19 março 2004

ponto de mutação

algo muito sério aconteceu. como se o próprio tecido da realidade fosse esgarçado (sempre quis usar essa expressão). sinto-me solto, abandonado num espaço sideral uterino - aconchegante portanto. daqui em diante não há mais volta. e o john coltrane, para minha felicidade, não para de buzinar meus ouvidos.

seja água, meu amigo. como ensinou bruce lee. "já não há mais moinhos como os de antigamente" (obrigado, blanc. obrigado, bosco. jamais poderei recompensá-los à altura).


o mundo pode ser bom, afinal. e talvez até haja um deus a olhar por mim.
...

algum dia, se não londres,
o central park west, ao menos,
terá o seu cheiro,
me garantiu coltrane
no sopro dolente da cornucópia.

enquanto o mormaço de seu corpo
pesa-me as pálpebras de outra vez menino
(feliz com seu brinquedo novo),
espanta-me o verão de lírio que desabrocha
decidido em sutis ternuras rubras.

de onde, tanta sorte?
de onde, tão forte?
serei deus? será eu?

és o porquinho-da-índia
que preferiu não estar sob o fogão.