meu aniversário tá chegando. antigamente, sempre que me perguntavam quantos anos estava fazendo, eu respondia "a idade de cristo". ao interlocutor espantado (ou não), explicava que cristo teve todas as idades de zero a 33 anos. portanto, qualquer número entre esses poderia reperesentá-la. se eu dissesse "a idade com que cristo morreu"...
essa era uma forma de humor típica do meu avô murilo.
com a minha idade j. cristo já era o messias ressuscitado. o stravinsky já tinha composto a sagração da primavera, o gershwin, rhapsody in blue, e o frank zappa, lançado hot rats. isso para não citar o noël rosa, porque aí já seria humilhação demais.
em compensação, euclides da cunha ainda não tinha parido os sertões, nem um certo joaquim maria, do cosme velho, tinha materializado memórias póstumas..., quincas borba e dom casmurro, não tendo, portanto, se metamorfoseado em machado de assis.
será que a maturidade musical vem antes da literária? será rimbaud uma das exceções que confirmam a regra? cartas para esse endereço.
a propósito, quem souber de mais algum caso de inspiração tardia, me avisem para eu não ficar muito deprimido.
ou então, quem quiser me animar pode fazer o seguinte: imprimir essa imagem (sem o logo, se não for pedir muito) do kurt vonnegut numa camisa e me dar de presente.
não se preocupem em serem originais: todos serão igualmente muito bem-vindos.
26 maio 2008
genetlíaco
21 maio 2008
poeminha para um feriado com costelinha
O astronauta
(Vinicius de Moraes - Baden Powell)
Quando me pergunto
Se você existe mesmo, amor
Entro logo em órbita
No espaço de mim mesmo, amor
Será que por acaso
A flor sabe que é flor
E a estrela Vênus
Sabe ao menos
Porque brilha mais bonita, amor
O astronauta ao menos
Viu que a Terra é toda azul, amor
Isso é bom saber
Porque é bom morar no azul, amor
Mas você, sei lá
Você é uma mulher, sim
Você é linda porque é
nós não semo tatu!
não gosto de andar de metrô. sei que ele beneficia uma porção de gente, oferecendo uma alternativa de transporte veloz, confortável e mais fresco, principalmente agora que acabaram com aquela vergonha que eram os carros da linha 2, menores, sem ar-condicionado e com janelinhas que pareciam basculantes de banheiro.
para os meus deslocamentos mais freqüentes (casa-trabalho-casa), o caminho para a estação de metrô é mais longo, e pago bem mais caro para ir em pé, apertado e por debaixo da terra. sem contar que não tenho vocção para tatu. já de ônibus, as opções são inúmeras, portanto sempre viajo sentado, vou mais rápido, e ainda sou brindado pela vista do pão-de-açúcar e do aterro do flamengo.
aos que argumentam que os ônibus são poluentes, respondo que as hidrelétricas e termelétricas que geram a energia para mover os vagões do metrô também causam um impacto ambiental enorme. um a um, tudo igual no maraca.
ser mal-servido já é ruim, mas sofrer o descaso que a opportrans, concessionária do serviço dispensou aos usuários da linha 2 (sempre ela!) na segunda-feira 19 de maio, faz minha indignação entrar em ebulição. o impressionante relato da leitora cláudia freitas foi publicado no globo. onde está a agência reguladora (agetrans) nessas horas? o governador, pelo menos, a gente sabe que estava passeando de bike em paris...
20 maio 2008
domingo de praia
acordei ainda meio zonzo da farra de sábado, que começou com o churrasco de um amigo, e acabou com a comemoração improvisada do aniversário de outro num show cover dos beatles. em dado momento, caí de costas no palco, e depois do fim da apresentação, tomei de assalto o microfone junto com outro camarada, e esfrangalharmos nossas gargantas cantando helter skelter até desligarem os microfones.
levantei-me lá pelas nove, com o sol clareando meu quarto sem cortinas. depois de vários dias nublados, fiquei animado com a posibilidade de recuperar as energias com um banho de mar. vesti um calção e fomos os três à praia, eu, mrs. dalloway e mário quintana.
ainda havia pouca gente na areia, a água estava cristalina, e a temperatura, nem estupidamente, como a boa cerveja, nem aquela sopa morna que no nordeste chamam de mar. enquanto nadava em direção à arrebentação, mergulhei de olhos abertos (tão clarinha...) e emergi sem as duas lentes de contato. beleza, não seria a primeira vez, e ainda tinha um par sobressalente em casa.
pouco depois subiu uma onda que, de onde eu estava, parecia ter uns cinco andares de altura. afundei até ficar rente ao chão, mas ela estourou em cima de mim e me arrastou de todos os jeitos durante uma eternidade. ao alcançar a superfície, bebi um tanto d'água e vi o quanto tinha me afastado da areia.
foi apenas o tempo de outra coluna d'água desabar sobre minha cabeça e praticamente virar-me pelo avesso. depois da quarta onda, achei que a coisa tava ficando preta, pois meu fôlego ficava cada vez mais curto. pela primeira vez, considerei a possibilidade de me afogar.
felizmente, a série me jogou num ponto em que consegui ficar em pé e sair da água, meio tonto, mas com alguma dignidade. e com tanta areia no calção que parecia ter herdado os bagos do homem-elefante. tive que voltar para a água (no rasinho, dessa vez) para esvaziá-lo.
desabei na canga e fiquei me esquentando ao sol enquanto recuperava o fôlego. depois comecei a ler mrs. dalloway, mas a conversa do lado era páreo duro para a prosa rebuscada de mrs. woolf. uma moça contava para outra nem tanto as brigas homéricas que tinha com o namorado/marido, por conta das puladas de cerca do bruto.
à medida que as horas passavam, mais gente se aboletava à minha volta. principalmente quando o mar, que produzia umas ondas de uns dois metros e meio de altura, começou a avançar sobre as pessoas instaladas na beirinha d'água.
dei uma cochilada, mas fui acordado por três aviões voando em fila indiana, cada qual carregando uma faixa. acho que era algum protesto contra o ministro da saúde. tudo o que esse míope sem lentes conseguiu ler foram as palavras "temporão" e "remédios", mas duvido que alguém usasse tal expediente para elogiar alguém.
depois chegou um casal com uma criança que jogava areia para todos os lados enquanto brincava de pegar com um cachorrinho yorkshire chamado "fifi". definitivamente vi que era hora de tirar o time de campo.
no caminho de casa, dois camaradas carregando um caiaque atribuíam o tamanho do mar à lua cheia, e quando cheguei à princesa isabel, o helicóptero do salva-mar içava um sujeito com um puçá preso à uma corda. poderia ser eu.
17 maio 2008
pausa para meditação
porque hoje é sábado.
concerto para piano no.5 em mi bemol maior, opus 73, "imperador"
(2. adagio un poco moto)
ludwig van beethoven
16 maio 2008
para descontrarir (sic)
piadinha surgida durante o trabalho, a propósito de dois bostejos anteriores.
babelykós - Anda reconhecendo a própria ignorância também?
eu - pois é...
babel - Cara, esses textos de Power Point... é verdade viu... Acho que só o Shakespeare e o L.F. Veríssimo têm mais que o Quintana.
eu - mas é que o veríssimo é para textos "engraçados" e o quintana, para "profundos".
babel - É, é bem isso.. Os críticos são todos do Jabor.
eu - e o millôr fica entre o "crítico" e o "engraçado". seria o "debochado". do shakespeare eu nunca vi...
babel - (Aquele que virou música do Frejat... "desejo que você tenha a quem amar...")
eu - não recebi esse, não.
babel - Quer que eu te encaminhe?!
sincronicidade
ao mesmo tempo em que sou preconceituoso como o cão em relação ao meus (des)gostos (in)culturais, sou curioso a ponto de me render a um bom argumento.
só para ficar num exemplo bem simples pero ilustrativo, teve uma época, lá pelos 15 anos, em que eu abominava beatles... hoje sou capaz de dizer a cor da cueca do ringo no último show da banda, no candlestick park, em são francisco, no ano da graça de 1966.
enfim, é o que está acontecendo com o mário quintana. falei da minha ignorância em relação à sua obra (sem nenhum juízo de valor, arima). logo os amigos vieram acudir-me com poemas e informações sobre o poeta.
o mais curioso, entretanto, foi eu estar ontem à noite pela feirinha de livros usados montada na cinelândia, e topar com uma edição de mrs. dalloway, traduzida adivinhem por quem? pois é...
voltei lá depois do almoço de hoje, já com os caraminguás engatilhados para adquirir o volume. não costumo ignorar certos sinais. no creo en las brujas, pero sí en la casualidad...
a propósito, reza a lenda que era uma samba-canção azul.
15 maio 2008
filosofia da vila isabel e arredores (2)
"O motivo das brigas era o mais freqüente de todos os motivos de briga de casal desde que o mundo é mundo: a falta de motivo."
aldir blanc, in "Rua dos Artistas e arredores".
14 maio 2008
os outros leitão, eu leitinho...
por pura ignorância, confesso que nunca considerei o mario quintana um dos meus poetas preferidos. e pelo pouco que sei acho que ele não teve muita sorte.
vejamos: ele tentou trocentas vezes entrar para a academia brasileira de letras e foi gongado.
essa meu avô me contou.
no fim da vida, ele tava numa pindaíba tão grande que morou de favor num hotel do ex-jogador e comentarista de futebol falcão (que classe!).
essa eu me lembro de ter visto no noticiário.
depois de morto, onze entre dez textos hediondos e apresentações semi-analfabetas em powerpoint que lotam as caixas de imeio são atribuídas a ele.
essas eu recebo todo dia.
entretanto, essa imagem tem mudado para mim, pois volta e meia alguém me mostra algo escrito por ele de verdade. coisas boas.
enrolei até aqui para dizer que um desses eu li no blogue da ana paula, e tem tudo a ver com uns troços que andei passando e sobre os quais não conseguia escrever. calma, gente, não estou doente nem vou mudar de time! é só umas coisinhas...
enfim, o bagulho é o seguinte:
O pior
O pior dos problemas da gente é que ninguém tem nada com isso.
a revolta do sovaco
quando me declarei seduzido pela penugem axilar feminina, tive minha sanidade questionada (para não mencionar as preferências sexuais) e fui objeto do preconceito hidrófobo de algumas mulheres. tinha uma que, se pudesse, me pendurava num gancho, qual um chouriço mussolini.
fosse john lennon vivo, ele diria que sou "o crioulo do mundo".
só que este que vos fala, tijucano da gema e safo dos quatro costados, não se abala nem dorme no ponto.
pois parti em busca de especialistas para fundamentar minha opinião e provar que estou ombro-a-ombro com a mais alta estirpe da vanguarda mulherística.
quem há de negar que vinícius de moraes é a maior autoridade em assuntos femininos nesse país, mais até que o chico buarque? pois o poetinha, mestre dos magos, dos copos e da moças, disse o seguinte:
"É aconselhavel na axila uma doce relva com aroma próprio
Apenas sensível (um mínimo de produtos farmacêuticos!)".
tomaram, papudos(as)?
quem duvida da existência do texto ou de sua autoria, procure pela aí a receita de mulher.
11 maio 2008
filosofia da vila isabel e arredores
"O que é o amor sem um par de coxas, e vice-versa?"
aldir blanc, in "Rua dos Artistas e arredores".
10 maio 2008
"Europeus abusam de álcool e drogas por sexo, diz pesquisa"
deu no globo.
essa notícia está velha em pelo menos 8.000 anos.
desde quando os sumérios e egípicos começaram a fermentar cereais e uvas, o álcool é utilizado como artifício para se levar "os puxual" pra cama.
o velho continente deve estar mesmo esclerosando...
parábola
depois de calcinar meu almoço no microondas durante uma acalorada discussão telefônica sobre quantos anjos cabem na cabeça de um alfinete, entrou uma abelha pela janela.
essa abelha já não devia ser lá muito boa da bola, porque, até onde eu saiba, o cheiro de fumaça repele esse tipo de inseto. no entanto, a névoa fedorenta que saía do forno e tomava meu pequeno apartamento pareceu atraí-la.
enxotei-a delicadamente com uma revista pela janela do quarto, mas quando fui beber água, notei que ela havia entrado novamente, dessa vez pela sala.
botei-a para fora de novo, mas a estúpida insistiu em voltar, e agora está zumbindo e se debatendo contra o vidro, na tentativa de sair. depois de tê-la ajudado duas vezes, vou deixá-la ali até que morra de exaustão.
definitivamente, há seres que preferem insistir em empreitadas inúteis, mesmo que isso lhes custe a vida, do que aceitar uma mão de alguém que, no momento, tenha uma visão mais ampla da situação.
são esses os que dizem: "ei, tenho minha própria cruz para carregar!"
quem sou eu para contrariá-los?
polititica
"Acho que qualquer forma de governo, não só o Capitalismo, é sempre aquilo que as pessoas que estão com todo o nosso dinheiro, bêbadas ou sóbrias, loucas ou sãs, resolvem fazer, a qualquer hora".
kurt vonnegut, in hócus-pócus.
08 maio 2008
outro diálogo
entreouvido nas bancas da feira de livros usados montada na cinelândia. um garoto com pinta de universitário na casa dos 20 anos, chama a atenção do colega:
- olha só, um livro do "oscar vílde"!
- pô, presta atenção, o livro é em inglês.
- ah, é! então é "óscar uáilde".
05 maio 2008
02 maio 2008
in the mood
até os pombos da cinelândia sabem que, salvo uma coisa aqui outra acolá, tenho todas as restrições possíveis aos anos 80, em especial à sua produção musical de massa.
eis que outro dia bastou um carro passar do meu lado tocando men at work, pra me dar uma bruta vontade de baixar tudo (as músicas. olha a margem!).
e não é que reencontrei uma que tem tudo a ver com tudo?
Who Can It Be Now? - Men at work
Who can it be knocking at my door?
Go 'way, don't come 'round here no more.
Can't you see that it's late at night?
I'm very tired, and I'm not feeling right.
All I wish is to be alone;
Stay away, don't you invade my home.
Best off if you hang outside,
Don't come in - I'll only run and hide.
Who can it be now?
Who can it be knocking at my door?
Make no sound, tip-toe across the floor.
If he hears, he'll knock all day,
I'll be trapped, and here I'll have to stay.
I've done no harm, I keep to myself;
There's nothing wrong with my
state of mental health.
I like it here with my childhood friend;
Here they come, those feelings again!
Who can it be now?
Is it the man come to take me away?
Why do they follow me?
It's not the future that I can see,
It's just my fantasy.
Oh...Who can it be now?
24 abril 2008
gênios da publicidade
nos anos 90 do século passado (adoro a sensação de pertencer a outro século), inventaram uma coalhada com um troço chamado "bifidus ativus", que supostamente faria maravilhas ao trânsito intestinal.
agora, tentam nos convencer de que seremos constipados de pai e mãe se não comermos um iogurte com um tal de "bacilo dan (dããã...) regularis". então tá.
no fim das contas, trata-se de publicidade de merda. e, nesse campo, até as pedras do calçamento sabem que mamão causa o mesmo efeito, com a vantagem de existir desde o princípio dos tempos e ser muito mais barato.
para me fazer de trouxa é preciso um pouquinho mais de sagacidade.
pra saber das novidades
já faz algum tempo que as manchetes do diarinho (não é que os caras cobram pela leitura do conteúdo?) tornaram-se quase obrigatórias.
misto de "espreme-e-sai-sangue" e "casseta e planeta", seu estilo é garantia de pelo menos um sorriso pela manhã. recomendo.
pérola do dia:
16 abril 2008
gastando latim
guardadíssimas as devidas proporções, às vezes me sinto como anchieta, escrevendo seu poema na areia da praia, pra depois vir a porra do mar e lamber tudo. ou seja, um trabalho boçal, mas que pelo menos eleva à santidade.
digo isso porque sempre que consultado (não sou besta de puxar esse tipo de assunto), canso de entregar às amigas o pulo do gato do trato com o sexo oposto. em vão.
sei que nada sei, porém gigante pela própria natureza, e com a experiência do convívio com os de meu gênero e espécie, afirmo com um mínimo de propriedade conhecer o que eu e alguns homens queremos delas e com elas.
talvez nenhuma mulher acredite em mim pela predominância do meu hemisfério palhaço. só que quando elas vêm me contar suas desventuras amorosas, tenho que morder lábios, língua e cotovelos para segurar o desejo de lascar um "não disse?", porque isso um cavalheiro não faz.
além do mais, desisti de ter razão. melhor é ser feliz ao lado de uma costelinha para esquentar e chamar de minha linda. os fatos apenasmente confirmam minha tese ainda não totalmente elaborada sobre o "romantismo canalha". mas atire a primeira pedra quem souber o que querem as mulheres.
para ser ouvido, resta-me ecoar as palavras do canalha-romântico por excelência, xico sá (dois bostejos seguidos sobre o cara... vão achar viadagem). reproduzo o texto, para ninguém ter a pachorra de dizer que a página não abriu.
DOU RISADA DE UM GRANDE AMOR - 16/04/2008
“Tinha cá pra mim que agora sim, eu vivia enfim o grande amor, mentira!”
Encontro minha amiga A., no nosso botequim predileto, e a desalmada vai logo anunciando, com a ironia fina que a acompanha na riqueza e na pobreza, na saúde e na doença.
Sempre tem boas histórias e uma mania louca de escolher uma música, normalmente Chico Buarque, para trilha das sagas românticas.
Como Chico tem um vasto elenco de personagens femininos e incorpora as dores e delícias das mulheres, ela escolhe no capricho, no ponto. Moleza, garoto.
“Tinha cá pra mim que agora sim, eu vivia enfim o grande amor, mentira!”, ela repete e repete, enche o saco com o “Samba do grande amor”.
Essa música nem é protagonizada por uma fêmea, e sim por um homem desiludido do amor, um cabra cujo destino parafusou-lhe na testa belos objetos pontiagudos, como diria o compay Marçal Aquino.
Mas ela insiste e canta assim mesmo. Pior: canta e ri, uma loucura. Que diabo de sofrimento é esse com essas gargalhadas todas?
A moça é assim mesmo. Não tem jeito. E olhe que nem pediu caipiroscas de frutas vermelhas nesse dia, ficou apenas no chope, coisa fina e civilizada.
“Morrer dessa vez é que não vou”, tira onda. “Ih, estou escaldada, velho Francisco”.
O que A. me contou uma das coisas banais que mais escuto das minhas amigas nos últimos tempos. E olhe que sou conselheiro, ombudsman das moças, cupido e ouvidor-geral de muitas crias das nossas costelas.
“Sua carteira de desesperadas é grande”, ela mesma tira uma boa onda sobre um ofício que desenvolvo com gosto e curiosidade desde os verdes anos –quando sequer eu sabia o era uma mulher para valer, conhecia apenas as cabritas e as bananeiras.
A amiga deparou-se com mais um desses homens que prometem, ensaiam, jogam um charme, cultivam, cantam de galo... comparecem e..., sem dizer nada, tomam o clássico chá de sumiço.
“Por essas e por outras é que agora prefiro um bom canalha a um homem frouxo”, prega a amiga, conquistando rapidinho o apoio da mesa feminina ao lado. “Um canalha pelo menos me pega com gosto e temos noites deliciosas”.
Defende a tese e emenda, riso desavergonhado: “Passava um verão a água e pão, dava o meu quinhão pro grande amor, mentira!”
É rapazes, é tempo de homem frouxo, que corre mesmo diante da possibilidade de uma história mais densa e afetiva. Não sabem o que estão perdendo. A começar pela minha amiga cantante, belo exemplar da raça, no auge dos seus 3 ponto 6, boa conversa, boa lábia, gostosa, bocão e um humor capaz de tornar o mais nublado dos dias no dia mais alegre e comovente para o cara que estiver ao seu lado. Sorte deste hombre!
a pão e laranja
buquinando no centro da cidade, tomado pela modorra pós-prandial, deparo-me com um exemplar de "modos de macho, modinhas de fêmea" a 10 real.
o barbudinho do balcão faz graça durante a operação de pagamento pelo cartão de "déto":
- olha aí, o senhor tá sendo processado.
aprovada a transação (com trocadilho), a maquininha cospe o canhoto.
- pronto, saiu sua absolvição. o senhor já pode cometer outro crime.
penso cá com meus botões, se todos os crimes fossem literários, qual seria a pena imputável a um leitor de xico sá?
para gostar de beatles
porque ainda existe vida inteligente em algum lugar. dá até para acreditar que as novas gerações estão em boas mãos.
quem sabe, vai entender.
ps: o começo é acelerado e sem áudio, para burlar os direitos autorais.
12 abril 2008
atende, que é pra você
a solange indicou e eu tarrei. e já saí brincando de criar toques para celular. se algum dia você ouvir algum desses, pode procurar em volta que sou eu.
11 abril 2008
músicas que marcaram minha vida (1)
irene - caetano veloso
se não me engano, o caetano compôs essa música em 69, durante seu exílio em londres. é um hino à saudade, materializada pela lembrança do riso da irmã. quase 20 anos depois, vivo uma história parecida, obviamente guardadas as devidas proporções.
circunstâncias alheias à minha vontade levaram-me a fixar residência em brasília pela terceira vez. estávamos às vésperas do jubileu de minha maioridade oficial, data que, pela localização geográfica, não oferecia nenhum motivo de júbilo. exilado no meio do cerrado, eu amargava a saudade de um rio de janeiro cuja noite, bares, mulheres, naturezas e mistérios eu mal começara a desbravar.
no distrito federal relacionava-me pouco, mas houve coisas boas. meu desenho deu um salto qualitativo, mergulhei fundo na obra dos beatles, de augusto dos anjos e allen ginsberg, e tomei meu primeiro porre de vomitar e apagar. assisti "hair" pela primeira vez. pouco antes de voltar, conheci um pessoal freqüentador do teatro garagem e da 109 sul.
ainda assim, a existência era cinza diante do tédio da imensidão sem fim do planalto central -- pô, venho de uma cidade onde mar e montanha dividem (às vezes aglutinam) o monopólio da paisagem em quase todas as direções. o banzo era tão violento que eu parecia uma adolescentezinha com tpm, de tanto chorar.
eis que um dia, o rádio me desperta para o colégio com essa música, que eu não conhecia e que traduzia exatamente meu estado de ânimo. era um sopro de esperança e vigor, apesar da letra triste. ouvi-a com atenção, e depois esperei o locutor anunciar o nome e o autor. até hoje guardo-a com carinho.
10 abril 2008
o segredo
"In my opinion, the best thing you can do is find a person who loves you for exactly what you are. Good mood, bad mood, ugly, pretty, handsome, what have you, the right person will still think the sun shines out your ass. That's the kind of person that's worth sticking with."
não tem nada desse papinho fajuto de mentalizar grana, sucesso, o escambau. o segredo da felicidade está em seguir à risca essas frases aí em cima.
a propósito, o texto é da diablo cody, roteirista de juno, filme que estava no meu computador há um tempão e que só assisti agora. uma pequena jóia. recomendo.
08 abril 2008
memória coletiva
a caminho do trabalho, o ônibus manobra na tesoura do aeroporto santos dumont, ponto que marca o fim do aterro do flamengo.
o trocador, pensativo, começa a falar, um pouco para si mesmo, um pouco para o motorista, um pouco para a pequena platéia do coletivo vazio, da qual eu fazia parte.
"Carlos Lacerda... quem construiu isso foi o Carlos Lacerda" - disse, abarcando toda a extensão dos jardins artificiais com um movimento circular de queixo.
"Eu era novinho quando ficou pronto... tinha acabado de chegar ao Rio. Isso já faz 48 anos.
E lá se vai uma vida...
Carlos Lacerda... Carlos Werneck Lacerda..."
ele escandia as palavras de maneira hipnótica, como se o nome do antigo governador da guanabara pudesse se sobrepor às memórias de sua própria vida.
logo estávamos na presidente antônio carlos, onde puxei a corda e desci. mas a vontade era continuar até o ponto final e além, puxando conversa sobre como era o rio quando ele chegou, quantos anos tinha, o que havia mudado nesse tempo todo, e como se tornou trocador.
nesse dia trabalhei pensando numa cidade que não existe.
06 abril 2008
domingueira
o prédio onde moro é constituído por apartamentos de dois tipos. os como o meu são chamados de quarto-e-sala. os outros, que tem um único cômodo, não sei como chamam, mas desconfio que uma lata de sardinhas deva ser mais confortável.
para mim, que vivo só (física, espiritual e sentimentalmente), o tamanho não é problema (o do apartamento, o meu já é outra conversa). mas há famílias inteiras que se amontoam nesses espaços exíguos. normalmente o pessoal se comporta e a vida em comum é tranqüila. quer dizer, suponho que seja, porque passo pouco tempo em casa.
mas aí chega o domingo. chove, e na noite anterior, como na outra, você esteve com umas companhias muito interessantes, de bom papo, e que gostavam de tomar umas cervejas. e o estoque de bebes era tão generoso, e o entendimento tão grande, que as conversas vararam a noite, até dia claro.
resumindo, você preferiu ficar em casa. quer dizer, preferi (por que eu estava falando na terceira do singular?). aí é aquela preguiça de domingo. uma musiquinha, um chazinho com bolachas, uma jarrinha de café para recuperar a energia, mas quem disse que tive direito ao sagrado sono da tarde?
os rebentos dos vizinhos, trancafiados no dia chuvoso, deviam estar subindo pelas paredes. pelo menos eram o que os berros deixavam transparecer. os pais, muito preparados, respondiam na mesma altura. e os cachorros, tão contrariados quanto eu, opinavam com seus latidos agudos.
deitado na cama, a cabeça escondida sob o travesseiro, entortava entredentes as palavras do poetinha:
"começo a achar herodes natural".
"visions of angels"
toda vez que o assunto de fetiche vem à baila em mesa de bar (são interessantes os bares que freqüento. uma das minhas poucas qualidades é escolher lugar pra beber), tenho que justificar minha preferência pela pilosidade axilar feminina, vulgo sovaco de moça cabeludo. só porque faço galhofa com tudo, ninguém acredita quando sou sincero. o que posso fazer se minha libido é setentista, cheia de ranços hippies?
é curioso ver os homens rindo, como se eu estivesse fazendo graça. já as mulheres só faltam vomitar. vejam só o que é a imposição artificial da estética. elas estão tão acostumadas, tadinhas, a serem escravas de processos de tortura em nome da beleza (escovas, tinturas, maquiagens, manicures, depilações etc.), que quando se lhes é apontado o caminho da liberdade, ficam horrorizadas como se vissem uma ratazana morta.
enfim, quando toco no assunto, as pessoas querem que eu explique, como se desejo viesse com bula, ou pudesse ser objeto de análise acadêmica. meus camaradinhas, prestem atenção, desejo é para se vivido, e não debatido.
mas para não dar aos distintos cavalheiros e às doces senhoritas a impressão de que os fiz de boi-de-cabresto, trazendo-os até aqui por nada, dou uma pista sobre o que estou falando. minha transa com os pelinhos não funciona com qualquer mulher, qualquer sovaco, ou qualquer penugem. é um troço meio difícil, como disse.
para a química dar certo, é necessária uma conjunção de fatores sutis, porém fundamentais. aí é que está o imponderável da coisa. em minha defesa afirmo que há poucas coisas tão sublimes sobre a face da terra quanto assistir uma moça se espreguiçando, os pelinhos debaixo do braço a brilhar de sol.
aos interessados, termino com uma citação dos nossos luminares propagandistas automobilísticos: "faça um test-drive".
mamãe eu quero
sabadão, dia de visitar irmã e cria, esta ainda desacostumada com a perda da unidade física com a mãe. conversávamos na sala, quando de repente, um "unhé" se faz presente (até rimou).
minha irmã acode ao quarto e leva a pequena ao seio, que imediatamente pára de chorar e logo cai no sono.
- tá vendo? - diz a irmã, calmíssima - não é nada. às vezes ela só quer isso, um peito para mamar um pouco e depois dormir junto ao calor do corpo.
e não é absolutamente a mesma coisa que procuro?
03 abril 2008
o animal mais belo do mundo
simone spoladore em lavoura arcaica. Vê-la dançando é cruel demais...
a qualidade da reprodução não é das melhores. felizmente, não se pode dizer o mesmo da moça. é uma compilação com os momentos "festivo" e "pomba-gira".
02 abril 2008
ah, esses cientistas...
deu no globo onláine:
Barriga grande aos 40 aumenta risco de Alzheimer, diz estudo
tudo bem que ainda não cheguei ao time dos "enta", mas...
...o que era que eu ia escrever, mesmo?
metido a gente
olhem que curioso:
fiz um frankenstein do meu bostejo do dia 27 de março e mandei pro observatório da imprensa.
e não é que os caras publicaram?
ps: justiça seja feita, se não fosse pela sugestão do meu bróder lessa (também responsável pelas dicas de edição), eu não teria sequer pensado em enviá-lo.
01 abril 2008
o pastor de nuvens
estou me repetindo, mas no meu mundo ideal, todos seriam jorginho guinle. ou índios. ou algo entre os dois.
o que quero dizer é que no mundo perfeito que projeto na minha cabeça, um dos aspectos principais é que as pessoas só trabalhariam por prazer, já que a todos seria garantido o acesso a tudo, e o dinheiro, se não supérfluo, seria inexistente. nunca é demais exercitar a esponja intracraniana.
dentro desse espírito, há duas ocupações que gostaria de exercer. uma real e outra fantástica. a primeira seria ser palhaço de circo. gosto dessa figura ambígua que, por sua aparência bizarra e absurda, é capaz de driblar impedimentos ou punições ao ridicularizar os poderosos e apontar as verdades mais inconvenientes. por outro lado é quase escravo da obrigação de fazer os outros rirem enquanto ele mesmo chora. faria isso de graça.
a segunda ocupação que penso para mim nasceu da observação do mundo através das janelas dos aviões, e é quase felliniana, ou saída de um poema de maiakovski. pois eu gostaria de ser um "pastor de nuvens".
nada me dá mais prazer do que assistir ao espetáculo fugaz e poderoso formado pela condensação de partíclas d'água. na primeira vez que morei só, meu micro-apartamento ficava quase colado ao corcovado, bem no suvaco do cristo. as nuvens sempre se acumulavam ali, proporcionando tantas tardes belas. assim que chegava do trabalho, sentava-me num banquinho estrategicamente instalado junto ao peitoril, onde ficava até escurecer.
imaginem então meu êxtase ao estar a milhares de quilômetros acima do chão, assistindo-as de cima, mesmo encapsulado numa lata de sardinha voadora.
quem dera poder passear sobre os cirros, afastando ou juntando as nuvens da maneira que me aprouvesse, espremendo nimbos, criando formas, tingindo-as de sol ou simplesmente descansando sobre elas. não haveria felicidade maior. nem cafuné em rede ganhava.
as nuvens são feitas da mesma matéria que os sonhos (alguém já disse isso, aliás melhor que eu). meu consolo é que, a cada dia que passa, me descubro vivendo mais próximo de seu mundo.
30 março 2008
29 março 2008
a estrela bate no peito
em mais quatro anos de bostejos, acho que nunca falei aqui do meu time de coração, o botafogo. para vocês verem que não minto ao me proclamar alvinegro desnaturado.
pois vou continuar não falando. passo a palavra ao sérgio augusto (e por tabela, ao paulo mendes campos), no texto mais lindo que descobri sobre o glorioso, quando tentava não "dar barriga" sobre o time do stanislaw ponte preta no texto abaixo.
e o orson welles, quem diria, acabou em general severiano.
Cabeça e coração, por sérgio augusto.
ps: desafio qualquer torcedor de outro time a apresentar linhas mais bem escritas. e com maior dimensão mítica.
retrato do rio
"O negro Mixaim tinha sido preso num boteco da Rua Carolina Machado, depois de tomar um porre e tentar dar no português do balcão por causa de uma discussão sobre futebol. A eterna desavença entre lusitanos e pretos do Rio, numa rivalidade que suplanta mesmo as coisas de amor e deixa a mulata em segundo plano: a raiva de um crioulo quando vê um vascaíno menosprezando o Flamengo, o ódio de um português quando vê um rubro-negro gozando o Vasco."
sérgio porto
tricolor filho de alvinegros
"eu penei, mas aqui cheguei"
essa semana, pela primeira vez na vida, paguei imposto de renda. não disse declarar, e sim, pagar. assim que enviei o formulário preenchido pela internet, liguei para a minha mãe. como supunha, ela ficou satisfeitíssima. para ela, pagar imposto era um dos sinais superficiais, mas nítidos, de que eu havia ascendido à condição de "ser alguém".
não sei ao certo que alguém me tornei, mas não a culpo. chegar até aqui foi tão difícil para ela quanto para mim. talvez até mais. embora eu é que tenha ouvido esse tempo todo, olhando para trás, até que foi pouco.
na infância, lembro de ouvir o cid moreira noticiar algo sobre a cobrança do imposto de renda no telejornal da noite. não sei se foi a imagem mental do leão ou a descoberta de que, quando crescesse, teria que dar parte do meu dinheiro para uma entidade abstrata e obscura como "o governo" (ainda estávamos na ditadura), mas o fato é que a partir de então perdi o interesse em crescer, para fugir das garras da responsabilidade. meu analista salivaria ao ler isso.
acho até que me saí muito bem na tarefa de desviar das obrigações. até que a pressão se tornou insuportável, e a necessidade de atender aos meus prazeres (independência de casa, mobilidade e horários, grana para discos, livros, álcool, eventuais cigarros e charutos, um agradinho às moças etc.) me empurraram para o mundo adulto.
para recapitular, comecei a escrever a minha trajetória, mas apaguei tudo. não vou encher o saco de ninguém com isso. o fato é que minha mãe e meu pai não ganham mais cabelos brancos por minha causa. quem tem a cabeça adornada por fios de prata agora sou eu. assim caminha a humanidade.
28 março 2008
consultoria de moda
dentre as coisas pelas quais invejo as mulheres está a liberdade com que elas podem se vestir para ir ao trabalho. o centro da cidade é mais quente que a virilha do capeta, e os homens mais afortunados, como eu, têm que usar calças e sapatos fechados. nem falo nos pobres-diabos obrigados a usar terno.
chega a dar raiva o fato de todo ano a tevê mostrar uma "matéria" sobre a reação dos office-boys e populares (quem mais anda na avenida paulista?) ao verem modelos masculinos -- não disse "homens" -- saindo às ruas de saia. a globo prestaria melhor serviço se vestisse um galã com sarongue na novela das sete. assim talvez a gente pudesse enfim arejar as partes em público sem ser apedrejado.
as mulheres ainda têm a pachorra de colar uns vidrilhos nas chinelas, chamá-las de sandálias e ir calçadas dessa forma para o escritório. e agora estão cortando as calças sociais na altura dos joelhos, e indo trabalhar de bermudas e paletó! mas vai um homem tentar, digamos, assistir a um concerto na sala cecília meirelles nesses trajes! entrar em certos prédios públicos e repartições, então, nem pensar. meu amigo lessa que o diga.
comentei a injustiça com uma amiga com quem tenho intimidade suficiente para acrescentar que achava essa moda meio feiosa, que as moças ficam com jeito de "juquinha". ela estava de bermudas, e disse que o filho pequeno concordava comigo. garoto esperto. nos despedimos, e mais tarde ela me envia uma cópia da conversa que teve com uma colega de setor pela intranet. vejam só:
amiga - você acha que minha bermuda está de juquinha? ... hahahahahaha
colega de setor - de quê? juquinha? amiga, eu sou carioca...traduz...
amiga - de menininho... garotinho.
colega de setor - claro que não. por que?
amiga - porque meu filho falou e o marcelo também... que essa roupa é de menino...
colega de setor - seu filho?
amiga - falou. disse que eu tava feia, porque minha bermuda é de menino.
colega de setor - convenhamos, ele tem 4 anos. acha que bermuda é de menino e saia é de menina, que nem rosa é de menina e azul é de menino...e o marcelo entende tanto de moda quanto eu de física quântica.
então tá.
27 março 2008
traficantes de bits
a notícia "Adobe lança versão gratuita do Photoshop na internet" me deu uma baita vontade de bostejar.
atenção: quando um texto começa usando a palavra "advento" logo na primeira frase, pode ter a certeza de encarar um texto teórico, não raro escrito de forma pedante e empolada. vamos ver se consigo quebrar isso:
o advento da internet iniciou um movimento de troca de informações que logo chacoalhou os paradigmas que regiam questões como o direito autoral e a propriedade intelectual.
o copyleft e o creative commons são algumas iniciativas de licenciamento criadas pelos próprios usuários para reforçar a natureza colaborativa que norteou o pensamento dos primeiros desenvolvedores da computação em rede, os hackers.
é isso aí, malandragem: foi graças a uma meia dúzia de ripongas libertários, hoje tachados de piratas e bandidos, que você hoje pode conversar com neguinho do outro lado do planeta num átimo, baixar músicas e filmes de graça, ver as fotos da moça do big brother pelada, e até ler meus bostejos.
desde que os militares abriram mão da administração da rede, em 1995 (se não estiver entendendo nada, veja aqui como se deu essa barafunda), as empresas privadas, novas donas da cocada preta, tentam criminalizar qualquer tentativa de troca que não envolva capital. só para citar um caso mais ruidoso, alguém aí lembra do napster?
mas as corporações de informática aos poucos estão percebendo que o movimento cresce de maneira exponencial e incontrolável, e que se quiserem sobreviver, terão que abrir as pernas. principalmente por conta do desenvolvimento cada vez mais freqüente de softwares similares e "livres" ("free as in free speech, not as in free beer").
os sistemas operacionais nascidos do GNU ainda precisam tornar-se mais acessíveis aos usuários comuns e semianalfabetos como eu (fui obrigado a voltar com o rabinho entre as pernas para o "ruíndous" , depois de levar uma surra do ubuntu), mas as coisas tão melhorando.
ações como essa da adobe (vulgo "tijolo de barro cru") são cada vez mais freqüentes. em vez de perderem todo o mercado para as versões piratas disponíveis on e off-line, as empresas preferiram adotar a tática do traficante: fornecer as primeiras doses (versões do software) de graça até o camarada começar a gostar da coisa, para então cobrar por elas (atualizações). mas para quem não é nerd, o básico já resolve lindamente, com a vantagem de ser gratuito.
isso também é inclusão digital. como diria aquele famoso cantor fanhoso, "the times, they are a-changin'".
26 março 2008
25 março 2008
(mau) tradutor, traidor
esse bostejo surgiu da necessidade de criticar a qualidade das traduções de livros e que tais que tenho visto por aí. achei até que tinha encontrado dois exemplos envolvendo a expressão "floresta tropical". o primeiro estava tão errado que foi difícil entender o que estava sendo dito (tem foto lá embaixo). o segundo foi ignorância minha, que não sabia que "floresta pluvial" era um sinônimo correto. mas é que o texto como um todo estava tão truncado, que fiquei de má vontade.
o texto que planejei escrever era assim, prestem atenção:
quando tinha dez anos de idade, tive a sorte de morar por quase um ano nos estados zunidos. quando digo sorte, me refiro a aprender, por imersão, um novo idioma quando seu cérebro ainda é uma esponja praticamente saída de fábrica.
porque aos dez anos, a uma criança com sorte suficiente para nascer numa classe média com privilégios inimagináveis para boa parte da população mundial, só importa brincar. e isso pode ser feito praticamente em qualquer lugar, em qualquer país.
meu cérebro hoje é uma esponja bastante maltratada, mas ainda boa o suficiente para inutilidades como decorar letras de música e criar piadas sobre o disc-jóquei preferido de einstein, e coisas importantes como gravar senhas de banco e de correio eletrônico. para quê mais serviria uma esponja velha?
enfim, desde os dez anos venho tentando honrar da melhor maneira possível o presente de ter aprendido outra língua, estimulando minha esponja a não esquecê-la. para isso, me forço a ler livros no original (sempre na companhia de um dicionário) e a assistir filmes sem legendas. não têm aparecido muitas oportunidades de conversar com nativos, o que prejudica um pouco a rapidez e a fluência, mas me viro como posso.
meu pouco conhecimento, quase todo instrumental, e meus poucos escrúpulos, não me permitem aventuras no campo da tradução. pelo menos não de forma séria. já ajudei amigos com resumos de dissertações (abstracts), textos teóricos e trivialidades, mas sempre me desculpando pela indigência, e recomendando que procurassem a palavra final de um especialista.
aliás, um pequeno parêntese: já notaram como, em todos os aspectos da vida, os que "se dão bem" (o que quer que isso signifique) são sempre aqueles que assumem uma postura de segurança, mesmo quando não fazem a mais vaga idéia do que estão fazendo? reparem, em todos os campos, quem está no comando das coisas são sempre os escroques e os semi-analfabetos. os poucos competentes de destaque são exceções, os "soluços da máquina". fecha parêntese.
entre os tradutores a situação não é diferente. o primeiro caso a que me referia lá em cima, no começo do bostejo, partiu de um resumo de programação de tv por assinatura, na foto abaixo:
peraí, camaradinha: "chuva florestal"?! pô, o mínimo que se espera de um tradutor é que ele esteja atualizado com as questões que envolvem seu metiê. estamos falando de "rain forest", um termo que, nesses tempos de globalização, farc e aquecimento global, é mencionado em pelo menos uma de cada dez notícias. o cara deve ter usado a ferramenta de tradução automática do computador e não revisou depois.
vejam bem, não estamos falando de nenhum jargão específico de economia, ou mesmo de biologia, como foi o caso quando, nos tempos pré-internet, passei semanas arrancando os cabelos para descobrir que "fry" significa "alevino", numa tradução para um amigo oceanógrafo.
o segundo caso, o da "floresta pluvial", veio da versão em português do livro timequake, do kurt vonnegut. o termo está certo e eu não sabia, mas é que a tradução emperrada estava me tirando todo o prazer da leitura. já li o autor no original, e sabia que ele não escreve com o freio-de-mão puxado.
não pretendo entrar em discussões teóricas sobre fidelidade versus fluência nas traduções, e muito menos ficar arrotando grosso sobre assunto que não entendo, mas acho que uma boa tradução deve ser aquela em que a história flui sem que você perceba que está lendo, sem precisar ficar voltando à mesma frases várias vezes para entender o que está sendo dito.
sei lá, também...
pô, vocês chegaram até aqui? não têm mais o que fazer, não?
quem avisa, amigo é
desde que largou seu torrão natal, caroline caf(un)é tem se metido com umas gentes muito estranhas, sórdidas e pandegosas, dentre os quais inclui-se, com muito orgulho, este que vos bosteja.
isto posto, sou com freqüência assaltado (o que é comum aqui no rio) por dúvidas sobre como uma moça criada no seio de uma família distinta e criativa, a ponto de figurar entre os frutos mais ilustres de iguatu, pôde se rebaixar a ponto de ter criado um blog.
isso mesmo, senhoras e senhores do júri: mlle. caf(un)é, aquela cidadã de dignidade inquebrantável, jornalista, professora e com título de mestre conferido por uma das mais importantes instituições de ensino daquela estranha cidade ao sul do brasil, desceu ao nível de rastejar num meio de comunicação que nem subliteratura pode ser considerado. eu, um dos responsáveis indiretos por isso, já tive a honra de participar como personagem.
claro que os motivos pelos quais ela justificará o blog serão de ordem profissional, mas eu conheço bem esse tipo de gente. e já que ela escolheu esse caminho infame, infeliz, inglório, ingrato (alguém mais tem um adjetivo com o prefixo "in" exprimindo negação?), como blogueiro-irmão, só posso dar às boas-vindas à confraria e desejar boa sorte à maneira de outro tipo de marginal, aquele povo "ligado a teatro" (em 110 ou 220 volts?):
e dedicar-lhe um valoroso conselho de mestre kurt vonnegut, sob a forma de cópia descarada do livro timequake (desta vez, a má-tradução não é culpa minha):
"Ensinei redação criativa durante meus setenta e três anos no piloto automático, com reprise ou não. Primeiro ensinei na Universidade de Iowa em 1965. Depois dela veio Harvard, e em seguida a City College de Nova York. Já não ensino mais.
"Eu ensinava como ser sociável no papel. Dizia a meus alunos que, quando eles estavam escrevendo, deveriam ser amáveis como num encontro marcado com alguém que não conheciam, deveriam divertir desconhecidos. Como alternativa, deveriam cuidar de bordéis realmente simpáticos, abertos a todos, muito embora estivessem de fato trabalhando em total solidão. Disse que esperava que fizessem isso com nenhum outro recurso além de disposições idiossincráticas em linhas horizontais de vinte e seis símbolos fonéticos, dez números e talvez oito sinais de pontuação, porque não era nada que não tivesse sido feito antes."
longa vida!
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ps: resolvi dar uma demão de tinta, ou melhor, de pixels, no visual do borduna!, e -- com perdão pela má-palavra -- descaralhou a porra toda. os comentários já estão de volta, mas alguém pode me explicar que raios são "trackbacks", e como essa bagaça funciona?
24 março 2008
vou ali e volto já
acabo de chegar de fortaleza, onde fui tomar minhas pílulas de felicidade condensada. sabor tangeirina (sic).
19 março 2008
"I'm afraid, Dave. My mind is going. I can feel it."
morreu o arthur clarke. não sei se ele ficou tão apreensivo em partir quanto o computador hal, de "2001", cujas últimas palavras reproduzi no título do bostejo.
também não sei praticamente nada a seu respeito, a não ser que foi o criador, junto com o kubrick, de 2001, uma odisséia no espaço. dele só li "os mundos perdidos de 2001", um híbrido de compilação dos contos que originaram o filme e diário de produção e filmagem.
aliás, que conste dos autos, "2001" é um dos meus filmes preferidos. mas essa opinião foi fruto de anos de insistência. que começaram quando do anúncio da exibição do filme pela a primeira vez na tevê, lá pelos idos de 83. provavelmente com medo de perder audiência por causa da "dificuldade" da história, os programadores agendaram um horário proibitivo, já de madrugada.
meus pais me deixaram ficar acordado para assisti-lo, já a par do efeito soporífero que o filme exercere sobre as crianças. pois capotei antes da cena do osso se transformando em nave espacial. tentei vê-lo outras vezes, sem sucesso, até que o rio design center da barra inaugurou sua sala de cinema.
para atrair o público para aquele fim-de-mundo, exibiu uma série de clássicos modernos, começando justamente com 2001. nessa época, meu cérebro já estava contamindado com todo o tipo de porcaria química e literária , me fazendo apreciar o filme sob vários aspectos, com leituras de significados em vários níveis. eu acho.
********
na cerimônia póstuma em homenagem isaac asimov na associação humanista americana, o escritor kurt vonnegut, então seu sucessor na presidência da instituição, disse: "isaac agora está no céu". como a única abstração em que os humanistas acreditam, e a qual servem, sem qualquer espera de recompensa ou punição, é sua própria comunidade, a frase causou uma explosão de gargalhadas.
como já disse, não sei se clarke era humanista, ateísta ou qualquer outro "ista" além de cientista. sem pretensão de me igualar ao "vô negut", diria eu sobre sua morte, pensando na imagem final do filme, "clarke agora é um bebê gestado no espaço".
talvez a escolha dessa imagem tenha sido influenciada pelo nascimento da criatura mais linda e especial que já vi, depois de mim, é claro (diria o warren beatty, não eu. enganei vocês!), minha sobrinha sofia.
sobre ela escrevo depois.
recomendo esse sáite para quem quiser saber sobre o filme.
17 março 2008
separados no nascimento
capa do estadão onláine (17/03/08):
o gêmeo (dizzy gillespie):
um com pouco fôlego, outro com muito.
charlie babbitt fez uma piada
não que isso faça diferença, mas apenas para cutucar meus detratores, que andam dizendo que não passo de "um sujeitinho arrogante, gordo, chato, burro, feio, fracassado, encalhado; um fake escondido atrás de máscara intelectualóide, um boçal que copia trechos de outros escritores e diz que são seus" (esqueceram "cabeça-de-mamão" e "olho-de-peixe-morto"), inventei uma piada.
quase queimei o pouco que resta de minha pouca massa cinzenta, mas consegui. e sozinho. segurem as dentaduras:
- Sabe qual é o DJ (didjêi) preferido do Einstein?
- MC Ao Quadrado.
faça o que eu digo, não faça o que eu vejo
olha só: assumo que sou chato pra caralho, muitas vezes grosso (quando isso não é conveniente), enrolado e cheio de outros defeitos, mas cada vez mais me convenço que estou anos-luz à frente dos meus pares quando o assunto é o trato com o sexo oposto.
neguinho pede pra nascer burro e entra duas vezes na fila. ô, raça!
ps: saber que tenho um desafeto me deu uma sensação de ser tão importante...
09 março 2008
redundância midiática
outro dia, enquanto passava a roupa, escuto o locutor da globo anunciar empolgadíssimo as novas atrações para a temporada:
"Uma seleção de filmes inéditos como você nunca viu".
ah, bom. se fossem os inéditos que já vi eles não seriam inéditos, né não?
07 março 2008
pró-labore
como é bom trabalhar num lugar onde as palestras de conscientização dos trabalhadores têm temas como "ACIDENTE FATAL COM ESTILHAÇO DE MARRETA".
peida não!
matéria do consultor jurídico:
Flatulência não é motivo para demissão, diz TRT-SP
não sei o que é mais engraçado. o ridículo motivo da demissão, ou a sentença do juiz.
maiakovski nos olhos dos outros é poesia
na adolescência, dei para me meter com poesia. além de ler bastante as dos outros, cometi umas por aí. talvez por educação, talvez para se livrarem do fardo de ouvi-las, os amigos diziam que gostavam. depois cresci, brutalizei-me, e as poesias tornaram-se um fino e raro acepipe.
nesse tempo, minha prima cláudia me apresentou uma coletânea de poemas de um certo maiakovski. tudo ali era lindíssimo, desde a arte da capa. na melhor tradição concreta, era composta apenas de linhas horizontais separavam o nome do poeta, intercalando a grafia cirílica e ocidental.
foi paixão à primeira vista. a grandiloqüência do estilo lírico/político-revolucionário conquistou meu coração idealista de adolescente. depois veio a própria figura sólida, o triângulo amoroso com o casal brik (lília e ossip) etc.
mais tarde ainda ouvi a tão proclamada "voz de trovão", graças a um vinil com declamações gravadas por vários poetas russos, de posse do meu grande amigo arima, o "oscar mourave" do finisterra, na coluna aí à direita (também foi responsabilidade dele minha paixão por marina tsvetáieva).
bom, vamos ao que interessa: senhoras e senhores, o "poema-anel" que maiakovski compôs para lília brik.
06 março 2008
05 março 2008
gps cariri
combinação de encontro para almoço com caroline caf(un)é, via sistema de mensagens interno.
eu - mas onde diabos fica esse restaurante?
ela - na rua do metrô, só que mais pra lá do que pra cá. tem uma placa
eu - pra lá onde, criatura?...rs
ela - mais pro lado de lá de quem vai.
depois de muito esforço para traduzir as informações, chego esbaforido e dou a sacaneada de praxe:
eu - isso lá é jeito de se comunicar, minha filha?
ela - oxe! qualquer cearense entenderia...
então tá.
03 março 2008
nem rastro de cobra nem couro de lobisomem
hoje cheguei a algumas conclusões depois de entreouvir a conversa de três "jovens-profissionais-bem-sucedidos-engravatados-metrossexuais", na fila de um restaurante idem.
- homem que é homem não faz as unhas;
- homem que é homem não usa creme hidratante para sair de casa;
- homem que é homem não come crepe;
- homem que é homem não come torrada com cream-cheese;
- e, principalmente, se fizer uma das coisas acima, homem que é homem não confessa em público.
27 fevereiro 2008
pequena radiografia das corporações
"Neste momento o senhor é tão fácil de ser investigado pela Comissão de Valores Mobiliários quanto um homem na esquina vendendo maçãs e pêras. Mas imagine o quão difícil seria investigá-lo se o senhor tivesse um edifício de escritórios cheio até a tampa de burocratas industriais -- homens que perdem coisas e utilizam formulários errados e criam novos formulários e demandam tudo em cinco vias, e que entendem talvez um terço do que lhes é dito; que habitualmente dão respostas erradas para ganharem tempo para pensar, que tomam decisões apenas quando são forçados a isso, e que depois cobrem seus rastros; que cometem erros perfeitamente honestos em operações de adição e subtração, que marcam reuniões sempre que se sentem solitários, que escrevem memorandos sempre que não se sentem amados; homens que nunca jogam nada fora a menos que achem que podem ser despedidos por isso. Um único burocrata industrial, se for suficientemente vigoroso e tenso, deve ser capaz de criar uma tonelada de papéis sem sentido por ano para a Comissão de Valores Mobiliários examinar. E no seu edifício, o senhor terá milhares deles".
o texto é do vonnegut, em "as sereias de titã".
a má-tradução e a adaptação são culpa minha.
26 fevereiro 2008
constatação
para quem esperou 25 anos para conhecer e nove anos para voltar, uma segunda visita em pouco mais de dois meses faz de fortaleza praticamente meu segundo lar.
com todos os méritos, que fique registrado.
25 fevereiro 2008
19 fevereiro 2008
sem loção
sempre gostei dos comentários dos leitores do globo onláine.
assombra-me a falta do que fazer de quem lá escreve (e minha, por tabela, por lê-los).
mas nessa notícia sobre a infestação de mosquitos na cidade, neguinho se superou.
Atualização:
eis que, quando eu achava que já tinha visto de tudo...
14 fevereiro 2008
me engana que eu gosto
tenho alguns imeios que utilizo como filtros para o meu endereço pessoal. toda vez que tenho que me cadastrar num sáite público ou em promoções onláine, por exemplo, é um deles que indico. este mesmo no topo da página à direita é um deles.
de quando em vez os leio, para ver se não há nada importante, mas a maior parte das vezes são apenas mensagens me oferecendo viagra ou para aumentar não-sei-quantas polegados do meu pênis (devem ter espalhado alguma coisa por aí...). e também tem aqueles milhares de spam prenhes de vírus disfarçados de cartões virtuais, avisos de que vão cancelar minha conta do orkut, meu cpf, pedidos de recadastramento em todo tipo de instituição oficial, financeira e outros babados.
geralmente eu abro para ver a criatividade "dos puxual" que inventa isso. eis que hoje me deparei com a seguinte pérola. leiam com atenção:
como é que os caras acham que alguém vai cair nesse golpe se eles nem se dignam a escrever o português corretamente? é como diz o filósofo, "quer comer minha bunda, tudo bem, mas pelo menos me beije na boca".
13 fevereiro 2008
minhas férias (parte 2)
a demora em continuar o relato da viagem ao ceará está por conta de uns palpites infelizes, que acabaram por levar meu computador a embaralhar tudo o que aparece no monitor, tornando impossível qualquer ação ou leitura.
enfim, o que eu queria dizer é que tenho me lembrado bastante da festa da taíba, a praia perto de fortaleza onde passei o segundo melhor reveillon da minha vida. o primeiro foi involuntariamente sozinho na casa da minha mãe, assistindo a um festival dos irmãos marx na tevê a cabo. distraí-me com os filmes, e só dei por mim quando os fogos começaram a espocar.
não a vi de dia, mas afirmo que a taíba tem a noite mais estrelada e bonita do mundo. mais até do que jericioacoara, para onde fui alguns dias depois. se bem que meu julgamento pode ter sido influenciado pelos fogos e as vibrações da ocasião. vibrações, aliás, em grande parte proporcionadas pelos anfitriões, em especial a marreca, a figura iluminada que a gabi tem como mãe.
a simpatia com que recebeu a mim e outros desconhecidos foi tão grande que não havia como não se sentir bem-vindo, aconchegado e, arrisco dizer, fundamental ali. pouco antes da virada, recebemos rosas e palmas para ofertarmos à iemanjá, e rumamos em fila para a praia, segurando uma corda puxada por ela, que nos explicava ser "o fio que nos une".
de frente para o mar, sob a escuridão quase total, uma doce melancolia tomou conta de mim, e aproveitei para me afastar um pouco e refletir. pensei em perda, solidão e amor ao próximo. mas não estava triste, e sim confortado comigo mesmo e feliz por estar pulsando na mesma freqüência que todos. um estado de espírito parecido com o que senti no carnaval do ano passado.
outra lembrança que permanece, igualmente forte e querida, é a do quase desvario dançante causado pela qualidade do som comandado pela júlia lopes. só que, mais que os pontos de macumba-palavrão do otto, o que não desgruda da mente é a canção lourinha americana, do mestre laurentino, que sabe deus em que furna obscura do passado a ouvi pela primeira vez. isso é que é eterno retorno, o resto é onomatopéia de espirro.
essa lourinha americana
está querendo me esculachar
foi dizendo que eu sou neguinho, e bem neguinho
e lá na américa eu não posso entrar
mas o que eu mais me admiro
é de ver o americano
quando chega no brasil, no brasil
com negro vem se misturar.
mas o que mais eu me admiro
de eu ser um nego brasileiro
e estou noivo pra casar com uma lourinha
e ela é filha de estrangeiro.
07 fevereiro 2008
frases memoráveis do cinema
revendo snatch numa das muitas noites chuvosas que ensoparam o carnaval, topei com a seguinte pérola, proferida por um dos personagens mais sinistros da minha pobre biografia cinematográfica, o gângster bricktop, interpretado por alan ford:
"Do you know what 'nemesis' means? A righteous infliction of retribution manifested by an appropriate agent. Personified in this case by an horrible cunt... me."
31 janeiro 2008
pérolas do mundo corporativo
pesquisa de satisfação da festa de fim de ano da firma. reparem no comentário escrito:
"minha opinião que faltam organizaram e para um futebol que tem direito pra jogar futebol. pois as pessoas muitas atrapalhar e nem fui jogar bola.. pois é..."
gargalhadas à parte, obviamente ninguém conseguiu entender nada. em compensação, já decidimos que o brinde para os funcionários no fim do ano será uma cartilha do professor pasquale.
28 janeiro 2008
lição para o carnaval
"carreiro bebe, candeeiro também bebe
senhor mandou dizer que não ensina a boi beber."
jongo retirado do disco "clementina de jesus", de 1976.
23 janeiro 2008
para encerrar a questão...
os últimos dois bostejos devem estar enchendo o saco de quem está afim de ler sobre o resto das minhas férias. sei bem que me iludo a respeito do número de pessoas interessadas nas minha bordunadas, entretanto, há uma meia dúzia de três ou quatro amigos meio desregulados que ainda perdem tempo aqui.
um deles é o dude, que recentemente mudou de nome e cara (do blog dele!). além de ser meu mentor/tutor para questões informáticas e nerdísticas, o cara é inteligente pacas.
mas que fique claro que não o elogio aqui por causa de sua análise acertadíssima (mesmo não concordando com tudo) sobre o que escrevi anteriormente. "nãããããão, não é nada disso, não", como diria minha avó, dona climenes. se bem que essa atitude o ajude bastante...
pronto. prometo não perturbar mais ninguém com meus solilóquios amorosos.
19 janeiro 2008
resposta a(o) leitor(a):
recebi o seguinte texto, a propósito do último bostejo:
sobre seu ultimo post no blog, discordo muito: quem se esconde assim como vc nao conhece absolutamente nada do amor, que para ser verdadeiro tem que ser muito, sem defesas, sem desconfiancas e muito menos sem rancores de historias passadas que nao deram certo....
nao tenha medo, moco, a gente ainda e muito novo! mas vc esta no caminho certo, voltando aos poucos a confiar mais nas pessoas...
********
ao que respondo:
acho que não me fiz claro. eu não me escondo, não tenho defesas nem desconfio das pessoas, apenas não fico desvairado de amor.
mas não quer dizer que eu jamais sonegue afeto. só que quando o assunto é amor -- e não paixão --, se o objetivo for uma convivência a dois, é preciso ficar atento a determinados sinais para saber se as coisas valem a pena ou não.
porque as pessoas se iludem em relação às outras, idealizam e acham que podem mudá-las, e quando isso não funciona (porque tal coisa nunca funciona, pela simples razão de ser impossível de realizar), elas passam o resto da vida se lamentando, martirizando, ou se questionando onde foi que erraram.
escolher parceiro é como escolher qualquer outra coisa, como por exemplo, comida num restaurante. é importante, e diria até necessário, provar algo novo ou muito diferente do seu paladar, mas se o gosto não for satisfatório, para que insistir no pedido ou repetir a dose?
marcelo.
"Essa ferida, meu bem, às vezes não sara nunca"
mais ou menos aos 14 anos deixei de ter ilusões a respeito do amor cortês. essa foi a época em que percebi que não chegaria a lugar nenhum passando noites em claro ouvindo as canções "mela-cueca" do good times 98 no rádio, fantasiando confissões de amor eterno no leito de morte a uma amada hipotética.
junto à percepção do senso de ridículo, a passagem dos anos se encarregou de me presentear com uma ou duas belas rasteiras no campo sentimental. e se é bem verdade que nessas ocasiões os joelhos e o coração saíram escalavrados, também me ajudaram a forjar uma armadura racional que, antes de me separar do mundo, me protege de golpes desnecessários.
uma vez me apontaram uma definição de geminiano (meu signo) como um sujeito que carrega dois corações: um na mão, o qual ele presenteia a todos, e outro trancado no armário do peito, cuja chave ele não dá para ninguém. e por muito tempo achei essa a imagem que me definia melhor emocionalmente. hoje sei que não é bem assim.
ainda não cheguei ao ponto de dizer, como maiakovski, que "comigo a anatomia ficou louca. sou todo coração", e nem sei se assim o quero. o importante é que os tropicões que levei ao longo dessa estrada serviram para destruir de vez o mito do amor romântico.
sou capaz de me apaixonar, sem no entanto perder a razão. e, com todo o respeito devido, discordo do houaiss em sua acepção de paixão como "sentimento, gosto ou amor intensos a ponto de ofuscar a razão". comigo, felizmente, não é mais assim.
amo sim, e não deixo de me entregar aos relacionamentos com intensidade. mas nunca sem pesar as variáveis. por exemplo, se logo nos primeiros momentos começarem a despontar muitas arestas estruturais, não adianta se iludir que a coisa não irá muito adiante. é melhor nem deixar a massa crescer, porque o bolo vai solar e o resultado será feio.
podem me chamar de frio, calculista e racional em excesso. mas sou totalmente favorável aos relacionamentos saudáveis. não sem diferenças e desavenças, porque essas fazem parte da convivência de quaisquer dois seres que se proponham a levar uma vida em comum, sob o mesmo teto ou não. mas evitarei ao máximo alimentar neuroses, competições ou recalques que identificar ao longo da jornada.
é graças a esse sentido apurado que hoje consigo ser amigo de todas as minhas ex-namoradas e eventuais casos. não, pensando bem, tinha uma que, há una anos, não podia sequer ouvir falar meu nome. mas hoje ela nem deve lembrar mais que eu existo. de qualquer forma, isso é outra história...
enfim, toda essa baboseira foi para dizer que tenho um renque de defeitos, entretanto, uma ou duas coisas a respeito do amor eu sei. e quero, antes de mais nada, que as pessoas brilhem, e que, se o amor não vingar, que pelo menos fique a amizade -- porque essa sim, vale ouro.
resumindo: o que tiver que ser, será. e o que não tiver, também. só que ao contrário.
18 janeiro 2008
pérolas do mundo corporativo
uma colega de trabalho estava à cata de um manual de redação e estilo da repartição, e topou com um que deve ser do ano de mil novecentos e guaraná com rolha. reparem (os grifos são meus):
3.3 - TELEX
Para comunicação cuja existência se justifica pela necessidade de passar informações em caráter de urgência.
3.3.1 - O TEXTO DO TELEX
Deverá obedecer aos seguintes critérios:
A. Redação com o mínimo de palavras possível, suprimidas as expressões de cortesia bem como as partículas gramaticais;
B. Não-utilização dos sinais de acentuação;
C. Supressão dos sinais de acentuação;
D. Não-divisão das sílabas das palavras;
E. Datilografia de todo o telex em letra maiúscula;
...e por aí vai.
detalhe, esse texto estava na intranet, o que prova que lá ninguém lê nada.
17 janeiro 2008
minhas férias (parte 1)
ia começar esse bostejo dizendo que ainda não tinha escrito nada em 2008 por preguiça. depois vi a inutilidade disso, já que preguiça é meu nome do meio. de maneira que achei melhor mudar de assunto e falar das coisas que vi e vivi nos curtos e intensos 15 de férias no nordeste, que, afinal, eram motivo mais que suficiente para bostejar.
embarquei para fortaleza no dia 26 de dezembro, ao meio dia e meia. com o atrasinho de praxe e a conexão em natal, cheguei ao meu destino lá pelas 17h. como tinha dormido pouquíssimo na noite anterior, e não havia conseguido pregar o olho na lata de sardinha voadora da gol, aproveitei a baldeação para beber um café com red bull, com o objetivo de alcançar aquele estado de espírito bacana, cujos sintomas visíveis são mãos trêmulas e olhos rútilos. talvez eu seja viciado em estimulantes, vai saber...
mas, à vera, nem precisaria de aditivos, porque a excitação de viajar já me deixava em estado de alerta.
fui, vi, e me venceram. pela cordialidade. a começar pela família de caroline caf(un)é, minha anfitriã. além de ter me adotado (na noite em que amanheci no boteco mais folclórico da cidade -- e o mais infecto onde jamais pisei -- os pais dela, ao darem por minha ausência na casa, perguntaram "cadê o nosso carioca?!"), me superalimentou com toda a espécie de delícias regionais. tive até a honra de provar a famosa tapioca de joão bandeira! sem falar na quantidade de marmotas que aprendi (mais tarde desenvolvo o tema).
além disso, todas as pessoas que conheci me trataram como amigos de infância, fazendo de tudo para me agradar. tanto carinho só reforçou minha resolução de retornar à suavidade e à gentileza, perdidas quando deixei a vida me afastar do convívio com qualquer atividade artística.
e aí também teve muita praia, cerveja, caranguejo, frutas e comidas típicas, jogo do fortaleza (mais um capítulo à parte!) dança e música de primeira (atenção, seu "janô"! alô, dijêis do rio! se liguem, que vocês estão comendo mosca... guga de castro e marquinhos, da "farra na casa alheia", são os caras. se eles baixam por essas bandas, passam o rodo em geral! não tem ninguém na cidade de são sebastião que bote som como esses dois).
e jericoacoara. ah, jericoacoara... qualquer descrição em palavras é pífia diante daquela explosão de natureza. só vendo para saber. o que posso dizer é que se deus existe, é lá que ele mora.
... mas esse capítulo fica para depois. aguardem!
é isso aí pe-pe-pessoal!
21 dezembro 2007
balanço do ano
chegamos há dez dias do fim de 2007. ouvi de uma amiga que, graças a soma dos algarismos dar 9, esse foi (é) um ano de decisões. morte, nascimento, gravidez, separação e casamento. aconteceu o que tinha que acontecer com quem devia e com quem não devia.
disseram que ano que vem vai ser o do infinito em pé, por causa do formato do número oito. prefiro acreditar em renovação, já que o somatório dá um. espero que seja um novo começo.
comigo, foi um ano mais de altos que de baixos. depois de seis mudanças de casa em nove anos, finalmente consegui um canto para chamar de meu.
uma situação estável à custa de um choque de realidade e uma dose de conformismo, mas com a certeza de que o único caminho para a redenção é através da arte.
o coração refestelou-se, deu uns pulinhos de susto, murchou aqui e acolá, e acabou o ano com ótimos prognósticos, crescendo a olhos vistos.
o fim do ano vai me levar de volta à fortaleza, depois de nove anos e meio. reencontrar um velho amigo, me aproximar de atuais e conhecer novos - amigos e horizontes.
é bem capaz de que essa seja a última vez que bosteje esse ano. pelo menos, aqui no rio. se assim for, que tudo dê certo ano que vem. ou coisa que o valha. tá tarde e tô com sono. meu quarto tá uma zona e amanhã cedo tem visita.
16 dezembro 2007
para não perder a piada...
...com a palavra, noel rosa.
Habeas Corpus
(Noel Rosa/Orestes Barbosa)
No tribunal da minha consciência
O teu crime não tem apelação
Debalde tu alegas inocência
Mas não terás minha absolvição
Os autos do processo da agonia
Que me causaste em troca
ao bem que fiz
Correram lá naquela pretoria
Na qual o coração foi o juiz
Tu tens as agravantes
da surpresa
E também as da premeditação
Mas na minh'alma tu não ficas presa
Por que o teu caso, é caso de expulsão
Tu vais ser deportada do meu peito
Por que teu crime encheu-me de pavor
Talvez o habeas corpus da saudade
Consinta o teu regresso ao meu amor
15 dezembro 2007
música para ninar moça
não testei, mas algo me diz que não falha.
se tudo o mais der errado, eu furo os olhos e vou tocar piano.
(siga a bolinha.)
13 dezembro 2007
i like ike
ike turner morreu.
dou risada quando vejo esses cantores de rap tirando onda de malandros e caftens (e nem me refiro apenas ao visual ridículo). penso com meus botões que esses caras nunca devem ter ouvido falar no velho ike. nem musicalmente, nem por sua reputação. porque esse, sim, era um bad motherfucker.
instrumentista de mão cheia, ele tocou piano no primeiro disco de roquenrrou da história, ainda em 1951. mas além do talento, o que o fez entrar para a história foi o fato de ter "descoberto" a tina turner, de quem foi parceiro de cama e palco durante anos, além de sentar o catiripapo nela sem dó.
depois da separação, ela começou a fazer uma musiquinha pop muito da sem-vergonha. eu sei. fui no show dela no maracanã. dormi no meio.
as mulheres vão querer me trucidar por isso, mas não há como não relacionar a queda na qualidade ao fim dos tabefes.
memória literária
aos 12 anos contraí caxumba, e como sói acontecer, fiquei impedido de brincar por um tempão, por medo de que os gânglios "descessem" e me deixassem estéril (até hoje não sei se esse papo é verdade).
para me distrair durante a convalescença, entupiram-me de livros. foi quando tomei contato com as aventuras de pedro malasartes, asterix, o pequeno nicolau, e fiquei íntimo do pessoal do sítio do picapau amarelo. tornei-me um leitor compulsivo.
desde 2000 passei a anotar todos os livros que leio, inspirado pela autobiografia do akira kurosawa, que no começo da carreira (ou quando ainda só era cinéfilo, não lembro ao certo) listou durante alguns anos todos os filmes a que assistiu.
no começo, minha tarefa tinha o propósito exclusivo de contabilizá-los. no entanto, logo descobri que, a partir da anotação dos livros, conseguia me lembrar com perfeição do que havia acontecido comigo durante o período de leitura.
para quem tem sérios problemas de organização cronológica de eventos, esse foi um achado e tanto.
agora posso dizer com precisão o que se passou em determinada época apenas consultando o livro da época. e vice-versa.
a desse ano, até agora é:
- o sol é para todos - harper lee (janeiro)
- a epopéia de gilgamesh - desconhecido (jan.)
- terror e êxtase - carlinhos oliveira (jan.)
- o pastelão, ou solitário nunca mais - kurt vonnegut (fev.)
- o espião americano - kurt vonnegut (fev.)
- barba azul - kurt vonnegut (fev.)
- zen e a arte de manutenção de motocicletas - robert pirsig (fev.)
- anaconda - alberto vázquez-figueroa (abr.)
- in cold blood - truman capote (mai.)
- guerra dentro da gente - paulo leminski (mai.)
- mundos perdidos de 2001 - arthur c. clarke (jun.)
- febeapá 1, 2, 3 - stanislaw ponte preta (jun.)
- roberto carlos em detalhes - paulo césar araújo (jun.)
- livro dos homens - ronaldo correia de brito (jun.)
- a man without a country - kurt vonnegut (jun.)
- jesus kid - lourenço muttarelli (jul.) releitura
- revolução no futuro - kurt vonnegut (ago.)
- the old times - harold pinter (ago.)
- bom dia, preguiça - corinne maier (ago.)
- la vie en close - paulo leminski (ago.)
- travessuras da menina má - mario vargas llosa (set.)
- o supermacho - alfred jarry (set.)
- à mão esquerda - fausto wolff (out.)
- deus o abençoe, dr. kevorkian - kurt vonnegut (out.)
- junky - william burroughs (nov.)
- vale tudo - nelson motta (dez.)
- o mundo louco - kurt vonnegut (dez.)
04 dezembro 2007
mais uma novidade...
enquanto não sai o tratado sobre a dança do acasalamento (calma, nego véio!), descobri mais uma maneira divertida de perder tempo.
fiz uma gambiarra que transforma todos os textos em inglês, com um porém: os resultados são os mais estapafúrdios e nonsense que se possa imaginar. até que saem coisas engraçadas, quando é possível entendê-las. talvez a culpa seja do meu estilo excessivamente informal. é só ver o link "tarzan's version" aí do lado.
fiz isso pensando na única pessoa a se expressar no vernáculo shakespeariano que sei ter interesse em ler minhas bobagens, mas acho que o resultado final vai confundir mais do que explicar.




