17 outubro 2005

entre a usura e a limpeza interior

"deve estar escrito 'otário' na minha testa", foi o pensamento que segurei na boca quando a registradora somou quase cinquenta merrecas por uma caixa de suco, duas barras grandes de chocolate, uma lata de batata frita e uma caixinha de biscoitos de queijo. queriam não apenas que eu concordasse com esse valor, mas que o aceitasse, na loja de tolerância do posto do dona marta, há menos de dez minutos.

claro que devolvi quase tudo. minha indignação não vem do fato de estar duro como um pau. é vergonha de gastar 1/6 do que boa parte da população ganha depois de um mês de trabalho (e a maioria nem isso consegue) por meia dúzias de besteiras apenas para satisfazer uma gula dominical, que em troca de uma breve sensação ia me aumentar o colesterol (pois é, agora me preocupo com isso) e a circunferência.

sei que sou chato pra cacete, ranzinza e utópico, mas não demagogo a ponto de negar que gastaria até mais em supérfluos comestíveis, se a extorsão pelo menos incluísse mais artigos. fico admirado com a cara-de-pau dos empresários que têm a ousadia de praticar esses preços no pé de uma favela.

certo estava o hélio luz ao declarar no documentário do joão moreira salles que o mecanismo aqui é tão maquiavélico, que nem precisa de arame farpado para segurar "o morro". na áfrica do sul, os guetos eram cercados; aqui, ao contrário, o mecanismo repressor que impede os favelados de descer é muito mais sutil. vejam bem, não estamos falando de espasmos de violência entre grupos rivais, que levam pânico à população "de bem". refiro-me à (re)ação enfurecida em massa contra a ausência total a que é submetida. não sei qual o entorpecente - igreja, televisão ou droga (álcool incluso) - que deixa todo mundo manso, ainda que comendo merda.

divaguei. talvez esse episódio sirva de exemplo para que eu leve a cabo o antigo projeto de respeitar meu corpo. e nem me refiro à forma física, mas à saúde. abster-me de substâncias que me poluem, como pregava o profeta muhammad (que a paz e a bênção de deus estejam sobre ele). o corpo é o templo da alma, e é preciso mantê-lo limpo. mal não fará. além do mais, é uma forma de não compactuar com a cultura do exagero onde o consumo assume o status de panacéia e válvula de escape contra as frustrações.