Brown shoes don't make it
Brown shoes don't make it
Quit school, why fake it?
Brown shoes don't make it?
TV dinner by the pool
Watch your brother grow a beard
Got another year of school
You're OK, he's too weird
Be a plumber, he's a bummer
He's a bummer every summer
Be a loyal plastic robot
For a world that doesn't care
Smile at every ugly
Shine on your shoes and cut your hair
Be a jerk and go to work
Be a jerk and go to work
Be a jerk and go to work
Be a jerk and go to work
Do your job, and do it right
Life's a ball! (TV tonight!)
Do you love it, do you hate it?
There it is, the way you made it (wow!)
Brown shoes don't make it - Frank "quem mais poderia ser?" Zappa
PS: com o impulso de baixar a discografia completa do caboclo, tenho falado tanto nele que everia mudar logo o nome do blog para "daughter of invention".
29 julho 2007
...pequeno lembrete, para o caso de eu me esquecer
24 julho 2007
entre o par perfeito e o chinelo velho
chope com amigos casados dia desses aí. é cedo, mas em pouco tempo começam a pipocar celulares e justificativas para os respectivos cônjuges. diz que tá com fulano, não diz que tá comigo, faz silêncio, gente, e por aí vai.
passado o contratempo (nem sei se dá para chamar assim), tudo são risos e piadinhas, e eu, o único na mesa solteiro, descasado, sei lá, enfim, sozinho, digamos assim, penso de mim para mim. quá quá quá! não devo explicação pra ninguém.
aí chego em casa, sento no computador, bato uns papos muito fuleiros pela rede, me coço até o limite do bom-gosto, tomo um banho e vou dormir. já na cama, cutuco as caraminholas. pô, não chego a ser assunto de banheiro feminino, mas tamos aí, soltinho na pista, e nada?
é verdade que até não posso me queixar de estiagem na horta do papai aqui, mas cadê que me empolgo para dar segmento às coisas? ai, que preguiça, diria macunaíma. conheço, cativo, chego na intenção, marcando cerrado, driblo a zaga, marco o gol, mas dá dois dias, e cadê o ânimo pro campeonato? tem sido bola pro mato. paro e penso, não é por aí. e mais trinta vezes penso antes de pegar o telefone, e é batata que acabo deixando pra lá.
uma amiga diz que é amadurecimento. que tô ficando mais seletivo nas escolhas. que os parâmetros estão mudando, mas os velhos hábitos ainda insistem em permanecer, mesmo não se adequando mais aos novos padrões, até porque, estes nem estão claramente estabelecidos.
o i-ching talvez definisse a situação como crise, mas o primeiro a dizer que crise é oportunidade leva uma bifa no meio dos cornos, pois não agüento mais esse chavão rastaqüera de rh. seja qual for o nome, entretanto, não resta dúvida que é uma pele velha saindo, e uma nova que ainda não adquiriu a consistência de casca. ponto.
as moças de pela aí devem pensar que sou um belo de um féla por sumir como tenho feito, mas o fato é que ainda não achei o tal do borogodó, sacumé? aquela capaz de fazer brilhar o olho, dilatar as ventas, bambear as pernas.
o pior é que, a cada dia que passa, tenho ficado com uma lombeira de procurar... deve ser a idade.
22 julho 2007
do alfa ao zappa
há uns meses, eu escrevi sobre a história da minha admiração por frank zappa. no texto, eu citava o clipe de uma música que chamou minha atenção pela primeira vez.
como ando numa carreira desembestada atrás da discografia do homem, hoje topei com a dita cuja. trata-se de night school, faixa de abertura do álbum jazz from hell, de 86.
parece papo de nerd (e deve ser mesmo), mas fiquei emocionado ao reconhecer os primeiros acordes. depois de um intensivão de arqueologia para encontrar o vídeo, constatei que as porcarias ingeridas ao longo dos anos não afetaram meus neurônios tanto quanto suspeitava. as imagens e a torrente de sintetizadores (malditos anos 80!) eram exatamente como eu lembrava.
a quem interessar possa, o vídeo tá aqui.
21 julho 2007
adiós, negro!

"De mí se dirá posiblemente que soy un escritor cómico, a lo sumo. Y será cierto. No me interesa demasiado la definición que se haga de mí. No aspiro al Nobel de Literatura. Yo me doy por muy bien pagado cuando alguien se me acerca y me dice: me cagué de risa con tu libro"
roberto fontanarrosa
a argentina é um país paupérrimo em melanina, fato que leva todos os morenos de lá a ganharem o carinhoso (sem ironia) apelido de "negro". com o rosarino roberto fontanarrosa não foi diferente.
mas nesta quinta-feira deve ter sido o negro do luto que tomou conta do país, na despedida do negro fontanarrosa, desenhista pai do gaucho 'renegau' inodoro pereyra e boogie, el aceitoso.
diz a notícia que li no trabalho, que a causa foi esclerose lateral amiotrófica. se fosse possível atribuir um juízo de valor às doenças, essa seria uma das mais cruéis.
em meus anos de "estágio" em neurologia, soube que ela vai gradativamente destruindo os neurônios motores, fazendo com que os impulsos nervosos não cheguem aos músculos, que vão se atrofiando, até que o doente perca o controle de todos os movimentos. inclusive dos músculos que controlam a deglutição e a respiração. ao longo do processo, no entanto, a lucidez permanece intacta.
no dia 14 de janeiro, fontanarrosa já havia anunciado sua aposentadoria. um fim muito triste para quem fez tanta gente rir.
ps: já que o asunto é morte, esclareço que qualquer bostejo sobre horror do acidente do vôo 3054 seria desnecessário. quanto ao acm, ele não merece minha LER...
18 julho 2007
bill withers para as massas
"Information is not knowledge. Knowledge is not wisdom. Wisdom is not truth. Thruth is not beauty. Beauty is not love. Love is not music. Music is the best."
frank zappa
14 julho 2007
de máquinas e mulheres
depois de quase 50 dias de inexplicável silêncio, meu computador simplesmente voltou a funcionar. o fato deu-se quando, movido por um palpite mediúnico, resolvi testá-lo na noite de quarta-feira.
com a experiência acumulada de dois casamentos, voltei a trabalhar nele como se nada tivesse acontecido. sem perguntas. sem cobranças.
as máquinas, como as mulheres, podem ser extremamente volúveis, e a nós, humanos, machos, não nos cabe questionar seus insondáveis desígnios.
seja feita a sua vontade.
a propósito, vai tudo bem entre nós agora.
09 julho 2007
"filhos, melhor não tê-los", disse o poeta
não sou um sujeito que se pode chamar de caridoso. afora amigos e conhecidos, tenho dificuldade em fazer algo para meu "próximo". mas como me afeta a visão de idosos e crianças vivendo nas ruas, em meio ao lixo, ajudo doando coisas concretas, como roupas e sangue (sou doador voluntário há alguns anos). entretanto, acho difícil dispor de conceitos abstratos como "atenção", "tempo" e "dinheiro".
não sou um um sujeito que se pode chamar de ecológico. não reciclo lixo, e não dou muita importância para a amazônia, o aquedimento global e as baleias. mas como me afeta o calor crescente e a iminência de outro apagão, fiz da economia de água e luz um hábito. e só tomo banhos frios (o que me imunizou quase definitivamente a resfriados e me deixou mais resistente a baixas temperaturas). pensando também na manutenção do ecossistema, não faço a menor questão de ter filhos.
considero essa uma decisão ecológica. não passando adiante meus genes (não me entendam mal, não há nada de errado com eles. e pelo que tenho visto pela aí, até que eles estão acima da média), evito a superpopulação, problemas de espaço e o esgotamento dos recursos naturais e energéticos. e ainda estaria colaborando para minimizar o problema das crianças abandonadas.
se o papel do macho na manutenção do equilíbrio social já é questionável, na reprodução ele tornou-se praticamente secundário. de maneira que prefiro passar adiante meu "legado intelectual", por mais buracos e falhas que ele tenha. agrada-me mais minha perpetuação enquanto idéia do que biologicamente. ao contrário das fêmeas, que através da concepção sentem o milagre da continuidade da espécie, aos homens resta o consolo de tentar alcançar a imortalidade histórica.
talvez eu seja egoísta demais para dividir minha liberdade tardia, conquistada com tanto sacrifício, cuidando de outra vida. se mal comecei a aprender a administrar a minha... é que, como bom geminiano, considero que as crianças só se tornam seres dignos de interesse quando começam a desenvolver a comunicação verbal. antes disso, prefiro os gatos, que pelo menos são independentes o suficiente para saberem usar a caixa de areia sem ajuda externa.
pode ser que algum dia eu venha a ser pai biológico, e tenho a certeza de que se isso acontecer, serei o mais babão dos pais. mas enquanto estivermos no terreno das hipóteses, prefiro "adotar" o filho de alguma namorada e queimar a etapa das fraldas & choro noturno.
08 julho 2007
05 julho 2007
"who's on first?"
hoje, no trabalho, ouvi trechos de um diálogo entre dois caras de outro setor que trabalham na mesma sala que eu. era algo mais ou menos assim:
- Eu queria saber o nome daquela revista...
- Quem.
- Eu. Você sabe o nome da revista?
- Quem.
- Você! Estou perguntando para você o nome da revista!
- Quem.
- Eu! Eu queria saber...
e por aí vai.
foi muito engraçado ver a referência ao famoso esquete da dupla abbott & costello, que a maioria conhece através das repetições autistas do personagem do dustin hoffman em rain man.
alguns anos depois do filme, recebi por imeio uma paródia, utilizando como personagens o bush e a condoleezza rice. mas o diálogo mesmo, esse eu nunca tinha ouvido. até que encontrei o esquete original, e com áudio (no pé da página).
dá gosto ouvir o domínio da dupla do timing de comédia.
30 junho 2007
machadiana
"folhas misérrimas do meu cipreste",
não se preste
não se empreste
a vida, vide,
não é um teste.
"heis de cair".
28 junho 2007
o mundo não perdoa
num desdobramento do caso sirley, o pai de um dos envolvidos, ao sair da polinter, declarou:
Minha vida acabou, e a do meu filho também. Quem vai dar emprego para ele?
caro seu ludovico [é o nome do cara], a única lição que o senhor deveria ter dado para o seu filho, a mais basal e ao mesmo tempo mais importante para o convívio em sociedade, a única que separa o ser humano das bestas, é a responsabilidade pelos próprios atos.
isso claramente não foi ensinado. agora, como dizia minha mãe, o mundo vai ensiná-lo.
e o mundo é um professor severo. cqd.
ode ao trabalho
não gosto de trabalhar. ponto.
gosto, sim, de viver. ler, ir ao cinema, passear, desenhar, beber, bater papo com os amigos, me vestir confortavelmente, comer bem e ter mobilidade - seja viajar ou ter livre acesso para freqüentar os lugares que me apeteçam. e se a regra do jogo estipula que para eu realizar minhas vontades, eu precise de dinheiro, e principalmente, que para ganhá-lo eu precise trabalhar, assim o farei.
posso então afirmar que o único motivo que me faz acordar de manhã, me arrumar, tomar um ônibus e perder oito horas do meu dia esquentando uma cadeira em frente ao computador, engordando e cultivando uma tendinite no braço direito, é grana.
alguns me perguntam, de olhos rútilos (obrigado, nelson rodrigues), se não busco satisfação ou realização no trabalho. a esses respondo, fatal como um tiro de fuzil: não. realização eu vou ter nas atividades que enumerei no primeiro parágrafo. no trabalho, não.
não alimento a menor ilusão de alcançar qualquer forma de prazer com o trabalho. trabalho é trabalho, prazer é outra coisa. está na bíblia. o oposto do paraíso é o trabalho. o máximo de pretensão profissional que almejo é ter o mínimo de aporrinhações.
agora, não gostar de trabalhar não significa que enquanto estiver gastando minha vida dentro de um escritório, não farei tudo que seu mestre mandar da melhor maneira possível. e isso é o ápice da coerência, pois mais do que ao trabalho, tenho ojeriza a aborrecimentos. se me exigirem iniciativa, terei iniciativa. se me cobrarem criatividade, assim o serei. se nada pedirem, mas sempre pedem algo. e eu dou.
se não gosto de trabalho, abomino igualmente tudo o que faça parte de seu ambiente ou se relacione a ele. por isso não gosto de fofocas de corredor, boatos e antecipações. tento não sofrer angústias. e como estou longe de ser um camarada depressivo, é bem verdade que no meio dessa sarabanda, tento me divertir, para não transformar tudo em calvário.
sou fascinado por gente, sua beleza e sua miséria. portanto, trato a todos com educação e equanimidade. eventualmente faço alguns amigos. como todos os outros que já passaram por mim, alguns ficam. mas nem quanto a isso tenho pretensão.
e para terminar esse texto, que já nem eu agüento mais, deixo um trecho do antigo testamento que aprendi hoje. não sei se o que reproduzo condiz com a mensagem bíblica, mas me vale agora. livro de eclesiastes, capítulo 2, versículos 22 a 26.
22 Pois, que alcança o homem com todo o seu trabalho e com a fadiga em que ele anda trabalhando debaixo do sol?
23 Porque todos os seus dias são dores, e o seu trabalho é vexação; nem de noite o seu coração descansa. Também isso é vaidade.
24 Não há nada melhor para o homem do que comer e beber, e fazer que a sua alma goze do bem do seu trabalho. Vi que também isso vem da mão de Deus.
25 Pois quem pode comer, ou quem pode gozar, melhor do que eu?
26 Porque ao homem que lhe agrada, Deus dá sabedoria, e conhecimento, e alegria; mas ao pecador dá trabalho, para que ele ajunte e amontoe, a fim de dá-lo àquele que agrada a Deus. Também isso é vaidade e desejo vão.
22 junho 2007
pára tudo!
sabe cotidiano, do chico buarque?
pois é, o lessa me apresentou uma música que, na minha concepção, seria a "visão" do raul seixas.
É fim de mês
É fim de mês, é fim de mês, é fim de mês, é fim de mês, é fim de mês!
Eu já paguei a conta do meu telefone,
Eu já paguei por eu falar e já paguei por eu ouvir.
Eu já paguei a luz, o gás, o apartamento
Quitinete de um quarto que eu comprei a prestação
Pela caixa federal, au, au, au,
Eu não sou cachorro não (não, não, não)!
Eu liquidei a prestação do paletó, do meu sapato, da camisa
Que eu comprei pra domingar com o meu amor
Lá no Cristo, lá no Cristo Redentor, ela gostou (oh!) e mergulhou (oh!)
E o fim de mês vem outra vez!
E o fim de mês vem outra vez!
Eu já paguei o peg-pag, meu pecado,
Mais a conta do rosário que eu comprei pra mim rezar ave maria.
Eu também sou filho de deus
Se eu não rezar eu não vou pro céu,
Céu, céu, céu.
Já fui pantera, já fui hippie, beatnik,
Tinha o símbolo da paz pendurado no pescoço
Porque nego disse a mim que era o caminho da salvação.
Já fui católico, budista, protestante,
Tenho livros na estante, todos têm a explicação.
Mas não achei!
Eu procurei!
Pra você ver que procurei,
Eu procurei fumar cigarro hollywood,
Que a televisão me diz que é o cigarro de sucesso.
Eu sou sucesso! eu sou sucesso!
No posto esso encho o tanque do meu carro
Bebo em troca meu cafezinho, cortesia da matriz.
"there's a tiger no chassis"...
Do fim do mês,
Do fim de mês,
Do fim de mês eu já sou freguês!
Eu já paguei o meu pecado na capela
Sob a luz de sete velas que eu comprei pro meu senhor
Do bonfim, olhai por mim!
Tô terminando a prestação do meu buraco, do
Meu lugar no cemitério pra não me preocupar
De não mais ter onde morrer.
Ainda bem que no mês que vem,
Posso morrer, já tenho o meu tumbão, o meu tumbão!
Eu consultei e acreditei no velho papo do tal psiquiatra
Que te ensina como é você vive alegremente,
Acomodado e conformado de pagar tudo calado,
Sem bancar o empregado sem jamais se aborrecer...
(Ele só que, só pensa em analisar, na profissão seu dever é adaptar, ele só que só pensa em adaptar, na profissão seu dever é adaptar)
Eu já paguei a prestação da geladeira,
Do açougue fedorento que me vende carne podre
Que eu tenho que comer,
Que engolir sem vomitar,
Quando às vezes desconfio
Se é gato, jegue ou mula
Aquele talho de acém que eu comprei pra minha patroa
Pra ela não me apoquentar,
E o fim de mês vem outra vez...
21 junho 2007
carne nova no pedaço!
tem blog novo e bão aí do lado: foreign mama, da judith. amiga de outros carnavais, hoje sabe a dor e a delícia de ser mãe de guri pequeno em san francisco. tá em inglês, mas tem versão em português, embora ela não a atualize. sabe como é, o moleque é exigente...
o eric, meu colega de trabalho e cada vez mais amigo de infância, fala para o mundo direto do trem. o cara é tão bom de ler quanto o lessa, que também sua com a gente para tirar o pão, e ainda tem que me aturar ao seu lado todo dia.
o último, ms não menos importante, é uma receita que leva um monte de jornalista fera e doses cavalares de inteligência e ironia embebidas em uísque. misture tudo, chacoalhe a cabeça, e o resultado será uma sopa de tamanco que é, como eles dizem, pau puro!
saboreiem sem moderação!
Âpideite:
Esqueci de citar a deborah e o tom. eles se conheceram, namoraram, casaram, engravidaram, foram morar nas estranjas, e fizeram um blog. até o presente momento, o lucas ainda não nasceu...
19 junho 2007
no meio do caminho tinha uma pedra do reino
sou fã do ariano suassuna desde os 14 anos, quando, ainda aluno do colégio militar, fui obrigado a ler o auto da compadecida. outro dia, uma amiga até apontou a ironia do fato: uma instituição que prima pela seriedade marcial incluir em seu conteúdo programático uma obra tão irreverente.
talvez eles estivessem vendo adiante, porque além deste livro e dos já manjados machados (dom casmurro, o alienista e quincas borba), tive contato com o socialismo cristão de érico veríssimo (olhai os lírios do campo), o naturalismo contundente de aluízio azevedo (o cortiço), além de um volume de contos de diversos autores, que incluía, entre outros, mario de andrade (o peru de natal) e aníbal machado (a morte da porta-estandarte).
voltando ao mestre ariano, seu livro em nada me atraiu: a capa não denunciava nada de seu conteúdo, e a palavra "auto" não fazia parte do meu repertório lingüístico. compadecida eu até sabia o que era, mas esse diabo de "auto" era fogo. e tudo era estranho: a linguagem, os personagens ("chicó"?! porque não "chico"?!) e as situações (enterro de cachorro?!). acho que só fui entender a ironia quando fui fisgado pelo episódio do gato que descome dinheiro. a partir dali, nascia para mim um clássico absoluto.
de lá para cá, minha admiração pelo autor só aumentou. devorei e assisti a várias montagens desse e de outros títulos, e até consegui trocar duas palavras com o autor ao praticamente esbarrar com ele numa bienal de são paulo ("a mim me impressionou muito a obra de klee. e pode botar aí que gostei muito da tauromaquia do picasso", disse o mestre a um assombrado marcelo, então estudante de jornalismo que cobria a exposição para um jornal comunista). o auge foi a leitura d'o romance da pedra do reino, numa edição encontrada num sebo do catete, depois de muita sola de sapato gasta. já reli o tijolo uma vez, e pretendo repetir a dose em breve.
por isso, esperei com muita ansiedade e expectativa a transposição para a telinha da história de dom pedro dinis quaderna, o decifrador. na noite de estréia, me reuni a um grupo de pessoas na casa de uma amiga arianófila. estava ciente de que luis fernando carvalho não é guel arraes. enquanto este consegue um equilíbrio perfeito entre obra comercial e artística, o primeiro tem lá seus fumos autorais. à parte isso, considero lavoura arcaica uma pequena jóia do cinema de todos os tempos.
mas na minha humilde opinião, na pedra... ele errou a mão feio. muitas informações visuais e sonoras ao mesmo tempo, com um monte de close-ups que acabavam prejudicando o trabalho de corpo dos atores, cenários e figurinos, além do excesso de cortes "videoclípicos", que deixavam a continuidade narrativa muito quebrada. a história, que já não é muito acessível, foi muito prejudicada, e deve ter assustado muita gente à espera das estripulias de um outro joão grilo.
o resultado me deixou tão decepcionado que nem tive ânimo de ver os outros dias. mas não fui só eu. na coluna do ancelmo gois (a quem tarso de castro acusou de ser "analfabeto até no nome"), leio que o gravador j. borges faz coro comigo. reproduzo a nota:
Enviado por Ancelmo Gois - 16.6.2007| 20h17m
Ariano Suassuna
J. Borges: Pedra do Reino não tem nada de Nordeste
O xilógrafo J. Borges, considerado o melhor do Nordeste, na opinião do amigo Ariano Suassuna, não viu e não gostou da versão televisiva de "A Pedro do Reino":
- Vi apenas o comercial porque o programa passa muito tarde. Mas ouvi vários comentários. Eles fizeram uma coisa que nem parece ter sido feita no Nordeste. Parecem umas figuras romanas. Muito esquisito, muito feio. Aquilo não tem nada do Nordeste. O povo aqui está dizendo que não se encaixa bem com o livro.
18 junho 2007
balada para seu geraldo
rapaz, tenho andado numa preguiça monstruosa.
desconfio que a razão tenha sido o abandono temporário da ioga, fruto de uma súbita e inesperada falta de grana, que me levou à alguma descompensação físico-química.
é bem verdade que o computador queimado também pode ter colaborado, já que, como "webdependente", sem acesso à rede eu não acho nada engraçado, macaco, praia, carro, jornal, tobogã, eu acho tudo isso um saco...
ainda teve um caso que mexeu comigo. no dia do meu aniversário, um camarada do trabalho me mostrou um site de biorritmo, apresentado como exemplo numa apostila do curso de java que ele está fazendo.
na maior boa-intenção, o caboclo digitou minha data de nascimento e voilá!, o resultado pelos quinze dias seguintes era uma curva descendente até o zero nos quesitos saúde e grana.
dei uma risada cética, mas batata! dali a dois dias perdi meu cartão de débito do banco, e estou até hoje num "gripa-não-gripa" que me levou ao ponto de ir à farmácia comprar xarope, coisa que não faço há uns quinze anos.
enfim, meu ânimo tem andado meio down the high society, por mais que meu hemisfério palhaço não demonstre a fraqueza...
o caso anda tão crítico que nem perna bem-feita de moça tem me tirado da letargia.
entretanto, nos últimos dois dias, devo ter ouvido algum indiano encantador de serpentes, porque a curva aos poucos tem dado sinais de vida.
sábado eu varri os dois dedos de poeira e "cabelhos" acumulados pela casa, que já conspiravam para me despejar. ontem limpei o banheiro, lavei roupa & louça e, pasmem!, fui dar um "chêgo" na praia.
nesse passeio senti um daqueles momentos mágicos de solitude absoluta que me levam a um estado de comunhão com tudo e com todos.
talvez deus seja um troço tão bom quanto isso.
********
enrolei até aqui, mas meu objetivo era contar uma cena que presenciei, e que despertou lembranças muito profundas de criança. em determinado momento da caminhada, passaram por mim um jovem pai e seu filho de uns onze anos.
eles vinham pela pista fechada da praia, tocando uma bola de futebol. o garoto, de chinelos, ia mais à frente, e apresentava bastante desenvoltura com a pelota, apesar do calçado inadequado.
o fato lembrou-me de quando eu batia bola com os garotos da mesma idade, no playground do meu prédio, na gávea. desde aquela época, eu já não levava muito jeito para futebol, mas ainda tentava, para não ficar de fora da brincadeira.
uma vez, voltávamos meu pai e eu de uma praia domingueira, e me juntei à molecada num jogo de "golzinho" (era esse o nome?).
meu pai, orgulhoso, queria ver o filho honrar a linhagem -- ele próprio um peladeiro bem razoável. e pediu para que eu subisse para trocar os chinelos por tênis. desde então já consciente da mediocridade do meu futebol, eu não dava a mínima, queria era me divertir. mas ele tanto insistiu que eu subi.
e a interrupção me tirou todo o prazer de continuar. mesmo assim, voltei para agradá-lo.
é curioso como hoje identifico esse episódio como a última vez que tentei me esforçar para jogar bola. nunca mais quis bater bola, talvez como uma vingança infantil inconsciente.
hoje não consigo sequer fazer um passe decente, mas graças ao meu pai tornei-me um leitor compulsivo, um desenhista desenvolto, um jornalista bom de papo e de copo (para seu desespero), e que não é exatamente um fracasso com as mulheres.
mesmo sem o futebol, ele nunca deixou de demonstrar orgulho por mim.
obrigado, pai.
12 junho 2007
promoção ou ameaça?
juro que vi escrito num anúncio de ponto de ônibus:
"Compre com os cartões Bradesco e vá conhecer todos os segredos de Salvador com a Preta Gil"
medo.
31 maio 2007
tora! tora! tora!

já devo ter dito isso antes, mas faço questão de repetir: sou daqueles que consideram a paranóia como uma forma evoluída de inteligência.
pode ser que esteja errado, mas farejo sinais de uma nova invasão nipônica, como a que assolou o mundo nos anos 80. começou com a bela e subnutrida miss universo, agora isso.
23 maio 2007
"lá vou eu de novo, como um tolo..."
a crônica abaixo já é minha conhecida de muuuitos anos. apesar de a parte do "irmão pára-quedista" ser a que melhor se gravou na memória, o universo tijucano em que nasci e me criei até os sete anos, e por onde gravitei por boa parte do meu tempo na terra, guarda muitas semelhanças com o grajaú retratado.
agora que, ironicamente, a vida parece imitar a arte, lembrei-me do texto. a situação não parece muito diferente.
na atual conjuntura, as fichas estão sobre a mesa -- embora ainda fechadas na minha mão. a roleta já começou a rodar, e se ainda não as soltei, e porque a aposta envolve dois universos distintos e antagônicos. um representa a pirueta que minha vida deu há oito meses, e o outro... bem, o outro é um salto no escuro. situação que, convenhamos, excita deveras minha natureza mutante.
vejamos que bicho vai dar. alea jacta est.
ah, não esqueçam o texto, pô!
As noivas do Grajaú - Luis Fernando Veríssimo
Acho que todos deviam ter uma noiva no Grajaú, principalmente os homens casados. Antes que me acusem de incentivar o adultério e a licenciosidade suburbana, esclareço que minha noiva do Grajaú é puramente teórica. E note que falo em noiva, não em amante. As noivas do Grajaú são castas e recatadas. Só deixam pegar na mão e assim mesmo com recomendações. Aquele montinho de carne na base do dedão, por exemplo, só depois de casados.
Você leva duas semanas para encostar, não na noiva do Grajaú, mas no portão da sua casa. Se tocar no seu cotovelo, soa um alarme dentro da casa e o irmão dela, ex-pára-quedista, vem ver o que está acontecendo. Um homem casado que tem uma noiva no Grajaú é mais fiel à sua mulher do que a sua mulher merece. É quase indispensável para a felicidade de um casamento que o marido tenha uma noiva no Grajaú e a visite diariamente das 5 às 6. Menos às quintas, quando ela tem aula de piano.
Como explicar o fascínio das noivas do Grajaú? Não haverá, na sua relação com ela, qualquer promessa sexual. Com sorte, depois de um ano e meio de noivado firme, você morderá a sua orelha. E ela pedirá que você nunca mais faça isso porque ela sente muitas cócegas e, olha aí, quase perdeu um brinco. Um dia, quando conseguir convencer o ex-pára-quedista a deixá-la ir com você até ao bar da praça tomar uma Mirinda, você conseguirá intrometer uma mão nervosa entre o seu braço nu e a blusa até quase em cima, mas aí ela apertará o braço contra o corpo com força e você temerá pela gangrena nos dedos.
E a conversa? A coisa mais íntima que ela perguntará a você será:
- Acompanhas alguma novela?
Você experimentará com assuntos mais conseqüentes.
- És ciumenta?
Ou, afoitamente:
- Qual é teu sabonete?
Mas ela repelirá todas as tentativas de uma conversa séria. Até rirá quando você tentar ser poético, pomba!
- Esta hora, este crepúsculo, sei lá...
Ela se dobrará de tanto rir. E a mãe dela aparecerá na janela para ver se você não avançou na orelha outra vez.
A vigilância é constante. O pai dela - aposentado, espiritualista - usa um coldre preso à cinta. O coldre está vazio, mas o seu tamanho é eloqüente: em algum lugar está guardada a grande arma com que ele zela pelo seu patrimônio, incluindo a virgindade da filha e uma coleção encadernada de Malba Tahan. Na única vez em que conversar com ele você ficará sabendo que ele já expeliu 17 pedras pela uretra e foi militante da UDN. Cuidado. A mãe tem bigode. Seus olhos pretos na janela são como dois faróis que guiam a virtude de Grajaú para a cama, intacta, todas as noites.
* * *
- Sua mãe não vê novela?
- Só a das oito.
- Não tem o que fazer na cozinha?
- Temos empregada.
- Ela não...
Mas a mãe interrompe:
- Olha esses cochichos, olha esses cochichos...
As noivas do Grajaú têm um irmão menor que se diverte tentando chutar você nas canelas. Um dia ele erra, acerta o muro e vai correndo dizer para a mãe que você lhe bateu.
É uma provação noivar no Grajaú. Por que você insiste?
As noivas do Grajaú têm amigas que passam em bandos pela calçada de braços dados e rindo, você não tem a menor dúvida, de você.
É demais. Você não precisa disso. O casamento está fora de questão. Você já é casado. Ou tem outra noiva em algum bairro onde a vigilância é menor e o acesso é mais fácil. Mas você persiste. O fascínio é irresistível. Às seis em ponto, a mãe dela acende a luz do alpendre. É o sinal para você ir embora. Você jura que nunca mais volta.
Mas aí ela cospe fora o chiclé e pergunta:
- Amanhã você vem?
E você vai.
********
sem comentários.