21 julho 2008

inculta e bela flor do lácio

de novo vez venho por meio dessas mal-traçadas criticar o analfabetismo dos criadores de conteúdo para os canais a cabo. a ignorância varia entre os gringos acreditarem que todos abaixo da linha do equador falam espanhol, e a completa falta de intimidade dos conterrâneos com o vernáculo.

o complexo de vira-latas é tamanho, que os caras se esmeram em falar todos os nomes em inglês - inclusive inventando pronúncias descabidas - enquanto devotam um descaso retumbante à língua portuguesa.

dessa vez o troféu "jumento de platina" vai para o canal people and arts, que brinda a audiência em seus comerciais com uma vinheta chamada "parêntesis".

alguém aí tem um revólver?

18 julho 2008

cena (infelizmente) carioca

hoje presenciei um fato que periga tornar-se prosaico no meu rio de janeura.

pouco antes do meio-dia eu passava pela avenida chile a caminho de um compromisso. para quem não está familiarizado com a geografia do centro , esta via é de mão-dupla, com uma calçada separando as pistas. normalmente vou pelo meio, porque costuma ter menos gente atravancando o caminho do que nas calçadas das pontas.

dali presenciei um acontecimento que marcou meu dia. foi tudo muito rápido, um recorte fragmentado da realidade, e dessa forma tentarei narrá-lo.

reparo num adolescente alto do outro lado da rua, na esquina da treze de maio. ele dá uma espécie de pinote e põe-se a correr, como se quisesse pegar um ônibus saindo do ponto mais à frente.

logo atrás dele, um camarada aparentando ter quarenta anos, gordo, de calça, casaco e mochila às costas faz um sinal com o braço estendido como se o chamasse. sem obter resposta, aperta o passo, saca uma pistola de detrás da camisa e aponta para o garoto.

eu, que fico incomodado até com barulho de estouro de balão de aniversário, reajo imediatamente tapando o ouvido do lado da arma e acelero o passo para longe da cena, o coração subindo à boca. no entanto, mantenho a cabeça virada para ver o que acontece.

o garoto pára de correr e começa a se abaixar para atender à ordem do homem para deitar no chão. uma mulher vem gritando que o rapaz é seu filho. o cara imediatamente guarda a arma e o rapaz se levanta de novo.

pelo que pude entender, o adolescente vinha acompanhado da mãe e correu, talvez, como supus, para segurar o ônibus. o cara da arma deve ter pensado que era assalto e quis dar uma de herói antes de entender o que acontecia.

continuei meu caminho, pensando na violência e na humilhação de ser forçado a deitar-se de bruços no meio da rua sem ter feito nada, simplesmente porque alguém de posse de uma arma de fogo se achou no direito de fazer justiça.
********

não sei o que sentiria se ficasse provado que o rapaz era mesmo ladrão. já fui assaltado e sei que a emoção que bate depois é uma fúria homicida. mas uma vez vi um bandido baleado por um segurança de rua, após uma tentativa frustrada de assalto. eu morava no jardim botânico, e voltava da faculdade quando fui atraído por uma aglomeração. o jornaleiro me inteirou do assunto, e meio guiado por uma curiosidade mórbida, fui lá.

nunca me esquecerei da expressão em choque do ladrão, os olhos esbugalhados olhando em todas as direções, sem no entanto ver nada, a respiração rápida e descompassada, certamente em razão do tiro na barriga. ele estava sentado no chão, escorado num poste, sem camisa e com a calça jeans aberta (depois descobri tratar-se de uma manobra policial para impedir que o "elemento" fuja correndo).

eu pensava "o sujeito deve ter acordado, tomado lá um café, beijado a esposa e ido roubar. mesmo que tenha acordado, cheirado um pó e batido nela..." de alguma forma não consegui sentir raiva. sei lá, senti-o muito próximo a mim. como eu, ele nasceu, aprendeu a falar, andar, em algum momento amou, sentiu alegria, raiva, frustração, medo... tudo igualzinho a mim. só que tive mais sorte. apenas por um acaso não era eu que estava ali.

é muito fácil sentir raiva, indignação, ou querer vingança, quando o alvo é um vilão distante, que causou dano a alguém que a gente não conhece. é quase uma abstração. eu mesmo já me apanhei querendo arrancar jugulares ao ler sobre uns dois ou três casos de violência recentes. mas ao vivo, olho-no-olho, a coisa pode mudar. talvez porque, embora uns se esforcem muito para fugir à regra, ainda sejamos todos humanos.

13 julho 2008

tá chegando a hora

daqui a exatos trinta dias o blog faz cinco anos.
já não agüentava mais olhar para aquele verde.
achei que precisava deixar as coisas mais limpas.
ainda não fiquei satisfeito.
talvez seja questão de costume, sei lá.

11 julho 2008

pra tirar as teias

o borduna! tá meio abandonado, admito, mas tenho andando muito ocupado vivendo. como se sabe, viver toma muito tempo.

para vocês terem uma idéia, ainda tô devendo escrever sobre minha ida pra jericoacoara em janeiro (!), sobre o nascimento da minha sobrinha e afilhada - a criatura mais linda e arrepiada que deus já teve a ousadia de criar, sobre mais um porrilhão de coisas.

how beautiful can a being be


prometo que daqui a pouco eu volto. cheio de novidades.

06 julho 2008

musica do dia

de hoje, anteontem, semana que vem, dois anos atrás... whatever (que é uma maneira educada de dizer "foda-se").


Discover The Beatles!

04 julho 2008

noite de frente fria

aqui poderia ser lido o poema das sete faces, que caberia como uma luva na situação. mas depois que meu professor falou que tem muito copy & paste na internet, resolvi dizer algo que julgo bem parecido, com as minhas palavras.

covarde que sou, abriguei-me da noite no piano do joão donato, desperdiçando um vinho que suspeito ser bom em copo de requeijão, fumando os últimos tocos de romeu e julieta, dando uma paradinha esporádica para ler clarice lispector e olhar as estrelas. o vento do inverno esfriando o pensamento do que poderia ter sido, o álcool esquentando o que será de fato daqui a poucas semanas.

ah, como é patética a melancolia. mas que tem seu charme, lá isso tem... não comigo, entretanto.

03 julho 2008

interlúdio para uma quinta-feira cinzenta


One evening as the sun went down
And the jungle fires were burning,
Down the track came a hobo hiking,
And he said, "Boys, I'm not turning
I'm headed for a land that's far away
Besides the crystal fountains
So come with me, we'll go and see
The Big Rock Candy Mountains

In the Big Rock Candy Mountains,
There's a land that's fair and bright,
Where the handouts grow on bushes
And you sleep out every night.
Where the boxcars all are empty
And the sun shines every day
And the birds and the bees
And the cigarette trees
The lemonade springs
Where the bluebird sings
In the Big Rock Candy Mountains.

In the Big Rock Candy Mountains
All the cops have wooden legs
And the bulldogs all have rubber teeth
And the hens lay soft-boiled eggs
The farmers' trees are full of fruit
And the barns are full of hay
Oh I'm bound to go
Where there ain't no snow
Where the rain don't fall
The winds don't blow
In the Big Rock Candy Mountains.

In the Big Rock Candy Mountains
You never change your socks
And the little streams of alcohol
Come trickling down the rocks
The brakemen have to tip their hats
And the railway bulls are blind
There's a lake of stew
And of whiskey too
You can paddle all around it
In a big canoe
In the Big Rock Candy Mountains

In the Big Rock Candy Mountains,
The jails are made of tin.
And you can walk right out again,
As soon as you are in.
There ain't no short-handled shovels,
No axes, saws nor picks,
I'm bound to stay
Where you sleep all day,
Where they hung the jerk
That invented work

In the Big Rock Candy Mountains.
....
I'll see you all this coming fall
In the Big Rock Candy Mountains


(da trilha sonora de e aí, meu irmão, cadê você?)

01 julho 2008

ninguém gosta da yoko ono

yoko no estúdio: "essa bruxa aqui de novo?"


pode ser que eu mais uma vez esteja errado, mas desconfio que a mulher mais odiada do mundo seja a yoko ono.

se partirmos do princípio que o planeta tem cantos, calculemos quantos seriam os fãs de beatles, moderados e fanáticos, de todas as idades, espalhados por seus quatro cantos.

o número resultante deve ser algo da ordem de dez elevado a porrilhésima potência (eu mesmo só conheço duas pessoas que NÃO gostam dos fab four).

suponhamos agora que, desse número mastodôntico, uma enorme fração é composta por gente que detesta a yoko ono, por diversos motivos. a ela é atribuída a responsabilidade pela alienação do john lennon, pela pior música já gravada num álbum dos beatles (revolution #9), e pela separação do grupo. além de ser oportunista, esganiçada, baranga, e péssima artista plástica.

alguns episódios embasam esse ponto de vista:

- na época do mothers, frank zappa fez um show no filmore east, em 1971, que contou com a participação de john e (pé-de-pato-mangalô-três-vezes) yoko. ela aborreceu tanto o pessoal da banda com seus balidos de cabra desmamada, que o captain beefheart enfiou um saco nela, da cabeça aos pés. a pentelha deve ter pensado que se tratava de uma performance, porque nem assim parou. check it out:



- no mesmo episódio, john lennon e seus produtores aproveitaram da boa-fé do zappa e armaram uma crocodilagem, que você pode ler no blog do pedro marques e ouvir da boca do próprio zappa:



- para coroar, teve uma época em que a própria yoko se encheu do john ("meu deus, criei um monstro"), e jogou sua secretária may pang pra cima do marido. por quase dois anos eles foram felizes, john recuperou o viço, voltou a falar com o paul, e até ensaiaram planos de um projeto juntos. mas a yoko hipnotizou o cara (!) pra voltar pra ela. duvida? leia o relato da outra japa.

29 junho 2008

a vida é um sopro

dizem pela aí que oscar niemeyer é um dos grandes gênios do século 20 e o escambau. não tenho instrumental algum para julgá-lo, mas ao assistir no canal brasil ao documentário do meu amigo fabiano maciel sobre o homem, me vi diante de uma das personalidades mais ricas que neste chão medraram.

é um sopro de vida, de inteligência, de frescor. frescor só explicável por uma absoluta tranqüilidade de consciência, como diz alguém no filme, com absoluta precisão.

niemeyer pertence à mesma tradição, repito, que kurt vonnegut: a de livres pensadores cuja única abstração na qual acreditam, e a qual servem, sem qualquer espera de recompensa ou punição, é sua própria comunidade.

são mais de cem anos de vitalidade e bons serviços prestados, fumando lá sua cigarrilha. mais vivo do que muita gente por aí, mais do que eu. deviam passar o filme no lugar desses globo repórter safados sobre saúde e qualidade de vida.

além dos depoimentos geniais, das imagens belíssimas, a arquitetura serve quase de pretexto para niemeyer falar sobre tudo, brasil, o mundo, a estupidez, vida, morte e esquecimento. as explicações sobre suas obras são tão precisas e elegantes, que justificam até brasília, cidade do meu desterro.

sobretudo, sente-se o pensamento de uma época em que o país tinha projeto, e que poderia ter dado certo.

********
o fabiano conheci através de uma amiga, e logo simpatizei com ele, tantos eram os gostos que tínhamos em comum, inclusive a paixão por uma certa mulher. o problema é que ela era casada comigo na época, mas ele dava em cima descaradamente.

mesmo com ela não cedendo, de minha parte a simpatia azedou. foi necessário o tempo desfazer a união e a ferida cicatrizar para, anos depois, nos reencontrarmos e rirmos muito de tudo. a vida raramente possibilita que nos vejamos, mas o afeto existe.

de volta ao filme, um momento em especial me tocou.
diz aí, oscar:

"Um dia eu tava no exterior, chateado, longe de tudo. Pensava no Brasil, nos amigos, na família. Tava tão revoltado que eu fiz um verso preguei na parede, assim:

Estou longe de tudo
De tudo que eu gosto

Dessa terra tão linda
Que me viu nascer.

Um dia eu me queimo
Meto o pé na estrada

É aí no Brasil que eu quero viver.

Cada um no seu canto
Cada um no seu teto

A brincar com os amigos
Vendo o tempo correr.

Quero olhar as estrelas
Quero sentir a vida

É aí no Brasil que eu quero viver.

Estou puto da vida
Essa gripe não passa

De ouvir tanta besteira
Não me posso conter.

Um dia eu me queimo
E largo isso tudo
É aí no Brasil que eu quero viver.

Isso aqui não me serve
Não me serve de nada

A decisão tá tomada
Ninguém vai me deter.

Que se foda o trabalho
Esse mundo de merda

É aí no Brasil
Que eu quero viver.
"

********
ó que beleza o trailer do filme:

21 junho 2008

sabática

hoje à tarde, depois de tentar por duas vezes sem sucesso sentar-me para exercitar as bordunadas e chegar à mesma conclusão daquele personagem do decamerão do pasolini, que ao finalizar a pintura de um afresco se pergunta "por que pintar, se sonhar é tão melhor?", entreguei-me a tarefas prosaicas, como pendurar umas roupas no varal, comer melancia (a fruta, não a mulher), terminar o cama-de-gato do vonnegut, beber uma jarra de café e finalmente começar a ler água viva, da clarice lispector, que me esperava desde antes do feriado de "porcus tristi".

então estava eu, absorto pelo maravilhamento da escrita da clarice, sobre quem o otto lara resende disse, com sabedoria, que o que ela fazia não era literatura, e sim bruxaria, enfim, estava imerso no que mais próximo imagino ser a alquimia da vida através das palavras, quando um dos meus vizinhos de baixo, que andava até tranqüilo ultimamente, achou por bem proclamar ao mundo sua imensa pusilanimidade ao botar uma daquelas músicas de bate-estaca a pleno volume.

só mesmo a interrupção deste momento de profundo deleite estético para me tirar de casa até a praia, sob o pretexto de aproveitar os últimos instantes de sol. como se diz pela aí, "aproveitar a vida". nada nocivo, no fim das contas.

mas antes de arrumar as coisas, dar uma mordida numa maçã e sair de casa, não pude deixar de lembrar das sábias palavras do mestre vonnegut:

"As futuras gerações vão se lembrar da televisão da mesma maneira que o chumbo nos canos d'água levou lentamente os romanos à loucura."

eu diria o mesmo de certas variações do que hoje em dia se convencionou chamar música.

*********
voltei da caminhada e fui cuidar de outras desimportâncias impostas pela vida. os compromissos, perdi-os. liguei para amigos, ofertaram-me propostas pouco interessantes. então novamente deitei-me com clarice e sua água viva.

eu, que semana passada necessitava de distensão, que precisei esticar ao máximo o fio da sanidade justamente para não rompê-lo, hoje me encontro em período de recolhimento, com vontade de abraçar a mim mesmo, um abraço como os que se dá em quem se ama e cujo contato se perdeu há muito tempo. como um irmão retornando do exílio.

mas parece que hoje não é dia. o meu, pelo menos. são nove da noite, e num prédio ao lado, uma horda de bucéfalos urra uma felicidade que crêem genuína, forjada, no entanto, pela televisão ou outra bobagem de massa. e gritam em júbilo, uma chuva de perdigotos fazendo companhia à baba elástica, bovina, a lhes escorrer pelo canto da boca: zaca! zaca! a turma é da fuzarca!...e por aí vai.

preciso sair de casa. felizmente, ainda há o uísque no mundo.

14 junho 2008

epígrafe

no momento em que a vida levanta sua cortina para mostrar de relance como pode ser insensível e sem sentido, retorcendo-me o juízo e as tripas como nunca imaginei que fosse capaz de acontecer, busco distração no "cama-de-gato", vonnegut recém-adquirido pela internet (cat's cradle), de onde salta a frase de abertura:

"Viva pelas mentiras inofensivas que o tornam corajoso e gentil e saudável e feliz."

quão oportuno.

04 junho 2008

há que se viver

três mocinhos elegantes


sammy davis jr. era, com todo o respeito, um neguinho feio pra burro.

baixinho, magrelo e queixudo, ele andava com dois galãs da época, o dean martin (que todos conhecemos como o parceiro do jerry lewis) e o frank sinatra. junto com peter lawford e joey bishop, formavam uma espécie de clube dos cafajestes em dólar, o rat pack, nome certamente inspirado na aparência de sammy.

mas como em hollywood ninguém dá ponto sem nó, e gente burra já nasce morta, sammy era craque na interpretação, no canto e na dança. foi o primeiro negro a ter um programa de tevê e, audácia das audácias, virou judeu.

o público devia amá-lo tremendamente, ou a máfia (via sinatra) lhe dava costas quentes, pois os rednecks mascadores de tabaco costumam encher de chumbo "quem não sabe seu lugar".

o caso é que descobri uma música genial gravada por ele, que vou adotar como mantra daqui por diante. se descolar uma gravação, bostejo aqui.

A lot of livin' to do
(Charles Strouse/Lee Adams)

There are girls just right for some kissing
And I mean to kiss me a few
Oh those girls don't know what they're missing
I've got a lot a livin' to do

And there's wine already for tasting
And there's Cadillacs all shiny and new
Gotta move me, cause time is wasting.
There's such a lot a livin' to do

There's music to play
Places to go and people to see
Everything for you and me.

Life's a ball, if only you'd know it
And it's all waiting for you
you're alive, so come and show it
There's such a lot a livin' to do

I've got a lot a livin' to do

Man, there's such a lot a livin' to do
Why, there's music to play,
places to go and people to see
Everything for you and me.

Life's a ball, if only you'd know it
And it's all waiting for you
you're alive, so come and show it

There's such a lot a livin'
Such a lot a livin'
Such a lot a livin'
Such a lot a livin' to do

02 junho 2008

amigo é pra essas coisas

meu novo amigo de infância babelikós, vulgo "maikelsgri", tem o talento literário que eu gostaria de ter, se não fosse tão preguiçoso para trabalhá-lo decentemente.

pois não é que agora ele me sai com um texto genial, um resumo de tudo o que eu queria ter dito há umas duas semanas, se idéias não tivese as idéias tão embaralhadas.

assino embaixo sem tirar nem pôr. adoro esse caboclo.

01 junho 2008

no fim das contas

um dos maiores prazeres para mim é tomar banho, e o atribuo à uma distante herança indígena. o hábito também poderia ser explicado pelo manancial de pensamentos e associações esdrúxulas que brota nessa hora. é batata: basta a água bater no corpo para a cabeça desenvolver um rizoma de bobagens. lavar louça e caminhar também causam esses estímulos.

e foi no banho que, por ocasião do meu aniversário, cheguei à conclusão de que não há presente maior, nessa ou em qualquer outra data, do que a presença dos amigos, física, virtualmente ou em lembrança. quando era criança, só queria saber de brinquedos. depois foi o tempo das roupas e dos tios chamando à parte para nos enfiar no bolso um envelope com cheque ou dinheiro. não vá gastar tudo em bobagem, conselho que nunca pude seguir. mas não há nada que substitua os abraços e beijos, ligações, imeios, recadinhos pela internet, ou o daqui a pouco eu ligo que vira esquecimento. afinal, somos todos humanos. tudo muito simpático, de verdade.

por isso agradeço a todos os que já riram comigo ou de mim, aos que me viram chorar ou que choraram comigo, aos que dividiram os momentos de angústia ou que sofreram por mim, aos com quem sentei em mesa de bar, que beberam até vomitar na minha casa ou eu nas deles ou em seus carros. aproveito para agradecer àqueles que me amaram de alguma forma, abertamente ou em segredo, especialmente às moças, mesmo as que me odiaram, ignoraram ou me devotaram seu desprezo. saúdo os que já me fizeram perder a paciência, os que correram atrás de mim por algum interesse ou favor, os que alguma vez tenham me humilhado ou invejado (quem diria que eu poderia ser digno de inveja, talvez o seja, sei lá), os meus credores... enfim, meus agradecimentos sinceros a todos aqueles que me fazem lembrar que estou vivo aqui nesta terra e que existo. é por vocês que eu acordo, faço a barba, corto e penteio os cabelos (como disse antes, banho eu tomo porque gosto), é por vocês que mofo oito horas por dia num labirinto de ratos por dinheiro, que arrumo a casa, e, por mais que me entristeça, é por vocês que não ando nu como é de minha natureza e como gostaria de andar.

a todos vocês, "ícones guardados num coração-caverna/ como quem num banquete ergue a taça e celebra/ repleto de versos levanto meu crânio". obrigado também, maiakovski, pelos versos. obrigado do fundo do coração. a vida tem sido boa para mim. sem vocês todos ela não seria a mesma. são 35 outonos - a mais bela das estações - de serviços prestados mais ou menos nas coxas, mas que coxas!

********
musica do dia:

31 maio 2008

de frente pro crime

nego véio, que de bobo não tem nada, entrega a ficha:

tutti buona gente

30 maio 2008

genetlíaco propriamente dito

a passagem dos anos me fez perceber que quase todos os acontecimentos decisivos na minha vida acontecem no segundo semestre. de maneira que passei a acreditar que o ano só começa de verdade depois do meu aniversário.

se estou certo ou errado não importa, o que conta são os sinais. e logo hoje, a seleção que fiz no musicovery abriu com feeling good, na voz da nina simone. era o mundo me dizendo "bons auspícios à frente, camarada". pra vocês também.



*********
"hang over beethoven". foi assim que minha amiga clarisse, dançarina das mais elegantes e espadachim de trocadilhos bilíngües puxou papo comigo hoje pelo messenger da repartição. a referência era ao estado em que estávamos depois da tripla comemoração geminiana da noite anterior, cuja presença mais sentida foi nossa amiga alencarina, o quarto elemento.

no papo que se seguiu nasceu a epifania:

ela - como diz um amigo meu, o rock cobra seu preço. e tá cada vez mais caro, pqp!

eu -
é mesmo... por isso que a gente tem que passar para a música clássica. quer dizer, agora entendo porque os gostos musicais tendem a se tornar mais conservadores com a idade. a gente acha que as pessoas encaretam ou ficam sofisticadas...qual nada!

ela - a voz é q acaba mesmo!

eu - e o fígado que não dá mais conta do recado.

28 maio 2008

divagações coletivas

eu me encontrava dividido entre a leitura do leminski - leitura que na verdade eu adiava, pois se terminasse o livro, não teria nada para me distrair no trajeto de volta -, o caminhar dos ponteiros e o lento escorrer do trânsito. o segundo engarrafamento do dia, no mesmo aterro do flamengo. se me acostumar com isso, posso me mudar para são paulo.

********
foi numa excursão do colégio ao aterro (que diabos fomos fazer lá, afinal? respostas apagadas pelo tempo) que aprendi que carioca significa "casa de branco", e que a abundância de flamingos seviu de inspiração para o batizar o bairro.

os pernaltas que habitavam estas plagas devem freqüentar hoje o mesmo céu dos bisões americanos e dos dodôs das ilhas maurício. se bem que os flamingos ainda não foram extintos. parece que há muitos deles na flórida. será que eles emigraram para lá quando a coisa ficou preta por aqui? também há jacarés na flórida, bem como em jacarepaguá. esses bichos são casca-grossa, mais difíceis de serem extintos.

********
chegamos à praia de botafogo, e pela primeira vez percebo que o mar aqui, iluminado pelos postes elétricos, também faz marolas pertinho da areia. parece óbvio que assim seja, mas há um ano e meio faço esse caminho pelo menos dez vezes por semana e acho que nunca havia reparado nisso.

********
a expressão "nunca havia reparado nisso" me lembra a vez em que tomei chá de trombeta. mais ou menos dos 15 aos 22, talvez com saudades do meu jogo de "pequeno químico", tentei fazer do meu corpo um laboratório de testes, a título de expansão da consciência. a maior besteira que cometi nesse sentido foi, num belo dia, catar com uns amigos dez flores de Brugmansia aurea num jardim da rua j. carlos, no jardim botânico. fomos para casa de um deles e bebemos a infusão.

a história é longa, então resumo: tentei plantar no chão do apartamento as florezinhas estampadas no tecido do sofá , li livros que não existiam, bebi chás imaginários, e liguei televisões-fantasmas para torcer para jogos de futebol da minha imaginação. isso é o que me contam, porque minhas memórias desse dia são quase todas inexistentes. também dizem que não conseguia articular uma frase inteligível.

há coisas, entretanto, que lembro bem. conversei com gente que não estava lá, e por volta das tês da manhã, largado à minha própria sorte no playground do edifício, caio no chão de joelhos, e as pedras portuguesas pretas me parecem muito macias.

- o chão é feito de espuma de ar-condicionado! faz mais de dez anos que moro aqui e nunca havia reparado nisso!

saí tateando o chão, para medir a extensão da minha descoberta. dias depois algumas pessoas disseram ter me visto de suas janelas engatinhando no play de madrugada. depois da experiência, fiquei com as pupilas dilatdas por dois dias.

********
o trânsito finalmente começa a fluir, mas na barata ribeiro o ônibus fica num movimento constante de pára-anda, como se engasgasse. muito chato isso para quem quer ler e escrever. faltam 15 minutos para começar minha sessão e ainda estamos na santa clara.

opa! o motorista aproveitou uma conjugação de sinais verdes a seu favor e deu uma avançada bem rápida até a miguel lemos. talvez dê até tempode comer umas empadas e tomar um mate antes da análise. só que meu relógio não está lá muito confiável. prometeu-me cinco minutos que não poderia me dar. foi o relógio de rua que o desmentiu.

eu já o vinha achando meio distraído, às vezes perdendo a hora, principalmente depois que a minha pulseira do senhor do bonfim arrebentou. será que ele está sentindo falta dela? é bem verdade que ela estava suja e puída, mas era sua única companheira em todo o braço esquerdo. não posso me atrasar.

********
minha amiga tereza resolveu fazer análise aos 50, e conseguiu horário um terapeuta muito bom e muito conceituado. no dia de sua primeira sessão, enquanto acabava de se arrumar para sair, sua mãe, que havia acabado de voltar a morar com ela depois de algumas décadas, pergunta se ela "já passou um perfuminho".

- mamãe, eu não estou indo namorar. estou indo falar mal de você!

********
hoje não estou indo falar mal de ninguém. vou contar a história do renque de amores perdidos e desperdiçados, e de como os padrões se repetem, e perguntar o nome dessa fera que vive às sombras e que me faz errar como um cão sem dono. un perro callejero, diriam os espanhóis. o que não seria uma rima e tampouco uma solução.

26 maio 2008

genetlíaco

meu aniversário tá chegando. antigamente, sempre que me perguntavam quantos anos estava fazendo, eu respondia "a idade de cristo". ao interlocutor espantado (ou não), explicava que cristo teve todas as idades de zero a 33 anos. portanto, qualquer número entre esses poderia reperesentá-la. se eu dissesse "a idade com que cristo morreu"...

essa era uma forma de humor típica do meu avô murilo.

com a minha idade j. cristo já era o messias ressuscitado. o stravinsky já tinha composto a sagração da primavera, o gershwin, rhapsody in blue, e o frank zappa, lançado hot rats. isso para não citar o noël rosa, porque aí já seria humilhação demais.

em compensação, euclides da cunha ainda não tinha parido os sertões, nem um certo joaquim maria, do cosme velho, tinha materializado memórias póstumas..., quincas borba e dom casmurro, não tendo, portanto, se metamorfoseado em machado de assis.

será que a maturidade musical vem antes da literária? será rimbaud uma das exceções que confirmam a regra? cartas para esse endereço.

a propósito, quem souber de mais algum caso de inspiração tardia, me avisem para eu não ficar muito deprimido.

ou então, quem quiser me animar pode fazer o seguinte: imprimir essa imagem (sem o logo, se não for pedir muito) do kurt vonnegut numa camisa e me dar de presente.

não se preocupem em serem originais: todos serão igualmente muito bem-vindos.

21 maio 2008

poeminha para um feriado com costelinha

O astronauta
(Vinicius de Moraes - Baden Powell)

Quando me pergunto
Se você existe mesmo, amor
Entro logo em órbita
No espaço de mim mesmo, amor

Será que por acaso
A flor sabe que é flor
E a estrela Vênus
Sabe ao menos
Porque brilha mais bonita, amor

O astronauta ao menos
Viu que a Terra é toda azul, amor
Isso é bom saber
Porque é bom morar no azul, amor

Mas você, sei lá
Você é uma mulher, sim
Você é linda porque é

nós não semo tatu!

não gosto de andar de metrô. sei que ele beneficia uma porção de gente, oferecendo uma alternativa de transporte veloz, confortável e mais fresco, principalmente agora que acabaram com aquela vergonha que eram os carros da linha 2, menores, sem ar-condicionado e com janelinhas que pareciam basculantes de banheiro.

para os meus deslocamentos mais freqüentes (casa-trabalho-casa), o caminho para a estação de metrô é mais longo, e pago bem mais caro para ir em pé, apertado e por debaixo da terra. sem contar que não tenho vocção para tatu. já de ônibus, as opções são inúmeras, portanto sempre viajo sentado, vou mais rápido, e ainda sou brindado pela vista do pão-de-açúcar e do aterro do flamengo.

aos que argumentam que os ônibus são poluentes, respondo que as hidrelétricas e termelétricas que geram a energia para mover os vagões do metrô também causam um impacto ambiental enorme. um a um, tudo igual no maraca.

ser mal-servido já é ruim, mas sofrer o descaso que a opportrans, concessionária do serviço dispensou aos usuários da linha 2 (sempre ela!) na segunda-feira 19 de maio, faz minha indignação entrar em ebulição. o impressionante relato da leitora cláudia freitas foi publicado no globo. onde está a agência reguladora (agetrans) nessas horas? o governador, pelo menos, a gente sabe que estava passeando de bike em paris...