixes, lua em touro, ano do boi de água;
Substantivo: próprio;
Tara: a fazenda de "o vento levou...";
Tatuagem: vai chegar;
Temperatura: 36 graus;
Time: botafogo, botafogo, campeão desde mil novecentos e sete;
Verbo:o que se fez carne;
Viagem: álcool;
Virtude: vai saber...
07 outubro 2004
nasruddin e o acadêmico
a tradição sufi tem as histórias como um dos pilares de seus ensinamentos. e o mullá nasruddin costuma ser o personagem principal delas. ora sábio, ora bobo, nasruddin personifica o ensinamento, que muitas vezes assume a forma de anedotas, e outras, não fazem o menor sentido - na hora. dizem que ele viveu no século XIII etc., mas é besteira. segundo o livro "os sufis", idries shah afirma que nasruddin foi criado pelos dervixes para expressar determinados estados de consciência - ou coisa que o valha. seja lá o que for, esse papo começou com um post da maffalda. bom, vamos ao que interessa:
um dia, nasruddin convida um importante acadêmico para comer na sua casa. o sujeito, muito convencido e cheio de si, chega à casa e bate várias vezes à porta, sem resposta. circunda a propriedade chamando por nasruddin, e nada. depois de várias tentativas, ele se enfurece e, antes de ir embora, escreve na porta: "idiota".
horas depois, nasruddin chega à casa, completamente esquecido do encontro. quando vê o escrito, toma um susto, lembra-se de tudo e corre ao mercado, chamando pelo acadêmico, a quem logo encontra.
"oh, mil desculpas, por favor, perdoe-me. eu só lembrei de nosso encontro quando vi seu nome escrito na minha porta!"
gostou? pra quem manja do idioma do bush, tem mais aqui, aqui e aqui.
06 outubro 2004
força na peruca
sempre que vejo o resultado de uma escova japonesa, me questiono se os americanos não fizeram um mau negócio em poupar tóquio e o resto do país...
metamorfose ou coincidência?
o (via) dinho não está ficando a cara do cantor/ator/whatever fabio jr?
no entanto, o paulo ricardo é que seria o fabio jr amanhã. já o (via) dinho está mais para jerry adriani...
04 outubro 2004
problemas 2, a missão
o espaço dos comentários voltou, mas todos foram apagados. depois da pernada do blogger br, passei pro haloscan. espero que esses não dêem uma de enron, e me deixem na mão de novo. veremos.
01 outubro 2004
"Sizenando, a vida é triste"
o título refere-se à uma crônica do mestge rubem braga que encontrei por acaso, enquanto fazia uma pesquisa. o esperanto pode estar morto, mas o braga pulsa de vitalidade.
30 setembro 2004
comanche (jorge ben)
enquanto existir deus no céu
urubu não come folhas
enquanto existir deus no céu
vou cantando numa boa (gente boa)
minha mãe me chama
comanche
minha mãe me disse
comanche
descobriram a lua, querem descobrir o sol
você é um comanche, um guerreiro
fique de olho aberto, perdigueiro
você nasceu pra viver contente
com você e com toda a gente
deus está no céu, olhando
e lhe passando harmonia
só depende de você viver essa alegria
enquanto existir deus no céu
urubu não come folhas
enquanto existir deus no céu
eu vou cantando, gente boa
comanche, comanche
24 setembro 2004
dinheiro não traz felicidade...
..."manda buscar", dizem os gaiatos. não sei.
sei, sim, na carne, que a ausência dele pode trazer dores de cabeça, insônia, ansiedade, caspa nervosa, medo toda vez que o telefone toca (será algum credor?), irritação e a suspensão quase integral do desejo sexual. para resumir: melhor do que isso, só pão com catarro (pouco pão, por favor).
pelo menos, o bom-humor segue inteiro, embora muito arranhado. e a pressão sangüínea está de garoto.
e faz sol lá fora, o que não deixa de trazer uma certa esperança, apesar do calor. apesar da ligeira sensação de estar sendo feito de otário...
23 setembro 2004
filhos? melhor não tê-los...
crônica do ximenes, retirada do blog dele. não poderia estar mais de acordo...
como já dizia o comediante bebum w.c. fields, "alguém que odeia crianças e cachorros não pode ser de todo mau".
Enviado por João Ximenes Braga - 18/9/2004 - 13:12
A crônica do jornal
Dia desses, na coluna “Gente boa”, do Joaquim, havia um pai indignado por sua filha não poder jogar bola no Parque Lage. “Uma menina correndo atrás da bola não incomoda ninguém”, dizia. Comando para Terra com uma notícia incrível: incomoda, sim. E muito. Uma menina correndo atrás da bola, em geral, grita. Voz de criança, em geral, é estridente.
E ainda que seja uma bola de plástico leve, pode danificar as plantas.
Seria precipitado concluir que este é mais um caso de pais que não sabem impor limites aos filhos. Provavelmente é apenas outra evidência da guerra travada no cotidiano da classe média: de um lado, os com-filhos (chamemo-los de CF), de outro, os sem-filhos (SF).
Não são necessariamente antagonistas, mas duas espécies de animais de comportamento díspar obrigadas a partilhar o mesmo território. A questão anda na minha cabeça desde que presenciei um raro momento de sinceridade e respeito. Estava num almoço de domingo regado a chope e picanha. Ao lado da minha mesa boêmia, havia uma familiar, cheia de crianças. Elas incomodavam, sim, mas estávamos resignados. Até que, na mesa de cá, uma jornalista, casada, revelou sua intenção de procriar a médio prazo. Outra jornalista, também casada, disse:
— Você sabe que quando isso acontecer a gente vai parar de falar com você, né?
Ainda não acredita que CF e SF vivem em dimensões paralelas? Vejam a história de outra amiga que foi dormir pela primeira vez com um pai divorciado. Ela acorda na cama dele, ele não está mais lá. Chama pelo nome. Ouve a voz saindo do banheiro, cuja porta está aberta:
— Estou fazendo cocô!
A moça ficou indignada. Não bastava ele estar de porta aberta? Não bastava dar informação desnecessária sobre o que estava fazendo lá? Ele tinha que usar aquela palavra infantil?!
— Ele não era um imbecil — vaticinava essa amiga à frente de um chope, dias depois. — Já tinha reparado o mesmo com amigas que tiveram filhos. Chafurdam em fraldas e acham que merda é a coisa mais natural do mundo. Vivem no limiar da coprofagia.
Talvez este seja um caso extremo. O problema mais comum entre os CF e os SF é outro: um estranho mecanismo que é acionado logo após o parto e faz com que todo CF perca um neurônio específico da região do desconfiômetro. Justo aquele que informa ao cérebro que, sim, sua criança é a coisa mais fofa de toda a galáxia, mas isso não significa que o resto do mundo partilhe do seu entusiasmo. Não faria mal distribuir um folheto nas maternidades ensinando os CF a se comportar junto aos SF:
Registros fotográficos de batizado, aniversários e, sobretudo, do parto, devem circular apenas entre pais e avós.
Para um SF, leite é apenas algo que se pinga no café. Qualquer referência a leite produzido por animais outros que não vacas e cabras é terminantemente proibida. Sobretudo durante as refeições.
Ninguém está realmente interessado se você anda dormindo pouco. Sabe aquele sorriso de solidariedade dos amigos SF ao ouvir suas queixas? É falso. Até porque eles também andam dormindo pouco, mas suas razões não são levadas em conta.
E por que não um manual ensinando os SF a se portarem frente aos CF? Bem, porque os SF já são o lado mais fraco da corda. Quem admite não ter particular interesse por crianças é logo tachado de desalmado. Nem mesmo a mãe de uma delegada conseguiria reunir três equipes da Polícia se fosse incomodada por uma menina correndo atrás da bola. Pior, os SF são discriminados no trabalho. Outra amiga, que até pensa em ter filhos, mas ainda não tem, queixa-se que o lobby das mamães é mais poderoso que o dos ruralistas em Brasília. Uma festa na escola do filho é suficiente para que todas as mães se mobilizem para rearranjar a escala de plantão da coleguinha. Já as SF são vistas como gente que nunca têm nada de importante para fazer.
— Só por que não tenho filho não posso tirar licença-maternidade? Isso é discriminação — reivindica ela.
16 setembro 2004
15 setembro 2004
a gatinha demente nossa de cada dia
quem lê a tatipiv já deve conhecer a nossa gatinha. tenho uma relação de amor meio obsessiva com ela, pois apesar de achá-la linda, continuo não simpatizando muito com ela. então, uma das maneiras que encontrei para acabar com essa babaquice foi fotografá-la. os gatos, como se sabe, possuem uma graça natural que os cachorros jamais terão (que a tati não me leia, mas me veio à mente agora uma analogia entre gatos/cariocas, e paulistas/cachorros; mas ainda é apenas uma especulação ainda não elaborada).
então, como o volume de fotos ficou muito grande, a tati resolveu criar o "Gatinha Demente", só com as fotos da bicha. têm poucas fotos, porque é recente, e só se pode bostejá-las uma por vez.
isso até me lembra a época em que ia para a puc com meu brother joão callado, para desenharmos os gatos vagabundos que viviam por lá.
enfim, cliquem na foto e curtam a demência.
10 setembro 2004
pára tudo II, a missão
como andei encontrando no yorkut um monte de amiguinhos do stockler, onde cursei a sétima (como repente do colégio militar) e a oitava séries, fui dar uma olhada no conta-giros, pra medir a freqüência cá deste boteco. qual não foi minha surpresa ao ver gente aqui atrás do élio gaspari, da biografia de casimiro de abreu, de letras do peter frampton e até do paulinho da viola.
mas a internet é um playground de anormais, e dessa vez eles se superaram: depois do clásico "fotos de coroa trepando", que às vezes traz como adendo "com adolescentes", teve gente atrás de "fotos de pés, suvacos, e pernas de homens". olha, perversão por perversão, cada um tem a sua - como disse nelson rodrigues, "se as pessoas expusessem suas fantasias, ninguém se cumprimentava na rua" -; mas suvaco de homem barrou qualquer limite do bom-gosto. tenham santa paciência. acho engraçado como eles vêm para aqui atrás disso. mas, a julgar pelo que eu já disse aqui, não duvido mais de nada...
09 setembro 2004
...pode ser até que ele fique puto, mas...
conversa com um amigo, via msn, no fim do expediente (reescrita de memória):
- Vou chegando, cara, que ainda tenho que ir em tal lugar para fazer tal coisa, pegar fulana e depois ir ao São Luiz, para AvP.
- que diabos é AvP?
- Alien Vs Predador.
logo em seguida ele se desconectou. ia dizer que depois não podia falar um ai mal do filme. porque, convenhamos, o que esperar de um filme desses, além de muitas explosões, litros de gosma e outros (d)efeitos especiais? então, quem se digna a pagar, digamos, 15 reais, para assisti-lo, tem que estar muito a fim de ser brindado com um pacote de ultra-violência fantástica na moleira. e apenas isso. história, não tem. coerência, tampouco. e isso, até o meu amigo sabe. então, se sabe que pagou exatamente por isso, vai reclamar do quê, depois?
divertimento? curiosidade? escapismo? entorpecimento? desse tipo? e ainda por cima, pagando? no, thanks...
terra da graça
acabei de baixar graceland, do paul simon. o disco, de 86, é uma obra-prima sem par ou herdeiro. fruto de pesquisas de ritmos negros nos estados unidos e em algumas nações africanas, o disco é uma mistura bem temperada de folk, cajun, cânticos e timbres hipnóticos. é de uma aparente simplicidade desconcertante. não tem nada que se aproxime de sua originalidade na história do pop. escutei-o enquanto cozinhava. foi uma curtição só...
é uma pena que depois desse disco, o baixinho tenha se tornado um "etno-chato". esse povo do hemisfério norte é engraçado; não podem ver um índio, um crioulo seminu suado que começam a salivar. vide o sting e o "boca-de-bandeja" raoni...
"nossos antepassados"
...é o título dado à trilogia fantástico-surrealista de italo calvino, formada pelos deliciosos visconde partido ao meio, o barão nas árvores e o cavaleiro inexistente. embora não tenha lido ainda o barão..., considero o cavaleiro... uma obra-prima difícil de se igualar. a história gira em torno de agilulfo emo bertrandino dos guildiverni e dos altri de corbentraz e sura, cavaleiro de selímpia citerior e fez, paladino do exército de carlos magno, que é nada mais do que uma extrema força de vontade dentro de uma armadura vazia. isso mesmo - o caboclo não existe. é consciência sem existência.
ele é acompanhado por gurdulu, seu escudeiro aloprado, que não sabe exatamente o que é, ou que nome tem. é existência sem consciência, oscilando ao sabor do vento, quase zen - o contraponto perfeito de seu senhor. agilulfo acaba ganhando um aprendiz informal, o jovem rambaldo de rossiglione, aspirante a cavaleiro, cujo pai, o marquês gherardo, morreu pelas mãos do emir isoarre. a existência de rambaldo não goza de paz, com a consciência atormentada ora pelo dever da vingança, ora pelo amor de bradamente, mulher que luta entre os cavaleiros do imperador da frança. um pouco como todos nós, enfim.
destaco um trecho em que os três dirigem-se ao campo de batalha, para enterrar os que tombaram em combate, ao fim do dia. dá bem uma idéia da personalidade deles - e nossa também (sobre mim, pelo menos, que oscilo entre os três, freqüentemente). é interessante ver como calvino cosegue alternar grça e profundidade na medida certa:
Agilulfo arrasta um morto e pensa: "Ó morto, você tem aquilo que jamais tive nem terei: esta carcaça. Ou seja, você não tem: você é esta carcaça, isto é, aquilo que às vezes, nos momentos de melancolia, me surpreendo a invejar nos homens existentes. Grande coisa! Posso muito bem considerar-me privilegiado, eu que posso passar sem ela e fazer de tudo. Tudo - se me entende - aquilo que me parece mais importante; e muitas coisas que consigo fazer melhor do que aqueles que existem, sem os seus habituais defeitos de grosseria, aproximação, incoerência , fedor. É verdade que quem existe põe sempre alguma coisa de seu no que faz, um sinal particular, que não conseguirei jamais imprimir. Mas, se o segredo deles está aqui, neste saco de tripas, muito obrigado, não me faz falta. Este vale de corpos nus que se desagregam não me provoca mais arrepios que o açougue do gênero humano vivo".
Gurdulu arrasta um morto e pensa: "Você dá certos peidos mais fedidos que os meus, cadáver. Não sei porque todos se compadecem de você. O que lhe falta? Antes você se movia, agora seu movimento passa para os vermes que você nutre. Fazia crescer unhas e cabelos: agora vai produzir líqüidos que farão crescer mais altas sob o sol as ervas do campo. Vai se tornar capim, depois leite das vacas que comerão o capim, sangue de criança que bebeu o leite, e assim por diante. Ó, cadáver, você é mais capaz do que eu para viver?"
Rambaldo arrasta um morto e pensa: "Ó morto, corro, corro, corro para chegar até aqui como você, a me fazer puxar pelos calcanhares. O que é esta fúria que me empurra, esta mania de batalhas e amores, vista do ponto onde observamos seus olhos arregalados, sua cabeça virada que bate nas pedras? Penso, ó morto, você me obriga a pensar; mas o que muda? Nada. Não existem outros dias senão estes nossos dias antes do túmulo, para nós, vivos, e também para vocês, mortos. Que me seja concedido não desperdiçá-los, não perder nada daquilo que sou e daquilo que poderia ser. Praticar ações insignes para o exército franco. Abraçar, abraçado, a orgulhosa Bradamante. Espero que você não tenha gasto seus dias de modo pior, ó morto. De qualquer maneira, para você os dados já decidiram seus números. Para mim ainda se agitam no copo dos azares. Eu amo, ó morto, minha ansiedade, não sua paz".
06 setembro 2004
pára tudo!!!!
algum anormal veio parar aqui enquanto procurava "fotos peitos de aracy de almeida"!
eu mereço...
03 setembro 2004
...e tome polca
pra quem não conhece a canção de josé maria de abreu e luís peixoto, na versão anárquica da maria alcina (a quem eu cresci ouvindo):
E Tome Polca
Um sarau
Na rua Itapirú
Em casa das Novaes
O calor está abrasador
E tem gente demais
E tome polca
Num sofá
A dona Jacintha
Faz bola de papel
E na janela, de papelotes,
A Berenice namorisca
Um furriel
A reclamar silêncio
Surge o seu Fulgêncio
Um rotundo e bom comendador
Sim, porque nesta altura,
Chega o padre cura
Com o corregedor
- Senhorinha, a honra desta dança, acaso quer me dar?
Cavalheiro, a honra é toda minha,
Porém já tenho par...
E tome polca
Entra o Souza
Que vem pisando em ovos
Com as botas de verniz
Enquanto a sua esposa
De olhos em alvo
Fica torcendo
Os cabelinhos do nariz
Por trás de uma cortina
Vê-se a Minervina
A preta que é mais preta
Que um tição
E diz entre risadas
Quebra, dona Alice
Quebra, seu Beltrão
Atenção!, acordes a Dalila
Que seu Gil vai recitar
Formam roda
E o moço encalistrado
Começa a gaguejar
E tome polca
Tem um chá
Bolinhos de polvilho
E outros triviais
São onze horas
Apague o gás
E assim termina
O bailarico das Novaes
...E tome polca
conversas exaustas pré-sono
- você já prestou atenção no verbo "liqüefazer"? significa "fazer-se líqüido". ao contrário de "solidificar", que seria "ficar sólido". percebe como é interessante? um "se faz", enquanto o outro "fica"...
bom, daí em diante, foi um tal de brincar com as palavras, como "gaseifazer", "liqüeficar", e tome polca...
02 setembro 2004
dupla dinâmica
novos heróis na área: "beiço de jegue" e "boca de afegã boqueteira".
antes que comecem a maldar, não é bem o que vocês estão pensando. de qualquer forma, nunca supus que a vida a dois poderia ser tão demente e engraçada...
31 agosto 2004
cinema ou realidade?
o nome do filme é alien vs predador, mas dada a proximidade com as eleições americanas, podia muito bem ser kerry vs bush.
* * *
update:
a sensação de certeza confirmou-se com o slogan dos cartazes do filme pelas ruas: "não importa quem vença. nós perdemos". ironia ou previsão?
29 agosto 2004
para não dizer que não falei de política
é o seguinte, garotada: a situação tá uma merda? tá. o pt parece estar meio desorientado? parece. o lula anda trocando os pés pelas mãos? anda. veja bem, concordo com todas as reclamações contra o nosso presidente. mas não se pode esperar que o caboclo mude tudo em quatro anos. principalmente se lembrarmos que não houve revolução. as elites políticas e empresariais que estão aí são as mesmas que, há quatrocentos e tantos anos, mandavam cortar os pés dos "negros fujões", e que tratavam índio a fogo de arcabuz. como ouvi por aí, os "empresários do ano" costumam ser filhos de senadores, netos de comendadores, bisnetos de barões e tataranetos de ladrões de cavalo. assim nasceram as grandes fortunas do brasil, e até hoje não apareceu quem me provasse o contrário.
no quesito política internacional, com a tal da globalização, quem acha que o nosso sapo barbudo poderia fazer algo diferente, com a estreita faixa de manobra que o g-8 nos dedicou, ou é louco, burro, ou mal-intencionado. vamos falar a verdade, as ordens vêm de fora, mesmo, e a menos que rompamos os laços com o capital de forma definitiva (e nos tornamos uma cuba, mas aí, meus caros amigos da barra da tijuca e do interior de são paulo, não tem mais jatinho, helicóptero, angra, maresias e daslu...), a coisa não poderia ter um rumo diferente. ainda mais com a herança deixada pelo nosso ex-príncipe, fernando II, o artífice da estabilidade econômica, como ele gostaria de entrar para a história. mas parece que ninguém lembra mais de seu legado de incompetência.
mas hoje, não me lembro porque cargas d'água, comentei com a tati sobre a entrevista do barbosa lima sobrinho para a falecida bundas, em 99. barbosa, que de bobo não tinha nada, já conhecia o potencial lambão do fernando henrique cardoso de outros carnavais. repito: a declaração abaixo é do nosso barbosa lima sobrinho, a única unanimidade do país, a reserva moral da nação. faço questão de reproduzi-la:
Bundas - O senhor votou nele [FHC]?
Barbosa - Não, votei no Lula. O pai de Fernando Henrique, general Leônidas Cardoso, e o tio, general Felicíssimo Cardoso, eram nacionalistas. Seu pai, eleito deputado federal com o apoio dos comunistas - que estavam na ilegalidade - desempenhou seu mandato na Câmara inspirado em ideais nacionalistas. O filho, atual presidente da República, não honrou o nome do pai nem a tradição da família. Empregou o genro numa agência empenhada numa política declaradamente anti-Petrobrás. Gostaria de contar uma história: em 1968 houve uma reunião da Campanha Nacional de Defesa da Amazônia na casa do general Felicíssimo Cardoso, presidente da comissão, tio do atual presidente. Participavam Henrique Miranda, hoje diretor da ABI, o general Carlos Hesse de Melo, Os professores Alvércio Gomes e Orlando Valverde e a geógrafa Irene Garrido. Todos foram testemunhas. Discutia-se a redação de um documento de defesa da Amazônia e Henrique Miranda sugeriu que se mandasse o texto para Fernando Henrique, em São Paulo, para que ele o divulgasse e colhesse mais assinaturas. Aí o general Felicíssimo disse: "Pode mandar, Miranda, mas este meu sobrinho não é de confiança". Concordo com a opinião dele.
28 agosto 2004
pílulas barretianas
afonso henriques de lima barreto. nome de rei ou nobre. na verdade, mulato, pobre, alcoólatra e um dos maiores escritores nacionais. com certeza o mais carioca deles, ao lado de joão do rio.
sua condição marginal lhe conferia uma visão aguda da natureza humana e da sociedade; quase sempre implacável quando o assunto era seu próprio papel nela.
há muito tempo li o "cemitério dos vivos", amargo diário sobre sua derradeira estadia no sanatório da praia vermelha, atualmente, campus da ufrj. é lá que fica, entre outras, a escola de comunicação da ufrj, onde concluí o mestrado (pode-se dizer que há pontos de contato entre o passado e o presente, mas isso é outra história...). hoje, fazendo uma mega-limpeza no computa, achei uns trechos do livro, que faço questão de reproduzir. depois me digam se o sujeito não era um azougue.
"Eu não tenho nenhuma espécie de superstição pelos nossos títulos escolares ou universitários; eles dão algumas vezes algum saber profissional, muito restrito e ronceiro, e nunca uma verdadeira cultura (...)"
"Esta nossa sociedade é absolutamente idiota. Nunca se viu tanta falta de gosto. Nunca se viu tanta atonia, tanta falta de iniciativa e autonomia intelectual! É um rebanho de Panúrgio, que só quer ver o doutor em tudo, e isso cada vez mais se justifica, quanto mais os doutores se desmoralizam pela sua ignorância e voracidade de empregos. Quem quiser lutar aqui e tiver de fato um ideal qualquer superior, há de por força cair. Não encontra quem o siga, não encontra quem o apoie. Pobre, há de cair pela sua própria pobreza; rico, há de cair pelo desânimo e pelo desdém por esta Bruzundanga. Nos grandes países de grandes invenções, de grandes descobertas, de teorias ousadas, não se vê nosso fetichismo pelo título universitário que aqui se transformou
em título nobiliárquico. É o Don espanhol."
" (...) embora a glória me tenha dado beijos furtivos, eu sinto que a vida não tem mais sabor para mim. Não quero, entretanto, morrer; queria outra vida, queria esquecer a que vivi, mesmo talvez com perda de certas boas qualidades que tenho, mas queria que ela fosse plácida, serena, medíocre e pacífica, como a de todos."
só para manter o fluxo...
acordei e fui no mercado comprar pamonha (nota: mercado no fim de semana de manhã é coisa de pobre. não que minha condição financeira me habilite a esse tipo de julgamento, mas a única coisa que me faz encarar esse tipo de programa ianomâmi é a recém-adquirida paixão por pamonha. doce, não. ainda guardo algum tipo de dignidade...).
para variar, estava lotado, e aproveitei para dar uma calibrada na despensa de casa. na fila, quilométrica, pedi pro cara da frente dar uma olhada no carrinho, enquanto voei na banca para comprar um jornal. para variar, nada de novo, mas como faz falta a novidade vazia travestida de informação que nos obrigam a engolir nesse mundo globalizado, para manter-nos dispersos e fragmantados.
na hora de pagar, vi que estava sem dinheiro e sem o cartão. ligo para a patroa (ela vai adorar a denominação), em casa. oi, dá para trazer o cartão? tá, bom, to indo. uns dez minutos depois, ela chega. de perfume. quis ensaiar uma gracinha mal-criada, e ouvi um "quem foi que esqueceu o cartão, mesmo?", só para me botar de volta ao prumo. bonito isso.
e o dia transcorria, preguiçoso. e as preocupações escorriam sob o mormaço, enquanto eu pensava em como é bom estar vivo...
27 agosto 2004
atendendo a pedidos: a lei de imprensa
sei que tenho andado sumidão, mas não ando desligado. as delícias da vida a dois, as agruras de tentar deixar a casa minimamente habitável com salário (qual?) apertado, e o trabalho que não ata nem desata têm consumido tempo e paciência para cuidar do boteco. no entanto, introduzo (epa!) o tema a partir do diálogo travado nos comentários do bostejo anterior, com meu amigo análise, sobre a lei de imprensa. para não deixá-lo sem resposta, reproduzo o artigo do elio gaspari (de 25 de agosto), impecável, que traduz minha opinião melhor do que eu mesmo jamais seria capaz de formulá-la. vai ficar enorme, mas quem tiver saco de ler, lerá.
A essência da LulaPress é a empulhação
Aqui vão dois pares de textos. Relacionam-se com noções de ética e disciplina dos jornalistas. Estão separados pelo tempo, pelo propósito e pela origem.
O primeiro diz o seguinte:
"As notícias devem ser precisas, versando apenas sobre fatos consumados. Não permitir informações falsas, supostas, dúbias ou vagas."
"A divulgação da informação, precisa e correta, é dever dos meios de comunicação pública, independentemente da natureza de sua propriedade."
A segunda frase está no Código de Ética que servirá de base para a definição da alma do projeto que Lula mandou ao Congresso para "normatizar, fiscalizar e punir as condutas inadequadas dos jornalistas". Esse Código, aprovado num congresso da classe em 1987, é muito mais um manual de conduta. Acoplado ao projeto de Lula resultará num regulamento disciplinar dos jornalistas.
A primeira afirmação é do general Silvio Correa de Andrade, chefe da Polícia Federal em São Paulo, no Manual de Censura que distribuiu aos jornais em dezembro de 1968, horas antes da edição do Ato Institucional n 5.
O problema está na coincidência
O Código de Ética do aparelho sindical diz que "é dever do jornalista prestigiar as entidades representativas e democráticas da categoria."
Outro manual de censura, de junho de 1969, avisava que não se podia "publicar notícias ou comentários tendentes a provocar conflitos entre as Forças Armadas, ou entre essas e o poder público, ou entre esse e o povo."
No mundo dos generais considerava-se desprestígio dizer que em alguns de seus quartéis praticavam-se a tortura e o extermínio como política de Estado.
No mundo dos companheiros, os jornalistas têm o dever de "prestigiar" os sindicatos e a Federação Nacional dos Jornalistas, a Fenaj. Seria desprestígio lembrar a maracutaia das aposentadorias de falsos perseguidos políticos, promovida em 1995 pelo Sindicato dos Jornalistas do Rio de Janeiro?
Qualquer semelhança entre os manuais de censura e a visão autoritária e aparelhada que acompanha o projeto de criação do conselho federal do ofício é mera coincidência. Quando uma iniciativa de Lula, associado à Fenaj, guarda semelhanças retóricas com o palavrório dos censores, algo de ruim está acontecendo.
O projeto enviado por Lula ao Congresso ficará alguns anos na gaveta, rosnando. É um documento pedestre, mal intencionado. Na exposição de motivos o ministro Ricardo Berzoini diz o seguinte: "A sociedade tem o direito à informação prestada com qualidade, correção e precisão, baseada em apuração ética dos fatos." Sabendo-se que em 1968, durante a reunião em que se decidiu baixar o Ato Institucional n 5, louvou-se 19 vezes a democracia e condenou-se 13 vezes a ditadura, pode-se perceber como palavras bonitas ("qualidade, correção e precisão"), escondem o bornal do controle ("disciplina", "advertência", "censura", "suspensão", "cassação").
O projeto confunde deliberadamente um elemento essencial à profissão (a correção e o zelo pela precisão da notícia) com uma obrigação legal submetida à fiscalização, ao julgamento e à disciplina de um braço sindical sustentado pelo confisco de uma parte da renda dos profissionais.
A imprensa tem horror à fiscalização
Depois de se dizer tudo isso contra o projeto, pode-se argumentar que os jornalistas querem publicar grampos telefônicos obtidos ilegalmente, violar o sigilo bancário dos outros, defender o controle externo dos poderes alheios e escrever mentiras. Quando se fala em fiscalizá-los, esperneiam, cantam a "Marselhesa" e se escondem debaixo da alegoria da liberdade de imprensa. Quem achar assim estará muito mais certo do que errado.
O pior é que essa pessoa pode achar mais. Ela pode achar que há órgãos de imprensa que vendem reportagens, entregando-as aos leitores como se fossem produto daquela tal atividade protegida pela Constituição. Pode também suspeitar que os governos federal, estaduais e municipais gastam o dinheiro da patuléia e das empresas estatais com publicidade geralmente associada à simpatia do noticiário. Pode amaldiçoar jornalistas que escrevem belezas sobre eventos aos quais foram convidados a custo zero. São as chamadas "bocas-livres". Em suma: há corrupção, e muita, na imprensa. Essas práticas não atingem a todos os jornais, revistas e emissoras, mas as maracutaias do mundo das comunicações são menos noticiadas no Brasil do que pedofilia de padre no Observatore Romano.
A imprensa brasileira precisa de algum tipo de fiscalização crítica independente. Uma forma simples, pública e bem-sucedida de fiscalização é a figura do ombudsman, adotada em 1989 pela "Folha de S. Paulo". Depois de passar por memoráveis vexames, o "New York Times" criou o seu ombudsman no ano passado. Pode-se achar que é pouco.
Devem existir instâncias de fiscalização além do Poder Judiciário? Para médicos, advogados e arquitetos, elas existem.
Essas instâncias devem se misturar com o Estado ou devem se confinar ao universo do prestígio profissional? De um lado ficam os conselhos como o que Lula quer criar. São organismos de alistamento e arrecadação compulsória. De outro, entidades como as associações de jornais, revistas ou emissoras. Como as instâncias fiscalizadoras dos agrupamentos patronais freqüentemente não fiscalizam coisa alguma, a bola poderia rolar para a Associação Brasileira de Imprensa?
Essas são questões a respeito das quais cada um deve formar a sua opinião, pronto para mudá-la a cada duas semanas. Debate bonito é assim.
Notícia e verdade não são a mesma coisa
Vale voltar às duas primeiras afirmativas lá de cima. Pode-se sustentar que o Código de Ética dos jornalistas e o Manual de Censura do general dizem coisas parecidas porque dizem coisas verdadeiras. É aí que mora o perigo. Toda vez que se fala em notícias necessariamente precisas, verdadeiras, seguras e claras, o que se quer é embaralhar o debate. Coisa do tipo enquanto-houver-fome-não-haverá-democracia.
A confusão entre notícia e verdade é uma falácia. Ela foi desmontada há quase um século por Walter Lippmann, um dos maiores jornalistas do seu tempo:
"Quem acredita que notícia e verdade são duas palavras que designam a mesma coisa, não vai a lugar algum. A função da notícia é sinalizar um acontecimento. A função da verdade é trazer à luz fatos ocultos, formando um quadro da realidade dentro do qual as pessoas possam agir. (?) Nós não entendemos a natureza limitada das notícias e a complexidade ilimitada da sociedade; nós superestimamos nossa capacidade de resistir, nosso espírito público e nossa competência." Ele se divertiu lembrando que os cidadãos pagam bom dinheiro pelos seus lugares no teatro e pelas passagens de trem, mas querem comprar a verdade, todos os dias, pagando com a menor moeda em circulação (Em 1921 os jornais custavam um centavo de dólar).
"Precisas e corretas" mistificações
Em 1964 num memorável julgamento da Suprema Corte dos Estados Unidos, o juiz William Brennan Jr. redigiu a sentença que assegura à imprensa americana o direito de cometer erros factuais no noticiário relacionado com personalidades públicas. Brennan sustentou que se os jornalistas forem colocados debaixo do medo de punições legais caso não contem histórias "precisas e corretas", quem perde é a sociedade, por ficar menos informada. Nada a ver com licença para mentir. O jornalista obriga-se a demonstrar que não sabia da falsidade da notícia e que não agiu como se pouco lhe importasse o fato de ela ser verdadeira ou falsa. Se alguém acha que a Corte Suprema é leniente com a imprensa, vale informar que, pelos seus critérios, algumas dezenas de jornalistas brasileiros teriam passado pela cadeia por conta da publicação de grampos. As casas impressoras ou transmissoras onde trabalhavam teriam corrido o risco de falir.
O comissariado que produziu o projeto de LulaPress promete ao público um regime de informações "precisas e corretas", sabendo que esse tipo de doce não existe. Às vezes essa empulhação parte dos jornalistas. Outras vezes parte daqueles que pretendem controlar os jornalistas. Em todos casos, o que se quer é empulhar a patuléia.
10 agosto 2004
se não ficou bem...
...é porque ainda não é o fim. na vida, aprendi, tudo se resolve. antigamente, meu lema era "calma, tranqüilidade e cara-de-pau". nada mais útil. hoje, penso em termos de "calma, respiração e cara-de-pau". embora ainda não tenha me decidido pela mudança, atesto e dou fé na eficácia. ajuda mesmo. impressionante.
outro dia vi o michael moore novo. gostei mas me fez mal. hoje o ali kamel veio descascando o diretor, acusando de manipular informações e fatos, de forma a desmoralizar o bushinho. pode ser, mas tem coisa melhor do que falar mal dos outros? e pelas costas, ainda por cima? gostei mesmo.
quer dizer então que só um os poderosos podem mentir e omitir? a direita hidrófoba e os conglomerados de comunicação pintam e bordam, os anunciantes pautam escaradamente e sem vaselina, e que a "cobertura isenta" funciona na base do "aos amigos, tudo, aos inimigos, justiça". agora, porque o "outro lado" tem que ser arauto do factual, a vestal da pureza e da verdade imaculada?
a informação virou moeda corrente, e a luta por sua posse, uma guerra. das sujas. então, meus caros, já que o clima é de vale-tudo, então fiat lux. a verdade é uma abstração, e quem chegar primeiro, leva.
viva michael moore, viva a especulação, o boato e a fofoca. chega de engolir tudo o que te falam, espalhem vocês também as boas novas e a epidemia. como diz o povo do cmi (linque ao lado) parafraseando o jello biafra, "odeia a mídia? torne-se a mídia".
(cara, acho que escolhi a profissão errada...)
...
só para concluir: fiz o teste do dude (águas claras, linque ao lado) e deu o seguinte (e não é que há alguma semelhança com as sandices bostejadas acima?):
Morpheus
Which Of The Greek Gods Are You ?
brought to you by Quizilla
"i give you everything i got for a little peace of mind"...
tempos estranhos, tempos instáveis, tempestuosos...
a força para me manter firme ao timão (não, não sou corinthiano, e para mim, o grande time será sempre o glorioso) drena a disposição de bostejar.
aguardem, em muito breve, definições e mudança de ânimo.
juro que não serei mais tão enigmático, também.
jundas.
02 agosto 2004
pimenta no orkut dos outros
estou no orkut. mantenho-o razoavelmente atualizado, pertenço a comunidades interessantes e engraçadas, e até coloquei algumas fotos nesse último finde.
mas admito que tem que ter um saco de jó para freqüentá-lo. e descobri que, quanto maior a comunidade, menos saco eu tenho para ler as mensagens. às vezes são mais de 100 respostas muito parecidas, sobre um assunto completamente bobo. é uma perda de tempo enorme.
cheguei à conclusão de que só vale a pena participar dos grupos sobre assuntos que me interessam muito, e sobre os quais há a possibilidade de conseguir informações novas. de resto, vou reduzir o número de comunidades drasticamente.
já tenho amigos suficientes. os antigos, com exceção de um ou outro, provavelmente causarão mais constrangimentos do que alegria. além do mais, estou um pouco preocupado com o excesso de exposição. acho que já a tenho em demasia aqui com o borduna!...imagina no outro, em que botei uma descrição detalhada, ainda por cima com fotos!
por isso que não deixo de me solidariezar com o arnaldo bloch, em sua coluna deste sábado passado. fiquem aí com o texto:
Orkut na reta
O Orkut, "site de relacionamentos" do Google, ainda não era a coqueluche que é hoje (com um milhão de usuários, metade deles no Brasil) quando Lia, amiga minha, contou a novidade, numa noitada no Baixo Gávea.
- Gente, é um clube na internet onde várias coisas legais acontecem.
Fiquei curiosíssimo.
- E como faz para entrar no Orkut, Lia?
- Ah, você tem que ser convidado por um amigo. Ou uma amiga.
O jornalista galês (personagem que ora e vez dá as caras nos botecos) interveio.
- Esto é uma fôrma de ecsclusáo !
- Exclusão nada. Tá todo mundo entrando. Todo mundo convidando ? reagiu Lia.
E virou-se para mim, provocante:
- Quer ser meu amigo no Orkut?
- Que isso, Lia. Estou comprometido. Fechei meu botequim.
- Que isso digo eu, Arnaldo. O Orkut é um mundo eletrônico.
- Ah, se é eletrônico tudo bem.
No dia seguinte, recebi um e-mail de Lia me convidando para entrar. Fui conferir e entrei. O Orkut começou a me fazer um montão de perguntas. Tipo: você é mais de sol ou de lua? Gosta de cinema ou teatro? Considera-se um sujeito engraçado, burro, tímido, idiota ou alternativo? É pan, metro, hetero, bi, retro?
Fui respondendo. Depois, descobri que havia um sistema classificatório, no qual você dá estrelinhas para as pessoas. E decide se vão ser suas amigas. E tem foto dos amigos tipo galeria de revista de celebridades.
Então a Lia veio ao meu terminal:
- Aí, Arnaldo, dá estrela pra mim!
Obedeci. Dei estrela para a Lia. Exausto, desliguei o computador.
Foi a última vez que entrei no Orkut.
Mas, a partir daquele dia, os convites começaram a se multiplicar. Quase todo mundo que eu conhecia me convidava para ser seu amigo no Orkut. Inclusive gente legal, inteligente, cheia de conteúdo.
E comecei a ouvir umas conversas estranhas, o pessoal contando vantagem.
- Entupiram meu Orkut de estrelas!
- Ah, mas eu já tenho 60 amigos.
Rapaziada, aquilo começou a me irritar, me irritar... e descambei a falar mal do Orkut pra todo mundo, a encarnar na Lia e nos que me convidavam, inventar gracinhas do gênero ?o que o Orkut tem a ver com as calças??
Aí as pessoas me atacaram: ih, Arnaldo, que mau-humor. Cara chato. Ficando velho.
Lia ainda tentou me convencer a voltar, dizendo que o Orkut é ótimo pra você encontrar pessoas que não vê há décadas, amigos de infância, gente do maternal.
- Mas Lia, quem disse que eu quero rever meus amiguinhos de um ano de idade?
- Qual o problema?
- Coisa chata. Daqui a pouco vou estar formando grupos de ex-amiguinhos de um ano de idade. Prefiro encontrar as pessoas que tiver que encontrar por acaso, na rua. Isso já dá bastante trabalho, entre boas surpresas e grandes decepções e aluguéis.
- Velho - disparou Lia.
- Chata - reagi.
Como vingança, postei um comentário no meu blog. Um curto manifesto anti-Orkut.
Nele eu dizia (e redigo e amplio), que o Orkut é um micromundinho frívolo e vazio que repete o universo da rede num sistema de pirâmide que multiplica seus membros à medida que todos querem ter amigos, ganhar estrelas, fazer parte de grupinhos de interesse e reencontrar coleguinhas de infância.
Uma leitora disse que Orkut é meio bobo mesmo, mas é uma forma de fugir da solidão nesse mundo desumanizado.
Eu respondi que ela corria o risco de ficar presa do outro lado do espelho (ver o "Buraco do espelho", de Arnaldo Antunes.)
Numa apresentação aqui no jornal para colegas que fazem parte do Calandra 2004, um programa de aperfeiçoamento profissional, repeti minhas críticas. E, mudando de assunto, contei um episódio sobre a implicância de uns amigos por eu ter confessado, numa crônica, que fiz pilates (temporariamene).
- Pra vocês verem... tem gente que tem o maior preconceito contra pilates.
A Glauce, colega minha aqui do Caderno Boa Viagem, pediu a palavra.
- Pois é, e tem gente que tem preconceito contra o Orkut.
Silêncio no auditório. Precisei de uns segundos para me reestruturar.
- É verdade, há um certo preconceito. Desconfio dessas manias animadinhas que pegam todo mundo num roldão.
Glauce replicou.
- Você leva muito a sério. O Orkut não é tão sério assim.
- Talvez não seja para você, mas há uma horda de aficionados. Orkut é sintoma de uma época estranha, em que pessoas falam como robôs em telefones e dizem que "vão estar enviando", em que amigos se reúnem para caminhar sobre tabuleiros vivos testando conhecimentos gerais, em que tudo é meio game , em que a galera alternativa vibra atropelando criancinhas na pele de bandido eletrônico, em que os amiguinhos se reencontram em praças imaginárias em shoppings virtuais.
O pessoal do Calandra deve ter achado que estava diante de um maníaco da teoria da conspiração. É o preço de zoar do Orkut...
só para fãs do charlie brown jr.
não conheço quase nada da banda, exceto que eles fazem um esporro desgraçado. mas isso não nos impediu (eu e a tatipiv) de descobrirmos o motivo da agressão do chorão contra o marcelo camelo. ao se encontrarem, o cantor do los hermanos teria, na verdade, elogiado a banda:
- pô, cara, me amarro naquela canção de vocês, "papo seu reto".
...
pano rápido.
26 julho 2004
Cenas do cotidiano a dois
interlúdio.
manhã de inverno. "ele" está no quarto, aprontando-se para o trabalho. "ela", está na cama, depois de ter virado a noite de plantão.
ele (falando do banheiro, já meia hora atrasado para ao trabalho) - Ei, amor! Sabe que eu tive uma idéia genial?
ela espera interessada, como se ele fosse anunciar a cura para os males da humanidade.
ele (radiante) - Vou começar a fazer a barba de noite!...
ela (rindo muito) - Ué, Fofo, mas a sua barba não cresce durante à noite?
ele - Cresce, mas como as lâminas que eu uso são geralmente uma porcaria mesmo, ninguém vai notar se eu fiz hoje ou ontem. E além do mais, isso vai me dar mais tempo para dormir com você...
...
morra de inveja, truffaut!
*Update*
num rasgo de sabedoria zen, ele resolve deixar a barba crescer...
...lá vou eu de novo, como um tolo...
mais uma vez, como na canção, estou movendo mundos e (poucos) fundos, para morar junto. de novo.
dessa vez (de novo), o céu está claro e sem nuvens. no entanto, diferente de antes, não há sequer sinal de precipitação no horizonte. como se diz no jargão aeronáutico, "céu de brigadeiro". ou seja, uma beleza.
stay tuned, folks! em breve, novas previsões metereológicas.
...
no segmento de minha trajetória cigana, abandonei o lar do casal de amigos que me aturarou por quase um ano, para aninhar-me nos braços da minha cara-metade (cafonalha geral, perdão).
adeus, laranjeiras, não chore, nosso caso de amor está apenas começando. alô, comunidade de botafogo! preparem a área que eu tô chegando com tudo! alô tereza, seremos vizinhos!
segundo um recente cálculo, desde que saí do lar materno, na gávea, há sete anos, esse é o quinto bairro em que morarei. nada mal. por ordem cronológica, passei pelo humaitá, jardim botânico, tijuca, laranjeiras, e agora, botafogo. todos moram no meu coração, e de todos guardo boas recordações. até da tijuca.
descontando os percalços, a vida até que tem sido boa para mim.
24 julho 2004
reflexões musicais ranzinzas
outro dia - antes dos acontecimentos fatídicos de anteontem - na sala contígua à minha, no escritório em que trabalho, botaram imagine para tocar. aí, ouvi alguém de lá comentando:
"esse cara não precisava ter feito nada, só essa música já bastava, né?"
apesar da pena que uma ignorância de tal magnitude deixa transparecer (de beatles, você nunca ouviu falar, minha filha?), a asneira soou como uma chicotada.
odeio imagine. como odeio qualquer obra com a pretensão de passar uma "mensagem". ou melhor, em que objetivo de transmiti-la se sobreponha sobre forma e/ou conteúdo. mas, infelizmente, é o caso dessa música. transborda boas intenções, mas é de uma ingenuidade boçal.
(além do mais, todos sabem em que lugar as boas intenções e seus autores costumam ir parar.)
de tão executada, a suposta vitalidade de conteúdo esvaziou-se. ela já deve ter figurado até em publicidade de papel-higiênico. é um pouco o caso de what a wonderful world, cantada pelo louis armstrong. metade dos filmes americanos nas duas últimas décadas usou-a para ilustrar todos os tipos de emoções e situações: nascimento, morte, defloração, bombardeio...
outro caso é aquela canção do carl orff, o fortuna-sei-lá-o-quê, do carmina burana. o único bom uso desta foi em excalibur, do john boorman, na cena da cavalgada de recuperação do rei arthur. foi a primeira vez que a ouvi, e a imagem gravou-se a ferro na cabeça. até hoje, quando a ouço, visualizo a cena.
(essa é a nossa dica de cinema da semana.)
mas, voltando ao imagine, um dos agravantes que ma fazem detestá-la é saber que tem uma grande possibilidade da japa-vodu yoko ono ter metido o bedelho lá.
o fato é que os grandes não buscaram passar nada. vá achar "mensagem" em rubens, velasquez, nelson rodrigues, mozart. o que é mais bonito e representativo de picasso? a série de pinturas das touradas, ou as "imagens da guerra", e guernica? não adianta, "mensagem" é para pouquíssimos, e definitivamente, o nosso "beautiful boy" não figura nesse hall.
23 julho 2004
o blog está de luto
lula, luiz fernando para a imprensa, meu amigo, foi mais uma vítima da boçalidade do governo, do egoísmo e da corrupção das autoridades, que tem na violência apenas sua face mais óbvia e cruel.
tô colocando esse meu amigo na conta de vocês, rosinha e garotinho. um dia vocês hão de pagar, podem ter certeza.
no que depender de mim, vocês e sua corja de vendilhões do templo, de parasitas sanguessugas, serão varridos para fora da MINHA CIDADE e do MEU ESTADO.
deixando a raiva de lado, reproduzo a carta publicada n'o dia, que a marcia, mãe dele, minha ex-professora de faculdade, escreveu, depois de tudo. dói.
'Sua imprudência? Ter sido solidário'
A mãe de Luiz Fernando, a psicóloga Márcia Lopes Caldeira, escreveu a carta abaixo quando soube da morte do filho.
Tiro de repente....
De manhã, a brincadeira...
Você hoje caprichou... tão arrumado!
- É que vou visitar clientes, tenho que ir mais bonito!
Tudo porque pro Luiz Fernando, o bom é trabalhar na oficina, andar com roupa manchada, bem à vontade, desarrumado até...
E isso é sempre motivo de queixa e reclamação. Mas ele é assim. Adora seu trabalho, mexer com madeiras, plásticos, acrílicos, escalar, acampar, estar com a namorada, encontrar amigos. Fazer churrasco. Tudo é motivo.
Aí, ao meio-dia, o telefone toca e meu filho mais velho diz, segurando o choro: "Mãe, o Luiz sofreu um acidente. Ele levou um tiro. Foi nas costas, mas ele está bem. Está com todos os movimentos, falando".
Um susto. Pensar o que fazer e como fazer. Falar com amigos que podem ajudar. Avisar à irmã em Brasília - ela deve vir? - , aos avós, aos tios, aos amigos. Será verdade que ele está bem?
E, assim, tão de repente, já o vejo em coma. Sei, pressinto que é sério. Cinco horas de cirurgia. Saiu do centro cirúrgico.
Chega o médico. "Ele teve uma parada cardíaca". Morreu. Acabou. Deixou de ser o que era. Passou a ser, tão de repente, o impensável, aquilo que não tinha nos acontecido mas que andava perto.
Seu pecado? Sua imprudência? Ter sido solidário.
Ajudou uma senhora que, com seu neto, saíra do banco e estava sendo assaltada.
Assim, tão de repente, acabou. De certa forma, como viveu. Amando o que fazia, aproveitando suas oportunidades, vivendo a vida e... sendo amigo e solidário.
Perdi meu filho. Meus outros filhos, seu irmão menor. Os avós, seu neto. Assim estamos, tão de repente, perplexos. Até quando?
...
só sei que o baixo-astral é foda. vou melhorar em breve...
09 julho 2004
hitler começou assim
deu na edição de hoje do globo e no plantão do site:
08/07/2004 - 11h54m
Crianças com doenças mentais são presas nos EUA, diz jornal
O Globo
WASHINGTON - Uma equipe de investigação do Congresso dos Estados Unidos descobriu que mais de 15 mil crianças com distúrbios psiquiátricos foram indevidamente encarceradas no ano passado no país, porque não havia serviços de atendimento a doentes mentais em suas comunidades. Os dados foram revelados por deputados democratas do Comitê de Reforma do Governo, na primeira pesquisa sobre os centros de detenção juvenis dos EUA. As informações são do jornal "New York Times".
é o capital tentando achar uma solução (final?) para o fardo do contingente não-produtivo que é obrigado, por alguns ultrapassados escrúpulos humanistas, a carregar.
06 julho 2004
contra as asneiras que circulam por aí
quem me acomapanha aqui (?) sabe da ojeriza que tenho a textos "autorais" - do tipo que a gente recebe por email, supostamente assinados por "personalidades" como o millôr, mario quintana, ziraldo, jabor e outros que tais. comigo, eles recebem o mesmo destino das correntes e tudo o mais que vem gritando "urgente" em caixa alta e com pontos de exclamação no subject. sinceramente, nem abro. e posso garantir, até hoje não peguei leptospirose por beber direto da latinha, não fui alvo de um super-vírus de computador, não tive meu celurlar ou cartão de banco clonados, ou grampearam meu telefone.
mas, voltando a essas mensagens, apenas quem nunca sequer ouviu falar nos autores citados podem confundi-los com as indigências semi-analfabetas a eles atribuídas. o quino já protestou contra, e agora o jabor, na abertura de sua coluna de hoje, bota a boca no trombone. o texto todo é bom, mas em respeito aos leitores (?), só reproduzo as primeiras frases. quem se interessar pelo resto, procure no site do jornal o globo.
Está rolando na internet um texto ridículo sobre “mulheres” atribuído a mim. Sou uma besta, todos o sabem; mas não chego a esse relincho lamentável do asno que o escreveu. Diz coisas como: “A mulher tem um cheirinho gostoso, elas sempre encontram um lugarzinho em nosso ombro...” Uma bosta, atribuída a mim. Toda hora um idiota me copia e joga na rede.
o sacana ainda apresenta uma teoria que estou desenvolvendo há alguns meses, e estava prestes a bostejá-la. o sacana chegou na minha frente, mas foi na veia:
Hoje em dia, as mulheres foram expulsas de seus ninhos de procriação, de sua sexualidade passiva, expectante, e jogadas na obrigação do sexo ativo e masculino. A supergostosa é homem. É um travesti ao contrário. Alguns dizem que os homens erigiram seus poderes e instituições apenas para contrariar os poderes originais bem superiores da mulher.
em breve voltarei ao assunto deste último trecho. evoé!
01 julho 2004
improviso sobre o centro da cidade
uma das coisas que mais me dão prazer é flanar pelo centro da cidade. é bem verdade que me divertia mais quando ia a passeio, mas mesmo agora, como mais um proletário na multidão, tento manter a cabeça acima da manada, e o distanciamento de quem não se locomove apenas por necessidade, com um destino definido a cumprir.
tem dias em que fico sem tostão, e tenho que me contentar com uma refeição de três saquinhos de amendoim a um real. especialmente nessas ocasiões, preencho a hora do almoço no trottoir (meu francês merece a guilhotina), e me deixo levar para o interior de galerias e outros buracos escuros que abundam no centro (sem trocadalho, por favor). dia desses saí sem destino e descobri algumas coisas interessantes:
1) na são josé, em frente a uma farmácia, tem um camelô de dvds e softwares único. rodrigo (ou ricardo) tem os últimos lançamentos: kill bill (xibiu) volume 2, o pornô novo do alexandre frota, o filme da rita cadillac, e uns outros troços que não me lembro. o diferencial é que rodrigo (ou ricardo) faz dois preços (com ou sem a capa do filme), fornece garantia e o celular para reclamações e encomendas. e jura estar sempre no mesmo ponto.
2) na esquina do carmo com a rua sete (de setembro, para os menos íntimos) tem uma banca de jornal exibindo entre várias revistas antigas de mulher pelada, um exemplar palstificado da status da xuxa - a única em que ela aparece nua EM PÊLO. tive a sorte de ter essa revista nas mãos, quando do lançamento, por intermédio de um primo mais velho, que infelizmente já cantou para subir. na época, eu sequer sabia a utilidade de uma mulhwer pelada, mas se tivesse um palpite de que essa revista seria tão disputada hoje, teria guardado uma comigo. ah, o preço? uma bagatela de R$ 300,00. (aliás, para quem se interessa, a cavídeo tem uma das únicas cópias do filme "amor, estranho amor" do walter hugo khoury. para os mais novos, a película mostra uma cena em que a "rainha" demonstra a origem de toda a sua intimidade com os baixinhos. talvez seja a única cópia não recolhida pela xuxa.
3) na saraiva da rua do ouvidor, descobri que desprezo praticamente toda a atual cena musical brasileira. ivete sangalo, adriana calcanhoto, jota quest, maria bethânia, ney matogrosso e a parede, sandy e junior, pitty, sepultura e ana carolina são igualmente chatos pra caralho. até o ed motta anda me enchendo o saco. me dão náuseas as campanhas publicitárias, as promoções, os apelos, as fotos, as temporadas, os clipes, os acústicos, as harmonias, os arranjos, as entrevistas. não ouço rádio. não tenho mtv. não vou a shows. salvo quando viajo no carro da tereza, que às vezes sintoniza numa rádio que só toca música nacional 9algumas boas, até), meu conhecimento musical raras vezes chega aos anos 80. rock nacional? puá! deixei de gostar aos 15 anos, quando era punk. outro dia ouvi o disco da plebe rude, e tive vergonha de ter gostado tanto daquilo. sou obscurantista mesmo, fazer o quê? do pouco que conheço, talvez salve o lenine e os los hermanos, mas não devo conhecer mais de três músicas dos dois juntos.
mas o que isso tem a ver com centro da cidade, mesmo? pelo menos deu a impressão daquelas reflexões que surgem quando se está andando...
26 junho 2004
de jornalista, toda puta tem um pouco...
como bostejei anteriormente, tem uma ocupação que pretendo exercer profissionalmente pelos próximos anos - nada definitivo, (in)felizmente (?) tenho a necessidade vital de não me apegar a nada.
é que existem alguns mitos a respeito de jornalistas, que na minha ignorância e arrogância, pretendo comentar:
1) jornalistas são "urubus", sempre atrás de desgraças e do que há de pior na natureza humana:
correto. dizem que na redação do new york times tem um quadro com os dizeres "bad news, good news". agora, vocês já se perguntaram o por quê? alguém aí no fundo respondeu "porque vende mais?" bingo! as notícias trágicas têm muito mais apelo. faça o teste. se a primeira página trouxer uma manchete sobre a decaptação de uma personalidade do entretenimento num acidente automobilístico, e outra sobre o novo pacote econômico do governo, qual você vai ler primeiro?...somos urubus para satisfazer a SUA curiosidade mórbida.
2) jornalistas são pessoas bem informadas:
sim e não. por cacoete profissional, e por lidar com a reprodução dos fatos em quantidade industrial e velocidade instantânea, jornalistas carregam uma quantidade de informação ao suportável por qualquer outro mortal sadio. mas jornalistas não sabem tudo. na verdade, eles conhecem gente que sabe. no máximo, descobrem mais rapidamente onde procurar. no resto do tempo, estão blefando.
3) jornalistas são "vendidos":
correto. como qualquer profissional com necessidade de alimentar-se três vezes ao dia, os jornalistas fazem tudo por dinheiro. principalmente porque em geral, ganham mal. muito mal para o volume de trabalho. pergunte ao jornalista do seu lado quantos fins-de-semana ele tem de descanso por ano. no geral, somos como médicos. horário estabelecido inexistente, plantões nos finde, poucas folgas e - guardando as devidas proporções - a mesma responsa. duvida? um fato errado pode arruinar a vida de uma pessoa, provocar a sua demissão sumária, ou, na melhor das hipóteses, gerar uma enxurrada de emails, cartas e telefonemas com reclamações. estamos sempre no fio da navalha.
4) por dinheiro, jornalistas fazem coisas que até as putas recusam:
essa segue a linha de raciocínio da resposta acima. descontando todo o blábláblá ético, como qualquer outro profissional liberal, o jornalista tem que se submeter aos caprichos do patrão, se quiser continuar tendo uma cadeira onde pendurar o paletó todos os dias. ou isso ou é passar no departamento pessoal. amiguinhos, você que é postulante ao mundo das "pretinhas", saiba que a única liberdade que existe no jornalismo é a "de empresa". e parcialidade é a casa do cacete. o que não configura rima e tampouco, solução. portanto, vou botar as coisas por meio de uma parábola, que acredito ser do conhecimento de todo "coleguinha" que esquentou cadeira numa universidade por pelo menos um semestre:
reza a lenda que alcindo guanabara, deputado, senador, nome de rua, e um dos maiores jornalistas da história da imprensa nacional, ao ser convocado para escrever um editorial sobre jesus cristo, em função do natal, não titubeia e lasca a pergunta ao editor, do alto de suas polainas: "contra ou a favor, chefia?"
* * * * * *
preciso dizer mais? é por isso que eu amo essa profissão.
25 junho 2004
de volta das trevas...
...que nem foram tão negras assim. basta apenas um pouco de desorganização para, como diz o ditado, o lado mais fraco da corda arrebentar. infelizmente, o lado mais fraco é esse mesmo. mais juro pela sua mãe mortinha embaixo de um boeing onomatopáico de uma bola de tênis quicando sobre os ovos de um político do interior daquela obscura província no lado norte da região mais escarpada do deserto de gobi destruída pelo repentino estouro de uma tempestade subtropical graças ao efeito do desenrolar da trompa de uma borboleta que ficou presa na gosma pegajosa de uma planta carnívora mimetizada em orquídea ao tentar sugar seu suposto néctar, que não deixo mais de escrever.
depois disso tudo, alguém na platéia teria a audácia de duvidar da minha palavra?
bom, quem lê a tatipiv, sabe que passei um tempo nos estadozunidos por uns três quatro dias, a trabalho. pois é, rapaziada, vale do silício (ou do silicone, numa tradução mais apressada e distraída), o coração do cérebro tecnológico do ocidente. san jose, californification. de um lado, adobe, do outro, a cisco systems. ei, não é a sun ali? acho que o presidente da oracle acabou de acenar para mim daquele jaguar...fui super bem-tratado, bem-hospedado, tudo muito bacana, etcetera e tal, mas a quem interessar possa, é o seguinte:
1. as americanas não chegam perto das brasileiras. são na sua maioria obesas mórbidas com uma vozes finíssimas, como se fossem a minnie mouse nos seus dias mais afetados. aliás, esqueça os corpos sarados que você vê nos filmes, de homens e mulheres: se o resto do mundo comesse como os americanos, não só não haveria alimento suficiente para todos, como passaríamos a complementar as necessidades calóricas diárias com alguns vietnamitas e africanos.
2. são quase todos neuróticos (como diria o obelix) e paranóicos. leis, em geral, não são coisas boas, mas nunca vi um povo tão motivado em criar obstáculos à própria felicidade. às vezes, achava que uma camisa-de-força deveria ser mais confortável que, por exemplo, o esquema "não-fumar-dentro-de-nenhum-estabelecimento-não-beber-fora-de-nenhum-estabelecimento". o saco de papel pardo que se vê no cinema é apenas para TRANSPORTAR bebidas, e não dá o direito de consumí-las em public places.
3. todos reclamam que o café consumido lá é um lixo, mas se conformam e o consomem mesmo assim. a starbucks deveria dar junto com o café (?) um atestado de panaca.
4. todos os empregados de bar, faxineiros, lixeiros e trabalhadores de baixo extrato social são latinos (pelo menos na califórnia).
5. dica fundamental: em qualquer país, procure conversar com taxistas, vagabundos, garis e demais categorias profissionais mencionadas acima. eles são experts em ciências aplicadas - economia, sociologia, política, etc. - e sabem direitinho explicar quando a barra pesa. dois dos momentos mais emocionantes da viagem foi conversar com um ex-presidiário (san quentin) na condicional (o cara me mostrou a carterinha), enquanto bebíamos (ilegalmente!) do lado de fora de um seven eleven; e com três malucos que protestavam contra a ocupação do iraque numa esquina no meio de lugar nenhum. eles disseram que eu e meus amigos fomos os primeiros a parar para bater papo, em mais de um ano em que eles batem ponto ali.
com o tempo vou contando mais. aguardem. ou escolham outra página.
08 junho 2004
revisitando alfarrábios (I)
pensei em bostejar uns artigos antigos que escrevi para a falecida "Geração". era um projeto louco e ambicioso (sinônimos?) de duas meninas, a joana e a antônia, de publicar uma revista com a proposta inicial de ser uma espécie de time out carioca, mas que depois acabou se tornando uma salada de estilos, um bricabraque da geração gente-bem (a expressão denuncia a idade) carioca do ano 2000.
infelizmente, como é o destino de toda publicação independente, pouco depois de um ano - a primeira edição veio ao mundo em outubro de 2000 - ela foi para o buraco. não sem antes ter tido o seu derradeiro número encartado na edição para assinantes do jb, em um remoto sábado de 2002. foi bom enquanto durou.
nunca pude avaliar o barulho que fizemos (se é que fizemos algum), mas a história rendeu para as duas editoras uma seção na revista de domingo do mesmo jornal - depois assinada apenas pela antônia. foi bonito, amador e anárquico. eu escrevia uma coluna que se pretendia de política, mas não de partidarismo, e sim, voltada para apresentar uma "política do cotidiano". a idéia era mostrar como os assuntos da cidade diziam respeito a todos, e o que os jovens poderiam fazer para mudar as coisas ao seu redor. ou seja, uma puta pretensão. no decorrer do tempo, minhas boas intenções naufragaram no emaranhado que estava se tornando minha vida, e acabei tentando um pouco de tudo.
o primeiro texto que apresentei, ainda muito "durão" (mas que me habilitou a entrar para o "staff"), foi sobre o 27o aniversário da revolução dos cravos, em portugal. era uma tentativa de transmitir a emoção do primeiro contato com essa história, via capitães de abril, da maria de medeiros. porra!, uma revolução feita com flores, praticamente sem tiros, e embalada por uma canção- na minha humilde opinião - lindíssima, grândola, vila morena! era demais para meu coração insurreto.
infelizmente não trenho mais o texto. mas tenho todos os que saíram publicados. considero uns poucos bons, embora às vezes resvalem num certo pedantismo de quem acha que tem um dever a cumprir. enfim, ninguém é perfeito. vou aos poucos os colocando aqui, para não espantar de vez os poucos leitores. divirtam-se (?).
O Geisel foi meu bicho-papão
Minhas primeiras referências políticas vieram da infância
Até uns anos atrás, eu pensava que a minha consciência política havia nascido depois das dezenas de filmes sobre o Vietnã assistidos na adolescência. Achava então uma injustiça o "sacode" que os comunas amarelos infligiram aos ianques, coitadinhos. Para vocês verem como eu estava por fora.
Muito antes, porém, eu já havia recebido uma valorosa lição. Só me lembrei dela há pouco, numa reunião de família, enquanto se rememoravam os micos de infância. Entre um causo e outro, me perguntaram se eu lembrava do Geisel. "Quem, o presidente?", estranhei, calculando que quando ele governara o país, nos anos 70, eu não passava de um molecote. Era quando minha avó materna morava para lá do Maracanã, num recanto batizado São Francisco Xavier, próxima à segunda estação da Central (a primeira, não mentem os sambas, é a Mangueira).sua casa era o point das festas que reuniam a parentada, e varavam madrugada adentro. Eu, com não mais que cinco anos, acabava sempre dormindo, não raro embaixo da mesa de jantar, protegido por uma toalha que se estendia até o chão.
Meus pais, não querendo me acordar, às vezes me deixavam aos cuidados da Vóca - apelido que todos os netos usam para chamar minha avó. até porque, se tentassem, eu muito provavelmente distribuiria pataços a torto e a direito (hábito que, aliás, ainda cultivo). e quando me levavam para o quarto eu despertava com a a casa vazia e com poucas luzes, o que me levava a crer que havia sido abandonado. Então eu corria para a varanda e, na esperança de ainda encontrá-los, chamava-os aos berros.
Aí, minha tia Cléa - que morava numa casa em frente e sempre ficava para ajudar na arrumação -, preocupada que meu escândalo acordasse todo o bairro, alertava:
- Não grite, porque senão o Geisel vem para levar embora criança que chora!".
A princípio, eu não dava a menor bola e seguia com o concerto, até que ela, muito engenhosa, tirava o telefone do gancho como se houvessem ligado:
- Alô, Geisel? Não, não é daqui que tem criança chorando, não! deve ser em outra casa. Como? Você vem conferir?"
Nesse momento, eu parava de chorar na hora, me pelanndo de medo do tal "geisel", que eu não sabia se era homem, bicho ou assombração (talvez, para minha tia Cléa, apolítica até a raiz do cabelo, ele devia ser um pouco dos três).
O general Ernesto Geisel chegou à presidência em 74, um ano depois do meu nascimento. Foi ele quem começou a desmontar o aparelho ditatorial, através de uma distensão "lenta, gradual e segura". Não era dos piores, comparado aos seus antecessores, Costa e Silva e, principalmente, Médici. O primeiro foi o responsável pela assinatura do AI-5, em 68, quando foram rasgados os últimos "escrúpulos de consciência", e passou-se a prender, torturar e sumir com gente, em nome da segurança nacional. No ano seguinte, o outro assumiria o botequim, e não faria feio - ou melhor, bonito. Aniquilou o que restava de resistência (armada ou não) na base do chumbo quente. E saturou o povo com slogans ("Brasil, ame-o ou deixe-o") e canções como "Pra Frente, Brasil", até hoje reconhecida por qualquer torcedor de futebol.
Minha tia até poderia estar enganada, mas certamente estava escaldada. Ao invocar o presidente para me calar, talvez se lembrasse das histórias ouvidas na surdina, sobre pessoas desaparecidas. Ou, quem sabe, viessem à memória as marcas das borrachadas recebidas pelo irmão da minha mãe, apenas por ter tido a infeliz idéia de e passar perto de um soldado a cavalo, para ver de perto um tumulto na Cinelândia. Ou ainda, a história do vôo rasante que minha avó deu para dentro de uma loja, enquanto baixavam as portas de ferro para protegerem-se do gás lacrimogêneo usado para dispersar uma manifestação.
Foi através de relatos de testemunhas assim, sem qualquer formação política, que passei a sempre duvidar das versões oficiais. Pode ter sido essa origem da busca quixotesca que empreendo a caminho dos fatos, e que acabou me levando ao jornalismo. O resto, meus caros, é História...
03 junho 2004
enquanto isso, no torrão ao norte do rio bravo...
digam aí se as coisas não parecem ser assim mesmo...
But you can reach the top of your profession
If you become the leader of the land
For murder is the sport of the elected
And you don't need to lift a finger of your hand
Murder by numbres - The Police (com sting em pessoa em versão ao vivo do frank zappa)
salto de che guevara a jorge ben
ainda não vi o filme do waltinho salles sobre o che, mas desde o ano passado já havia lido "mi primer gran viaje", os diários que inspiraram o cineasta.
pensei em botar a letra da bela "hasta siempre, comandante che guevara". não sei se toca no filme, mas é tão linda que deveria, nem que fosse nos créditos finais. não sei quem a compôs, mas tenho duas versões: uma da soledad bravo, e outra do compay segundo.
em vez disso, escutei "o circo chegou", do jorge ben. tentem visualizar as situações e os personagens:
O circo chegou - Jorge Ben
O circo chegou, vamos "todo" até lá
Olha que o circo chegou, não custa nada você ir até lá
O circo é alegria de viver,
O circo é a alegria que você precisa conhecer
Tem um macaco cientista
Um urubu que toca flauta e violão
Uma orquestra de sapo
A cabra ciclista e a girafa seresteira
Tem um anão gigante,
A mulher barbada e o homem-avestruz
Tem o homem-foguete
que entra em órbita a qualquer hora
E quando você menos espera - suspense! -
O leão foge da jaula
Mas calma, minha gente que o leão é sem dente
calma, minha gente que o leão é sem dente
Um mágico que engole espada e come fogo,
Vira elefante, sai voando
Vinda diretamente de Paris uma linda, sexy bailarina
Dançando ao som da escaldante banda do Seu Tião Brilhantina
E quando não está roubando mulher, aparece o palhaço Tereré
Distribuindo goiabada e requeijão
E ingressos pra domingo que vem
E anunciando a grande atração:
A grande atração é uma grande vidente
Uma grande vidente, que tudo sabe, que tudo vê, que tudo sente
E agora, com vocês, a grande cartomante, a internacional Deise,
A mulher do homem que come raio laser
O circo chegou vamos "todo" até lá
Banacuca Cungungum, o palhaço que é ladrão de mulher
coisas que vou começar/retomar
a culpa pelo adiamento de uma série de coisas era atribuída ao mestrado. findo o problema, vamos à lista de tarefas:
- voltar a desenhar;
- aquarelar;
- xilogravar;
- retomar o sufi;
- tocar o projeto das camisas;
- reencontrar os amigos (joão, paulito, pedro, cabeção, daniel etc.);
- pegar um sol, para variar;
- nadar;
- comprar um dvd pro computador;
- ler asimov;
- bertrand russel;
-aldous huxley;
- salinger;
- os sermões;
- reler os sertões;
- a pedra do reino;
- lord of the flies;
- baixar zappa, muito zappa;
- todo o jorge ben;
- voltar a ser sócio da sala de vídeo do ccbb;
- aprender violão;
- voltar às aulas de caixa-de-guerra;
- achar tempo para tudo isso, e ainda por cima, dormir razoavelmente (coisa que aliás, deveria estar fazendo há horas. entonces, buenas).
02 junho 2004
sir paul e as "dgogas"
eu bem que desconfiava, mas não sabia que era tanto.
PLANTÃO
06/02/2004 - 15h39m
Paul McCartney revela que usou heroína e cocaína
Globo Online
RIO - O ex-beatle Paul McCartney revelou ter tomado heroína e cocaína, no auge do sucesso de sua lendária banda. Em entrevista à revista britânica "Uncut", McCartney disse que não sabia que havia provado heroína. "Não me dei conta de que havia usado. Me deram algo para fumar, e eu fumei. Mas não me afetou em nada", afirmou.Sir Paul disse também ter usado cocaína "por cerca de um ano" mas "nunca se viciou". De acordo com o cantor e compositor, as drogas davam inspiração para muitas canções dos Beatles. "Got to get you into my life", por exemplo, "era sobre maconha, mas ninguém sacou na época", disse ele. Já a música "Day tripper" era sobre ácido lisérgico. O ex-beatle contou ainda ser "bem óbvio" que "Lucy in the sky with diamonds" tratava de LSD. Segundo ele, muitas outras faixas dos Beatles faziam "sutis alusões" a drogas. As informações são do site da "BBC".
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"got to get you into my life", é? quem diria?...
back in the high life again
estou de volta, amiguinhos!
como quem lê a tati sabe, passei no mestrado. foi um sufoco danado, mais ou menos como se eu tivesse parido um abacaxi pela coroa. nos três dias que antecederam a defesa, devo ter dormido apenas umas cinco horas, talvez seis. o pior é que só comecei a desacelerar dois dias depois. minha médica disse que vai demorar algum tempo para o organismo se livrar da quantidade de anfetaminas que ainda corre nas minhas veias.
mas o que importa é que vim, vi, caguei no pau, mas venci. a propósito, de onde virá essa expressão "cagar no pau"? respostas para esse endereço.
mais mestre, mais calejado e mais velho. aliás, foi meu aniversário dia 30, preciso mudar o número no canto superior direito da página. mas não comemorei. meu estado de ânimo estava mais murcho que pneu furado, e não via motivos para celebrar enquanto não me livrasse do karma acadêmico. não fiz nada, e sequer contei aos amigos. terei 31 até o fim de maio do ano que vem, ora bolas!, portanto, realmente não tenho pressa de festejá-los.
enfim, amiguinhos, muitas coisas aconteceram, e a lição que tiramos disso tudo é "não deixe as coisas para a última hora, por mais fudido que você esteja", e que "saturno é a casa do caralho!" felizmente, tenho mais trinta anos até o nosso próximo encontro quando ele completará outra órbita completa. até lá, ao contrário de agora, estarei preparado. por enquanto, volto à vida, aos amigos, às "coisas úteis que se pode comprar com dez cruzeiros" (salve, jorge ben!).